A campanha de casos e de reacções ou do total desrespeito pelo eleitorado

Os portugueses estão preocupados com o seu presente e o seu futuro, sabendo que, nesta coisa que se chama democracia, há uma campanha eleitoral a correr para escolher quem apresenta obra feita, programa, consistência, coerência, equipa e sentido de interesse nacional para merecer o seu voto.

Quem faz de uma campanha eleitoral um tempo de criação de “casos”, sempre infundados, sempre reveladores de uma impreparação preocupante, frequentemente caluniosos, deve ser desmascarado, analisado, portanto, e objecto deste juízo de prognose simples: – e se PPC fosse PM?

É tão claro como isto. É fazer a pergunta. E responder.

PPC não tem campanha; tem “casos”. Das novas oportunidades, às calúnias, passando pela história milenar da Católica, não esquecendo as “nomeações”, até à IVG, enfim, tudo o que contribui para o esclarecimento do presente e do futuro hipotético do país nas suas maravilhosas mãos, PPC vive daquilo de que sempre acusaram por deficiência cognitiva o PS: o efeito mediático de um dizer por dia.

Resta saber por quê.

Não é apenas pela amoral estratégia política que ora pisca o olho ao CDS ora o ataca, ora chantageia o eleitorado ora proclama a liberdade. É, também, porque PPC sabe que a sua cassete sobre as medidas de austeridade do Governo PS durante a crise que atingiu o mundo inteiro, sem referir essa mesma crise, já não cola. Ele esquece-se que os portugueses têm miolos.

PPC teve o desplante de atacar  medidas de austeridade, por exemplo no debate com Sócrates, com uma demagogia rara, porque esqueceu-se de explicar que foram tomadas apenas e só no decorrer da crise (também se esqueceu que as aprovou). Por outro lado, PPC, o coveiro do Estado Social, falou de tais medidas como se fossem um ataque ao Estado Social. Lá está: não sabe o que é o Estado Social; não sabe o que são medidas transitórias para vencer a crise e para, precisamente, proteger o Estado Social, ao contrario de outras que cortam de tal maneira as pernas ao que nos define colectivamente que só com uma revisão constitucional que destrua o boneco é que lá vão.

Não por acaso foi possível atribuir 6 mil milhões de euros em prestações sociais apesar da crise.

Em termos de obra feita, já não falando na primeira legislatura que corrigiu os horrores da direita, PPC tem dificuldade em discutir coisas como a  redução do abandono escolar e do insucesso escolar e a melhoria do sistema educativo; a modernização do parque escolar;  o investimento na ciência e alargamento do acesso ao ensino superior; o plano tecnológico e a promoção da inovação; reforma da AP e simplificação administrativa (aqui houve lugar de forma estudada à extinção de 25% dos organismos públicos e dos cargos dirigentes, bem como a eliminação de mais de 1300 estruturas intermédias (PRACE), controlo das admissões e a redução de mais de 70 mil funcionários públicos, e não a uma cega e ignorante regra de entra um se sairem cinco.; reforço da independência energética; reforço do sector exportador; qualificação do SNS;  garantia da sustentabilidade da segurança social pública;  e aumento do salário mínimo em diálogo social.

Obra feita. É difícil discuti-la. É mais fácil dar as mãos a todos os partidos, ao BE, a PCP, a todos, com fome de São Bento, criar casos, ameaçar os portugueses – olhem que se votarem Sócrates eu não falo com o homem! – virar a camisola do avesso.

Mas mais do que tudo: evitar discutir o programa do PSD, o seu seu documento histórico do liberalismo, e não discutir o programa do PS, que ao contrário do dele, sabe manter o Etado Social e apostar no crescimento económico.

A última parece ser a do “medo”. PPC fala em medo. Sócrates tem medo. Saiu-lhe mal. Ainda estava a respirar de ter desabafado com o país o medo que Pacheco Pereira lhe provoca.

Que difícil enfrentar o difícil de costas direitas.

 

 

 


9 thoughts on “A campanha de casos e de reacções ou do total desrespeito pelo eleitorado”

  1. O problema não é o Passos Coelho. É o próprio PPD. Passos Coelho, se tivesse ido atrás de Sócrates quando este saíu da JSD, provávelmente até já estava no Governo, num cargo discreto e subalterno, que ele não tem estofo para muito mais do que, por exemplo, Sub-secretário de Estado da Juventude.

    Mas qualquer um, dentro do PSD, tem de agradar àquela matilha esfaimada (de Poder), ressabiada (de sucessivos insucessos) e limitada (de capacidades). O PSD é que está a precisar de uma nova oportunidade, mas não a merece. Que fazer, Rui Rio?

  2. Isabel, tudo o que diz é verdade. Mas agora diga-me: como se pode contrariar uma campanha de “casos”, sejam mentiras ou verdades, se temos a amplificaçâo total dos mesmos nos media, durante um ou dois dias e, apenas para fazer que se vive em liberdade de expressão, dar conta, “de raspão”, do contraditório. Dois dias a instalar a mentira e nem dois minutos a passar o desmentido. Assim não dá, Isabel. Assm perde o PS e perde a democracia.
    O que mais me choca é que PC e BE nem uma palavra têm contra esta verdadeira asfixia democrática, só porque lhes convem o massacre do PS e da democracia possivel que vamos tendo. Sim, esses radicais comportam-se como abutres necrófagos, sempre à espera de se alimentarem do cadáver da democracia, recusando-se a qualquer compromisso de governo.

  3. Cara Isabel,
    o PS já deveria saber que a campanha iria ser assim, pois o programa apresentado pelo PSD, mal pensado e mal apresentado, era apenas uma obrigação acessória que não interessava discutir, pois é apenas o rascunho de algo muito mais grave e que a maioria nem sequer sonha.
    Quem viu o debate, já o anteviu.
    A negação em explicar fluentemente o que acontecerá ao SNS, o que serão os co-pagamentos, como se evoluirá nas NO, como será compensada a baixa de TSU, que tipo de apoios serão dados às empresas, o que se fará aos horários de trabalho, despedimentos, mobilidade, ciência, modernização, infra-estruturas, energias alternativas, política agrária, recursos marítimos, combate à fraude e evasão fiscal, etc.
    Os comícios, almoços e jantares servem apenas para insultar o PM em gestão, levantar casos que se esboroam por entre os dedos, atacar ora à direita, ora à esquerda num afã insaciável de baralhar e dar de novo.
    O País que abra os olhos e que se ponha a pau, pois corre o sério risco de nem ter um governo estável, nem sequer uma alternativa medianamente saudável aos caos que a sua eleição como PM fará aparecer.
    Esperemos que os deuses nos sejam favoráveis, pois a não ser assim…

  4. O querido lider Sócrates quando descer do pedestal, não vai ser fácil enquadrá-lo, nem no partido nem na sociedade.

    Os politólogos vão ter muito para estudar.

  5. Este blog é uma antologia que merece ampla divulgação.

    A clareza e honestidade dos textos, a argumentação sólida e preparada das ideias ou o humor requintado e de bom-gosto.

    Longe, muito longe, da trauliteirce mal-intencionada, da manhosice desengonçada, do humor boçal e marialva, e da muito sofrível escrita da língua portuguesa que encontramos em “trinta e uns” e quejandos…

    Acredito que, fosse grande a divulgação, por correio electrónico como exemplo, dos impecáveis textos deste blog, e muito boa gente abriria os olhos e, no dia 5, iria votar de forma muito mais esclarecida.

    Vós, no “Aspirina B”, fazeis serviço público e honrais a Democracia.

    Eu, divulgarei o mais que possa.

  6. Estou com mr.zorg a 100%! Pelo meu lado, não têm conta os “copy/past” que tenho feito de excelentes textos e comentários que por aqui tenho encontrado e que faço seguir para a minha roda de amigos embora saiba que alguns ficam lixados comigo! Paciência!

  7. Cara Isabel, esqueceu-se de salientar o aumento que o Sr. PM José Sócrates fez aos funcionários públicos em ano de eleições. Não é da área da Economia com toda a certeza se não saberia que tal irresponsabilidade nos levou (iniciou) o declinio da economia. Foi irresponsável e cretino, pensou nele e, na hora da verdade, sabendo muito bem as consequências desta sua decisão para o país, levou a decisão em frente. Este senhor, por muito que tenha feito (foram os bons ministros que teve o bom senso de escolher, não foi ele na prática) não merece voltar a ser PM.

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