Vinte Linhas 620

Aproveitar envelopes e escrever dos dois lados da folha do bloco

Corria o ano de 1978 e em Agosto enviei para Carlos Pinhão um poema dedicado à memória de Ruy Belo. Como as oficinas do «Diário Popular» eram usadas por «A BOLA» para imprimir o (ao tempo) trissemanário desportivo (segundas, quintas e sábados) Carlos Pinhão entregou em mão a Jacinto Baptista o meu poema que foi publicado dias depois no Suplemento Literário do vespertino lisboeta.

Com Carlos Pinhão aprendi muita coisa da gramática do jornalismo e da vida. Mas também coisas práticas como, por exemplo, aproveitar os envelopes usados. Com uma velha navalha de escritório, Carlos Pinhão cortava os envelopes recebidos das editoras e dos autores com livros lá dentro para a rubrica «Porque hoje é sábado» e usava-os de novo. Utilizava o lado de dentro do envelope para colocar os nomes e as moradas dos destinatários. Os livros eram reenviados aos amigos. Isto porque muitas vezes recebia os livros dos autores repetidos com os mesmos livros das editoras. A sua mesa de trabalho era uma placa giratória de amizades e nunca gastava dinheiro em envelopes.

Quanto ao facto de os blocos serem aproveitados dos dois lados para escrever pelos jornalistas aprendi isso em Santarém com o redactor João Calhaz no jornal «O MIRANTE». O João Calhaz fazia isso de modo discreto mas o exemplo passava para todos nós: Joaquim Emídio, Alberto Bastos, Fernando Vacas e eu. Passados tantos anos ainda vou a Santarém almoçar com a malta do jornal tal como entre 1997 e 2001. Os velhotes do meu tempo de menino diziam que «Quem não poupa água e lenha não poupa nada que tenha». Com os blocos e com os envelopes usados é a mesma coisa.

14 thoughts on “Vinte Linhas 620”

  1. Tradições que se foram perdendo ao longo dos anos e que hoje já quase ninguém utiliza. Na atualidade é mais corriqueiro ver a impressão de e-mails distribuídos para toda a gente que diligentes colaboradores correm a fotocopiar num desperdício sem causa e sem nexo, aliás torna-se-me difícil entender o abate de florestas inteiras para fazer papel que é gasto sem utilidade prática nenhuma a não ser a de enriquecer a indústria papeleira.
    Hoje em dia, na era da informática, onde qualquer bicho-careta tem um computador pessoal privado, e demanda no emprego tecnologia de ponta para utilizar, raros são os que têm o seu local de trabalho limpo de papelada destinada aos baldes de lixo mais próximos.

  2. e os tempos que estão a chegar são mesmo de poupança, JCF.

    fazia-me confusão que uma amiga e colaboradora de uma publicação que eu dirigia (poeta e pintora), escrever com letra muito miudinha, aproveitando ao máximo o papel.

    e ela uma vez explicou-me: «Luis, sou do tempo em que o papel era quase uma raridade e por isso aproveitávamos tudo o que aparecia. Tantos desenhor que fiz em papel de embrulho.»

    e o Carlos Pinhão é inesquecível. eu escrevia na “concorrência” e recebi de pouca gente provas de tanta camaradagem e amizade (inclusive no “record”).

  3. é por isso que tu continuas por aí ao papel fazendo copy paste para te promoveres. a nostalgia da miséria ainda te põe a reciclar a ditadura do botas. tamém podias falar do desperdício das pensões dos inuteis que se reformaram sem fazer nenhum durante a suposta carreira contibutiva, que se serviram dos sindicatos e do partido comunista para fazerem ganchos jornaleiros e pseudo literários ao abrigo da figura pública do delegado sindical. como não podia deixar de ser tu eras o maior entre pinhões, belos & vacas, recordes, bolas e outros ícones da poesia portuguesa do século passado e do há-de passar. é bom que nos lembres isso todos os dias, não vá a malta mais nova pensar que jfc é acrónimo de josé fried chicken.

  4. Prova-se aqui a técnica de enviar poemas aos outros com o sentido da tal publicaçãozinha. Depois os nomes, as amizades, e o muito que se aprendeu. Banalidades sem qualquer interesse para quem lê, nesta época em que o computador é rei. Ainda se fosse coisa interessante, mas escrever dos dois lados das folhas, até os miúdos da escola ainda hoje o fazem; é só perguntar a um qualquer professor. O texto serviu apenas para citar o Carlos Pinhão – que nunca fez as tristes figuras do JCF!

    A amiga do luis eme seria do tempo das cavernas?! Se no tempo dela o papel era quase uma raridade… Também era bom que revesse o seu português l.m. : ou tira o «que» da segunda linha, ou põe «escrevesse» na terceira. Para quem dirigia uma publicação…Já agora, reveja também as duas últimas linhas do seu comentário. Pouco feliz, não? Sim, porque não é só o jcF que merece críticas, tá visto!

  5. se estivéssemos antes de Abril, terias futuro a escrever de lápis azul, pois tal como essa gente só falas e só riscas o acessório, Joca.

    quando se escreve um comentário à pressa e sem corrigir, é fácil dar erros de português. i

    em relação à tua chamada de atenção sobre a tal senhora, fala com os teus avós ou gente da sua geração e ficas a perceber que a abundância é coisa que nem tem quarenta anos…

  6. Ó maluco – se as palavras do meu texto são «banalidades» o que é que estás aqui a fazer? Vai morrer longe! Labrego…

  7. Eu digo o meu nome se eu quiser e muito bem me apetecer e ninguem tem nada a haver com isso, isto às vezes parece mas é a PIDE a quererem saber tudo e mais alguma coisa diz:

    É verdade, o papel serve para muitas coisas e não há nada como reciclar, sobretudo quando se está mesmo à rasquinha e tem que se fazer num sítio qualquer.

  8. Não gosto de meter o tempo da «outra senhora» nos meus comentários», como faz o luis eme. Prefiro meter o «após 25 de Abril», e se a discussão fosse por aí, era bonito, era! Aliás, indo na conversa do l.m., mal estão os professores de Português: são todos «lápis azuis»! Mas gosto que me corrijam quando erro. E aceito e aprendo, coisa que nem todos fazem. Agradeço o seu reparo Marco Alberto Alves. Deveria ter escrito «revisse», e falhei. A sua chamada de atenção mostra que temos leitores atentos ao português, coisa que nem sempre acontece. Obrigado!

    «A luta continua!», diz o zézinho. Só se for a luta pelos teus interesses. Vindo de Santa Catarina aos 17 anos, com um curso da treta e um tacho no banco, tempo disponível para ganhar uns tustos numas colaborações pelos jornalecos e para júri de prémios tipo lençóis Coelima – parece que não, mas que também dá dinheiro – , reforma aos 46, não tá mal, não senhor! Continua a luta, filho, continua que o PC tá vivinho da costa!

  9. Não será bem assim, Sinhã. Tu leste Hegel, os argentinos é que não e por isso para eles (Jorge Luis Borges) roubar fundos do Estado não é crime…

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