Uma maioria, um Governo, um Presidente… e um Nobre

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A confirmar-se a tendência de crescimento do PSD na recta final, que esta sondagem assinala sem margem para dúvidas, o partido do pote poderá mesmo chegar à maioria absoluta. Quer dizer que será o improvável Coelho a realizar o sonho de Sá Carneiro, e com brinde: Nobre a ser eleito para segunda figura do Estado*. O efeito acumulado da reunião destes cromos na propalada broad coalition for change, coligando o refugo do Cavaquismo com as cantorias de Passos e os cozinhados de Relvas, promete não deixar pedra sobre pedra na administração da coisa pública.

Epidemia de estupidez

Uma das características mais intrigantes da política nacional consiste na estupidez da direita, em geral, e do PSD, em especial. Durante o período em que Cavaco foi primeiro-ministro, essa estupidez criou o Cavaquistão – cujas consequências ainda estamos a pagar por causa das actividades criminosas no BPN e SLN. Seguiu-se o Governo de Barroso, o qual só agravou os problemas, mais a sua fuga para Bruxelas e a promoção de Santana pela porta do cavalo. O resultado foram quatro meses de despautério. Vieram as eleições e começaram as campanhas sujas contra Sócrates – boato da homossexualidade e conspiração para a criação do caso Freeport, envolvendo indivíduos ligados ao PSD, CDS, Judiciária e imprensa. Santana sai de cena, entra Marques Mendes. O seu propósito regenerador, ou assim parecia, não convenceu as bases. Menezes atinge a ribalta e aguenta-se apenas 6 meses tamanha a parvoeira que produziu. Mesmo assim, ainda teve tempo para lançar uma campanha suja, como a Fernanda lembra neste texto. O edil de Gaia foi trocado pelo trio Manela-Pacheco-Cavaco. Iniciou-se um período de calúnias, difamações e ensaios de criminalização de elementos do PS como ninguém julgava possível vir a assistir em Portugal. Culminou com a Inventona de Belém e as escutas a Sócrates e respectiva tentativa de golpada judicial. Absolutamente escandaloso o que aconteceu em 2009 e 2010 e, sobretudo, o que não aconteceu como resposta a este inaudito ataque ao Estado de direito e à democracia.

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Não levem a mal, mas…

Uma das consequências desta crise foi a ascensão ao estrelato mediático de muitos reputados economistas, no mundo inteiro. Tornaram-se estrelas porque, num tempo de convulsões económicas, sabem transmitir as realidades complexas das finanças e mercados internacionais em linguagem acessível a praticamente todos. Hoje em dia, o cidadão leigo mas informado sabe, graças a eles,  o que são spreads, bond-markets, credit default swaps, dívida soberana, debt-to-GDP ratios, leilões de dívida, mercados secundários e primários, yelds, defaults, bondholders, haircuts, reestruturação da dívida, capitalização bancária, o Hayek, o Kaynes e o Friedman. Da minha parte, obrigado por partilharem toda esta informação, gosto de vos conhecer a todos, são pessoas de uma inteligência extraordinária, alguns verdadeiros génios. Vou ficar muito, mas muito feliz quando puderem voltar aos vossos gabinetes obscuros nas vossas instituições e bancos. Onde pertencem, e de onde nunca deviam ter saído.

Sigamos a realidade

[…] E eu quando, porventura, mudo de opinião, porque a realidade muda e nós devemos seguir a realidade, e não procurar pintá-la de outra maneira, assumo as minhas diferenças de opinião. […]

Passos, segundos antes de acusar o seu interlocutor de ter mudado de opinião quando a realidade mudou.

Vitória em Ásculo

Estava a observar os naturais festejos da direita com a estrondosa vitória do PP em Espanha ao mesmo tempo que os juros deles e de Itália sobem, indiferentes às politicas locais, numa corrida para ver quem chega primeiro à próxima  bancarrota. Se, como há grandes hipóteses de ocorrer, o PSD vencer as eleições e formar governo com o CDS, assistiremos durante os próximos doze meses a um previsível festim de culpabilização e diabolização do PS pelo “estado em que encontrámos isto”, o que justificará o abandono ou a “impossibilidade de implementação” de muitas medidas do “extraordinário” programa eleitoral do PSD, que entusiasma tanta gente,  e a tomada de outras que lá não estão e vão passar a estar.

Cinismos políticos à parte, a questão que me ocorre, no entanto, é a seguinte: nada no programa eleitoral do PSD e CDS permite perceber onde é que vão desencantar o crescimento económico que necessitamos para sair desta situação. Pior, é bastante provável que os investimentos em ciência, tecnologia, parque escolar, renováveis, rede de carros eléctricos, qualificação via novas oportunidades, etc etc, sejam riscados do mapa das prioridades simplesmente porque são símbolos da governação de Sócrates que importará abater, para além da fixação miópica nos baixos custos de produção que a direita lê no FT ser a “nossa única hipótese”. Este, receio bem, é o nosso trágico destino. O que significa que daqui a dois anos, quando a desculpa PS estiver gasta, teremos mais uma governação falhada, uma economia provavelmente em crise profunda, uma fortíssima contestação social e, o que é mais importante,  os três partidos do arco da governação queimados pela crise. E depois, o que é que fazemos?

Cineterapia

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Pina_Wim Wenders+Tanzträume_Anne Linsel_Rainer Hoffmann

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Já viste a Pina B filme do W.W.? Experiência alucinante. Génios os 2! vontade de criar vontade de dançar vontade de ficar nu.

22:00:09, 19-05-2011

Vou ver esta noite por tua causa :)

22:19:53, 19-05-2011

E por causa dela vais gostar. Um beijo

22:39:31, 19-05-2011

Enganei-me no filme, vi o Sonhos de Dança. Já viste?

15:42:42, 20-05-2011

Não. Que tal?

15:37:55, 20-05-2011

É uma viagem oblíqua aos bastidores do trabalho da Pina. Transbordante de força e delicadeza. Ou dessa delicadeza tão forte da dança.

15:49:32, 20-05-2011

Vou ver

16:03:12, 20-05-2011

Dinâmicas e Dinamene

A TVI cortou a primeira parte da análise de Marcelo Rebelo de Sousa ao debate Sócrates-Passos no vídeo que disponibiliza para suportar esta notícia: «Dinâmica de vitória está do lado do PSD». Na parte censurada, Marcelo diz coisas hilariantes, embora não tão hilariantes como aquelas que o vídeo truncado oferece. Uma delas consiste no seu veredicto a respeito da discussão do tema da Saúde. Passos foi às cordas, foi espancado, asseverou o Professor. Com tal dano que, à maneira do futebol, o jogo parecia resolvido. Marcelo até sabia como concluir a faena sem hipótese para o animal: bastava ter ido buscar as Novas Oportunidades e continuar a sangria até ao fim. Estranhamente, lamenta-se sem o conseguir esconder, Sócrates não foi por aí. E já não estranhamente, diz que este tema tomou 15 minutos ao debate; quando o relógio fixou 30, exactamente metade do tempo total. Assim, temos aqui duas ideias: Marcelo regista uma abissal diferença entre os dois a favor de Sócrates na primeira metade do debate, e Marcelo indica que gostaria de ter visto Passos reduzido a uma papinha.

Porém, o segmento que a TVI teve o cuidado de seleccionar cirurgicamente é ainda melhor quanto ao apreciado efeito de comicidade. No seu estilo salão de chá para tias de Cascais, que lhe deu justa popularidade na indústria da política-espectáculo, inventa sem pingo de vergonha uma tanga esquizóide onde Passos aparece a vencer o debate nos 30 minutos finais. E como? Marcelo alinha na inanidade da claque do PSD: através da repetição da expressão “700 mil desempregados” e da acusação de culpa fulanizada em Sócrates. Tão debochada é a sua criatividade analítica, apagando os episódios em que Passos continuou a ser castigado em cada um dos temas seguintes, que chega ao ponto de falar das expressões faciais de Sócrates (??) e da ultrapassagem do minuto final (!!) como provas da sua derrota. Estamos num registo que sugere mazelas neuronais decorrentes do consumo de LSD aquando do Cascais Jazz em 1971.

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Traquinices

As mil e uma razões porque Sócrates perde todos os debates nesta campanha.

Mais a sério, a última versão do PPCoelho das “Mil e uma noites” (disponível em todos os escaparates).

O Passos pode dizer uma coisa como gestor e o oposto como líder partidário.
Ainda existem homens invulgares.
O Passos poupou os espectadores às farófias.
Todos devemos ir dar banho ao cão pelo menos duas vezes por semana.
O Relvas tem o cabelo diferente.
Ainda existem macacos, alguns deles também invulgares.
O Passos quer lá saber que existam outros países em crise, o Sócrates é o culpado.
O Passos é quem manda.
O PPortas está preocupado com o país.
A FPF ainda não tem o interesse público.
O Passos nunca tirou macacos do nariz em público.
O Passos não trouxe o Dias Loureiro para o debate.
O PSD quer a CGD gerida pelos amigos. Dão-lhe mais garantias.
Os carros não são tão exigentes como os cães mas também merecem a nossa atenção.
O Passos alagou o governo porque é bruxo. Sabia que os próximos PECs não iam resolver nada.
A minha cadela não tem pulgas.
O Passos quer lá saber que o desemprego em Portugal seja semelhante ao de uma série de países da Europa, com ele não ficará um único desempregado em pé.
O Sócrates não tem patilhas.

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Vinte Linhas 619

Entre o pó e a posteridade – pequena dissertação para João Pedro da Costa

Tenho quase a certeza que a minha primeira intervenção no «aspirinab» aconteceu em 2006 depois de ter enviado por correio para o Fernando Venâncio em Amesterdão uma crónica publicada em 9-6-2006 na Gazeta das Caldas com o título «Não ponha esse indivíduo tão alto… ele nem é licenciado!» O texto não falava só de mim mas aproveitava o pretexto para lembrar José Loureiro Botas e Vitorino Nemésio.

O primeiro por ter sido o prosador que mais me fascinou nos livros de leitura do Ciclo Preparatório com as suas histórias de pescadores vieirenses e também por ser (descobri mais tarde) o pioneiro autor a registar em literatura a vida dos Avieiros no Ribatejo. O segundo por ter escrito estas palavras luminosas: «A glória literária é uma ilusão. Pensar que se dura mais do que o comum dos mortais, só porque se deixou palmo e meio de livros da própria lavra na estante, é uma puerilidade, senão uma presunção!».

De José Loureiro Botas se dizia na mesa da má-língua do tempo (anos trinta do século XX) que não tinha nome para escritor. Nicolau Saião surgiu a comentar e a conta uma história macabra: «Considerável tempo atrás houve um fulano escrevedor que, posto perante a minha alta estima por ele, me disse esta coisa nefanda: «Não ponha esse indivíduo tão alto…ele nem é licenciado!» Quando no mês de Abril apareceu aqui uma gansa a copiar poemas de Sophia como se fossem comentários, eu decidi escrever aquele post com as capas dos meus livros da Moraes Editores – a mesma colecção da Sophia. Meu caro João Pedro da Costa – onde viste «fel» havia apenas a ideia de explicar à gansa que a minha poesia está lá e ninguém a pode tirar. Faz agora 30 anos.

A atracção da guerra

How is it that the human has become so entangled with the inhumane? That humanity’s highest creative aspirations of literature and imagination have been all but inseparable from its most terrible invention: the scourge of war? Most other creatures engage in violence, and some insects and animals with elaborate social structures reflect those systems in their modes of fighting and aggression. But humans are unique in their creation of an institution of war that is designed to organize violence, define its purposes, declare its onset, ratify its conclusion and establish its rules. War, like literature, is a distinctively human product.

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Impressionar no emprego, seduzir em festas, brilhar nos jantares

Persuasive Speech: The Way We, Um, Talk Sways Our Listeners
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New Solar Product Captures Up to 95 Percent of Light Energy
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Odds Are Against ESP: New Statistical Approach Doesn’t Support Claims That Extra-Sensory Perception Exists
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Hospitals Misleading Patients About Benefits of Robotic Surgery, Study Suggests
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Brain Region Necessary for Making Decisions About Economic Value Identified
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Practice, Not Loss of Sight, Improves Sense of Touch in the Blind
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Affluent, Educated Women May Be Choosing Sexual Prostitution
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Genetically Altered Virus Detects Cancers Early
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The Power of Placebo
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Can Going to Work Make You Fat?
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Poll Shows Young People More Positive Toward Immigrants and Minorities
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Not All Viewers of Arab TV Networks Develop Anti-American Feelings

Deriva continental

Africanista de Massamá[…] Sr. Eng. José Sócrates, se hoje o Estado Social está maltratado, e o sinal mais evidente da falência do modelo que o senhor seguiu está nos 700 mil desempregados que existem em Portugal, se o senhor consegue explicar aos portugueses porque é que chegou a uma situação com o desemprego historicamente mais elevado em Portugal e com o Estado Social menos presente para apoiar as pessoas, depois de me responder a esta questão nós podemos falar da revisão constitucional que apresentei…

Europeísta de S. BentoEu compreendo que não queira falar do seu projecto de revisão constitucional, mas lamento muito mas vai ter que o discutir, porque as suas propostas são propostas que rompem com um consenso social na sociedade portuguesa, e na Europa, a propósito daquilo que são as funções sociais do Estado. E lamento muito, mas vai ter de as discutir. Em segundo lugar, devo dizer, Sr. Dr., que está equivocado. Desde que sou Primeiro-Ministro, as prestações sociais em percentagem do PIB passaram de 17%, em 2005, para 22%. Hoje, o Estado dá em prestações sociais, em assistência social, mais de seis mil milhões de euros do que dava em 2005 – apesar da crise. O senhor não tem outro discurso que não seja acusar-me de ser o responsável pela crise; pela crise em Portugal, não considerando aquilo que foi a crise internacional. Mas nem sempre o Sr. Dr. pensou assim. Porque o Sr. Dr., quando era administrador de empresas, não pensava assim. E, de facto, tinha uma análise séria daquilo que foi o impacto que teve no nosso país a crise internacional. […]

Vinte Linhas 618

Dissertação sobre o comércio a partir de um desenho de Anna Castagnoli

Conheço todas as ruas e praças da Baixa de Lisboa desde Setembro de 1966. Nesse tempo ainda havia eléctricos do Rossio para a Estrela – a subir na Rua Augusta e a descer na Rua do Ouro. O bilhete do elevador de Santa Justa custava dois tostões. No eléctrico uma zona era sete tostões, duas eram dez tostões. Eu era «ordenança» e ganhava 900 escudos por mês.

Havia um monstruoso carro azul da PSP frente ao Tribunal da Boa Hora que só saía com as manifestações dos bancários. Recordo ainda hoje um comunicado passado a stencil – «Incomunicável em Caxias, Daniel Cabrita continua preso».

Conheço desde 1966 a Baixa, o seu pequeno mundo de cafés e livrarias, lojas de roupa e pastelarias, restaurantes e farmácias, drogarias e cambistas, manteigarias e chapeleiros, luvarias e garrafeiras.

Ainda hoje me deixo perder na Baixa de Lisboa um pouco ao acaso, feliz nos intervalos da melancolia, nas suas ruas e praças quadriculadas, perfeitas e exactas.

Deve-se ao comércio a espantosa mobilidade que transforma os produtos em mercadorias. O café que acabo de beber na esplanada da Pollux é disso um exemplo.

Perto daqui, a Loja Temperamento, na Rua da Madalena, celebrar um ano de vida. Estão felizes as meninas da Loja, um ano depois de terem iniciado a vida do seu espaço comercial. Entre loiças e biscoitos, entre perfumes e sal, entre vinho e azeite, entre conservas e livros, entre postais e brinquedos, é um nunca acabar de prateleiras vivas com um pouco do grande mundo aqui resumido. Parabéns Temperamento!

A vitória dos derrotados

Quem esperava um Passos Coelho vestido de bom escuteiro, suave e ligeiramente baralhado, enganou-se. Até ontem, o candidato do PSD tinha perdido todos os debates. A expectativa era baixa, quase inexistente. Podia, de facto, ter sido penoso. Não foi. Não só Passos resistiu, como encontrou finalmente a forma de se mostrar cortês sem parecer assustado. Educado, sem parecer permissivo. Simples, sem parecer impreparado. É verdade que Sócrates o pressionou na Saúde com os famosos co-pagamentos. É também verdade que o candidato do PS conseguiu passar grande parte do tempo a atacar as propostas do adversário, procurando assim evitar o choque com a terrível realidade do País. No entanto, Passos aguentou-se. Não só porque que se esperava pouco dele, mas porque pela primeira vez nesta sequência de debates foi o único candidato que nunca deixou Sócrates fugir às responsabilidades pela situação do País – “700 mil desempregados”, disse e repetiu ao longo do debate. Sócrates ouviu e calou-se. E perdeu.

André Macedo

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Ler os relatos daqueles que dizem ter Passos ganhado o debate, seja na versão taxista do Miguel Sousa Tavares ou na versão prestidigitador do João Marcelino, causa uma súbita apreensão. Não que haja algo de errado na previsibilidade com que as opiniões seguem os gostos e os humores, fenómeno antropológico inevitável, mas porque as posições estão a ser apresentadas sem qualquer argumentário aferível que as substantive. Não se trata de um acaso, óbvio, pois a leitura objectiva do confronto (recorrendo aos tempos despendidos em cada tema e ao registo de quem tomou a iniciativa para a sua discussão, entre outros factos mensuráveis e comparáveis) só permite uma conclusão: Sócrates mostrou que estava numa outra divisão de responsabilidade, Passos não foi além da vulgaridade de principiante. Assim, a celebração forçada, artificial, irracional, de uma suposta vitória de Passos faz parte da dinâmica do desespero que assombra a campanha do PSD já desde Fevereiro.

É por isso que a prosa do André Macedo acaba por ser o resumo dos resumos da claque do PSD. Diz ele que a expectativa para o desempenho de Passos não podia ser mais baixa, o que lhe garantiria uma qualquer vitória caso conseguisse aguentar até ao fim do debate sem começar a chorar. E diz mais o meu amigo André, consegue descrever fielmente o que todos vimos: Sócrates passou o debate ao ataque. Ataques sem defesa, por fuga e atrapalhação de Passos, ou avassaladores – um deles que até levou à perda da face, quando Passos acusou Sócrates de estar a mentir só para ser desmascarado como o verdadeiro mentiroso naquela mesa. O André poderia ter continuado a juntar factos ao descritivo, lembrando o raspanete que Passos levou para casa a propósito do seu anti-patriotismo e pessimismo eleitoralista. Ou o confrangedor momento em que ficou aos papéis à pala dos seus papéis que Sócrates leu, onde ficámos a saber que houve um tempo em que a crise internacional também fez parte do conjunto de neurónios na posse do africanista de Massamá. O André poderia ter contado isto e muito mais, mas tinha pressa em acabar. E acabou em grande, faça-se justiça. Porque enunciou, com precisão milimétrica, o que Passos foi fazer para o debate: repetir a expressão “700 mil desempregados”. Por causa disso, conclui ex machina o André, Passos venceu.

Estaríamos perante a vitória mais derrotista de sempre, então. Mas a qual explicará, e na perfeição, o entusiasmo suscitado em tantos derrotados.