Da panaceia ao pandemónio


O Partido pelos Animais e pela Natureza (PAN) é um partido político que visa transformar a mentalidade e a sociedade portuguesas e contribuir para a transformação do mundo de acordo com valores éticos e ecológicos fundamentais. Estes valores são ainda mais imperativos no século XXI, quando o desenvolvimento tecnológico da humanidade permite um impacte sem precedentes na ecosfera planetária que compromete as gerações futuras e a sobrevivência das várias espécies, incluindo a humana, conforme é cientificamente reconhecido. Pela sua maior capacidade de intervenção sobre a natureza, o meio ambiente e os seres sencientes, bem como pela sua possibilidade de livre arbítrio, memória e previsão, a humanidade é eticamente responsável pela harmonia ecológica e pelo bem-estar dos seres vivos. Assumindo que todos os seres sencientes, humanos e não-humanos, são interdependentes no seio de um mesmo ecossistema e têm como principais interesses em comum satisfazerem as suas necessidades vitais, não sofrerem e experimentarem sensações e sentimentos de prazer, segurança, bem-estar e felicidade, o PAN pretende criar as condições jurídicas e políticas, na sociedade humana, para que esses direitos lhes sejam reconhecidos e tal aconteça o mais ampla e rapidamente possível.

Introdução do Programa Eleitoral do PAN

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O PAN vai ter milhares de votos, a maioria deles de senhoras que alimentam gatos ou pombos na rua e de senhores que resolveram marrar contra as touradas. A estes juntar-se-ão votos dos que consideram serem os políticos uns animais a merecer muito menos respeito do que as alimárias elas próprias. Há aqui potencial para elegerem um deputado, ou mesmo uma ranchada deles. Veja-se só o que prometem, onde nem falta um aceno aos professores e a mais reles demagogia para os pensionistas: Principais Propostas.

Claro que estamos a lidar com um grupo de lunáticos, mas aí está, e precisamente, o poder hipnótico para quem tem uma visão incipiente, confusa ou traumatizada da política. Basta ler o primeiro parágrafo da introdução ao seu programa, acima, para mergulharmos num registo delirante. Segundo o PAN, os seres sencientes (que sentem; isto é, que possuem sentidos) devem ter condições jurídicas e políticas (??) para experimentarem sensações e sentimentos de prazer, segurança, bem-estar e felicidade, e isto sob a forma de direitos. Ora, não sei quantos são agora, mas da última vez que contei os seres sencientes não-humanos, numa épica madrugada de Ano Novo em 1997, fiquei com a vaga ideia de que eram para cima de mais que muitos, onde se incluíam o cão, o cavalo, a girafa, o lince da Malcata, a boga, o porco-preto, a varejeira e o Fernando Nobre, entre outros seres sencientes não-humanos cujo nome infelizmente já esqueci porque não tive tempo para anotar. Mas o ponto que pretendo frisar é o seguinte: esta proposta do PAN de que o Parlamento deve legislar no sentido de instituir o direito ao bem-estar e felicidade da boga será, talvez, arrojada demais para a próxima legislatura. Seria preferível começar com um ciclo de palestras e ir aos poucos habituando a população à ideia de ser necessário desviar os nossos recursos para os legítimos direitos da boga ou, porque não e para dar outro exemplo igualmente legítimo, da pulga.

Eis o meu contributo para a causa e dou os parabéns a qualquer um que vá votar só porque este partido concorre. Em democracia, a panaceia é o voto – mesmo quando pode provocar um pandemónio.

24 thoughts on “Da panaceia ao pandemónio”

  1. Valupi, falta referir os animaizinhos que mais nos “tocam” e que, por mais pequenos que sejam, sâo dignos da nossa máxima atenção: os micróbios, Valupi, os micróbios!
    Estou à espera da primeira grande manifestação do PAN contra a indústria farmaceutica, essa grande fábrica de armas de destruição maciça contra o indefeso mundo dos virus e bactérias.
    A ssa ssi nos! A ssa ssi nos! A ssa ssi nos!

  2. os microbios não são animais. Lineu já lá vai, há muito.

    http://a-ciencia-nao-e-neutra.blogspot.com/2011/05/energia-competitividade-economica-e-o.html

    A lista dos subscritores deste documento, apresentado ao público no passado dia 12 à tarde, consta do site do Manifesto, assim como documentos adicionais dos autores.
    Na manhã do mesmo dia em que se iria dar a apresentação, o jornal O Público, pela pena da jornalista Lurdes Ferreira, dava conta de aspectos da história de elaboração do documento, tornando evidentes para os seus autores, entre os quais me incluo, dois factos que me parecem importantes serem do conhecimento geral:

    * Existe neste momento um Serviço de Informações que acede a servidores de email para vigilância de críticos a políticas do Governo;
    * Existem jornalistas bem relacionados, directa ou indirectamente, com esse Serviço, para cujas estratégias trabalham.

  3. São vida, Leopardo, são vida! Já todos fomos bactérias ou não? Vamos defender apenas as formas mais “evoluidas” da vida? É como defender os mais ricos…

  4. É pena é que as questões éticas ligadas ao tratamento dos animais sejam muitas vezes sequestradas por este tipo de lunáticos, para desgraça dos ditos animais.
    Enfim, sempre ouvi dizer que quem trata os animais como pessoas acaba por tratar as pessoas como animais. Tendo em vista que uma das propostas é o vegetarianismo obrigatório, é bem verdade.

  5. Apenas duas notas: a palavra Humanidade escrita com caixa baixa diz tudo sobre as pessoas desse partido; para ter direitos é preciso assumir deveres – sem isso nada feito.

  6. Por outro lado, e pensando melhor, os direitos jurídicos dos animais poderiam resolver um dos grandes problemas do país – o excesso de licenciados em direito. Bastaria, para tal, criar uma variante da advocacia ligada à defesa dos numerosos processos que daí resultariam. Sei que algumas espécies de felídeos são extremamente litigiosos, para dar um exemplo. Ora se um médico de animais se chama veterinário, um advogado de animais chamar-se-ia o quê? Hummmm…

    Mas enfim, declaração de interesses: na minha condição de pai, assumo que já fui responsável pela exterminação, por várias vezes, de comunidades inteiras de piolhos, (incluindo fêmeas e crias, muitas ainda por nascer) que exerciam o seu natural direito à existência e felicidade nas cabeças dos meus filhos, que é afinal o seu habitat natural. A minha posição perante este partido está assim comprometida pelo meu desejo de não ser julgado e condenado por tal acto.
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    João Pedro da Costa, o problema é esse, os partidos Verdes neste país parece que têm uma propensão para o sequestro. E há realmente, fora de brincadeiras, muito a fazer, sobretudo na parte das regras básicas de tratamento nos centros de criação, e também dos transportes. Mas tem de ser feito de maneira séria, porque se essas condições são importantes do ponto de vista ético, o frango a € 0,99 o quilo também não é menos.

  7. Caro Vega9000,

    Essa dos advogados de animais soa-me a continuação da nossa conversa de ontem. A mim, bastar-me ia a re-orientação profissional dos licenciados em direito que não têm a mais palida ideia acerca do que a palavra “direito” significa. Mas se eu disser isso assim, cai o Carmo e a Trindade. Portanto é melhor deixar que seja o tal de “Mercado” a dizê-lo. Que alias não é “Mercado” coisissima nenhuma, mas o cômodo travestimento, à medida dos nossos costumes desnaturados e imbecis, daquilo que outrora se chamava simplesmente… a realidade !

    A tal realidade que se vai encarregar, muito felizmente, de remeter esses folcloricosmencionados no post à sua insignificância, de que o Valupi so os tirou momentaneamento por falta de assunto.

    Outra dura realidade : não temos rigorosamente nada com que nos preocupar no panorama politico actual em Portugal.

    Boas !

  8. Gostaria de chamar a Vossa atenção para o seguinte:

    As preocupações centrais do partido estão expressas no seu nome, mas vamos cometer um erro gravoso se o reduzirmos ao partido simpático pela bicharada e pelo ambiente: o PAN deve ser entendido como um partido que procura uma transformação integral da sociedade, entendendo-se os animais como humanos e não humanos, assente numa ética globalizante e humanista, com implicações para a forma como nos relacionamos entre nós e com os demais seres vivos.

    O PAN tem propostas claras para a Sociedade, o Estado, a Economia, a Cultura, a Educação, a Saúde e, transversalmente a tudo isto, para uma Mentalidade mais sã, mais humana, mais solidária e mais justa.

    O PAN é laico, e nele participam pessoas de vários segmentos religiosos, ateus, agnósticos, etc.. Defende a liberdade responsável, e a cooperação entre todos para, como defendem, o bem de tudo e de todos.

    O PAN ultrapassa totalmente a sectorização conceptual de esquerda, direita ou centro.

    O texto do programa é um documento histórico em si mesmo e, ao contrário do que algum dia esperei de um partido político, apaixonante. Mas onde exequibilidade, idealismo, realismo e sensatez convivem harmoniosamente.

    Val,

    se a panaceia se tornar um pandemónio, apenas respeitará o direito à existência dos ‘daimones’… e refrescará certamente a putrefacção política generalizada!!!

    Não, não alimento gatos e pombos nas ruas…mas arriscaria a citar uma expressão popular:

    “quanto mais conheço as pessoas…mais gosto dos animais…” ;)

  9. Mário, o PAN circunscreve à vida senciente, com órgãos da sensibilidade, o seu projecto político. Claro que agora poderíamos tentar investigar o que eles entendem por “sentidos” no plano biológico, mas seria em vão. Aliás, poderíamos ficar pelos mamíferos para julgarmos com suficiente informação o que estão a propor.
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    leopardo, qual é a fonte dos dois factos que generosamente partilhaste com a malta?
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    Vega9000 e primo, toda a razão do vosso lado.
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    L*, dizes muito bem: o PAN ambiciona uma “transformação integral da sociedade”. De tal forma que incluem o vegetarianismo obrigatório como uma das metas políticas a alcançar. Voltando a citar-te, estamos face a um realismo e sensatez verdadeiramente apaixonantes…

  10. Comecei a ler o programa e vi que eles o que querem é acabar com os rojões à moda do Minho, com a feijoada à transmontana, com as tripas à moda do porto, com as francesinhas, com as alheiras, o presunto de Chaves, o leitão da Bairrada, o cabritinho de Armamar, as morcelas da Beira, e tantos outros produtos nacionais e carago… não há direito que nos queiram transformar o nosso querido estomago, num idêntico aos dos ruminantes, com pança, folhoso, barrete e coalheira!
    Chiça!

  11. A única coisa que me irrita é que este país ainda é uma afronta em termos de direitos dos animais, ou, melhor dizendo, deveres dos humanos para com os animais. No resto, nem tenho palavras para descrever o que me parece um partido de incongruências e utopias meio destrambelhadas.

  12. Leopardo, se é assim tão evidente pq nao uma queixinha no sitio certo?

    Que eu saiba isto não tem nada haver com submarinos, se há certezas e se puderem ser provadas, (ainda por cima são do governo de Socrates) basta uma carta anonima que o processo avança rapidamente.

  13. sim, sim. E adianta alguma coisa, além do autor da queixa comprar chatices?
    Eu também conheço uma série de autores de crimes, aliás a polícia sabe quem é o cabecilha do trafico de droga da minha cidade, mas adianta alguma coisa?

  14. há uma coisa que me tem intrigado neste partido, o caso dos animais carnívoros: irão ser alvo de processos-crime quando cumprirem o seu papel na cadeia alimentar?

  15. Ó Valupi, sabes bem que sempre tenho estado a teu lado! Mas essa “dos senhores que resolveram marrar contra as touradas”, essa não te perdoo. É que também eu sou dos que marram contra as touradas, que considero um espectáculo indecoroso e indigno do Homem. É por demais sabido para quem irá o meu voto nas próximas eleições. Não será seguramente para esse tal Partido dito dos Animais mas isso não me impede de ser visceralmente contra as touradas.

    De Jorge Sampaio recordo o lider e companheiro das lutas académicas, recordo o Presidente da República sensato e sensível e, também por isso, lhe não perdoo que incompreensívelmente, tenha aberto para a vila de Barrancos uma excepção à proibição dos touros de morte em Portugal, uma das pouquíssimas medidas da ditadura, que nos dignificaram!

  16. ANIPER, mas ninguém te obriga a estar ao meu lado, precisas é de estar do lado da tua consciência (como acredito que estejas sempre). Quanto às touradas, tens aqui deste lado um apreciador. Incluindo as de morte.

  17. Valupi, afinal os lunáticos são quase 60.000 e conseguiram subvenção estatal… medo, muito medo! :) Ah… e também acho que nunca te irei perdoar. Vais ter que (obrigatoriamente) cear algo vegetariano da próxima vez que colocar os meus lindos olhos em cima da tua bela figura!

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