há uma coisa que me tem intrigado neste partido, o caso dos animais carnívoros: irão ser alvo de processos-crime quando cumprirem o seu papel na cadeia alimentar?
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Oferta da nossa ex-companheira susana
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«Teoria da Literatura» de Vítor Manuel de Aguiar e Silva
O ponto de partida deste livro de 1967 (com 8 reedições e 19 reimpressões) é a diversidade conceitos de literatura que vão da produção literária de uma época ao conjunto de obras que ganham feição especial pela sua origem, temática ou intenção. Sem esquecer a bibliografia existente sobre um determinado assunto. Mas há mais.
O ponto de chegada é o romance enquanto fenómeno literário. Começando na sua origem («romance deriva do advérbio latino romanice que significa à maneira dos romanos») Vítor Manuel Aguiar e Silva (n.1939) estuda o romance desde o formato da Idade Média até à actualidade, numa digressão sobre as obras de (entre outros) Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, José Cardoso Pires, Carlos de Oliveira, Flaubert, H. Fielding, Cervantes e Laurence Sterne.
É impossível sintetizar 786 páginas de texto; fiquemos com algumas palavras do autor sobre a importância da literatura hoje: «Contra a maré alta do ódio, da barbárie e da indiferença egoísta é necessário redescobrir em tantos milhões de condenados o rosto desfigurado da mulher e do homem, seja qual dor a sua etnia, a sua religião ou o seu credo político para defender e respeitar os valores irrenunciáveis da sua dignidade. A literatura e as humanidades em geral não podem eximir-se a este imperativo ético que transcende as ideologias e os compromissos políticos e é inconciliável com bizantinismos estéticos. Depois de Auschwitz continua a haver genocídios, campos concentracionários, tortura e escravidão. É por isso que é necessário que haja poesia e que haja poetas».
(Editora: Livraria Almedina – Coimbra)
A perseguição a Sócrates, o desejo infrene de ver a sua cabeça exibida numa travessa aos convivas do banquete oligárquico, tem sido o principal – para muitos, exclusivo – alento da elite nacional que já leva 6 anos de achincalhamento. Nessa afã, contam com a aliança do racismo ideológico do PCP e BE, para quem os únicos socialistas bons são os socialistas derrotados.
Se, até 2005, alguém dissesse que um dia apareceria um primeiro-ministro reformista a conseguir congregar, por igual, o ódio da CGTP e do Belmiro, dos professores e do Soares dos Santos, de jornalistas e de magistrados, receberia gargalhadas de desprezo e seria tratado como um maluquinho. Em Portugal esse primeiro-ministro imaginado teria um fim inevitável, fulminante, esmagado sem piedade pelos poderes fácticos e adjectivos. O absurdo de pensar que um português qualquer ousaria enfrentar a nossa colectiva e secular fatalidade não passava de um topos de publicistas especializados em descrever as misérias que lhes inspiram o verbo. O medo de existir, a não inscrição do que se repetia clandestinamente ou que a própria subjectividade reprimia, atingiu o cúmulo com a fuga de Barroso e o circo de Santana. A maioria dada ao PS foi um pedido de socorro sem destino conhecido.
Um dia se farão estas contas com fôlego e detalhe. Estar dentro da floresta não deixa ver certos tipos únicos de árvore.
Meus caros concidadãos, vou aproveitar estes últimos momentos de campanha antes das eleições para vos falar não como líder do PSD, mas como um líder político cuja principal preocupação, antes de todas as outras, deve ser o país e os seus cidadãos. Todos os cidadãos, sem excepção.
E o que tenho para vos dizer é isto: correndo o risco de surpreender bastantes pessoas, quero publicamente agradecer ao meu oponente, o Engº José Sócrates. E quero agradecer-lhe, e devemos todos agradecer-lhe, pelos serviços que prestou como primeiro-ministro numa época particularmente difícil para o país. Todos temos consciência que governar nas condições de crise internacional e de crise de dívida soberana é extremamente duro e exigente. O Engº José Sócrates fê-lo no entanto sem hesitação, porque tal como eu, sabe que a prioridade número um é defender Portugal e o bem-estar dos portugueses. Claro que, como tiveram oportunidade de ouvir nesta campanha, as nossas posições são bastante diferentes. As nossas escolhas são diferentes. A nossa visão do futuro é diferente. Eu acredito, e os resultados estão aí para o provar, que apesar de ter tomado as medidas que acreditava serem necessárias, essas medidas foram nalguns casos erradas, noutros casos insuficientes para inverter a trajectória que o país tomava. O PSD, e eu próprio, várias vezes avisámos para as consequências dessas escolhas erradas, mas sempre demos as condições ao governo para as pôr em prática, sempre demos ao governo o benefício da dúvida que entendemos necessário para evitar uma grave crise politica ao longo de um período de grande delicadeza e exigência dos mercados. Todas essas medidas, no entanto, falharam. E o chumbo do PEC IV foi precisamente o reconhecer dessa realidade, o reconhecer que continuar num caminho que apenas adiava e agravava uma crise profunda não era sustentável. Era preciso mudar de opções, era preciso um novo caminho. Não tenho qualquer dúvida que o Engº José Sócrates acreditava que as opções que tomou eram as correctas, não tenho qualquer dúvida que tudo fez para evitar que se chegasse à situação onde estamos. E por esse esforço, repito, todos devemos estar reconhecidos. Mas chega um altura em que temos de reconhecer a realidade, por muito que nos custe, por muito que doa. A realidade é a ultima juíza do acerto dessas opções tomadas, e a realidade não mente: apesar de todos os seus esforços, o governo do Engº José Sócrates deixa o país na mais grave crise que todos temos memória, obrigado a recorrer a ajuda externa, enxovalhado na arena internacional. É chegado por isso o momento de dizer ao meu oponente: obrigado, sei que fez o melhor que sabia, vimos e reconhecemos os seus esforços, mas falhou e é agora necessário outro rumo. Outro caminho. Outra visão. É altura de mudar, porque esta governação, a sua governação, está esgotada.
Continuar a lerAlegações finais de um líder imaginário do PSD
Que gostarias de ver no debate Sócrates-Passos?
Eu gostava que Passos Coelho convencesse os telespectadores de ser ele, com os seus atributos inatos e a superioridade intelectual e moral da sua equipa, quem nos vai fazer recuperar estes 6 anos perdidos, 6 anos negros, os 6 anos da bancarrota, e levar-nos de novo para os índices de desenvolvimento, saúde das contas públicas, futuro da segurança social, média de escolaridade dos adultos, percentagem de pobreza, investimento em ciência e tecnologia, grau de burocracia estatal, qualidade do parque escolar e valores do desemprego que Portugal registava quando Jorge Sampaio deu aquela golpada palaciana que impediu Santana de continuar a aprofundar, e expandir, o já magnífico legado de Durão Barroso, Ferreira Leite e Portas.
Do que se tem visto até agora, Passos não terá dificuldade em atingir este objectivo.
Mário de Carvalho tem razão –
«Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto»
No sábado às 18 horas a Comunidade de Leitores da Fabula Urbis vai receber o escritor Mário de Carvalho para uma conversa sobre o seu romance «Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto». O livro é de 1995 e conta a história de Joel, um pobre diabo que quer aderir ao PCP – «A direita anda cada vez mais agressiva, hem?». Com o filho Cláudio na prisão do Pinheiro da Cruz (7 anos por tráfico de droga), com a mulher Cremilde a aparecer chorosa à porta do EP nos domingos da visita, aderir ao PCP surge-lhe como a única possibilidade de entrar num mundo que não se desmorona – como todos os outros. Por exemplo o camarada Júlio Baptista nas reuniões partidárias antecede as suas longas intervenções com o intróito – «São só duas palavras para um pequeno esclarecimento, muito rápido» – mas Joel sonha com agitação, distribuição de panfletos e discursos nas docas quando ouve à porta do Centro de Trabalho Vitória dois camaradas a despedirem-se quando eles estão a combinar uma pacata almoçarada num restaurante de Santos-o-Velho. Aliás o romance, tirando o Pinheiro da Cruz, é todo de espaços lisboetas: Entrecampos, Alameda Afonso Henriques, Chiado, Graça, Barão de Sabrosa, Rua do Carmo, Vila Berta, Estádio da Luz, Bairro Alto, 24 de Julho, Rua da Palma, Avenidas Novas, Campo de Ourique e Lapa.
Esta dualidade entre o que é e o que parece, leva o autor a misturar habilmente os percursos das personagens que se cruzam no palco da história: Jorge Matos tem problemas já que cheguem com a filha missionária em S. Tomé, Eduarda, a ex-namorada de Cláudio procura singrar no jornalismo cor-de-rosa. Um dos aspectos sempre em relevo é a paixão pela língua portuguesa de que Mário de Carvalho dá provas – lado a lado estão o português de lei («Você é estrebaria, sete fardos por dia») e o português pataxó – «Não Joacyr, não perdoo você por ter matado papai fazendo ele pisar a jararaca». Um livro divertido e bem escrito, retrato dum certo tempo português.
Quando olhamos para Portas e Louçã, vemos dois políticos excepcionais, excepcionalmente hábeis na retórica e na oratória. Nos seus partidos respectivos, não têm rivais nem delfins. Ao ponto de não se conceber o que possam valer esses partidos quando mudarem as lideranças. E, cada um à sua maneira, homens e partidos, têm sido más influências nas evoluções e convulsões da democracia portuguesa dos últimos 20 anos.
No debate desta noite, tivemos dois dos responsáveis pelo derrube do Governo, e pela consequente necessidade do pedido de empréstimo nas piores condições possíveis, a lavarem as mãos das suas responsabilidades. Pelo contrário, servem-se da situação criada para atacarem Sócrates e se atacarem entre si.
Claro que tudo isto é política, política convencional. Eles seguem regras, crêem conhecer os desejos da audiência, procuram exceder-se nessa lógica previsível. O que significa que não basta ser excepcional para fugir da vulgaridade. No caso destes dois, a sua força é a nossa fraqueza.
O País sofre diariamente os maus exemplos que chegam de cima e nenhuma sociedade pode resistir por muito tempo ao impacto negativo dos comportamentos desviantes da ética da verdade e da responsabilidade. A pedagogia do bom governo não é apenas um factor de credibilidade das instituições democráticas, mas uma bitola permanente para o comportamento dos cidadãos. O exemplo é sempre um factor superior do funcionamento das sociedades democráticas mais avançadas e não pode ser menosprezado.
Panfleto anti-socrático da SEDES
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A SEDES entrou na campanha para ajudar o PSD e apresenta a mixórdia de clichés catastrofistas que os seus autores vêm repetindo desde 2008. Se a narrativa não surpreende, o discurso tem interesse pelo que revela do estado decadente a que chegou a direita portuguesa. Obviamente, a SEDES não pode – em público – convocar Hitler para atacar Sócrates, mas já pode trazer a Primeira República para falar do risco de uma tirania. E de quem será a culpa por essa terrível e iminente ameaça? De Sócrates e do PS, olha o raio da pergunta, os tais que diariamente – e não será hora a hora? – dão maus exemplos ao povo. Exemplos desviantes da ética da verdade e da responsabilidade, especificam os signatários do alto do seu facciosismo ressabiado.
Tal é a sua aversão ao presente que até a data tem um ano de atraso:

Para além da época perfeita, e de duas décadas e meia de domínio desportivo, o Porto é também – ou por isso mesmo – um clube que dá lições ao Benfica e Sporting quanto à política de transferências e gestão das equipas técnicas. Incrivelmente, parece que em Lisboa nada se consegue aprender, a sucessão de incompetentes e erros é inacreditável tanto na Luz como em Alvalade. Mas em Braga está a nascer uma outra escola de excelente gestão, a qual acaba de ter uma época que só não foi perfeita por causa da lotaria do último jogo com o Sporting e a perda do 3º lugar. Quanto ao resto, o que conseguiram fazer com o orçamento inicial, não há conquista de taça europeia que se compare em razões para estarem orgulhosos.
A contratação de Domingos para o Sporting representa a consagração deste duplo triunfo futebolístico do Norte.
Louçã, quando decide ser normal e deixar de lado a carga de inveja, aspirações loucas, moralismo e radicalismo datado e inútil, até é tragável. Mais, até permite que nele se vislumbre um contribuinte sério para uma governação PS. Quando também corrige a voz de diácono e pregador, até soa a político responsável…
Não estará na hora de outros membros do Bloco deixarem de brincar aos revolucionários de bancada, que só sabem é criticar, e se disporem a vir “sujar” um bocado as mãos, pelo menos para saberem o que é ter de tomar decisões difíceis, fazer face aos mais variados interesses presentes numa sociedade e abandonar de vez a ideia malsã de que há que acabar com o “sistema” não se percebendo bem que “sistema” pretendem? E, já agora, se acham que o “sistema” é injusto, o melhor não seria vir transformá-lo por dentro, já que as revoluções à moda do século passado já não convencem ninguém?
O Passos, por motivos diferentes das revoluções do século passado, e apesar da pose, definitivamente não convence.
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Oferta da nossa amiga Penélope
«É maluca e dá dentadas» ou a falsa excitação da citação de Sophia
Aqui há tempos, quando foi publicada no «aspirinab» a crónica «Vinte Linhas 500», houve um animal tresmalhado que apareceu a gritar: «Agora que chegaste ao 500, vai-te embora». Claro que não fui. Ele, o animal tresmalhado, já desapareceu de circulação e eu continuo por aqui. Basta ver que já vamos na crónica nº 616 e do tresmalhado nunca mais houve notícia.
Agora, no passado mês de Abril, uma maluca apareceu com uma citação de um poema de Sophia de Mello Breynner Andresen como se fosse um comentário a um poema meu. Só que o efeito acabou por ser contrário ao pretendido, uma espécie de boomerang. A maluca tentou criar um pequeno teatro mas o seu teatro caiu de cangalhas.
Ao pretender «insultar-me» mostrando um poema de Sophia, a paspalhona não percebeu que havendo dois livros meus no catálogo do Círculo de Poesia da Moraes Editores, o pretendido «insulto» voltou-se contra a sua autora. Entre tantos argumentos possíveis esse (Sophia no Círculo de Poesia) era o único que não tinha cabimento no caso. O crivo de qualidade, o conselho de leitura, o nível de exigência é o mesmo e, assim sendo, o ridículo pretendido voltou-se contra a sua organizadora. Tentou encenar um insulto e ficou ela insultada, a grande burra.
A poesia é outra coisa; não aceita concursos de salto em altura. Falhaste a pontaria, ó maluca! O parvalhão do comentário à crónica «Vinte Linhas 500» está à altura da parvalhona do falso insulto com a citação de Sophia. No meu tempo de miúdo dizia-se «É maluca e dá dentadas» e afinal, nesse campo, pouca coisa mudou.
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Ai, ai, ai, ai, ai, ai Puerto Rico
Ai, ai, ai, ai, ai, ai Puerto Rico
Wake up Angelita, your mama just turned off the light
Manolo is already waiting by the old water-pipe
Her shoes in one hand she carefully walks down the stairs
Holding her breath ‘cause there’s danger and love in the air.
Ai, ai, ai, ai, ai, ai Puerto Rico
Ai, ai, ai, ai, ai, ai Puerto Rico
Your papa will beat him if he ever finds out
Begging the Virgin won’t help when you’ll hear Manolito shout,
He’s already standing under the starlit sky
You run to his arms and you laugh and you cry as he holds you tight
Ai, ai, ai, ai, ai, ai Puerto Rico
Ai, ai, ai, ai, ai, ai Puerto Rico
He says he’ll be leaving you soon still you beg him to stay
But he wants to make it somewhere in the U.S.A.
And though he’ll be far he promises he’ll write every day
When time will be right he’ll come back and he’ll take you away
Ai, ai, ai, ai, ai, ai Puerto Rico
Ai, ai, ai, ai, ai, ai Puerto Rico
Your papa don’t like him, he says he’s no good
He steals and he fights and he never bahaves, like a young man should
Angelita she knows, he’s not bad inside
She takes the medal, she wears on a chain, and presses it into his palm
Ai, ai, ai, ai, ai, ai Puerto Rico
Ai, ai, ai, ai, ai, ai Puerto Rico
O Partido pelos Animais e pela Natureza (PAN) é um partido político que visa transformar a mentalidade e a sociedade portuguesas e contribuir para a transformação do mundo de acordo com valores éticos e ecológicos fundamentais. Estes valores são ainda mais imperativos no século XXI, quando o desenvolvimento tecnológico da humanidade permite um impacte sem precedentes na ecosfera planetária que compromete as gerações futuras e a sobrevivência das várias espécies, incluindo a humana, conforme é cientificamente reconhecido. Pela sua maior capacidade de intervenção sobre a natureza, o meio ambiente e os seres sencientes, bem como pela sua possibilidade de livre arbítrio, memória e previsão, a humanidade é eticamente responsável pela harmonia ecológica e pelo bem-estar dos seres vivos. Assumindo que todos os seres sencientes, humanos e não-humanos, são interdependentes no seio de um mesmo ecossistema e têm como principais interesses em comum satisfazerem as suas necessidades vitais, não sofrerem e experimentarem sensações e sentimentos de prazer, segurança, bem-estar e felicidade, o PAN pretende criar as condições jurídicas e políticas, na sociedade humana, para que esses direitos lhes sejam reconhecidos e tal aconteça o mais ampla e rapidamente possível.
Introdução do Programa Eleitoral do PAN
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O PAN vai ter milhares de votos, a maioria deles de senhoras que alimentam gatos ou pombos na rua e de senhores que resolveram marrar contra as touradas. A estes juntar-se-ão votos dos que consideram serem os políticos uns animais a merecer muito menos respeito do que as alimárias elas próprias. Há aqui potencial para elegerem um deputado, ou mesmo uma ranchada deles. Veja-se só o que prometem, onde nem falta um aceno aos professores e a mais reles demagogia para os pensionistas: Principais Propostas.
Claro que estamos a lidar com um grupo de lunáticos, mas aí está, e precisamente, o poder hipnótico para quem tem uma visão incipiente, confusa ou traumatizada da política. Basta ler o primeiro parágrafo da introdução ao seu programa, acima, para mergulharmos num registo delirante. Segundo o PAN, os seres sencientes (que sentem; isto é, que possuem sentidos) devem ter condições jurídicas e políticas (??) para experimentarem sensações e sentimentos de prazer, segurança, bem-estar e felicidade, e isto sob a forma de direitos. Ora, não sei quantos são agora, mas da última vez que contei os seres sencientes não-humanos, numa épica madrugada de Ano Novo em 1997, fiquei com a vaga ideia de que eram para cima de mais que muitos, onde se incluíam o cão, o cavalo, a girafa, o lince da Malcata, a boga, o porco-preto, a varejeira e o Fernando Nobre, entre outros seres sencientes não-humanos cujo nome infelizmente já esqueci porque não tive tempo para anotar. Mas o ponto que pretendo frisar é o seguinte: esta proposta do PAN de que o Parlamento deve legislar no sentido de instituir o direito ao bem-estar e felicidade da boga será, talvez, arrojada demais para a próxima legislatura. Seria preferível começar com um ciclo de palestras e ir aos poucos habituando a população à ideia de ser necessário desviar os nossos recursos para os legítimos direitos da boga ou, porque não e para dar outro exemplo igualmente legítimo, da pulga.
Eis o meu contributo para a causa e dou os parabéns a qualquer um que vá votar só porque este partido concorre. Em democracia, a panaceia é o voto – mesmo quando pode provocar um pandemónio.

«Nirvana de carteiro» na Rua dos Douradores
Está patente até ao dia 30 de Junho na Galeria Fábula Urbis (Rua Augusto Rosa nº 27 – à Sé) a exposição de John Howard Wolf constituída por fotografias suas e excertos do «Livro do Desassossego» de Fernando Pessoa. Ora esse livro, mais do que um livro, é uma imensa colecção de fragmentos da escrita pessoana e organiza-se em torno do espaço e da rua onde Fernando Pessoa vivia e trabalhava (a Rua dos Douradores) na Baixa de Lisboa. Ele chamava a esta rua um «nirvana de carteiro». Segundo John H. Wolf «a noção de Nirvana naquele contexto histórico, significava simplesmente um estado de anestesia em relação aos cuidados, sofrimento e dor exigidos pela realidade mas, de um modo ainda mais importante, pela consciência – sua e a dos outros. A sua angústia e sofrimento dominam de tal modo o seu espectro que ele desejava alcançar um estado de inconsciência e chegava a invejar os que se encontravam nesse estado. Pessoa afirmou que a inconsciência é o fundamento da vida, enquanto a vida dos carteiros é rotineira, uma repetição exaustiva do ritual das cartas e das caixas de correio». Aquele que é o escritor português mais conhecido, escrevia Fernando Pessoa não pertence a ninguém, nem a mim e revoltava-se contra os cientistas classificadores porque, segundo ele, o classificável é infinito e portanto não se pode classificar. O propósito de John H. Wolf ao organizar esta exposição foi, «na medida do possível desmistificar um pouco a imagem de Pessoa projectada por académicos e intelectuais – imagens por vezes exageradas, caricaturadas, orientadas por um alto grau teórico, de erudição seca e, por vezes, ao comando de modas». Fernando Pessoa hoje – a exposição vale a pena.