Segundo poema para Vó Mam

(in Universário, Moraes Editores, 1983)

ABADIA

Empurro esta cancela como quem folheia
a página conhecida dum livro estimado
– isto é, devagar, sem deslumbramento nem surpresa.

Este alvoroço familiar nada tem a ver
com os livros de instrução primária
– desenhavam a família numa cadeia de obediência, castigo e resignação.

Sinto que a vida é de facto um campo de batalha
e não uma sucessão de dias alinhados pelo destino
– basta ver esta criança que é mostrada como se fosse uma bandeira.

Demoro-me a olhar o fogão da cozinha
– a sua muda resposta às sucessivas descobertas da técnica
foi a permanência do seu trabalho eficiente
a quantidade e a qualidade daquilo que nele se pode fazer
hoje como sempre.

A mesa transforma-se numa refeição de palavras
numa confluência de sentimentos
e ganha uma súbita segunda realidade
– é quando as janelas abertas
deixam entrar o sol e o pó que cada um de nós arrastou na estrada
(isto é, os nosso problemas que não cabem dentro dos automóveis)

4 thoughts on “Segundo poema para Vó Mam”

  1. “Demoro-me a olhar o fogão da cozinha”.

    Não vá sem resposta, uma vez estive a olhar para um fogão de cozinha cerca de 18 minutos, enquanto a minha mulher fritava carapaus para comermos no outro dia com molho de tomate. Terá você batido esse recorde?

  2. Na verdade, eu pasmo, pasmo com este «estrofismo» empirico. O fogão! Nem Camões se lembraria dessa- convenhamos que o fogão do JKF apareceu depois, claro.

    Mas pasmo também com estoutra fantastica – «(isto é, os nosso problemas que não cabem dentro dos automóveis)»

    Este «poeta» não conhece a sensibilidade do artista, FOGO, fale de flores, fale do Céu, fale das estrelas. Que se segue? Um poema ao fogareiro e ás sardinhas e pimentos assados, é?

    Toma aí

    Adoro o Verão,
    Adoro os pimentos
    Adoro o fogareiro dos couratos
    Mas também de outros eventos

    Adoro as sardinhas,
    Com as batatas vizinhas
    mas também adoro
    Chupar as suas espinhas

    Comprei um carro novo
    que rola na estrada
    levanta o pó todo
    deixa-me desesperado

    É assim que vejo a sua poesia. Sem sentido, nem mesmo empirico. Publica, não é, então poe-se a jeito. Ala que se faz tarde.

  3. Um pedido – haja respeito para com os leitores. Não lhes chame trambolhos, asnos, bandalhos, burros. Respeite-os, que eles o respeitarão, mesmo que o critiquem.

    Ainda quer discutir bom gosto? Bom senso?

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