Carlos de Oliveira – C.O. in «Iniciais» 1981

Para si são as palavras mais difíceis
Nas longas noites de procura de sentido
Para os textos que transmitem uma dor
De não saber fazer assim a minha prosa

E quem diz prosa diz poesia porque é assim
Quando os seus livros são conhecidos no iceberg
O que não está exposto ao nosso olhar
(Quantas palavras cheias de som nessas gavetas)

Na sua balança para medir o peso de quem passa
Há um cheiro a noite e a gasolina
Deixe-me ao menos ver a ponta dos seus dedos
Deixe-me olhar o seu peso nas suas palavras

Perguntas complicadas

Apesar da inacreditável série de asneiras, tonteiras e bacoradas com que o PSD espanta o País desde 12 de Março, o que será ainda preciso que Passos diga ou faça para que o eleitorado se convença da sua absoluta incompetência para o cargo de primeiro-ministro?

A campanha de casos e de reacções ou do total desrespeito pelo eleitorado

Os portugueses estão preocupados com o seu presente e o seu futuro, sabendo que, nesta coisa que se chama democracia, há uma campanha eleitoral a correr para escolher quem apresenta obra feita, programa, consistência, coerência, equipa e sentido de interesse nacional para merecer o seu voto.

Quem faz de uma campanha eleitoral um tempo de criação de “casos”, sempre infundados, sempre reveladores de uma impreparação preocupante, frequentemente caluniosos, deve ser desmascarado, analisado, portanto, e objecto deste juízo de prognose simples: – e se PPC fosse PM?

É tão claro como isto. É fazer a pergunta. E responder.

PPC não tem campanha; tem “casos”. Das novas oportunidades, às calúnias, passando pela história milenar da Católica, não esquecendo as “nomeações”, até à IVG, enfim, tudo o que contribui para o esclarecimento do presente e do futuro hipotético do país nas suas maravilhosas mãos, PPC vive daquilo de que sempre acusaram por deficiência cognitiva o PS: o efeito mediático de um dizer por dia.

Resta saber por quê.

Não é apenas pela amoral estratégia política que ora pisca o olho ao CDS ora o ataca, ora chantageia o eleitorado ora proclama a liberdade. É, também, porque PPC sabe que a sua cassete sobre as medidas de austeridade do Governo PS durante a crise que atingiu o mundo inteiro, sem referir essa mesma crise, já não cola. Ele esquece-se que os portugueses têm miolos.

PPC teve o desplante de atacar  medidas de austeridade, por exemplo no debate com Sócrates, com uma demagogia rara, porque esqueceu-se de explicar que foram tomadas apenas e só no decorrer da crise (também se esqueceu que as aprovou). Por outro lado, PPC, o coveiro do Estado Social, falou de tais medidas como se fossem um ataque ao Estado Social. Lá está: não sabe o que é o Estado Social; não sabe o que são medidas transitórias para vencer a crise e para, precisamente, proteger o Estado Social, ao contrario de outras que cortam de tal maneira as pernas ao que nos define colectivamente que só com uma revisão constitucional que destrua o boneco é que lá vão.

Não por acaso foi possível atribuir 6 mil milhões de euros em prestações sociais apesar da crise.

Em termos de obra feita, já não falando na primeira legislatura que corrigiu os horrores da direita, PPC tem dificuldade em discutir coisas como a  redução do abandono escolar e do insucesso escolar e a melhoria do sistema educativo; a modernização do parque escolar;  o investimento na ciência e alargamento do acesso ao ensino superior; o plano tecnológico e a promoção da inovação; reforma da AP e simplificação administrativa (aqui houve lugar de forma estudada à extinção de 25% dos organismos públicos e dos cargos dirigentes, bem como a eliminação de mais de 1300 estruturas intermédias (PRACE), controlo das admissões e a redução de mais de 70 mil funcionários públicos, e não a uma cega e ignorante regra de entra um se sairem cinco.; reforço da independência energética; reforço do sector exportador; qualificação do SNS;  garantia da sustentabilidade da segurança social pública;  e aumento do salário mínimo em diálogo social.

Obra feita. É difícil discuti-la. É mais fácil dar as mãos a todos os partidos, ao BE, a PCP, a todos, com fome de São Bento, criar casos, ameaçar os portugueses – olhem que se votarem Sócrates eu não falo com o homem! – virar a camisola do avesso.

Mas mais do que tudo: evitar discutir o programa do PSD, o seu seu documento histórico do liberalismo, e não discutir o programa do PS, que ao contrário do dele, sabe manter o Etado Social e apostar no crescimento económico.

A última parece ser a do “medo”. PPC fala em medo. Sócrates tem medo. Saiu-lhe mal. Ainda estava a respirar de ter desabafado com o país o medo que Pacheco Pereira lhe provoca.

Que difícil enfrentar o difícil de costas direitas.

 

 

 


Medonho

O Eng. Sócrates governou Portugal condicionando Portugal. Condicionava os meios de comunicação social, condicionava com os subsídios e os prémios que pagava. Era tudo aquilo que nós sabíamos e que foi, ao longo de cinco ou seis anos, a claustrofobia democrática, essa forma de tentar espartilhar e condicionar a sociedade portuguesa.

Este é o homem que é o rosto do medo em Portugal, é o rosto do medo que tem duas faces: o medo que ele criou e o medo que ele nos quer criar.

Paulo Rangel

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Foi esta miséria que o PSD recusou ao eleger Passos em vez do favorito do baronato, Rangel. Na altura do congresso em Carcavelos, em 2010, alguns militantes social-democratas chegaram ao ponto de se lamentarem publicamente por não existir no PSD a unidade que existia no PS, deixando claro que estavam fartos da estratégia difamante e caluniosa seguida por Ferreira Leite, a qual levou a um belo resultado eleitoral. Estava na altura de terem um líder que deixasse a fulanização e as campanhas sujas para voltar a falar de política, voltar a espalhar a esperança, voltar a congregar vontades. Era por esta elevação e carisma que o povo das bases ansiava, exactamente aquilo que reconhecia em Sócrates, porque nas bases os eleitores que votam PSD ou PS têm muito mais características que os aproximam do que aquelas que os separam.

Passos, entretanto, rendeu-se a Cavaco. O derrube do Governo, o ataque aos interesses nacionais pela cupidez do Poder, a influência decadente de Catroga não são acasos, antes a necessária consequência de Cavaco continuar a papar presidentes do PSD ao pequeno-almoço. E cá temos Rangel a explicar que isto da claustrofobia democrática, a Jerusalém celeste do Pacheco, tem 5 ou 6 anos – pouco faltando para dizer que começou na própria noite eleitoral em que o PS atingiu a maioria absoluta depois da humilhante governação de Barroso e Santana.

Nestes 5 ou 6 anos, de facto, o PSD tem sido cada vez mais insistente na tese de que as vitórias eleitorais do PS são ilegítimas, porque os socialistas não prestam, não têm palavra e são criminosos. A continuação deste desprezo pela democracia e pelos portugueses dá-nos a ver um partido verdadeiramente medonho.

g point

Exactamente, as campanhas são também testes de resistência aos candidatos. Mas parece que o Passos Coelho ainda não percebeu isso. Ontem ouvi-o desabafar que ‘já não tem paciência para os trocadilhos de Sócrates’.

Pasme-se, ainda a campanha não vai a meio já o candidato a primeiro-ministro, e líder do partido que faz do insulto a sua principal arma, admite não ter paciência para ouvir os trocadilhos dos opositores.

Fará alguma ideia do que o espera caso seja eleito? Da paciência que necessitará para ouvir críticas permanentes da oposição, dos sindicatos, de tudo o que é corporação profissional, etc., etc., quer a governação corra bem, quer corra mal?

Queria ver se fosse o Sócrates a queixar-se de falta de paciência fosse para o que fosse.

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Oferta da nossa amiga guida

Elevador da Glória

Na mais profunda das confusões
Nas vozes alteradas dos turistas
A pedirem desculpa dos empurrões
Aos vulgares passageiros, aos jornalistas

A quem todos os dias te percorre
Quase sem dar pelo ângulo da subida
E em cada viagem também morre
Ou (pelo menos) deixa um pouco de vida

Às crianças com três anos de idade
Na voz hesitante dos seus pais
Perdida entre o apelo da verdade
E os gostos da poupança, naturais

A todos que comigo viajaram
E posso ter como testemunhas
E este fado comigo cantaram
Numa guitarra velha como as unhas

A todos direi; tomem nota por favor:
não há lugares sentados neste elevador.

O suicídio de Passos Coelho

Já tinha sido fascinante ver o descontrolo de PPC sobre as declarações dos seus aliados. Escrevo fascinante quando penso na observação do fenómeno político, de um determinado fenómeno político. Estranha-se, e sabe-se que é sinal de má liderança, que o cabeça de lista por Lisboa escolhido após muito pensamento por PPC tenha horror à democracia e que avise que deitará fora os votos dos portugueses se não for “designado” presidente da AR.

Estranha-se que PPC diga uma coisa sobre o IVA e Carrapatoso outra, estranha-se e sabe-se que é sinal de fumo caso aquela gente tome conta do Estado (conceito que desconhecem).

Estranha-se que PPC assista caladinho a Catroga comparar Sócraes a Hitler, estranha-se, mas sabe-se que para PPC um ataque pessoal deste calibre não deve ter consequências, sabe-se que se fosse um ministro seu assobiava para o lado.

Ou seja, para além da sede pelo poder com um marco histórico no chumbo do PEC IV sem propostas alternativas, mas apenas porque havia umas sondagens que o animavam mais do que ao país, PPC tem uma postura política moral digna do candidato “mais africano de todos os candidatos”.

Hoje, passou das marcas. PPC, no último referendo sobre a IVG, explicou numa entrevista por que razão tinha evoluído no seu pensamento e tinha votado a favor da despenalização. Estava, então, a criar a figura do “Pedro, o liberal”. Agora, descobriu que pode ser “liberal” concretizando no seu programa o projecto de revisão constitucional mais obtuso que tive o prazer de ler, mas piscar um olho ao CDS, nos microfones da renascença, admitindo um novo referendo sobre a despenalização da IVG.

Nunca aconteceu em nenhum país da Europa tamanha atrocidade. Antes de ser um problema constitucional (que também é, de segurança jurídica e de tutela das expectativas jurídicas) esta proclamação encerra um problema político, moral, de incoerência e de falta de vergonha na cara.

Vale tudo.

Já é oficial: PSD está à direita do CDS

Passos Coelho quer alteração à lei do aborto

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Actualização

CDS tenta colar-se ao PSD no extremismo ideológico:

Paulo Portas diz que reavaliação da lei do aborto é “evidência que se impõe”

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Reactualização

Passos diz que estava outra vez a reinar com a malta, mas lembrou que a brincar, a brincar, é que o macaco foi ao cu à mãe:

Passos Coelho: “PSD não propôs referendo” ao aborto

Marcianos

A New Scientist quer descobrir a melhor frase para ser dita quando o Homem chegar a Marte

“Estamos à procura de alguma coisa engraçada e intrigante”, respondeu Highfield ao PÚBLICO por e-mail, que defende que o meteorito será “um grande prémio para os leitores – um prémio do outro mundo”.

Muito bem. Então, procura-se uma coisa engraçada e intrigante para o astronauta dizer assim que colocar o pezinho em Marte? Que tal esta:

Em nome da Humanidade, declaro-me comovido para além do que as palavras conseguem transmitir por, após tantos esforços grandiosos, termos conseguido chegar ao planeta onde nasceu, e viveu até aos 21 anos, esse extraordinário extraterrestre chamado Eduardo Catroga.

Mas podemos arranjar mais frases, ó NASA!

Vinte Linhas 620

Aproveitar envelopes e escrever dos dois lados da folha do bloco

Corria o ano de 1978 e em Agosto enviei para Carlos Pinhão um poema dedicado à memória de Ruy Belo. Como as oficinas do «Diário Popular» eram usadas por «A BOLA» para imprimir o (ao tempo) trissemanário desportivo (segundas, quintas e sábados) Carlos Pinhão entregou em mão a Jacinto Baptista o meu poema que foi publicado dias depois no Suplemento Literário do vespertino lisboeta.

Com Carlos Pinhão aprendi muita coisa da gramática do jornalismo e da vida. Mas também coisas práticas como, por exemplo, aproveitar os envelopes usados. Com uma velha navalha de escritório, Carlos Pinhão cortava os envelopes recebidos das editoras e dos autores com livros lá dentro para a rubrica «Porque hoje é sábado» e usava-os de novo. Utilizava o lado de dentro do envelope para colocar os nomes e as moradas dos destinatários. Os livros eram reenviados aos amigos. Isto porque muitas vezes recebia os livros dos autores repetidos com os mesmos livros das editoras. A sua mesa de trabalho era uma placa giratória de amizades e nunca gastava dinheiro em envelopes.

Quanto ao facto de os blocos serem aproveitados dos dois lados para escrever pelos jornalistas aprendi isso em Santarém com o redactor João Calhaz no jornal «O MIRANTE». O João Calhaz fazia isso de modo discreto mas o exemplo passava para todos nós: Joaquim Emídio, Alberto Bastos, Fernando Vacas e eu. Passados tantos anos ainda vou a Santarém almoçar com a malta do jornal tal como entre 1997 e 2001. Os velhotes do meu tempo de menino diziam que «Quem não poupa água e lenha não poupa nada que tenha». Com os blocos e com os envelopes usados é a mesma coisa.

Elogio do disparate

Se pensam que a linguagem das campanhas é dura e imprópria em Portugal, é porque não conhecem o que se passa nos EUA. O nível de agressividade, falta de respeito, difamações e mentiras atinge, no país mais democrático do mundo, níveis épicos que poriam por aqui os comentadores a prever o fim da democracia para amanhã à tarde, antes do lanche. John Kerry, herói condecorado na guerra do Vietname, foi acusado na corrida presidencial de 2004 de ser um cobarde desertor responsável pela morte de homens. Dukakis foi acusado de proteger violadores. O casal Clinton de ter mandado assassinar um colaborador. Al Gore de ser um mentiroso compulsivo que se gabou de ter inventado a internet sozinho (mito que perdura até hoje). John McCain, outro herói de guerra, nas primárias contra Bush em 2000, de ter capacidades mentais diminuídas pela tortura e da sua filha adoptada ser na realidade fruto de uma relação extra-conjugal. Tudo isto nos media respeitáveis, não por campanhas de e-mails ou outros meios. E Obama, enfim. Todos sabem que foi acusado de praticamente tudo, inclusivamente de ser o anti-Cristo. E tem sido assim desde sempre, desde que há eleições livres e os homens andavam de cartola. E já nem falo das eleições locais, onde é definitivamente o vale tudo.

As sociedades funcionam assim,  têm locais e períodos  próprios para os cidadãos poderem suspender as regras da boa convivência civilizada sem que ninguém ache estranho. Quando um amigo sportinguista com lugar cativo me convida a ir ao futebol, acho bastante mais fascinante observar famílias inteiras – pai, mãe, avós e filhos – e gente de reputação – gestores, professores, distintos magistrados – a gritarem os maiores impropérios, enquanto olham cúmplices uns para os outros, do que a equipa da casa a perder. Aliás, acontece sobretudo se estiverem a perder, o que para meu deleite é frequente.  Até o meu filho já percebeu que naquele lugar, como no recreio, as regras de bom comportamento dos adultos estão temporariamente suspensas. Estamos livres dos constrangimentos normais e todos à volta compreendem até um limite muito superior ao considerado normal ou civilizado. O mesmo se passa nas campanhas eleitorais, onde respeitáveis professores, juristas, politólogos, comentadores e demais elites perdem completamente a cabeça e nos brindam com autênticos festivais de disparates que não estariam fora de sítio na tasca da aldeia dos avós, entre dois copos de tinto. Há no entanto uma vantagem crucial no meio da berraria: quando atinge níveis de disparate total, o que se torna inevitável, as pessoas tendem a identificar com mais facilidade quem consegue ser um pouco mais sensato que os outros, quem não perde completamente a cabeça. No fundo, uma campanha acaba por ser um pouco como uma governação condensada em 15 dias. Todas as pressões, toda a contestação, todos os ataques vão ser feitos em fogo rápido e intenso, em campo aberto, testando as capacidades dos candidatos até quase ao limite. A própria dinâmica de campanha revela-nos quem são os políticos que resistem a este tipo de pressões, quais os que perdem a calma, quais os que cedem aos impulsos primários, quais os que não aguentam o stress. É muito raro e difícil ganhar umas eleições apenas com campanhas de ódio, como este PSD demonstra ao estar empatado com o PS no meio da situação mais grave das ultimas décadas, porque o ódio extremado apenas beneficia o outro que não chegou tão longe, desde que saiba manter a calma e responder acertadamente denunciando que os outros cederam. A berraria, os insultos, as difamações e o disparate geral existem por um motivo, e esse motivo tem, neste período restrito, mais valor do que aqueles que destrói, como a conversa civilizada e as trocas de argumentos ponderados. Isso é para depois, quando saímos da arena de regresso à cidade, e criticamos os que se comportam como se estivessem ainda lá dentro. E criticamos com razão.

Por pouco

A direita, no seu deserto de talento político e de liderança, criou o mito da implacabilidade e superlativas capacidades oratórias, agonísticas, de Sócrates. Fizeram-no por retinto e justificado medo, por um lado, e por táctica insultuosa, pelo outro. Sócrates era o arrogante, o animal feroz, aquele que pervertia e desprezava as boas maneiras entre políticos sérios. Há uma parte real que substantiva estes apodos, os debates parlamentares. Aí, Sócrates saiu invariavelmente por cima no confronto com os melhores tribunos opositores, espadeirando a torto e a direito sem piedade, duas vezes por mês ao longo de 6 anos. Mas quanto aos debates televisivos, estamos no mundo da fantasia.

Em 2005, não há memória de Sócrates ter feito qualquer brilharete digno de registo na TV. Até pelo contrário. Embora se tenha considerado que venceu o debate com Santana, no qual se gastaram os 20 minutos iniciais a falar da campanha suja que o PSD então promoveu e Santana cavalgou, a sensação final foi de alguma frustração. Perante tão debilitado e indigno adversário, Sócrates tinha optado por se concentrar em transmitir competência técnica para governar e um sentimento de confiança para o futuro. Parecia pouco onde se esperava reparação e admitiria vingança. Em 2009, teve um retumbante sucesso frente a Louçã, mas foi só. Com Ferreira Leite, por exemplo, não se viu nenhum especial desequilíbrio no debate, mais uma vez assomando o sentimento de frustração por tão iníqua personagem ter sido poupada ao justo castigo. Nestas eleições, os debates que antecederam o confronto com Passos mostraram um Sócrates a repetir a sua fórmula de sempre: crítica pertinente, decisiva, das propostas do adversário (ou sua ausência) e transmissão clara, com impacto memorável, das suas propostas. Pelo meio, um genuíno gosto pela disputatio originada na espontaneidade das afirmações. Diríamos, portanto, que para fazer isto talvez não seja preciso cair no caldeirão da poção mágica em gaiato.

Sócrates nada apresenta de especial em matérias de retórica face aos outros líderes partidários, salvo uma característica que muito os aborrece: onde os outros parecem estar a representar, ele aparece genuíno, sanguíneo, inteiro. Pode parecer pouco, mas por pouco se ganha e perde. Por pouco tudo se pode perder ou tudo se pode ganhar.

Dois minutos

Estas são as declarações finais do debate. Bastam dois minutos para descobrirmos o que cada um pretende para Portugal.

Passos

Eu creio que o País tem hoje muito claro que a partir do dia 5 de Junho precisa de ter um Governo que seja competente e capaz. E que seja realmente possível entregar um resultado que aqueles portugueses que hoje estão desempregados, que estão assustados com o futuro, porque sabem que o País foi conduzido a uma situação de praticamente bancarrota – quer dizer, de não ter dinheiro para honrar os seus compromissos – esses portugueses sabem que há um responsável por essa situação, essa responsabilidade cabe ao Eng. José Sócrates, e ele não tem desculpa na medida em que o PSD já cooperou, e cooperou bastante, para que o Governo pudesse ter alcançado um resultado que fosse satisfatório para todos os portugueses. O que está em causa agora aqui, portanto, é de saber se devemos ou não mudar a liderança. E não há dúvida que o País precisa de mudar a sua liderança. Precisa de alguém que respeite os compromissos, alguém que tenha capacidade de diálogo, alguém que pode não ter experiência governativa, como eu, mas não traz na sua consciência ter 700 mil desempregados e um Estado Social que está em perigo se não conseguirmos colocar a economia a crescer. Esse é o meu compromisso com os portugueses. Formarei um Governo coeso e sólido se essa for a vontade dos portugueses, e se eles tiverem, como eu, confiança em que podemos ser capazes em Portugal de fazer diferente do que fizemos nestes 6 anos.

Sócrates

Os portugueses sabem que eu sempre assumi as minhas responsabilidades. E sabem também que nunca virei a cara nos momentos difíceis. Pela minha parte, os portugueses conhecem-me e sabem que tomei sempre as medidas difíceis, exigentes, que foram necessárias para defender o interesse nacional. Para vencer a crise, o País precisa de um Governo responsável, com uma liderança forte, uma liderança preparada e uma liderança segura de si. O que o País dispensa são as aventuras e o radicalismo ideológico que nos levariam a mudanças perigosas, insensatas, e muitas vezes nocivas àquilo que são os interesses das pessoas. Pela minha parte, o que tenho a propor aos portugueses é um caminho de uma governação responsável e moderada. Que resolva os problemas nacionais cumprindo os objectivos que estamos comprometidos com a União Europeia e com o FMI. Mas que também modernize a nossa economia ao mesmo tempo que defende o nosso Estado Social e aquilo que é a protecção social do Estado. Com um Serviço Nacional de Saúde acessível a todos os cidadãos, com uma Escola Pública que esteja disponível para promover a igualdade de oportunidades e com uma Segurança Social Pública que seja uma Segurança Social ao serviço dos mais idosos e dos mais carenciados. Esta é a escolha que temos pela frente. Eu, pela minha parte, confio nos portugueses e confio em Portugal.

Um livro por semana 234

«De mãos dadas com o vento» de Rosa Calisto

Depois de «Estados d´Alma» de 2003, este «De mãos dadas com o vento» é o segundo livro de Rosa Calisto (n. 1950) e nele se incorporam dois registos maiores: Natureza e Cultura.

De um lado a Natureza com a Costa Nova, o Ceará, Buarcos, Conímbriga e Moçambique: «Nascida, nascida / entre a morte / entre a miséria / e a má sorte. / Pobreza e fascínio. / Conquista e domínio / da mãe natureza / mais madrasta / que mãe / nesta Lichinga. / Renegada maternidade / Desprotegida África.»

De outro lado a Cultura com poemas para a memória de Albert Camus, José Régio, Miguel Torga, José Afonso e Carlos Paredes: «Quero ser / a guitarra / abraçada / afagada / tangida / gemida / coroada. /Quero ser / a guitarra / de voz / terna / ciciada / gritada. / Quero ser / solidão / revolta / emoção.»

Mas além destas linhas poéticas, outras direcções se anunciam nas páginas deste livro. Por exemplo a oscilação entre a maternidade («As mulheres / a quem aparo os filhos / são também / os meus cadilhos») e a velhice: «Alberga-se / em lares / a solidão / dos que vão / ficando / sem idade. / Desbotada / a vida / igualando / os dias / em sucessões / de nada»

Mas também o arco entre o sopro da morte («Quando morrer / meu amor / e cinzas for / lança-me ao vento») e o sopro do amor: «Em outro tecto / te abrigas / nas noites / da minha solidão. / Privilégio nosso / amar / como nos amamos / mesmo na solidão / não há separação.»

(Chiado Editora, Prefácio: Luís Machado, Coordenação: Susanne Engel)

As putas das sondagens

As sondagens podem ter um efeito paradoxal. Desmobilizar parte dos que vão à frente, estimular parte dos que ficam atrás. Todavia, para a enorme maioria, as sondagens funcionam como ansiolíticos e antidepressivos na falange do 1º lugar, chegando a causar euforia em situações de grave carência afectiva, e aparecem como injustiças dolorosas para os restantes, ferindo-os no seu orgulho de acordo com o tamanho das expectativas engordadas. Daí a recorrente paranóia a respeito da suposta manipulação a favor dos que aparecem no topo das preferências. Ora, mesmo que haja tramóias à bruta ou sofisticadas (sei lá se há, nem se podendo saber sem se estar por dentro do processo), muito maior é a ignorância a respeito das limitações e potenciais distorções da epistemologia das sondagens e variegados métodos e modos aplicados em cada caso. Donde, quando os comentadores botam faladura a respeito dos valores de uma qualquer sondagem, existe uma altíssima probabilidade de estarmos perante o pacóvio espectáculo de se tomar a nuvem por Juno e de se tomarem correlações por causalidades.

Embora não seja imune ao efeito reconfortante, tranquilizador, das sondagens positivas para os meus gostos, faço parte do reduzido grupo dos que preferem ver sondagens negativas para as suas preferências. Porque elas põem à prova as minhas convicções e obrigam-me ao confronto com o sentido das minhas conclusões ou intuições. A pulsão gregária que nos é inata tenta levar-nos para as escolhas do maior número por boas e evidentes razões relativas à sobrevivência. Regra geral, imitar os outros é o que nos salva. Mas crescer implica tomar consciência de que em muitas situações – muitas, muitas, muitas – estar do lado das minorias, ou ser verdadeiramente pioneiro e original, é a lógica e necessária consequência de nos estarmos a salvar por nossa própria capacidade e iniciativa. Munido deste heroísmo, até uma sondagem aparentemente desastrosa pode assinalar o triunfo da vontade.

E tu, que preferes?

Pergunto eu

 

 

A descolagem abortada do PSD nas sondagens também foi culpa do vulcão islandês, ou deve-se a um fraco piloto? É que os numerosos passageiros com destino ao resort de São Bento estão na cabine cheios de fome, e qualquer dia dedicam-se ao canibalismo.