
Chama-se Nicole Minetti e é uma antiga higienista oral.
Acordei às 7 da manhã a ouvir-te gritar “Só com um tiro na cabeça!”.
Tendo andado por aqui a vasculhar nos meus papéis, e a rever todas as entrevistas que dei ao Mário Crespo, e não encontro provas, ou meros indícios, de ser eu o responsável por termos os intragáveis candidatos presidenciais que temos. Há rumores, certamente, boataria que deposita em mim essa culpa, mas vou fingir que sou sério e não dar ouvidos.
Excelentes pessoas têm excelentes razões para votar neste ou naquele. Os restantes, um grupo de tamanho indefinido, estão completamente à nora. Apenas uma certeza os une: não votariam Cavaco nem que nascessem duas vezes. Pois para esses é tempo de dar uma palavra de esperança: queridos amigos, tanto faz onde acabemos por votar, já que vai dar tudo ao mesmo – contribuir para que haja uma 2ª volta seja lá com quem for. Não votar, votar em branco ou nulo é estar a contribuir para a vitória de Cavaco logo à primeira, coisa que a acontecer seria um atestado de menoridade cívica que teríamos de carregar durante 5 anos. A 2ª volta sempre viria dar alguma racionalidade ao panorama político nacional, onde Cavaco se revelou o pior Presidente da República desde o 25 de Abril; para além de ser política e moralmente responsável por uma tentativa criminosa de interferência nas eleições legislativas e autárquicas.
Se fosse eu a mandar nisto, a 2ª volta seria disputada entre Defensor de Moura e José Manuel Coelho, de longe os candidatos que estão melhor preparados para o cargo. Mas só voto no Defensor, uma eventual 2ª volta sem ele será uma roleta russa que não contará com a minha cruz.
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Adenda: acabo de ler o texto do Rui Tavares que diz exactamente o mesmo no essencial, mas com uma muito maior riqueza de conteúdo.

O rosto da esquerda representa o efeito da pele bronzeada pelo Sol. O do meio, a tonalidade natural. O da direita, o efeito de se consumirem mais carotenóides. Segundo dizem os bacanos que estudaram a cena, o rosto da direita é o que parece mais saudável – logo, mais atraente – ao olhar exterior.
Que achas, é tanga ou devemos começar o dia a comer cenouras e talhadas de abóbora?
Primeira figura
Barbara
Tudo o que Sócrates faz é ruinoso ou criminoso
Tudo o que a direita faz é ter inveja de Sócrates
Tudo o que a direita gostaria de fazer é ruinoso ou criminoso
Celarent
Nenhum membro do Governo é honesto ou competente
Todos os tipos da direita querem ir para o Governo
Nenhum tipo da direita é honesto ou competente
Darii
Todas as pessoas de bem votam Cavaco
Alguns escroques são pessoas de bem
Alguns escroques votam Cavaco
Ferio
Nenhuma realidade é fantasia
Algumas coelhas são reais
Algumas coelhas não são fantasia
“Prolongar a campanha tem custos muito elevados”. (Ou: vejam lá se acabam com este inferno, a democracia, e espetam comigo em Belém logo à primera, ok?).
Diz-me fonte de Belém que Cavaco terá respondido sem custos a este inquérito.
E ainda, imperdível: do peito às balas, passando pelo suicídio por ordem da Segurança Social e chegando aos seus pares, Gandhi, Martin Luther King e Nelson Mandela.
João Pedro da Costa, o melhor blogger do Mundo e um dos melhores em Portugal, alguém que heroicamente moldou o destino para me permitir ser seu primo por afinidade antroponómica, voltou às lides com estrondoso aparato académico: mv flux
Para além do objecto da sua investigação, vídeos musicais na Web, ele está a desenvolver um estudo que abarca toda a cultura digital contemporânea. Absolutamente precioso para vários públicos, de cientistas a jornalistas, passando pelos simples (ou complexos) curiosos.
A memória de um jogo quase 44 anos depois
Por um daqueles acasos da televisão dei com um canal de desporto mas não o actual – o chamado desporto clássico. Tratava-se da transmissão (a preto e branco) do único jogo da final da Taça dos Campeões Europeus a que eu, na verdade, assisti; foi o Milan – Celtic de 25 de Maio de 1967 no Estádio Nacional.
Tinha eu 16 anos acabados de fazer em Fevereiro e já não me lembro qual o dia da semana mas recordo bem que fui de eléctrico para o Jamor – ainda havia o 15 com atrelado que fazia raquete perto da ribeira. Fiquei por acaso atrás da baliza onde surgiram todos os três golos do jogo: o dos italianos de grande penalidade na primeira parte e os dois do Celtic por Tommy Gemmell e Steve Chalmers na segunda parte. Era (e é) a baliza do lado de Oeiras. Lembro-me de simpatizar com os escoceses por causa do verde e porque tinham ganho o direito de disputar a final ganhando e jogando bem perante três grandes equipas europeias – Zurich, Nantes e Dukla de Praga.
Na altura não fixei que o árbitro era alemão mas lembro-me bem de que antes do golo do empate uma bola pareceu dentro da baliza dos italianos e antes do segundo golo do Celtic o guarda-redes do Milan puxou disfarçadamente um pé a um avançado dos verdes de Glasgow. Mas tudo se compôs pois o endiabrado Jimmy Johnstone, um «cabeça de cenoura» irrequieto, deu água pela barba aos experientes jogadores italianos em cuja defesa brilhava Fachetti. No ataque brilhou mas pouco o conhecido Mazolla, autor do único golo do Milan obtido de penalty. Perto de mim um escocês não parou de cantar durante todo o jogo. Parece que já tinha a certeza de ser um dos «Lisbon lions».
Já estou farta de esperar que Cavaco se pronuncie sobre a farsa das escutas. Cavaco não dirá uma palavra sobre o mais torpe ataque ao Governo dirigido por quem deve ser um árbitro, uma referência suprapartidária, um moderador que ajude na busca de soluções para crises.Uma vez que Cavaco tem demonstrado ser o mestre da cooperação estratégica com o PSD, contra o Governo, não espero, não espero mais que o homem confirme o crime cometido. Cavaco foi o agente de uma “publicidade e calúnia”, se quiserem, com a agravante de ter usado meios de comunicação social para o efeito. É caso para se pensar em condenar o homem com pena de prisão até dois anos. Mas enfim, Cavaco não vai confirmar o crime, vai continuar a ser Cavaco.
Tenho visto aqui e ali os candidatos em campanha e, tendo uma opinião sobre cada um, tenho uma certeza sobre Cavaco: estou perante um vazio de pessoa, alguém sem consistência ideológica, sendo enganador o que possa dizer nesse sentido, porque é tudo espuma; estou perante uma pessoa que quando fala espontaneamente, sem um papelito de apoio, revela o pior de si, melhor, revela-se; cai o pano e lá está o deserto, o homem que não entende nada de nada, apenas palavras, falem-lhe de pobreza, com olhar de pobre, e Cavaco faz-se ao pobre dizendo da pensão da “mulher” (vamos esquecer os anos de serviço da senhora), uma quantia tão pequena que “ela depende de mim”, diz, “sou eu que a sustento”, afirma, “mas como ela anda ao meu lado e não atrás de mim, merece que eu a ajude”.
Este horror repete-se quando Cavaco fala no desemprego, no crescimento da economia, na estabilidade política. São palavras, sempre palavras, palavras para um homem que é um ovo.
De que fala Cavaco? De que fala esta sombra que acena de longe às pessoas? Por mais convencida que esteja de que Cavaco se dedicou a minar o Governo PS, por mais que me lembre que Cavaco, ao contrário de Sampaio, que ajudava a resolver crises, tinha o gostinho de intervir publicamente alinhado com as críticas da oposição, tenho perguntas para fazer. Cavaco fazia canalhices como audiências públicas com contestários das leis exactamente quando elas estavam em discussão e aprovação na AR.
Era esse o momento em que Sampaio sabia parar, numa postura imparcial e de magistratura de influência útil.
A difícil aprovação da lei das finanças locais, por exemplo, convivia com a audiência, nesse momento, da Associação Nacional de Municípios. Venham, venham, dizia cavaco.
Já falei de muita coisa e tendo isso em conta e o vazio que vou vendo e ouvindo em Cavaco, o que o qualifica como perigoso, gostava que alguém, se já desistente das escutas, perguntasse o seguinte a um homem que pode vir a exercer novo mandato:
– o que entende por cooperação estratégica (recordar os vetos absurdos, as mensagens de pavor ao país, etc)?;
– em que situações dissolveria o parlamento? (recordar que esse acto do PR é sancionado por nós, que estamos cá, eventualmente para lhe explicar, pelo voto, que fez mal);
– qual a lição que retira das diferentes dissoluções ocorridas no passado, em que o PR aparece como exercendo o seu poder com adequação e sendo o seu acto validado pelo voto das legislativas seguintes?
– quais entende serem os requisitos constitucionais de demissão do Governo? Sabe que esse poder só foi exercido uma vez, em 1978, antes da revisão constitucional de 1982 (Foi o Eanes que demitiu o Governo de Mário Soares PS/CDS) ? Por que será?
– concretizando melhor a pergunta anterior: para demitir o Governo o requisito é o irregular funcionamento das instituições democráticas?
– o que faria se Sócrates pedisse a demissão para ir ocupar o cargo de Presidente da Comissão Europeia e o PS apresentasse, com maioria parlamentar, uma alternativa de Governo?
– como deve garantir o regular funcionamento das instituições?
– o que entende por magistratura de influência?
– como acha que exerceu e deve exercer os poderes de veto, de fiscalização de leis, e de auscultação da sociedade?
– não podemos mesmo falar sobre as escutas? E se não gravarmos a resposta?

MA – [atabalhoada, confusa, errada, inepta apresentação do caso das escutas]
JS – Cavaco Silva, quer responder?
CS – Quero responder e mais do que isso… O sr. candidato anda muuuito distraído. Um candidato não pode andar distraído quando tem todos os seus meios à disposição. Pode ir consultar a página da Internet da Presidência da República e está lá tudo aquilo que eu devia dizer – e que é a verdade! Sabe, a verdade é muito fun-da-men-tal, principalmente para a resolução dos problemas de um país. Porque um cidadão in-for-mado, um povo informado, enfrenta melhor os problemas do País. A verdade gera confiança, enquanto a ilusão o que faz é gerar descrença.
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Debate – minutos 20 e 21, a resposta de Cavaco dura 30 segundos e o assunto não volta a ser falado.
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Um dos acontecimentos mais extraordinários da minha vida adulta, como cidadão para quem a política é parte constitutiva da identidade, é a Inventona de Belém. O espanto não está tanto no facto de ter acontecido, conhecendo nós cada vez melhor o calibre dos seus mentores e executantes, mas no facto de ter desaparecido sem qualquer consequência, seja ela qual for. E se o Governo, portanto o PS, nada podia fazer naquele contexto – com eleições daí a semanas quando a conspiração foi lançada ou a dias quando foi desmontada, e com a obrigação de formar um novo Executivo agora sem maioria parlamentar e no meio de uma desvairada crise económica – é inacreditável como o tema não foi aproveitado por nenhum dos candidatos presidenciais que se propunham derrotar Cavaco. Nenhum, pois o que fez Alegre no debate é igual a nada. E ainda se deixou tratar de forma ignóbil, como um farrapo onde se escarra e manda ao chão.
Qual a razão que justifique não ter o Ministério Público aberto um inquérito-crime neste caso? Não estaremos, deixa cá pensar meio segundo, perante um retinto atentado ao Estado de direito?
O esplendor da ignorância ou as «sintas» para revenda
Nos anos 80 lembro-me bem de uma loja de roupa interior ali para o Campo dos Mártires da Pátria que ostentava orgulhosa o letreiro «soutiens e sintas para revenda». Ainda não se falava no acordo ortográfico brasileiro que visa implantar o chamado «português pataxó». Os anos passaram, a vida deu voltas e um destes dias atravessei de novo o jardim do Campo que já foi de Santana a caminho do Martim Moniz. Vinha a pé da SPA na Avenida Duque de Loulé com a ideia de queimar os açúcares e de me distrair um pouco. Logo me recordei do esplendoroso erro de ortografia que permanece – «sintas» em vez de cintas. Não se sabe, ninguém sabe, se na origem dos erros está o som – quem escreveu «sintas» pode ter-se lembrado de «sinta-se bem». A frase publicitária até podia ser: «Sinta-se bem com sintas marca XPTO» mas isto é apenas uma suposição. Seja qual for a razão, o erro permanece desde 1980 quando eu vinha da Rosa Araújo para Gomes Freire num eléctrico (o 20) que já não há e ele fazia raquete frente à porta de armas da Academia Militar.
Mas para acabar o dia em beleza fui a um Concerto de Reis na igreja de Santa Catarina (Calçada do Combro) com cinco coros de bancários e o do INH onde li no programa que Georg Friedrich Haendel nasceu em 1965 quando nasceu em 1685. Também li «alferarrede» e «cast. branco» em vez de Alferrarede e Castelo Branco. E George Frideric Handel são três erros em três nomes. Foi um dia em beleza para quem gosta de erros de ortografia e de sentido. Esta de Belém e Provença aparecerem em caixa baixa e de Haendel ter nascido em 1965 só pode mesmo ser um erro de computador…
A questão dos comentários, nas caixas dos jornais… Quer dizer, eu acho que começa a ser preciso arranjar meios de meter mão naquilo, porque aquilo basicamente é ódio atrás de ódio… Quer dizer, já vai muito além de qualquer razoabilidade de liberdade de expressão.
João Miguel Tavares
Eu, nada que apareça nas caixas de comentários dos blogues, ou dos jornais, me espanta porque eu acho que é uma sarjeta. [Alguém lhe chamou “esgoto a céu aberto”! – Carlos Vaz Marques] Sim, sempre foi, e não percebo como é que os jornais continuam a defender isso.
Pedro Mexia
Eu não sei se é mau isto de haver sarjetas nos blogues e nos sites dos jornais. Eu acho que devia haver mais estudos sobre a utilização das novas tecnologias pelo homem de Neandertal. Isso é uma coisa que me surpreende sempre: gente que eu suponho que vive em cavernas, por aquilo que diz e pelo modo como o diz, mas que está com um computador à frente, com um teclado.
Ricardo Araújo Pereira
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Vários jornalistas e publicistas, alguns deles acumulando com longa experiência como bloggers, neste período das reacções à morte de Carlos Castro voltaram à ladainha contra as caixas de comentários. Na sua entusiasmada opinião, as mais graves patologias psíquicas e morais que podemos detectar na sociedade correm soltas nessas fossas infectas a que se acede pela Internet para deixar conjuntos de caracteres.
Esta atitude, vinda daqueles que, por boas ou aleatórias razões, fazem parte da elite intelectual que intervém no espaço público, nasce de um triplo erro. Começam por não perceber o poder simbólico do crime em causa – onde a mutilação sexual, precisamente por ter sida feita por um homem noutro homem, cria uma situação de trauma colectivo que obriga a um difícil, e para muitos impossível, exercício de doação de sentido. Até isso acontecer, alguns homens, mais uma vez, ficarão predispostos para explosões de violência emocional, consequência do stress em que se encontram. Depois não entendem as noções básicas da comunicação na Internet, onde o vazio somático e o uso da linguagem escrita são factores inevitáveis de equívocos interpretativos (não temos a expressão facial e o tom de voz, o que pode levar a que uma piada seja tomada como uma ameaça, por exemplo e etc.) e de pulsões justiceiras (as flame wars como folclore das comunidades digitais desde o começo da Web). Há inúmera literatura científica sobre o fenómeno. Por fim, não compreendem que a sua verrina contra o povo abrutalhado que berra e larga caralhadas é uma declaração de desprezo pela democracia. Particularmente em Portugal, país sem tradição recente de cidadania, debate político elevado ou estima pela intelectualidade. Naturalmente, há milhões de portugueses que só agora estão a aprender a discutir com o vizinho, tenham eles 17 ou 71 anos. Os excessos, as falhas, a exposição crua das misérias que cada um de nós carrega, fazem parte do nosso destino comum. São a matéria de que somos feitos. A matéria com que se cresce.
João Miguel Tavares, publicista que fez do ódio a um governante a catapulta para a fama, mostra-se disponível para acabar com o ódio dos pestíferos anónimos que andam por aí a ameaçar o seu lugar. E não admira: é que o Correio da Manhã, para onde se mudou depois de ganhar o prémio Calúnia 2009, não pode acolher todos os que mostram ter algum talento para achincalhar figuras públicas. Aquilo é um esgoto a céu fechado e já está cheio de merda.
(sobre pastel de Fiona Bell Currie)

Arrumo o cesto de verga de miniaturas
Dos teus coloridos carros de corrida
Entre a relva não está o que procuras
Ficou aqui na tua alegria esquecida
Nas perguntas que fazias sobre a gente
Em ruidosa conversa à porta dos bares
Cidade onde a noite é mais diferente
Com outros ruídos, cenas e lugares
Nas trovoadas e seguintes tempestades
Instaladas em cima do nosso telhado
O teu receio à noite deixa-me saudades
Sei que não podes ficar do nosso lado
A sombra dos teus dedos permanece
Na caixa dos carrinhos em abandono
Em Shooters Hill há uma quermesse
Onde vendem rifas a meio do teu sono
Quinta-feira. Estupidamente cedo. O nano-anão dentro do rádio garante que Lisboa está coberta por nevoeiro. Penso que está a mentir. Penso que, a ser verdade, é noutro local. Penso que me quero levantar. Há nevoeiro à minha espera.
O único problema com o nevoeiro é a rapidez com que desaparece. Quase nunca chega ao meio-dia, poucas vezes aparece à noite. E não é possível acontecer em excesso. Que seria isso de um nevoeiro catastrófico? Algodão doce.
Quinta-feira foi um dia lindo. Porque o nevoeiro não partiu no final da manhã, ficando cada vez mais denso com o passar das horas. À noite, atravessando a cidade a pé, as luzes eléctricas abriam portões e fendas para a entrada em reinos encantados, ali mesmo ao virar da esquina ou por detrás daquela árvore. Tudo era outra coisa, humidamente irreal. Um tempo fora do tempo.
O nevoeiro existe para nos dar a ver o que está demasiado perto.