Vinte Linhas 617

Mário de Carvalho tem razão –

«Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto»

No sábado às 18 horas a Comunidade de Leitores da Fabula Urbis vai receber o escritor Mário de Carvalho para uma conversa sobre o seu romance «Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto». O livro é de 1995 e conta a história de Joel, um pobre diabo que quer aderir ao PCP – «A direita anda cada vez mais agressiva, hem?». Com o filho Cláudio na prisão do Pinheiro da Cruz (7 anos por tráfico de droga), com a mulher Cremilde a aparecer chorosa à porta do EP nos domingos da visita, aderir ao PCP surge-lhe como a única possibilidade de entrar num mundo que não se desmorona – como todos os outros. Por exemplo o camarada Júlio Baptista nas reuniões partidárias antecede as suas longas intervenções com o intróito – «São só duas palavras para um pequeno esclarecimento, muito rápido» – mas Joel sonha com agitação, distribuição de panfletos e discursos nas docas quando ouve à porta do Centro de Trabalho Vitória dois camaradas a despedirem-se quando eles estão a combinar uma pacata almoçarada num restaurante de Santos-o-Velho. Aliás o romance, tirando o Pinheiro da Cruz, é todo de espaços lisboetas: Entrecampos, Alameda Afonso Henriques, Chiado, Graça, Barão de Sabrosa, Rua do Carmo, Vila Berta, Estádio da Luz, Bairro Alto, 24 de Julho, Rua da Palma, Avenidas Novas, Campo de Ourique e Lapa.

Esta dualidade entre o que é e o que parece, leva o autor a misturar habilmente os percursos das personagens que se cruzam no palco da história: Jorge Matos tem problemas já que cheguem com a filha missionária em S. Tomé, Eduarda, a ex-namorada de Cláudio procura singrar no jornalismo cor-de-rosa. Um dos aspectos sempre em relevo é a paixão pela língua portuguesa de que Mário de Carvalho dá provas – lado a lado estão o português de lei («Você é estrebaria, sete fardos por dia») e o português pataxó – «Não Joacyr, não perdoo você por ter matado papai fazendo ele pisar a jararaca». Um livro divertido e bem escrito, retrato dum certo tempo português.

8 thoughts on “Vinte Linhas 617”

  1. E de uma invulgar imaginação.
    Só possível de ser contado e com uma linha narrativa construida por quem andou a mourejar no interior dos corredores comunistas.
    Mario Carvalho chegou a ser responsável pelo Sector Intelectual de Lisboa do PCP e, durante bastos anos, advogado do Sindicato dos Metalúrgicos de Lisboa.
    De uma timidez avassaladora, mas é um dos escritores que melhor cultiva o humor, categoria superior da ironia.
    Criar um personagem que quer aderir ao PCP, num tempo em que quase todos os que lá militam…sonham abandoná-lo…genial.

  2. Meu Caro José Albergaria: amanhã sábado este livro será objecto de uma conversa entre o autor e os membros do Clube de Leitores da Fábula Urbis. Às 18 horas na Rua Augusto Rosa nº 27 – atrás da Sé.

  3. Ficção invulgar, ironia da mais fina. Li o livro quase quando saiu e nunca mais me pude esquecer daquela soberba e cómica passagem em que o sr. bispo, vindo lá do seu passal, ferrar uma dentada no cão que se lhe atirou dando azo a uma magnífica reportagem já que se fosse o cão a morder o bispo seria coisa de somenos; agora, um bispo a morder um cão, é coisa para afiar o dente ao mais humilde repórter! E depois aquele idealismo poético mas já tão cheinho de interrogações. Muito recomendável!

  4. Li o comentário de luis eme a propósito de jcfrancisco «desejar a morte» a um dos comentadores do post «Balada do Gato Preto». Assim: «…não se deseja a morte a ninguém, nem mesmo a cobardes que só são capazes de dizerem o que dizem debaixo do anonimato». Pois é, se dizem o que dizem é porque o visado o merece. Coisa que ninguém porá em dúvida. Depois, desde logo luis eme incorre em falta para com o próprio Valupi, a quem se deve o prestígio deste blog. Esqueceu-se de que, com pseudónimo, assina aquilo que escreve? Conhecerá você a blogosfera? Lá porque assina com o seu nome (aliás, pouco), com a ideia fisgada de irem visitar o seu blog, dá-se por superior?! Outra coisa: essa dos «comentadores , que ao encontrarem o jcfrancisco, são capazes de dizer que gostaram muito deste ou de outro poema», era a brincar, não era?

  5. Pense só na (im)possibilidade do Mário de Carvalho escrever o texto que você escreveu no anterior post, meu caro jcFrancisco. E nas outra coisas que costuma escrever sobre si e os seus comentadores. Horrível, não era?

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