A vitória dos derrotados

Quem esperava um Passos Coelho vestido de bom escuteiro, suave e ligeiramente baralhado, enganou-se. Até ontem, o candidato do PSD tinha perdido todos os debates. A expectativa era baixa, quase inexistente. Podia, de facto, ter sido penoso. Não foi. Não só Passos resistiu, como encontrou finalmente a forma de se mostrar cortês sem parecer assustado. Educado, sem parecer permissivo. Simples, sem parecer impreparado. É verdade que Sócrates o pressionou na Saúde com os famosos co-pagamentos. É também verdade que o candidato do PS conseguiu passar grande parte do tempo a atacar as propostas do adversário, procurando assim evitar o choque com a terrível realidade do País. No entanto, Passos aguentou-se. Não só porque que se esperava pouco dele, mas porque pela primeira vez nesta sequência de debates foi o único candidato que nunca deixou Sócrates fugir às responsabilidades pela situação do País – “700 mil desempregados”, disse e repetiu ao longo do debate. Sócrates ouviu e calou-se. E perdeu.

André Macedo

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Ler os relatos daqueles que dizem ter Passos ganhado o debate, seja na versão taxista do Miguel Sousa Tavares ou na versão prestidigitador do João Marcelino, causa uma súbita apreensão. Não que haja algo de errado na previsibilidade com que as opiniões seguem os gostos e os humores, fenómeno antropológico inevitável, mas porque as posições estão a ser apresentadas sem qualquer argumentário aferível que as substantive. Não se trata de um acaso, óbvio, pois a leitura objectiva do confronto (recorrendo aos tempos despendidos em cada tema e ao registo de quem tomou a iniciativa para a sua discussão, entre outros factos mensuráveis e comparáveis) só permite uma conclusão: Sócrates mostrou que estava numa outra divisão de responsabilidade, Passos não foi além da vulgaridade de principiante. Assim, a celebração forçada, artificial, irracional, de uma suposta vitória de Passos faz parte da dinâmica do desespero que assombra a campanha do PSD já desde Fevereiro.

É por isso que a prosa do André Macedo acaba por ser o resumo dos resumos da claque do PSD. Diz ele que a expectativa para o desempenho de Passos não podia ser mais baixa, o que lhe garantiria uma qualquer vitória caso conseguisse aguentar até ao fim do debate sem começar a chorar. E diz mais o meu amigo André, consegue descrever fielmente o que todos vimos: Sócrates passou o debate ao ataque. Ataques sem defesa, por fuga e atrapalhação de Passos, ou avassaladores – um deles que até levou à perda da face, quando Passos acusou Sócrates de estar a mentir só para ser desmascarado como o verdadeiro mentiroso naquela mesa. O André poderia ter continuado a juntar factos ao descritivo, lembrando o raspanete que Passos levou para casa a propósito do seu anti-patriotismo e pessimismo eleitoralista. Ou o confrangedor momento em que ficou aos papéis à pala dos seus papéis que Sócrates leu, onde ficámos a saber que houve um tempo em que a crise internacional também fez parte do conjunto de neurónios na posse do africanista de Massamá. O André poderia ter contado isto e muito mais, mas tinha pressa em acabar. E acabou em grande, faça-se justiça. Porque enunciou, com precisão milimétrica, o que Passos foi fazer para o debate: repetir a expressão “700 mil desempregados”. Por causa disso, conclui ex machina o André, Passos venceu.

Estaríamos perante a vitória mais derrotista de sempre, então. Mas a qual explicará, e na perfeição, o entusiasmo suscitado em tantos derrotados.

12 thoughts on “A vitória dos derrotados”

  1. E nem foi preciso confrontar o ‘defensor da verdade’ com a história de lhe terem dado conhecimento do PEC4 somente pelo ‘telefone’. Pelos vistos o ‘defensor da verdade’ considera ‘telefone’ uma chamada telefónica seguida de uma reunião de 4 horas.

    Mas isto foi no debate que eu vi. Aquele a que os direitolos se devem estar a referir e o que o Passos ganhou deve ter acontecido por telefone, digo eu…

    Estes direitolos são impagáveis.

  2. Parece que o que alguns dentro do PSD querem é um homem “comum” e não “invulgar” . Veja-se o que diz Santana Lopes ,hoje, no comício do PSD :
    ” Depois de publicamente ter criticado por diversas vezes o actual estado do partido, garantindo mesmo que vai criar um partido, Santana Lopes fez vários pedidos a Passos Coelho: “”Não queremos um homem providencial, estamos fartos disso. Queremos um homem comum”” .

  3. bolas !! e da espanha , ni? isso é que é importante. sai lá da toca do coelho e do jardim à beira mar plantado e vem pró mundo e diz da tua justiça. é tão bonito o que está a acontecer.
    o z , letra grega , morreu ? ele é que era fixe para trocar 2012s.

  4. Também há que referir a patetice daqueles inquéritos telefónicos pós-debate, que a RTP1 levou a cabo para saber quem ganhou. Tomando por base o panorama das preferências dos eleitores traçado pelas sondagens e pressupondo que apenas 35% dos eleitores portugueses votará neste momento no PS, todos os restantes estarão prontos para responder que Passos ganhou. Poder-se-á objectar que também apenas 35% dos eleitores votarão Passos e que o mesmo é válido para ele. Só que não é. No caso de Sócrates, todos os 65% restantes estão interessados em derrubá-lo. No caso de Passos, não, como sabemos. Até gente como Bernardino Soares, do PCP, se interrogado nessa noite, diria de muito bom grado e convictamente que Passos ganhou, tal o ódio a Sócrates.

    Tudo o que dizes, Val, é verdade, mas o que se passa é que as televisões e a maioria dos jornais estão apostados em promover o Passos (é só ver o DN online desta manhã!). E, apesar daquilo que toda a gente viu naquele debate – um Passos para quem as expectativas eram baixíssimas, que aguentou sem ter ido embora a chorar, agarrando-se à tábua de salvação da bancarrota e do desemprego – os comentadores de direita contratados e a campanha mediática favorável transmite ao dito cujo uma confiança que ele não tinha. Artificial, mas que conta. A ver vamos o que faz o PS. Ir para o governo nesta altura é tudo menos entusiasmante e será tudo menos compensador. Mas já deu para perceber que um líder tão frágil e permeável como Passos, que escreveu um livreco de teoria neoliberal só para se apresentar a eleições com uma aparência de frescura, não fazendo a mínima ideia de como implementar o que diz defender, não vai criar nenhum governo forte nem coeso nem resistente aos embates.

  5. Não sou adepto das sondagens. Há muitos anos que tenho telefone fixo e telemóvel e nunca recebi uma chamada a perguntar a minha intenção de voto. As empresas de sondagens podem manipulá-las conforme a sua preferência. Dou um exemplo: se quiser favorecer o partido A sabem qual a intenção do número X e é este o contactado. Quando fazem o inquérito ficam com os números de telefone ou telemóvel para mais tarde contacta-los e fazerem a sondagem que mais lhes convier. Tenho um amigo que foi por várias vezes contactado ao contrário de mim que nunca fui. Há muitas maneiras de matar pulgas: uns usam a unha do polegar, outros não.

  6. Pois eu tenho um amigo que trabalhou na Marktest a fazer sondagens telefónicas. Quando os contactados não queriam/sabiam responder, preenchia ele mesmo as respostas…

  7. Val, sabes que não morro de amores pelo Sócras…………

    Acho que ele perdeu uma hipótese de esmagar o Coelho, imagina que começava por dizer qualquer coisa do género: “Convença os portugeuses que é uma pessoa de confiança. Lembra-se que começou por dizer que não havíamos falado sobre o PEC IV, para depois vir dizer que afinal falamos por telefone e finalmente acabou dizer que tivemos uma breve conversa, quando afinal estivemos a falar 4 horas……. Convença-os que o Sr não mente”

    Julgo que uma coisa destas condicionaria todo o debate, não o fez, teve medo que lhe apontassem coisas do género? Não faço ideia, mas gostava de ter visto o coelho desmascarado.

  8. Diz, quem percebe de sondagens:
    http://margensdeerro.blogspot.com/2011/05/cesopcatolica-21-maio-n659-tel.html

    A partir podemos construir as narrativas que quisermos. A vossa é “reality-proof” pelo que não creio que venha a mudar. Ah, e já agora, esta sondagem teve uma divulgação muito limitada (creio que na RTPN e nada mais), o que para conspiração mediática (pró-PSD, entenda-se) parece fraquito. E quanto às capas dos jornais, é verdade que não falaram em vitória esmagadora de Sócrates, mas segundo consta a imprensa (ainda) é livre.

  9. Eu vi o debate do principio ao fim. PPC apareceu treinado para estar sempre a falar, não interessando o que José Sócrates lhe dissesse. Desenvolveu o seu discurso, com os pontos de ataque ao governo – bancarrota, desemprego, despesismo do Estado, desastre de governação, primeiro ministro mentiroso (temas da campanha do PSD).Parecia uma cassette gravada…!
    Nunca respondeu ao que José Sócrates lhe perguntou!
    Agora o que achei é que José Sócrates foi muito, mas mesmo muito brando em todo o debate, argumentando com os factos que comprovam a justeza das medidas tomadas pelo governo para fazer face ao descalabro financeiro provocado pela ostensiva especulação das bolsas, mas impotente para travar esse ataque após o veto do PEC IV!
    E no fim, vêem os ilustres do costume dizer que o PPC ganhou!?! Só porque Sócrates decidiu que desta vez não o iriam culpar de “arrogante” ou de “irascível” – o que eu acho que ele o deveria ter sido, pelo menos na questão da diferença do défice previsto pelo governo e do que foi no final imposto pelas novas normas técnicas da Comissão Europeia (assunto já divulgado oficialmente pela própria CE)!Não há volta a dar – Sócrates é preso por ter cão e por não ter também…!!!

  10. A verdadeira “sondagem” é a 5 de Junho. Mesmo para quem “percebe de Sondagens”.

    Não vi o debate, mas gostei muito deste texto. Há uma frase que diz quase tudo: «Sócrates mostrou que estava numa outra divisão (…)».

    Acredito que seja mais “fashion” adular o Passos Coelho do que acompanhar a pedalada de José Sócrates. Compreendo que esta Sociedade insaciável de “novidades” anseie por “ver como é” com outros protagonistas. O problema é que também há muito quem pense que a Política não é um teatro de variedades, nem um programa de televisão. E Sócrates quanto a mim fez bem em não “entrar a matar” contra o Passos Coelho. Sócrates é coerente com o que diz e creio que ele já está a preparar caminho para ter Passos Coelho como Ministro do seu Governo, numa base de lealdade e cooperação. Para quê afrontá-lo acintosamente agora?

    Não que eu concorde com ele, mas uma postura patriótica e de Estado obriga a que um autêntico candidato a Primeiro-Ministro, em tempos difíceis e com os credores internacionais nas “canelas”, não ponha levianamente de parte a hipótese de ter de governar em coligação com o principal adversário.

    Passos Coelho é o oposto disto. Embirra com o Sócrates, dá sarrafada em Portas e nem sequer é lá muito franco com o pessoal de Belém, porque é um adolescente que ainda pensa que pode decidir tudo sózinho. Em verdade, não merece nem sequer ser Ministro. Mas para isso era preciso que o eleitorado percebesse que só um Governo maioritário do P. S. nos poderia guiar de novo no bom caminho que tivémos entre 2005 e 2008…

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