Um neto para Vó Mam

(com um pastel de Fiona Bell Currie)

Um amor que continua
Nossa vida é uma estrada
Moramos na mesma rua
Numa cidade inventada

Um amor multiplicado
Em trinta anos inteiros
Chega forte a todo o lado
Levado por mensageiros

Cada neto uma bandeira
Ministros de uma nação
Todos juntos numa eira
Cabem no seu coração

Na colheita das canseiras
As lágrimas são cereais
As tulhas são verdadeiras
E cheias, não levam mais

Na casa da sua costura
Esquina do nosso destino
Há um olhar que procura
O retrato dum menino

O amor que não termina
Imensa a rede de afecto
No coração feito oficina
Há lugar para um bisneto

Algures na Grã Bretanha
Entre um rio e um jardim
Há um retrato que apanha
A luz dum amor sem fim

Se aqui estivesse pedia
Avó, a bênção da Paz!
E a Vó Mam respondia
Deus te abençoe, Tomás!

Apelo à Direita

Bom povo da direita lusitana,

Sabemos como têm sofrido prejuízos colossais e indignidades atrozes por causa dos bandidos que usurparam a governação, oprimem quem trabalha, perseguem os que criam riqueza e roubam a fazenda pública. A vós, que guardais as nossas melhores tradições e as mais elevadas aspirações, que estudastes em famosos colégios e reputadas universidades, que possuis estantes repletas de tratados, ensaios e florilégios de moral, que sois os mais viajados e sofisticados, que exibis enciclopédico conhecimento sobre restaurantes sublimes, vinhos raros e perdizes de perder a cabeça, que tendes os pais mais cultos, os tios mais altruístas, os primos mais honestos, os amigos mais inteligentes e as amigas mais giras e liberais, em verdade vos digo: haveis uma vocação inata, um direito natural, para mandar nesta merda toda.

Continuar a lerApelo à Direita

Que confusão: queres ver que Alegre também ameaça dissolver o Parlamento?

Mas só se a direita chegar ao poder. Diz o candidato Alegre que, nesse caso, não vai haver revisão constitucional nenhuma, aquela proposta pelo PSD. Ela não passará!

What?

É sabido – e deve sê-lo por um candidato a Belém – que o PR não poder recusar a promulgação de uma lei de revisão constitucional (artigo 283/3 da CRP). Daqui decorre a impossibilidade de veto, político ou por inconstitucionalidade.

A revisão constitucional está concebida para ser dada total centralidade no procedimento à AR.

 Manuel Alegre pode mesmo não saber isto ou sabe muito mais do que alguns imaginam?

Talvez Manuel Alegre esteja tão carregado de espírito de cruzada contra a proposta de revisão do PSD (de facto, péssima), que grita não passarás sabendo que o artigo 283/3 da CRP não impede a o uso da faculdade de dissolução da AR.

Pode dissolver a AR com o propósito específico de querer saber o que nós pensamos das alterações propostas.

Pois é.

Um livro por semana 216

«O prisma das muitas cores – Poesia de Amor Portuguesa e Brasileira»

Num tempo dominado pelas palavras-ruído, este livro com poemas de 135 autores (Portugal e Brasil) vem remar contra a corrente. Começa com quatro citações (Natércia Freire, Olga Gonçalves, Luís de Camões, David Mourão-Ferreira) e nele podemos registar uma oscilação entre palavra e encontro. Como em Ana Luísa Amaral («Se me pedisses de repente e aqui: / «fala das luas e dos dias», eu / nem falaria, diria só que estar contigo / é estar-me») ou em João Rui de Sousa: «As peças do teu corpo bem ligadas / desligam-se para os gestos mais perfeitos: / são joelhos e coxas separadas / é desalinho de ombros e de seios».

Mas também há oscilação entre corpo e espírito. Como em Alexei Bueno («Às vezes em meio / da incursão noturna / pela rica furna / de onde o sonho é veio / Assoma uma sombra / que é tanto em tua vida / nunca antes sabida / e este amor te assombra») ou em Floriano Martins: «Eu fui te buscar do outro lado da busca / do rio e já não tinhas substância ou rito. / Tuas luzes me esgotaram os pássaros / vôo de sílabas, letras como árvores oblíquas / reescrever-te, sempre, sem descanso algum.»

Por fim o soneto de Hélia Correia: «Se alguém batesse à minha porta um dia / E me chamasse à vida que há na rua / Eu – que não quero ouvir – nada ouviria / Que apenas ouço aquela voz que é tua».

(Organização; Vítor Oliveira Mateus, Editora: Labirinto, Capa: Júlio Cunha, Prefácio: António Carlos Cortez, Apoio: Município de Fafe e Museu das Migrações e das Comunidades Portuguesas)

Berliscado em parte numa sociedade civil forte

Esta lei foi obra e graça obra do inigualável Berlusconi e tem sido a responsável por o democrata respirar sossegadamente perante acusações graves, muito graves, pendentes sobre a sua sempre renovada cabecinha.

Hoje, o Tribunal Constitucional italiano, numa decisão de 12-3, deu uma chapada e não duas no diploma. 

Para ser sucinta, passou-se de uma situação em que o senhor estava automaticamente impedido de ser levado a julgamento para uma outra em que a existência de impedimento será avaliada caso a caso por cada Tribunal.

A Itália está entre os meus três países. Impressiona-me a certeza que tenho de que, agora mesmo, lendo os jornais, milhões de italianos pensarão durante três segundos que a decisão é melhor do que nada, ou coisa que o valha, regressando às suas vidas encolhendo os ombros e absolutamente nas tintas para o poder político.

E as vidas correm.

Independência dos magistrados ou dependência dos magistrados?

A independência dos magistrados, em todos os sentidos, é uma das condições de existência de uma democracia material.

Munidos deste conceito elementar, fomos confrontados com a notícia de que todos os funcionários públicos terão cortes nos seus salários, o que muita gente lamenta, mas entende, em face das circunstâncias. É uma medida necessária, dir-se-á, mas, evidentemente, dura para muita gente.

Há, no entanto, uma classe que preocupa alguns de forma acrescida . Por isso lemos que o PSD vai chumbar cortes nos salários dos magistrados.

Por que é que se anuncia a protecção excepcional daqueles que menos sofrerão com estas medidas? Porque cortar o salário de um funcionário dos correios não ameaça o poder, ou a fome dele, ou a expectativa do seu exercício, mas cortar os salários dos magistrados “pode comprometer a independência destes profissionais”, justificação que deve ser entendida ao contrário.

Dos estudos que tenho na memória, recordo-me que os magistrados portugueses, quando analisamos o seu vencimento (no fim de carreira) em comparação como o salário médio nacional, ficam à frente de países do terceiro mundo, como a Bélgica, a Finlândia,  a Noruega, a França, a Suécia,  a Holanda, ou a Alemanha.

É uma classe bem paga, o que tem a ver com a função que exerce.

Sabemos, também, que os magistrados não estão num feudo acima da lei, antes estando sujeitos, precisamente, à lei e a nada mais do que a lei.

Se a situação do país exige cortes salariais que atingem toda a função pública, a que propósito é que os magistrados devem ser poupados?

Ninguém compra a conversa da santa independência dos juízes, porque, absolutizando o princípio, nunca, jamais, em tempo algum, poderia discutir-se a sua remuneração ou questões singelas como a tributação do subsídio de residência ou a pertinência do mesmo em casos que não exigem uma deslocação.

Quem luta para que os cortes salariais atinjam todos mas não os magistrados não está preocupado com  independências, está preocupado com utilidades.

Tem-se medo, precisamente, da independência dos magistrados. E o medo é de quem não a tem, certo?

Why deadlines don’t matter any more

Paulo Querido cita um artigo de Alan Mutter que está cheio de bons conselhos para quem gosta de fazer e ler jornais. O segredo para a captação da relevância perdida, acrescento às ideias do texto, será também a recuperação da ligação política à comunidade na sua universalidade, não aos grupos particulares que calhem estar a condicionar um dado órgão de informação (accionistas, directores, facções partidárias na redacção). Isso pedirá um tipo de jornalista que acredite no lado idealista da profissão, para além de ter a força para resistir às tentações narcísicas e venais do meio. Aves raras, pois.

Esperemos que um dia se faça essa experiência em Portugal. Para que volte a ter o prazer de comprar um jornal de referência. Um jornal de eleição. De paixão.

Vinte Linhas 573

Ruy Castro não é Ruy Belo, Ruy Belo não é Ruy Castro

As revistas antigas, os chamados magazines, fazem as delícias das pessoas à espera da consulta. Há mesmo a expressão «revistas de consultório».

Habituado à Flama, ao Século Ilustrado e à Vida Mundial, espero numa sala de espera e descubro uma pérola jornalística na edição da Revista Pública de 30-5-2010.

Trata-se, nem mais nem menos, de uma errada citação de uma frase de Ruy Castro. Assim: «A selecção se divorciou do povo. Não é mais do Brasil. É um feudo de jogadores que actuam no exterior, defendendo camisas com as quais nada temos a ver». A frase pertence a um artigo (crónica) de 2007 com um título sugestivo: «Selecção sem povo». Não pode nem podia, de maneira nenhuma, pertencer ao poeta Ruy Belo que, não por acaso e a convite de Carlos Pinhão escreveu várias vezes sobre futebol no jornal A BOLA. Mas nunca poderia ter escrito «se divorciou» em vez de «divorciou-se».

Ruy Castro assina uma excelente biografia de Cármen Miranda – que nasceu Maria do Carmo Miranda da Cunha em 9 de Fevereiro de 1909 no lugarejo de Várzea de Ovelha, freguesia de São Martinho da Aliviada (Marco de Canavezes).

O seu ponto de partida é o seguinte: «Todo mundo conhece Cármen Miranda. Mas quantos sabem como a filha do barbeiro e da lavadeira portugueses, criada na Lapa carioca de 1910 e 1920, se tornou – mundialmente – uma das mulheres mais adoradas do século XX?» O livro é a resposta a esta pergunta. E há quatro versos que ficaram para sempre – «Nós somos as cantoras do rádio / Levamos a vida a cantar / De noite embalamos teu sono / De manhã nós vamos te acordar».

Clube dos amigos do FMI

Há longos meses que um grupo de portugueses acorda e vai para a caminha com a esperança de que o FMI já esteja a aterrar na Portela. Qualquer sinal que permita alimentar esse sonho internacionalista, sejam números ambíguos, notícias inventadas ou as vísceras frescas de um borrego, é festejado como uma vitória. E compreende-se bem o entusiasmo: se não for o FMI, eles não se salvam da bancarrota mental. Sozinhos, apenas com os seus partidos, os seus grupos de comunicação social, os seus empresários, os seus administradores públicos, os seus magistrados extrovertidos, estão condenados à indigência política que arrastam há décadas.

Não estávamos era a contar descobrir que o presidente deste clube acumulava com o cargo de Presidente da República, mas estes últimos dias, e estas últimas horas, obrigam a essa conclusão. Para quem ainda tinha dúvidas, aí está: Cavaco Silva é o chefe da oposição ao Governo e o cabecilha da próxima golpada institucional já em andamento.

Alice#5

A primeira Alice do ano oferece Pedro Mexia, Eduardo Salavisa, Tiago Albuquerque, Ricardo Miranda e Maria João Vasconcelos. E até final de Fevereiro oferecerá muitos mais.

Esta revista digital vive em permanente superavit de talento.

Vinte Linhas 572

Dissertação para um quadro de Fiona Bell Currie

Fosse pela sonata para piano nº 14 de Beethoven que veio de súbito encher de melancolia o fim da tarde neste canto da sala a dar para o Tejo e para a Margueira
Fosse por te saber longe, uma semana noutra cidade, frente ao Mar Tirreno, sem mensagens de SMS nem postais porque hoje já não há tempo para os escrever
Fosse pela luz a bater no verde do parque e pela sombra das árvores com as duas silhuetas a meio do quadro, quem sabe, tu e a tua amiga ao encontro da irmã dela
Fosse pelo rio com os seus armazéns todos iguais, perfeitos, alinhados e as suas barreiras para evitar inundações que podem chegar do Mar do Norte
Fosse pelo relógio da torre da igreja onde ouvimos o som das três horas da tarde com o imediato contraponto do alvoroço das bancadas do vizinho Charlton Athletic Club
Fosse pelos olhos cansados dos velhos do cais de Greenwich, afinal iguais na sua tristeza sem fim a todos os olhares de todos os cais do Mundo onde já estivemos pata perceber melhor a nostalgia de todas as viagens feitas e por fazer
Fosse pela música de Erik Satie que veio empurrar as derradeiras palavras desta memória do som do teu nome na sombra de um parque à beira de um rio na cidade de Londres e, sem qualquer dúvida, só pode ser o Tamisa
Fosse pelo verde sempre presente nos quadros desta pintora que vive em Blackheath Park e respira este vento e esta luz branca de um pequeno afluente do Tamisa capaz de dar uma teimosa volta antes de entrar no sossego do grande rio
Fosse pelo quadro de Fiona Bell Currie ou pelo som do teu nome na luz pronunciado

As pessoas e as suas causas: erros, preconceitos e divergências cúmplices

Ontem, ouvi esta entrevista feita, entre outros, por Pedro Mexia ao Miguel Vale de Almeida. Saliento, entre os vários entrevistadores, Pedro Mexia, já que foram afirmações do próprio e o diálogo delas decorrentes que me levaram a escrever um texto que tenho há tempos na cabeça.

A entrevista e as respostas dadas dão pano para mangas para apontar três factores recorrentes nestes temas: um erro histórico, um preconceito e uma atitude.

Em primeiro lugar, há em algumas pessoas a falsa ideia de que as certas causas, como a do casamento entre pessoas do mesmo sexo (CPMS), não têm necessariamente paternidade na esquerda, antes devendo ser olhadas como “causas transversais”, causas que podem ser perspectivadas como mais um passo na conquista vagarosa dos chamados direitos liberais.

Pareceu-me que esta ideia não causou qualquer interrogação.

Com o devido respeito, as conquistas de direitos têm paternidade ideológica e lutas como a que se travou pelo CPMS são, na sua essência, lutas e causas de esquerda. Não se pode falar numa “causa transversal”, simplesmente porque ela não o é, nem mesmo porque aparecem uns quantos da direita a excepcionarem o seu mundo ideológico, a visão do mundo que os rodeia.

Podemos falar, sim, de comportamentos transversais, no sentido em que, evidentemente, a homossexualidade atravessa todos os quadrantes políticos. Mas ter por evidente que os comportamentos são transversais deve levar-nos a explicar de seguida que a reivindicação de um estatuto jurídico de igualdade, de visibilidade, brota de quem pertence a um específico universo político, ideológico e cultural. Este é, portanto, o erro que se traduz numa tentativa de validar nas convicções de todos uma conquista de esquerda, para que ela passe a pertencer, geneticamente, a todo o espectro jurídico.

É natural, por exemplo, que com o tempo pessoas e instituições que combateram o CPMS mudem de ideias. Mas se isso acontecer, o CPMS não deixa de ser património da esquerda.

Não se trata, nesta exposição, de distribuir pontos, mas de não procurar consensos e discursos amáveis à custa de uma leitura da realidade que não a honra.

Explicar que o CPMS pode ser visto como mais um passo nas conquistas do liberalismo é deixar no silêncio a circunstância de nunca ter existido liberalismo em Portugal e de o liberalismo normativo que tivemos, através de todas as constituições oitocentistas, caracterizar-se, em matéria de direitos, pela negação da universalidade. Conforme o texto, de 1822 a 1911, a titularidade de direitos dependia de factores como a classe e o género. O mesmo se passou noutros países.

Em suma, o CPMS é tanto uma conquista da esquerda e da sua visão do mundo quanto o é, por exemplo, a IVG.

Outro erro em que se cai na entrevista, com o devido respeito, é falar-se em anticatolicismo. Não consigo perceber o que é que se pretende significar com este conceito tão pobre, associado à luta pelo CPMS. Pedro Mexia fala nisto, por exemplo, quando se refere à minha atitude, e à da Fernanda Câncio, nomeadamente num debate anterior à aprovação do CPMS.

Falando por mim, posso apenas chegar à conclusão de que ainda vivemos num país no qual se uma pessoa é sentada à frente de um padre e contraria as posições do padre, padece de anticatolicismo. É automático.

Na verdade, é-me absolutamente indiferente o que a Igreja defenda em matéria de costumes: é o que é, conheço o que defende, e é um problema dos fiéis. Isso não me impede de criticar a interferência da Igreja no poder, por exemplo, quando assim entenda que é o caso, ou de, colocada num debate em que o opositor é um padre, contrariar, como não pode deixar de ser, as suas ideias. Mas já percebi, e esta entrevista veio fortalecer a minha convicção, que basta contrariar a Igreja ou alguém da Igreja para se ser anticatólico. Resta saber se o padre perante quem eu debato é um feroz anti-ateu.

Finalmente, nestes temas que desencadeiam uma luta de e por convicções, vem ao de cima como nunca, sob forma de mera análise do debatido, uma atitude sem cura à vista, o machismo. Trata-se de um sexismo difícil de suportar com postura amena, que ressalta em mais um programa de televisão e que é amigo do país dos bons costumes: mulheres que tenham uma intervenção forte na forma como se expressam são sempre, mas sempre, vistas por certa gente como não cordiais, ou antipáticas ou pouco conciliadoras, para não dizer histéricas.

Não vale a pena tentar explicar a calma de uns em contraposição à agitação de outras com a experiência na Academia (como o Miguel tentou), digo eu que tenho 15 anos dela.

A questão é que se uma mulher é insultada aos gritos e com uivos, numa estratégia para a calar, estando sentada em frente a uma plateia que levanta cartazes com definições criminosas de “homossexualismo” e ouvindo de tudo, desde os homossexuais serem anormais a os mesmos serem comparáveis com o que for, se essa mulher levanta a voz, se aponta ao dedo à plateia cobarde que uiva cada vez que ela fala, essa mulher é histérica, anticatólica, claro, pouco harmoniosa e coisa má para os “indecisos”, usando as palavras de Pedro Mexia.

Se um homem comparar homossexuais a animais, disser erros de direito propositadamente para confundir as pessoas, gritar quando isso lhe é apontado, acusar a mulher de ter mentido quanto à sua formação ou se, sendo padre, disser com voz de veludo que até tem amigos homossexuais, mas eles ou um pai ter relações com um filho é a mesma coisa, esse homem é incisivo, activo, participativo, tudo, porque a forma está correcta e é homem.

Evidentemente, se for explicado ao padre que considerar que alguém cometeu um erro é diferente de considerar que alguém é um erro, temos histérica e anticatólica.

 Este eterno duplo padrão de exame da intervenção feminina e masculina não se esgota no que foi dito numa entrevista; a entrevista serviu apenas de mote para estas palavras. Por outro lado, claro que falo por mim, quando recordo que participei em muitos outros debates televisivos antes e após o Prós e Contras, tendo ouvido por graça perguntarem-me se nesses ia drogada, já que não levantei a voz nem apontei o dedo a ninguém. Na substância, não disse nada de diferente, mas não senti necessidade de reacção, com inevitável dose de emocionalidade, em debates sem um ambiente de hostilidade, de agressão e de insulto anormal, como o que encontrara no famoso Prós e Contras.

Nada disto exclui que perante uma mesma agressão uma mulher possa reagir com calma olímpica e um homem com violência. Do que se trata é de apontar a qualificação de ríspida, histérica ou anticatólica que uma mulher merece sempre que tem um comportamento que, se fosse de um homem, seria qualificado de frontal, incisivo ou de corajoso.

Para além dos exemplos, esta entrevista fez-me pensar mais uma vez na existência de uma cultura de divergências cúmplices.

As pessoas pertencem a mundos diferentes, por um lado, defendem causas opostas, mas falam umas com as outras numa espécie de código de classe. É por isso que os restaurantes estão cheios de mesas com pessoas que negam as outras que bebem do mesmo vinho. Assim garante-se a tal classe, e com isso tudo o que der jeito e que daí venha, desde logo não se ser um excluído de circuitos de sedes de poder. O código de acesso a tudo isto é um código tacitamente acordado de não-agressão.

O que move uma pessoa livre quando abraça uma causa, antes do interesse pessoal na mesma, é a convicção de que reside ali um princípio de justiça.

Gosto de pessoas movidas pela convicção, que vão à luta contra quem quer que seja, que lançam mão do direito à indignação quando são vítimas de agressão e de insulto, que preferem a substância de cada um de nós a uma forma, seja ela qual for, com o conteúdo que for, mas obediente à lógica das divergências cúmplices; gosto de pessoas que usam razão e emoção, pessoas sem medo dos rótulos, que não pensam duas vezes antes de contrariar um adversário à conta do anti que lhes vai ser pregado às costas, gosto de pessoas que debatem ideias, que pagam o preço que for por isso.

Se essas pessoas forem mulheres, sei que estão condenadas à já referida dupla valoração.

Em suma, ser livre tem um preço.

E ser mulher também.

Good food for good thought

Faced with pandemics, security crises, threats of global terrorism and crime, climate change and many other looming threats, new approaches to global governance are required. This does not mean that nation-state governance will become less relevant, but rather that effective governance is required at both the national and global level. The stakes for getting global governance right have never been so high.

The omens, however, are not good. If past decades are any guide, new problems will be thrown at old and outdated institutions. Finance is the best equipped and most institutionally developed of the global governance regimes, yet the Bretton Woods, Central Banks and many other financial institutions failed to predict, prevent, or understand the endemic systemic risks in the system. Moreover, these institutions have yet to elicit the structural changes needed to proactively manage future systemic risks. Systemic risks ultimately require systemic responses. However, the pace of technological innovation may be expected to continue to outpace regulation, and even the best-equipped institutions will struggle to adapt to the rapidly evolving complexity of systemic risks.

On Systemic Risk

Vinte Linhas 571

«Dicionário excêntrico» de Amadeu Ferreira d´ Almeida

Publicado em 1961 como «Antologia do espírito», integra 4374 citações de 1072 autores e pode ser lida a partir de 23 verbetes. Estes ou outros, à escolha livre.

Açúcar – Um convidado, ao tomar o chá, pede açúcar à dona da casa. Se ela é irlandesa, entrega o açucareiro. Se é inglesa, pergunta: «Uma pedra ou duas?». Se é holandesa, diz: «Mexeu bem? O açúcar está no fundo!»

Banqueiro – Aquele que empresta o dinheiro dos outros e guarda os juros para si.

Casamento – Há muitas mulheres que no dia seguinte ao casamento ficam viúvas do marido que tinham imaginado.

Descanso – Deus criou o Universo e descansou; depois criou a mulher e desde então nem o homem nem o Universo puderam descansar.

Enganar – Se alguém me enganar uma vez, Deus o amaldiçoe; se me enganar duas, Deus o amaldiçoe e a mim também; mas se me enganar três, Deus me amaldiçoe somente.

Fazer – Uma mãe leva vinte anos em fazer do filho um homem e outra mulher faz dele um parvo em vinte minutos.

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Internetismo

Quem quiser conhecer a verdade – repito: a verdade; insisto: a verdade – sobre aquilo que diz e faz o Presidente da República, basta ir à página da Internet da Presidência da República. Lá, está a verdade.

Cavaco Silva

*

Foi em Sobral de Monte Agraço, entre canhões e soldadinhos, que Portugal ficou a saber onde está a verdade presidencial: não nas palavras e actos do Presidente, não nas suas decisões políticas, muito menos nalgum porta-voz dado à frequência de pastelarias, mas num certo sítio da Internet. 6 meses após este oráculo, acumulam-se os sinais de que Cavaco terá mesmo fundado uma nova religião – o Internetismo. Perfeitamente adequado aos tempos celerados que vivemos, este novo credo já não se filia nas chamadas religiões do Livro e sua pesada herança veterotestamentária, antes inaugura uma nova categoria: as religiões da Página. A verdade cabe numa página, nem sequer precisamos de recorrer a uma folha, agradeçam e venerem uma das mais estonteantes revelações que nos foi transmitida pelo profeta Cavaco.

Contudo, não se pense que esta modernice da verdade paginada diminui o aparato exegético e hermenêutico necessário à plena fruição da mesma. A verdade continua a ser para poucos, apesar de muitos serem chamados. Tomemos como exemplo algo simples, com três letrinhas apenas: SLN. Onde se encontra, no corpus digital do Internetismo, essa misteriosa trindade? Recordemos as palavras do profeta:

Recentemente foi noticiado que eu tinha tentado esconder que da minha carteira de títulos e da minha mulher faziam parte acções da SLN. Não é verdade. E se eu digo que não é verdade é porque estou perfeitamente seguro que o posso dizer.

Eis uma das mais valiosas bênçãos para quem funda uma religião, a capacidade de separar a verdade da mentira com perfeita segurança. E a faculdade que permite o acesso à contemplação da verdade é a simples leitura:

Quem diz que procurei ocultar que da carteira de títulos minha e da minha mulher faziam parte acções da SLN não está a dizer a verdade ou então não soube ler o comunicado que eu fiz.

A alternativa é entre a falta de carácter ou o analfabetismo e a iliteracia, no Internetismo não há espaço para mistelas. Estamos perante um socratismo, por mais paradoxal que possa parecer, em que se admite uma via racional para a verdade a partir do próprio ser cognoscente e sua natureza ontológica. Há só uma condição: saber ler comunicados. Pois bem, no comunicado em causa, guardado no templo da verdade, vemo-nos face a 2.199 caracteres que, curiosamente, em nenhuma das suas configurações acabam por formar a troika SLN. Será isto causa suficiente para dizer que se ocultou a fugidia sigla? Nada mais longe da verdade, a tal verdade verdadeira, visto a chave do enigma consistir no que o profeta Cavaco indicou claramente: saber ler.

Por exemplo, tomemos este passo do comunicado:

As aplicações feitas pelos bancos gestores constam, detalhadamente, da referida Declaração de Património, entregue no Tribunal Constitucional – assim como o número de todas as contas bancárias do casal, excepto uma, aberta no Montepio Geral, por acolher apenas depósitos à ordem – a qual, repete-se, pode ser consultada.

Aqueles que sabem ler comunicados – portanto, os ungidos que não mentem – encontram aqui a SLN em tudo o que é palavra ou espaço entre as letras. E a mensagem é a seguinte: a SLN foi despachada numa Declaração de Património para as masmorras do Tribunal Constitucional. É lá que ela se encontra e até pode ser visitada pelos familiares ou curiosos. Mas porquê tal triste fado? Porque a SLN não cabe numa página, aquilo são caixotes e caixotes de revelações. Ora, se não cabe numa página, não faz parte da verdade.

O Internetismo, como se vê, ainda vai salvar muita gente.

O cais dos soldados, os livros e as gravuras de Greenwich

Estamos em Blackheath. Na Morden Road passamos à porta da casa do compositor Charles Gounod que aqui viveu nos tempos da guerra entre e França e a Prússia. Vinha à tarde no comboio de Charing Cross e alugava uma carruagem à porta da estação dos comboios. Mais à frente, no planalto, ficamos a saber que a actual A2, um dos itinerários principais da Inglaterra foi, em tempos muitos recuados, a estrada romana para Canterbury. Henrique VIII, entre pompa e circunstância, aqui recebeu Ana de Cléves como futura esposa, no ano de 1540. Por sua vez Wat Tyler juntou em 1381 uma assembleia de camponeses revoltados nesta mesma estrada. Hoje o coração desta imensidão verde recebe mães com crianças, passeadores de cães, papagaios de papel, carrinhos de choque e jogatanas intermináveis de futebol – muda aos seis acaba aos doze. Os circos, tal como as caravanas de ciganos, já são mais raros. Foi neste relvado sem fim à vista que nasceram alguns clubes de rugby e de futebol Um deles, o Blackheath Football Club, fez parte dos pioneiros que, em 1863, na Freemason´s Tavern, criaram as leis do moderno futebol, tornado a sua prática independente do rugby. Cruzando em diagonal o Greenwich Royal Park, cedo chegamos à zona do mercado a funcionar em grande aos sábados e domingos. Muito perto das antigas cozinhas onde os velhos marinheiros, sem família e sem dinheiro, vinham às sopas reais, surgem as mais inesperadas lojas. De antiguidades lhes chamamos em Portugal. São as coisas ditas efémeras: mapas, cartazes, postais ilustrados, livros antigos, fotografias, discos LP e EP, pequenos móveis úteis às costureiras antigas, no tempo das libras se dividirem em xelins e em dinheiros. Nessa rua descubro o conceito activo e prático de fundo editorial: compram-se cinco livros por cinco libras, cada livro mais barato do que uma viagem de autocarro. Vejamos um conjunto: uma história breve do Jazz, um livro da Penguin sobre pássaros, uma biografia de Frank Sinatra, a vida do guarda-redes mais lendários do vizinho Charlton Athletic e um guia de Londres, bairro a bairro, de Barnet e Merton, de Ealing a Lewisham.

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Viva o Presidente da República Portuguesa!

Temos duas semanas para fazer destas eleições presidenciais algo que não nos envergonhe. Por exemplo, escolher em quem votar. Quanto a isso, a solução para o meu problema chama-se Defensor de Moura. Se existir uma segunda volta com Alegre, passaremos para uma nova eleição, um problema diferente. A bipolarização tratará de impor a sua lógica, acabando com as dúvidas para a enorme maioria; embora eu, nessa eventualidade, vote em branco. Cohérence oblige. Mas há muito em jogo para além da contagem dos votos.

A mais urgente tarefa é a de limpar a tralha que messiânicos, decadentes e patarecos lançam para o meio da rua. Eles repetem, sem mostrarem sinais de fadiga, que o Presidente da República, no actual regime, é uma figura sem poder, logo sem importância nem consequência. Quem assim fala não tem estado em Portugal desde Março de 1986, altura em que Soares começou o ciclo das magistraturas de influência. Mas quem primeiro mostrou toda a força que a Constituição deposita no Presidente foi Sampaio. Começou com a decisão de permitir a continuação de um Governo cujo anterior primeiro-ministro tinha fugido esbaforido, e consumou-se com a decisão de afastar um Governo cujo eleitorado tinha debandado assustado passados 120 dias de Santana Flopes. Para quem pensava que Sampaio apenas ambicionava pôr este Planeta a dormir com os seus indecifráveis discursos, as duas decisões fizeram História. E seguiu-se Cavaco, um Presidente que alimentou as mais variadas insídias contra o Governo, desde o permitir ensejos de aumento dos poderes presidenciais e formação de Governos nessa esfera até à obscena aliança com a estratégia negra do PSD no consulado de Ferreira Leite, passando por uma manipulação da comunicação social para efeitos de perversão de actos eleitorais. Coisinhas menores, como sabemos.

Para além de reconhecermos que os equilíbrios entre Presidente da República e Parlamento, estabelecidos na Constituição, permitem intervenções presidenciais de importância absolutamente decisiva para o nosso futuro colectivo, é também evidente que o papel do inquilino de Belém pode ser agregador de vontades e inspirador de coragem e liberdade. Para tal, porém, tem de dar o exemplo. Todos os meios e condições lhe são oferecidos em contrapartida. Não faltam oportunidades para um Presidente influenciar a comunidade, seja na relação com o Governo, seja na relação com o Povo. Se os concidadãos que chegam a essa tão alta honraria não realizam todo o potencial do cargo em favor do País, é só porque não o podem fazer por falta desse destino, não porque não o desejem. Da nossa parte, a melhor forma de os respeitarmos é permanecermos sem vacilar na muralha que os defende e julga – apesar de poderem ser figuras tão nefastas como, por exemplo, um Cavaco Silva, o valor da sua função continua intocável. Precisamos de um Chefe de Estado de quem nos orgulhemos e não podemos descansar enquanto não o encontrarmos.

Cavaco não é nenhum Sócrates

Sócrates foi alvo de investigações pela Judiciária, inquéritos pelo Ministério Público, averiguações pela Câmara da Guarda, escutas pelo DIAP de Aveiro e deliberações do Supremo Tribunal, a que se soma a perseguição implacável da imprensa e da oposição. Nada se provou contra ele, sequer alguma vez foi considerado suspeito fosse do que fosse aos olhos da Lei ou meramente constituído arguido. Sócrates, portanto, oferece boas razões para o considerarmos um dos cidadãos mais honestos que moram e trabalham em Portugal, posto que a sua vida tem sido virada do avesso e devassada publicamente, nada se encontrando de ilícito.

Já Cavaco, como dizem convictos e informados os seus apoiantes, é diferente de Sócrates em tudo e mais alguma coisa.