Arquivo mensal: Janeiro 2011
8 de Janeiro de 2010 – foi há um ano
Fim do mundo
Problem solving
O modo como Alegre transformou um assunto irrelevante numa exibição de inépcia política e fragilidade cognitiva – ao apresentar três versões diferentes em poucas horas para explicar a sua relação com o BPP e a BBDO, e deixando ficar no ar crescentes dúvidas quanto à propalada tentativa de devolução do dinheiro; posto que ninguém sabe onde pára esse tal cheque, a começar pelo próprio – é só a última ilustração do triste facto de ter prestado um péssimo serviço ao País ao se candidatar a estas eleições. Pura e simplesmente, não tem condições intelectuais para o cargo. Isso viu-se no debate com Cavaco com dolorosa clareza, onde nem sequer foi capaz de dar um murro na mesa e exigir respeito pelos portugueses perante o chorrilho de insultos à democracia que o marafado despejava. E vê-se em todos os actos da sua campanha pior do que amadora, sem qualquer rumo estratégico nem sentido táctico.
Do outro lado, temos igualmente um colosso de vaidade, mas a que se acrescenta a perfídia. Cavaco acredita ter uma superioridade moral que o deixa imune à responsabilização. Nada precisa de justificar porque se sabe já justificado perante a sua consciência. Estamos num território diabólico, ou bipolar, onde as declarações de probidade são sinceras, sentidas e violentas. Servem para atirar ao adversário. E permitem as manobras palacianas onde vale literalmente tudo, do conúbio com escroques à conspiração para viciar eleições. O mal é feito em nome do bem.
Alegre é ingénuo e Cavaco é hipócrita. Ambos estão a causar prejuízos incalculáveis à comunidade nestas presidenciais, pois nenhum deles merecia estar em Belém. Mas quão mais depressa aceitarmos que o problema não é deles, mais depressa descobriremos que a solução é nossa.
Obrigado, senhora
Por estas gargalhadas.
O veto de cavaco:temos “homem”!
Formalmente, o PR vetou politicamente o diploma que cria o procedimento de mudança de sexo e de nome próprio no registo civil, alterando o Código de Registo Civil.
Formalmente, foi o PR que ofendeu o grupo de pessoas mais discriminadas da sociedade portuguesa, assim, na linha do seu horroroso historial de vetos e de mensagens tresloucadas à que é, para Cavaco, a sua pátria.
Formalmente, apenas formalmente, foi o PR que, olhando para uma das alterações legislativas mais urgentes que conheço, usou do seu esquema habitual perante certos diplomas, que se traduz em vetar sem fazer qualquer reparo à substância do decreto.
Já demonstrei noutro texto que Cavaco tem tido uma presidência miserável, também no que toca ao uso dos vetos e das mensagens ao país.
O veto de ontem, no entanto, não foi obra do PR, mas do candidato Cavaco Silva, como que em desvio de poder: o homem quer ganhar as eleições, sabe que há uma franja do eleitorado que não lhe perdoa a promulgação do CPMS, nem mesmo com a mensagem histérica associada à promulgação, sabe que esse eleitorado é composto por gente que vê o que seja de diferente e desata a correr.
Cavaco tem em conta a ignorância dos que ouvem a expressão mudança de sexo e que se atiram para o chão a rezar, porque entendem que deve ser uma coisa do tipo vou ao cinema, está esgotado, vou mudar de sexo, recordando Ricardo Araújo Pereira. Esta franja do eleitorado que pensa estar perante uma causa fracturante é gente que pode votar em Cavaco, pelo que lá vimos ontem o candidato a explicar que vetou porque um monte de especialistas lhe disse que o diploma tinha falhas técnicas e tal.
Seria caso para dizer que acabou a crise, a crise, essa malandra que obrigou cavaco a promulgar o CPMS.
Acontece que o candidato presidencial sabe que há décadas que pessoas passam pelo violentíssimo processo de mudança de sexo, perfeitamente regulado, consensual, decorrente do elementar direito à identidade pessoal, tendo, depois, de recorrer a tribunais para que aquilo que são, aquilo que as define, tenha adequada tradução na documentação pessoal. Comecei a ler sentenças que exigem as alterações no registo civil necessárias com 19 anos.
É absolutamente insuportável ler cada uma das histórias pessoais por detrás das decisões judiciais. Mas nada disto interessa ao candidato, homem sem pinga de humanidade ou sentido de justiça, que cospe para um microfone um diz que disse acerca de deficiências técnicas do diploma que chega com décadas de atraso.
Cavaco sabe que se há diploma com deficiências jurídicas é o actual Código de Registo Civil, esse sim, diploma deficiente e que não concretiza o direito fundamental à identidade pessoal. É à conta dessa não concretização que as pessoas mais discriminadas da sociedade recorrem a tribunais, com custos financeiros e psicológicos, para pedir (pedir!) que os seus documentos correspondam à sua verdade.
Paciência, azar, maçador, que importa a Cavaco se, à custa do adiamento, de mais um adiamento, da resolução de problemas vitais de um conjunto de pessoas, pode ganhar uns papelinhos nas urnas?
Que importa ao candidato tudo isto, que importa ao candidato que uma matéria que é consensual apareça como melindrosa?
Nada. É mesmo isso que ele quer.
Temos “homem”!
A direita mais burra da Europa e arredores
Não passa de uma dupla coincidência sem qualquer significado, mas que partilho por vir a calhar: estava na BBDO quando foi criada a campanha do BPP na berlinda, e era account da conta. Trata-se de uma das melhores campanhas de imprensa que Portugal já viu, abundantemente premiada, e deve-se ao Pedro Bidarra – sem protestos, o criativo português mais influente e aplaudido dos últimos 20 anos. Embora seja impossível defender que ela se presta a equívocos de estatuto, pois consistia numa dupla página no Expresso que exibia todos os códigos convencionais de que é um anúncio publicitário, tal não impede que Alegre esteja a dizer a verdade ao invocar que desconhecia qual seria o destino do texto que lhe encomendaram; com elevada probabilidade, se não foi contactado pela agência.
Mas passemos ao que interessa: a direita burra que nos calhou em sorte. Teresa Caeiro, ao trazer este episódio à lembrança, alcançou o extraordinário feito de piorar a situação de Cavaco. É que, de repente, Alegre surge como alguém que se responsabiliza pelas suas acções, as tenta corrigir e até devolve (ou tenta devolver) os tostões em causa num assunto sem qualquer interesse para além de servir de palha para alimentar burros. Alegre revelou ter consciência ética, é a moral da história. Resultado? Cavaco, na comparação, aparece agora como aquele que lucrou à grande numa instituição onde ocorriam actos anómalos – que se garantem ser criminosos por inúmeras figuras públicas, ainda antes do julgamento – e nem sequer é homem para explicar o que andou a fazer nem para devolver o ganho também anómalo. Isto é algo que os fogareiros não vão deixar passar.
Claro que na direita, a verdadeira, estão alguns dos portugueses mais brilhantes, até geniais, que esta terrinha já conheceu. Apenas se dá o infausto fenómeno dos burros os terem afastado ao coice e aos pinotes dos partidos da dita. E as alimárias não descansam enquanto não conquistarem o monopólio da asneira.
Quarto poema para Vó Mam
(in As emboscadas do esquecimento, Edição O MIRANTE, 1999)
Fala de um sábio chinês a um homem triste
Ninguém pode viver sem uma aldeia
Todos nós temos que ter uma avó.
Quando o teu olhar fica cinzento
não procures as pequenas desculpas
aquilo que julgas ser o motivo mais forte
porque só podes alterar o teu olhar
e o cansado ritmo da respiração ansiosa
quando encontrares de novo a tua aldeia
Tens que descobrir o som da chuva ma terra
mesmo quando a única terra à vista
é a dos pequenos jardins desta cidade.
Procura transportar a luza da pequena adega
para o ar ainda mais que condicionado
dos grandes centros comerciais feitos de vidro.
A seguir tens a obrigação de descobrir a avó
aquela que tu escolheste e julgas merecer
desde o momento em que a sentiste como tua.
Depois deves conservá-la, guardar o som
da sua voz quando apaga o teu temor
ou quando enche de calor a tua alma fria.
Verá então como defrontas melhor a cidade
e te parece menos hostil a noite fechada
quando está frio e fica só contigo mesmo.
Verás então como tudo se transforma
e a perdida serenidade que procuras
chega nas mãos da avó que te abençoa.
Ninguém pode viver sem uma aldeia
Todos nós temos que ter uma avó.
Obrigada, Teresa Caeiro
Ao contrário do que se diz por aí, a tal da BBDO não é uma agência que qualquer pessoa conheça, assim, só de ouvir o nome. Há pessoas ignorantes, como eu.
Não vou perder tempo com a profundíssima questão levantada na SICN por Teresa Caeiro, sobretudo quando sei que essa mesma questão foi levantada para comparar o BPP com o BPN para efeitos de dar um chapadão em Alegre. Queria a “novidade” avançada pela Deputada sob o olhar sôfrego de quem a ouvia ter o efeito de desautorizar Alegre quando este questiona Cavaco acerca de quem comprou as acções que ele vendeu, já que Alegre fez campanha publicitária quando era Deputado (e Vice-Presidente da AR) para o BPP.
Pelo que vejo, já estou a perder muito tempo com isto, já vou em 6 linhas de escrita, salvo erro, mas de facto custa-me ver que se atire à cara de um candidato que ele escreveu um texto sobre dinheiro em 2005, para uma publicação que publicitava o BPP, tendo restituído o dinheiro ganho, assim para dizer ao candidato vê lá se te calas que também tens poeira em casa. Custa-me porque não entendo a analogia entre isto e, perante uma série de factos naturalmente relevantes em democracia, fazer – ousar!- uma pergunta a um outro candidato que pode ajudar – se respondida – a esclarecer eventuais ligações desagradáveis Cavaco/BPN. Custa-me, isto custa-me, porque não encontro analogia possível nas situações dos candidatos, no sentido de ser possível afirmar assim: ligações Alegre/BPP versus ligações Cavaco/BPN. Não sendo isto possível, só um maluco pode pensar que Alegre está mudo desde ontem, aliás desde 2005, pelo que não pode perguntar nadica de nada a Cavaco sobre o BPN.
Mas eu queria agradecer à Teresa Caeiro porque fiquei a saber que foi a BBDO que fez campanhas maravilhosas, como as que se dedicaram à prevenção da violência doméstica. Não sabia, de facto não sabia, que era esta agência que fazia coisas tão bem feitas.
Naturalmente, descobri por arrasto rostos criativos da BBDO em 2005. Havia lá gente com esta cara.
Que homem tão bonito, porra.
Gente gira
Os colégios católicos estão danados com as novas regras de financiamento do ensino particular e cooperativo. Há várias acções previstas, como “intervenções nos roteiros presidenciais”, contando com o apoio da Igreja.
Diz o porta-voz dos Bispos: “Certamente que todas as acções, dentro do espírito democrático, são oportunas para abrir os olhos à opinião pública e ao Governo para a injustiça que é pôr de lado o ensino público que é prestado por estas escolas privadas.”
Pois.
Win-win situation
Seria mais provável ser convidado para presidente-treinador do Sporting (ou treinador-presidente, podemos discutir isso com calma) do que ser chamado a dar conselhos a candidatos presidenciais interessados em derrotar essa desgraça chamada Cavaco. Todavia, sei bem o que lhes diria. Por exemplo: não toquem no BPN. Aquilo que está a fazer Alegre, e com surpreendente sucesso a avaliar pelo pânico provocado no Cavaquistão, não passa de mais um erro da sua campanha. Por um lado, porque o assunto não é matéria para um candidato a Presidente da República; por outro, porque mesmo que ganhe a batalha fica condenado a perder a guerra, o tema só consegue reforçar convicções já criadas. Apontar o óbvio, que Cavaco é o político mais hipócrita desde o 25 de Abril, não nos abre o futuro, apenas sela o passado.
Contudo, o BPN entrou na campanha pela boca do próprio Cavaco. Francisco Lopes e Defensor de Moura, que levaram o assunto para os debates televisivos e conseguiram deixar o boliqueimense à beira de um ataque de nervos, não tinham força para inscrever o BPN na agenda mediática. Foram tão-só escaramuças inconsequentes, embora permitindo detectar fragilidades na muralha. E o assunto estaria agora morto, depois da inane prestação de Alegre no debate, não fora a jogada magistral de Cavaco. Ao planear um ataque demolidor sobre Alegre, a sua contribuição acerca do BPN funcionava como o ás de trunfo na manga que intentava cortar definitivamente a vaza ao adversário – e ainda permitir-lhe passar de acossado a acusador. Correu demasiado bem. No final, até os cegos viam por que razão aquele homem era o político há mais tempo em actividade. Tinha sido brilhante na estratégia e levado apoiantes e críticos para um rendido aplauso. Havia só um pequenino problema: oficialmente, e para todos os efeitos, o BPN tinha entrado na campanha.
Sendo assim, que não doam as mãos a quem quiser malhar no Cavaco. O tal que prevê crises económicas com 7 anos de avanço, e que é um dos cidadãos com mais poder em Portugal desde meados dos anos 80, seguramente sabia o que se passava na SLN e BPN de trás para a frente. É o próprio que publicita os seus superlativos conhecimentos de finanças e excepcionais capacidades intelectuais, para além da sua indubitável paixão pela verdade, não há como duvidar. Ora, até o braço-direito de Oliveira e Costa levou para o Conselho de Estado, tamanha a confiança que ele lhe suscitava, como poderia Cavaco ignorar uma realidade tão próxima e cheia da sua gente mais estimada? Mas se não sabia, se tudo ignorava, se era enganado por aqueles a quem dava cargos e honrarias, se Cavaco não passa de um pobre diabo que, sem se aperceber do que lhe fazem, é utilizado para dar cobertura aos mais gulosos bandidos da banca e da alta finança, o País também terá proveito em descobrir.
Terceiro poema para Vó Mam
«O lugar da mãe»
in Mesa dos Extravagantes, edição OMIRANTE 1996
A meio da eira entre duas casas
Numa tarde de sol e no seu lugar
Vê passar por cima dezenas de asas
De pássaros cansados já a regressar
Nunca fica quieta mesmo se parada
Nunca fica triste mesmo na desgraça
Cruzam-se pessoas ao lado na estrada
É a mãe que fica no mundo que passa
Já não tem idade só tem o sorriso
Aberto a quem dele se abeirar
Já não tem o nome nem já é preciso
Porque tem a paz dentro do olhar
Fixo-lhe um retrato aqui no caminho
Com todo o perigo que isso contém
Quem sou eu agora para dizer sozinho
Que é este aqui – o lugar da mãe?
Malangatana
Por quem o ama.
Quando os dados pessoais servem bem a populismos
Longe de mim dizer categoricamente que o Acordo entre os EUA e a República portuguesa no domínio da prevenção e do combate ao crime é um espanto de perfeição ou que não merece uma dúvida que seja sobre algumas das suas disposições.
De qualquer maneira, espanta-me ler títulos de jornais em clima de alerta social com a horrível notícia de que “Portugal cede dados aos EUA” ou de que “eurodeputados pressionam para anular acordo com os EUA”, com a inevitável Ana Gomes a densificar o assunto, até porque ela faz parte da delegação Europa-EUA sobre estas matérias e fala muito com congressistas. Custa, parece, que o Governo português tenha negociado e assinado um acordo sem falar com a Deputada europeia, por exemplo.
Depois é ler disparates sobre o horror de “só” se ter enviado o Acordo para a CNPD em Novembro de 2009, malvadez estranhíssima, quando sabemos que o Acordo foi assinado em 30 de Junho de 2009 e que terá de ser aprovado em Conselho de Ministros, enviado para a AR, não para “eventual ratificação”, como se lê no DN, mas para necessária aprovação. Sem aprovação no Parlamento, não há Acordo, porque a matéria é da competência da AR, e só depois será enviado para o PR, que ratificará o monstro (ou assinará – pormenor técnico), podendo ainda haver lugar a uma intervenção do Tribunal Constitucional.
Independentemente destes importantes aspectos procedimentais, sempre mal noticiados, começa a cansar ver um conjunto de pessoas aproveitarem políticas, leis ou convenções internacionais que, contendo aspectos sensíveis em termos de direitos fundamentais, por exemplo, são base segura para dizer umas coisas sem substância à imprensa e fazer política.
Eles “esperam” que se siga o parecer da CNPD, eles “assinam” documentos contra o Acordo, mesmo não conhecendo o teor do mesmo, eles avisam que é bom que o Governo português esteja a ter em conta o que se vai fazendo sobre isto no templo, perdão, no Parlamento Europeu.
Antes de alarmar as pessoas com disparates, seria bom explicar que há anos que se vem estudando (e pondo em prática), quer a nível europeu, quer a nível de vários países da UE, quer ainda a nível nacional, uma nova forma de olhar para o fenómeno da criminalidade internacional e, concretamente, para o terrorismo.
Sem histerismos, é impossível não concordar com o facto de termos instrumentos ultrapassados para fazer face ao que nos ameça no dia de hoje.
É impossível, pura e simplesmente impossível, combater internacionalmente o terrorismo agarrados que nem lapas aos quadros tradicionais de interpretação nacional do significante por detrás de cada direito individual.
O desafio é encontrar um justo equilíbrio entre a garantia de segurança dos cidadãos – de todos nós- e a protecção que tem de haver sempre, claro, dos direitos individuais.
Não por acaso, em 2004, se não estou em erro, os EUA enviaram o seu “legal adviser” John Bellinger aos vários países europeus, para que se conversasse, já com alguma distância do trauma de 11 de Setembro, acerca de formas de cooperação no combate ao terrorismo.
Não por acaso, o Acordo que pôs alguns Deputados europeus a correr para o “anular”, é feito tendo em conta o Acordo de Prüm, que veio a ser considerado como bom pela UE, que adoptou a Decisão 2008/616/JAI, de 23 de Junho de 2008, relativa ao aprofundamento da cooperação transfronteiras, em particular no domínio da luta contra o terrorismo e da criminalidade transfronteiriças, e a Decisão 2008/616/JAI, de 23 de Junho referente à execução da Decisão 2008/615/JAI, relativa ao aprofundamento da cooperação transfronteiras, em particular no domínio da luta contra o terrorismo e da criminalidade transfronteiriças.
Tudo isto foi tido em conta e o Governo exerceu a sua competência; é isso, aliás, que prevê o Acordo entre a União Europeia e os EUA sobre auxílio judiciário mútuo, no seu artigo 3º, nº 3.
Está tudo bem, como diz o Maradona, e é tempo de esperar sem sobressaltos pelo parecer da CNPD – que pode vir a conter vários reparos, claro – e talvez de parar de gritar que Portugal vai ceder os nossos dados aos EUA, sem mais, porque, nesse caso, é bom gritar também o inverso.
É bom, sobretudo, que se perceba a questão de fundo, que não é certamente coisa de articulado; é antes o enorme desafio com que estamos defrontados, esse de encontrar um equilíbrio adequado entre a garantia dos direitos individuais e o combate ao terrorismo.
Ainda não és leitor do maradona?
Isso, a ser verdade, é uma grande chatice. Não sejas chato, vá.
Segundo poema para Vó Mam
(in Universário, Moraes Editores, 1983)
ABADIA
Empurro esta cancela como quem folheia
a página conhecida dum livro estimado
– isto é, devagar, sem deslumbramento nem surpresa.
Este alvoroço familiar nada tem a ver
com os livros de instrução primária
– desenhavam a família numa cadeia de obediência, castigo e resignação.
Sinto que a vida é de facto um campo de batalha
e não uma sucessão de dias alinhados pelo destino
– basta ver esta criança que é mostrada como se fosse uma bandeira.
Demoro-me a olhar o fogão da cozinha
– a sua muda resposta às sucessivas descobertas da técnica
foi a permanência do seu trabalho eficiente
a quantidade e a qualidade daquilo que nele se pode fazer
hoje como sempre.
A mesa transforma-se numa refeição de palavras
numa confluência de sentimentos
e ganha uma súbita segunda realidade
– é quando as janelas abertas
deixam entrar o sol e o pó que cada um de nós arrastou na estrada
(isto é, os nosso problemas que não cabem dentro dos automóveis)
Ainda não chegámos a Aveiro
Quanto ao BPN, posso dar uma contribuição: eu aprovei a nacionalização do BPN face a uma lei que a Assembleia da República aprovou. Em relação a essa lei manifestei muitas dúvidas e o Governo, e o Banco de Portugal, disseram-me que era a única alternativa para que não acontecesse um descalabro no nosso sistema financeiro e para proteger os depositantes. Eu tenho toda essa documentação na minha mão, na minha mão, e o que me surpreende é que em Inglaterra tenham ocorrido perturbações grandes, grandes prejuízos em bancos, tenham sido nomeadas administrações profissionais independentes e tenham conseguido recuperações notáveis. O que me surpreende é que esta administração do BPN não tenha conseguido fazer aquilo que fizeram as administrações em Inglaterra. Era bom ouvir o doutor Horta Osório, que conhece bem essa matéria.
Eu vou ser muito claro, read my lips, como dizia o outro. O que eu percebi daquilo que o prof. Cavaco Silva estava a dizer não era que a competência técnica das pessoas que lá estavam estava em dúvida, não era isso. Era a interferência do Poder, de interesses que não eram simplesmente os interesses da recuperação económica do banco. E que o banco foi encarado pelo Poder não exclusivamente como uma empresa que tinha de ser profissionalmente recuperada a todo o custo, evitando mais encargos para os contribuintes, mas, provavelmente, como uma fonte de poder, como receptáculo de informações que poderiam ser usadas no combate político.





