Elogio do disparate

Se pensam que a linguagem das campanhas é dura e imprópria em Portugal, é porque não conhecem o que se passa nos EUA. O nível de agressividade, falta de respeito, difamações e mentiras atinge, no país mais democrático do mundo, níveis épicos que poriam por aqui os comentadores a prever o fim da democracia para amanhã à tarde, antes do lanche. John Kerry, herói condecorado na guerra do Vietname, foi acusado na corrida presidencial de 2004 de ser um cobarde desertor responsável pela morte de homens. Dukakis foi acusado de proteger violadores. O casal Clinton de ter mandado assassinar um colaborador. Al Gore de ser um mentiroso compulsivo que se gabou de ter inventado a internet sozinho (mito que perdura até hoje). John McCain, outro herói de guerra, nas primárias contra Bush em 2000, de ter capacidades mentais diminuídas pela tortura e da sua filha adoptada ser na realidade fruto de uma relação extra-conjugal. Tudo isto nos media respeitáveis, não por campanhas de e-mails ou outros meios. E Obama, enfim. Todos sabem que foi acusado de praticamente tudo, inclusivamente de ser o anti-Cristo. E tem sido assim desde sempre, desde que há eleições livres e os homens andavam de cartola. E já nem falo das eleições locais, onde é definitivamente o vale tudo.

As sociedades funcionam assim,  têm locais e períodos  próprios para os cidadãos poderem suspender as regras da boa convivência civilizada sem que ninguém ache estranho. Quando um amigo sportinguista com lugar cativo me convida a ir ao futebol, acho bastante mais fascinante observar famílias inteiras – pai, mãe, avós e filhos – e gente de reputação – gestores, professores, distintos magistrados – a gritarem os maiores impropérios, enquanto olham cúmplices uns para os outros, do que a equipa da casa a perder. Aliás, acontece sobretudo se estiverem a perder, o que para meu deleite é frequente.  Até o meu filho já percebeu que naquele lugar, como no recreio, as regras de bom comportamento dos adultos estão temporariamente suspensas. Estamos livres dos constrangimentos normais e todos à volta compreendem até um limite muito superior ao considerado normal ou civilizado. O mesmo se passa nas campanhas eleitorais, onde respeitáveis professores, juristas, politólogos, comentadores e demais elites perdem completamente a cabeça e nos brindam com autênticos festivais de disparates que não estariam fora de sítio na tasca da aldeia dos avós, entre dois copos de tinto. Há no entanto uma vantagem crucial no meio da berraria: quando atinge níveis de disparate total, o que se torna inevitável, as pessoas tendem a identificar com mais facilidade quem consegue ser um pouco mais sensato que os outros, quem não perde completamente a cabeça. No fundo, uma campanha acaba por ser um pouco como uma governação condensada em 15 dias. Todas as pressões, toda a contestação, todos os ataques vão ser feitos em fogo rápido e intenso, em campo aberto, testando as capacidades dos candidatos até quase ao limite. A própria dinâmica de campanha revela-nos quem são os políticos que resistem a este tipo de pressões, quais os que perdem a calma, quais os que cedem aos impulsos primários, quais os que não aguentam o stress. É muito raro e difícil ganhar umas eleições apenas com campanhas de ódio, como este PSD demonstra ao estar empatado com o PS no meio da situação mais grave das ultimas décadas, porque o ódio extremado apenas beneficia o outro que não chegou tão longe, desde que saiba manter a calma e responder acertadamente denunciando que os outros cederam. A berraria, os insultos, as difamações e o disparate geral existem por um motivo, e esse motivo tem, neste período restrito, mais valor do que aqueles que destrói, como a conversa civilizada e as trocas de argumentos ponderados. Isso é para depois, quando saímos da arena de regresso à cidade, e criticamos os que se comportam como se estivessem ainda lá dentro. E criticamos com razão.

14 thoughts on “Elogio do disparate”

  1. Óptimo. Faz recordar uma televisão (salvo erro SIC) que arranjou um lugar vazio para Jorge Sampaio mas ele ganhou as eleições ou seja não as perdeu por causa disso. Mas foi duro, foi. A televisão queria ser ela a fazer a agenda do candidato…

  2. Magistral e didáctico. Foi exactamente nesta perspectiva que Sócrates esteve muitos pontos acima do PPC no último debate!

  3. A isto somos levados pela americanização das campanhas.
    Adoramos copiar o que é mau e sem darmos por isso, apesar de usarmos fato e gravata, de comermos com talheres e estudarmos em escolas superiores, não estaremos muito longe dos rituais selvagens de tribos perdidas em recônditos lugares.

  4. Exactamente, as campanhas são também testes de resistência aos candidatos. Mas parece que o Passos Coelho ainda não percebeu isso. Ontem ouvi-o desabafar que ‘já não tem paciência para os trocadilhos de Sócrates’.

    Pasme-se, ainda a campanha não vai a meio já o candidato a primeiro-ministro, e líder do partido que faz do insulto a sua principal arma, admite não ter paciência para ouvir os trocadilhos dos opositores.

    Fará alguma ideia do que o espera caso seja eleito? Da paciência que necessitará para ouvir críticas permanentes da oposição, dos sindicatos, de tudo o que é corporação profissional, etc., etc., quer a governação corra bem, quer corra mal?

    Queria ver se fosse o Sócrates a queixar-se de falta de paciência fosse para o que fosse.

  5. Esta campanha está pior do que no Brasil. É que lá o Tiririca ainda dizia que pior do que está não fica. Aqui, pela amostra, parece-me que isto vai piorar. Ao ouvir o Catroga (onde o esconderam, agora?), o Relvas, o Passos, etc, etc, acho que não é com gente desta que se vai a algum lado. Lembram-se do governo anterior, a ministra da educação que foi corrida por não poder fazer as reformas que pretendia? O ministro da saúde que não pode reduzir gastos na saúde e por isso se foi embora? A oposição que não deixou meter os professores na ordem, ainda agora vi esse cromo do presidente da câmara das Caldas que foi um dos opositores às mudanças na saúde, e agora vêm todos dizer, incluindo o Passos, que a dívida atingiu estes valores por culpa do governo. Então e a oposição não teve culpa nenhuma? Até revogaram o que o governo conseguiu fazer sobre os professores. Quer dizer substituiram-se ao governo e começaram eles (PPD, CDS, PCP e BE todos juntos) a governar.
    Enfim, esta canalhada não terá bom fim quer ganhe ou não as eleições. Já estou como o Alfredo Barroso: se eu fosse masoquista até quereria que eles ganhassem as eleições para saberem com quantos paus se faz uma canoa.

  6. Teófilo M., não concordo contigo. As campanhas americanas são sujas, sim, porque lá a liberdade de expressão é levada a sério, e a democracia americana tem muito a ensinar-nos, a nós que mal começámos. Repara que o mesmo sistema que elege W. Bush, um incapaz vindo do privilégio, elege também Obama, um tipo que veio de muito baixo e que é, na minha opinião, o maior politico desta geração.
    E o meu ponto era que este tipo de campanhas não são necessáriamente uma coisa má.
    ___
    guida, precisamente. E olha só o que o stress lhe está a fazer, só diz disparates. Esta do aborto agora é de gritos. Se por azar chega a primeiro-ministro, receio muito pela sua saúde.

  7. Caro Vega,
    o que terá a ver a agressividade, a falta de respeito, a difamação e a mentira com a liberdade de expressão?
    Liberdade não é sinónimo de libertinagem.
    Se nos USA a liberdade de expressão é algo considerado de muito importante, mas nem sempre partilhado pelo todo nacional, seria bom que a complementassem com outros ingredientes que, por lá, andam um bocado afastados do que para mim é também considerado liberdade, como por exemplo o direito à privacidade, a obrigação do acusador provar a sua acusação e não o contrário, a solidadriedade para com o próximo, a inclusão em vez da permanente exclusão, a miscegenação por troca com a segregação (seja ela positiva ou negativa).
    Há muitas coisas boas nos USA, mas também as há muito más e não será por isso que vou considerar que num país em que assassinar presidentes, candidatos ou ativistas políticos é tido quase como um risco aceitável sirva como paradigma do caminho a seguir.

  8. Tens razão, Vega, isto é areia a mais para ele. Mas se se concretizar o tal azar eu temo é pela nossa saúde. :)

  9. Teofilo M., vais desculpar, mas há aí demasiados preconceitos para uma resposta simples. Mas da minha parte digo-te: tem tudo a ver. Não sou, como já deves ter reparado, grande adepto das restrições à liberdade de expressão. Se o preço a pagar for o de deixar a porta aberta a tudo o que afirmas, parece-me um bom negócio. A liberdade paga-se, mas não tem preço.

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