As putas das sondagens

As sondagens podem ter um efeito paradoxal. Desmobilizar parte dos que vão à frente, estimular parte dos que ficam atrás. Todavia, para a enorme maioria, as sondagens funcionam como ansiolíticos e antidepressivos na falange do 1º lugar, chegando a causar euforia em situações de grave carência afectiva, e aparecem como injustiças dolorosas para os restantes, ferindo-os no seu orgulho de acordo com o tamanho das expectativas engordadas. Daí a recorrente paranóia a respeito da suposta manipulação a favor dos que aparecem no topo das preferências. Ora, mesmo que haja tramóias à bruta ou sofisticadas (sei lá se há, nem se podendo saber sem se estar por dentro do processo), muito maior é a ignorância a respeito das limitações e potenciais distorções da epistemologia das sondagens e variegados métodos e modos aplicados em cada caso. Donde, quando os comentadores botam faladura a respeito dos valores de uma qualquer sondagem, existe uma altíssima probabilidade de estarmos perante o pacóvio espectáculo de se tomar a nuvem por Juno e de se tomarem correlações por causalidades.

Embora não seja imune ao efeito reconfortante, tranquilizador, das sondagens positivas para os meus gostos, faço parte do reduzido grupo dos que preferem ver sondagens negativas para as suas preferências. Porque elas põem à prova as minhas convicções e obrigam-me ao confronto com o sentido das minhas conclusões ou intuições. A pulsão gregária que nos é inata tenta levar-nos para as escolhas do maior número por boas e evidentes razões relativas à sobrevivência. Regra geral, imitar os outros é o que nos salva. Mas crescer implica tomar consciência de que em muitas situações – muitas, muitas, muitas – estar do lado das minorias, ou ser verdadeiramente pioneiro e original, é a lógica e necessária consequência de nos estarmos a salvar por nossa própria capacidade e iniciativa. Munido deste heroísmo, até uma sondagem aparentemente desastrosa pode assinalar o triunfo da vontade.

E tu, que preferes?

14 thoughts on “As putas das sondagens”

  1. Eu fico muito desanimado quando uma sondagem não me agrada. Mas, para mim, nesta eleição, não se trata de um puro jogo “perder ou ganhar”. No caso presente considero uma tremenda injustiça culpar pela crise um dos mais dinâmicos primeiros ministros da nossa história. Não digo o mais culto, mas dos melhores “gestores” e de uma dedicação extrema. A derrota de Sócrates seria a derrota da decencia na governação e a entronização daquilo que mais reles conheci até hoje da politica rasteira, caluniadora, mentirosa, trafulha e pulha. Seria o triunfo da verdadeira máfia criada à volta do cavaquismo, depois de ter passado dois mandatos de duas maiorias absolutas a enriquecer, impunemente, com os dinheiros da CEE. O actual presidente é o primeiro responsável pelo polvo que se criou no Estado e nas empresas públicas. O sinal mais visível desse polvo são os dois bancos da vergonha, BPN BPP, criados e geridos pelos que medraram com o cavaquismo. Esses mafiosos tomaram de assalto os media, todos. Têm tudo nas mãos e agora fazem eleger o presidente que querem e o PM que lhes esteja mais a jeito, calando as mazelas dos candidatos e enxovalhando até ao absurdo os adversários destes na peleja.
    Se Sócrates sair derrotado, isso é obra da máfia cavaquista.
    E para que o paralelo com a mafia italiana seja completo, nem falta a ligação desta mafia à igreja católica, com representantes a preceito de marcelos e bagões, sem esquecer os mestres da Opus Dei, que fizeram um lindo serviço no BCP.

  2. Eu prefiro sondagens positivas, meu caro Vale, que o empate nem sequer me serve !
    Obrigado
    Jnascimento

  3. eu prefiro que se prevejam com alguma probabilidade, quase todas estas jogadas montadas PPD/Kavacu

    e se lhes consiga responder quase de imediato…

    o que aconteceu a seguir ao debate, uma intoxicação sem paralelo a partir televisao publica, atraves de uma sondagem sem garantias

    e toda uma orquestra de jornalistas e comentadores “paquistaneses” a soprarem vitorias que duraram 3 ou 4 dias…

    não é possivel permitir mais…

    e isso tambem passa pela capacidade de previsão do que são metodos sujos de sempre da direita

    que nossos inteligentes deveriam aprestar-se a antecipar, primeiro, e responder na peugada, após…

    digo eu que estou reformado….r+

    abraço

  4. Eu prefiro sondagens que não tenham como base uma ridícula amostragem de 600 pessoas seleccionadas todas elas na mesma área geográfica.

    Mas continuam a ser um bom meio de influenciar opinião; isso não posso negar.

  5. Eu também prefiro não dar importância às Sondagens. Até porque ainda nunca nenhuma acertou em cheio. Tenho aliás a convicção de que os seus resultados, entre nós, são sempre enviesados, voluntáriamente ou por defeito metódico, para o sentido da Direita. Mas não influem em nada no meu estado de espírito, muito menos na convicção com que voto (por exemplo, não deixei de votar F. Rosas em 2001, M. Soares em 2006, ou F. Nobre em 2011 por causa das suas más sondagens).

    Mas há patuscos que, infelizmente, se deixam “guiar” pelas Sondagens, numa ampla multiplicidade de sentidos e consequências, aliás. Ainda ontem me dizia um amigo mais patareco que, afinal, tinha que ir votar (PS), porque “eles” estão empatados…

    Todos devíamos era votar tendo em vista exclusivamente a nossa própria consciência, cientes de que o nosso votinho, por si só, coitadinho, tem um peso práticamente nulo na contabilidade eleitoral…

    Tem mais peso aquilo que dizemos e fazemos, pelo exemplo que damos e a ajuda à reflexão que prestamos (seja em que sentido for, claro), do que própriamente o nosso voto, que só deve ter peso, e bem grande, para nós próprios.

  6. Prefiro quando não dizes disparates, mas pelos vistos vou ter de esperar até umas semanas a seguir às eleições…

  7. Por acaso, acho estas sondagens diárias um autêntico desassossego. Não sei se as máquinas partidárias já as encomendavam a título privado. Talvez. A ser assim, os políticos já estão habituados. Para nós, é novidade. O ideal seria desligarmos totalmente, mas temo que seja impossível…

  8. Eu preferia que deixasse de existir mais esse artifício capaz de influenciar sentidos de voto e, nesse sentido, invariavelmente perigoso.

  9. Preferia mesmo a seriedade e ética.

    Quem trabalha estes temas sabe que sondagens diárias (ou quase) realizadas sabe-se lá como, são um vazio, cuja única utilidade é a manipulação do eleitorado.

    Para além de estar a ser destruída a credibilidade e o fundamento que preside à elaboração de um estudo de opinião, independentemente da matéria em estudo, os partidos dão à população, não esclarecimento, mas desinformação, e, partindo deste ponto de vista esta tem sido uma das campanhas eleitorais mais funestas do pós 25 Abril. E como lamento o que está a acontecer…

  10. boa, valupi. gostei dessa do triunfo da vontade. Lembrou-me a Leni ‘der Triumpf des Willens’. ah, lembrou-me também do bunker… der Untergang

  11. ó Marquitos, tens de ver melhor esse alemão: nste caso é ‘der Untergang’ e não ‘die’. já, por exemplo, se estiveres a pensar na vossa saída, o que também viria a propósito, aí sim, já podes dizer ‘die Ausgang’.

    Quanto ao Triumph des Willens ser apenas um filme, aí estás mesmo enganado. É a mais pura da realidade, em Nuremberga 1934, e com repetições a menor escala desde então.

    Mas apesar do que vem aí ser bem menos terrível do que o Exército Vermelho, a melhor descrição do ambiente vem mesmo ‘der Untergang’, para desgosto do ‘Übermensch’ valupi que nos dá aspirina, sempre em prol do Fürher.

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