E o prémio para o aproveitamento ideológico e religioso mais sagaz e mais cabrão da morte de Carlos Castro vai para: João César das Neves

Por favor, leiam o tiroteio desde o início:

Quando surgem as tragédias, inevitáveis em estilos de vida desviantes, aparecem logo alcateias de comentadores para assegurar que o sucedido nada tem a ver com a perversão ou a opção de género, porque coisas dessas acontecem em todo o lado. Como os cortesãos de Andersen, nem se dão conta do seu ridículo”.

Eu, alguém e três mil

Tenho a honra, o prazer e a sorte de ser amigo do Virgílio Castelo. É alguém que ama Portugal, razão suficiente para despertar o meu afecto mesmo que não o conhecesse pessoalmente, e até escreveu um livro acerca desse seu destino: O Último Navegador. Como as suas ideias são politicamente incorrectas para o ar do tempo – um ideal monárquico que vou ter a liberdade poética de rotular como um pessimismo optimista de recorte romântico e pragmático – o livro passou em silêncio pela crítica política, nem um laivo de discussão ou polémica suscitou. Mas a sua carreira está no teatro, a literatura foi um grito de alma, e é de teatro que venho falar.

Na próxima sexta-feira, sábado ou domingo, pelas 21.30, o cidadão de bom gosto que esteja nas redondezas pode usufruir das magnificentes condições do Tivoli para participar num dos acontecimentos públicos mais entusiasmantes que é possível conceber: ir ao teatro. Trata-se do último romance de Pirandello, talvez uma súmula ou culminância da sua obra, onde se viaja até ao espelho partido que todos transportamos e que todos somos.

Esta produção não tem qualquer subsídio estatal, é uma aposta na paixão pelo teatro. E trata-se de encontrar 3×1088 apaixonados – nem mais, nem menos.

Correspondência

O José Albergaria, há dias, pegou num texto que escrevi a respeito dos ataques às caixas de comentários e acrescentou-lhe esta reflexão. Para além de recomendar a leitura das suas pertinentes interrogações a quem se interessar por essa vexata quaestio, aproveito para corrigir, ou esclarecer, uma informação que ele dá a respeito do Aspirina B: neste blogue aceitam-se quase todos os comentários, mas não todos. As regras começam por ser aquelas que cada autor instituir para as suas caixas de comentários, posto que este é um colectivo sem colectivismo editorial. Quem quiser, pode começar a publicar sem possibilidade de receber comentários, por exemplo, ou apagar o que lhe apetecer, ou impor moderação. Mas a esta responsabilização individual ainda se acrescenta o mero bom senso. Patologias sociais (racismo, nazismo, promoção de discriminações, cultos de violência, etc.) e patologias psicológicas (obsessões, perseguições, hostilidade personalizada, desvario comportamental prolongado) estão sujeitas ao regime da tolerância zero a partir do momento em que são identificadas. O que significa que poderá haver períodos em que formas ambíguas, ou incipientes, destas patologias ainda persistam por não ser evidente qual é a sua natureza, mas ao continuarem estão a acelerar a sua detecção e consequente apagamento e exclusão. Por fim, qualquer pessoa pode reclamar contra uma qualquer informação que seja publicada nas caixas de comentários (ou pelos autores) que considere de alguma forma lesiva para os seus direitos e interesses. Nesses eventuais casos, reinará também o bom senso e a defesa das vítimas, escusado será dizer.

Resumindo, e falando apenas por mim, é um prazer e uma honra poder comunicar com tantos amigos de tertúlia digital, os quais me enriquecem, e parto sempre do princípio que estou a lidar com adultos na posse de todas as suas faculdade mentais. Por isso não gosto da moderação, a qual introduz um elemento de disfunção na experiência e tolhe a fruição da espontaneidade das conversas e dos diálogos. Se me enganar com este ou aquele, aqui ou ali, não virá daí grande mal ao mundo nem conto perder muito tempo com o assunto. Apenas garanto que tudo farei para resolver o problema com a maior brevidade.
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Vinte Linhas 577

Da caçadeira perdida aos Bombeiros do Cartaxo

A crónica de Joaquim António Emídio «O medo de viver» no jornal O MIRANTE de 20 de Janeiro de 2011 fez-me pensar no que eu faria se estivesse naquela situação. Ou, dito de outra maneira, na velha dicotomia «cidade-campo». Nasci em Santa Catarina (Caldas da Rainha) no ano de 1951 e vivo em Lisboa desde 1966. Quer isto dizer que já tenho mais anos da cidade do que do campo. Outro dia, recém-regressado do Algarve, fui levar o meu pai ao Expresso de Sete Rios. Bastou um momento de distracção para o meu pai ser abordado por uma vigarista com uma conversa da treta: «tinha vindo com a nora do Cartaxo para Lisboa para ela ter o bebé mas os Bombeiros foram-se embora e ela agora não tinha dinhero para as passages». Quando percebi o teatro montado pela velha adverti o meu pai em voz alta de que não lhe devia dar o dinheiro (dois euros) pois mesmo não conhecendo os Bombeiros do Cartaxo tenho a certeza de que eles nunca deixariam uma pessoa desarmada, sem dinheiro e perdida na grande cidade. Sem esquecer que em princípio os bebés do Cartaxo nascem em Santarém mas isso é outra conversa. Nunca dou esmola no Metro e em 2006 percebi uma coisa de que já tinha ouvido falar: fui a Mira em reportagem, passei por Fátima e vi os artistas do Metro junto da Capelinha das Aparições. Como eles são invisuais alguém os levou para lá. Outra coisa que a cidade me ensinou bem cedo foi a não dizer ao condutor que leva os médios acesos em dias de sol pois as pessoas reagem mal à advertência mesmo quando feita com a melhor das intenções. Quanto a armas de caça abertas e com dois cartuxos, seja na estrada ou na rua – podem continuar no mesmo lugar que eu não estou para isso.

Casamentos entre pessoas do mesmo sexo e os postos consulares: falsas questões

A confusão começa com um título magnífico: casamento entre pessoas do mesmo sexo só vão ser permitidos em território nacional. O título é tão magnífico como enganador. E a vários níveis. Vem, como se espera, Paulo Côrte-Real, tentar perceber a questão , invocando, desde logo, a Constituição portuguesa.

Que história é esta de terem sido suspensos os CPMS em vários Consulados até parecer do CC da PGR?

A história começa com ideias feitas sobre o que são Consulados, quais as suas competências, quais os seus limites legais e qual a natureza das convenções internacionais que os regem. Ideias terrivelmente mal feias.

Na verdade, não há qualquer problema com os CPMS. Vou repetir de outra forma: do ponto de vista jurídico, a questão não se prende apenas com os CPMS.

E por quê?

Em primeiro lugar, é preciso compreender que as Embaixadas e os Consulados não são território português. É um mito dizer-se que o são. Mão não são. Gozam, sim, de um conjunto de privilégios e de imunidades, mas não são território português. Por isso, quando, nos termos da Convenção sobre Relações Consulares de 1963, é função do Cônsul português “agir na qualidade de notário do conservador do registo civil e exercer funções similares (..), essa função é desempenhada “desde que não contrariem as leis ou os regulamentos do Estado receptor“.

Assim, os países da Europa que consagram internamente o CPMS não o celebram nos seus postos consulares em países que não consagram o CPMS.

Voltando ao título da notícia, não é verdade que só seja possível celebrar um CPMS em Portugal. Nos postos consulares com sede em países que o consagram, naturalmente celebram-se os ditos casamentos.

Por outro lado, a questão é consequência de uma outra bem mais geral: é que trata-se de reconhecer a territorialidade da lei. A lei aplicável é a do Estado receptor. Na Alemanha, por exemplo, um Consulado português não pode celebrar um casamento entre pessoas de sexo diferente se uma das pessoas tiver nacionalidade alemã. Este é um exemplo de como o problema não são os CPMS, mas o que prescreva a lei local para o casamento, seja ele qual for.

Entendo que o Paulo invoque a Constituição portuguesa, mas tal invocação parte do pressuposto de que os Consulados aplicam lei portuguesa numa situação destas. Como ficou explicado, não aplicam, donde não valer a pena dizer que as convenções internacionais são infraconstitucionais, até porque a que citei e a convenção sobre relações diplomáticas de 1968, são já direito internacional geral, pelo que supraconstitucionais.

É este quadro normativo que explica que em Portugal não sejam praticados actos, por parte de determinadas Embaixadas, que contrariam as nossas lei.

De qualquer maneira, diria que foi bom ter surgido a questão, porque os equívocos e as dúvidas são grandes. Já se disse na televisão que as Embaixadas são como os aviões da TAP e já se falou na invocação da ordem pública, esquecendo o pequeno pormenor de essa invocação ser prerrogativa do Estado receptor.

Com isto, não afirmo que não tenho as minhas dúvidas. Pelo contrário, parece-me esencial que seja pedido um parecer ao CC da PGR. Quem sabe há uma via que me está a escapar. Por outro lado, penso que se pode agir, diplomaticamente, de forma diferente conforme a legislação existente em cada país: se é seguro que podem ser celebrados CPMS em países que o consagram, talvez se possa auscultar aqueles que, não o consagrando, têm uma legislação protectora das uniões de pessoas do mesmo sexo, bem como, por que não, os demais.

Minority report

Passos Coelho surpreendeu pelo tino do discurso. É cedo para saber se é o resultado de uma aprendizagem ou de um qualquer acaso, posto que ainda há duas semanas andava a largar bacoradas acerca do FMI e do Governo. É bizarro como algo que devia ser evidente, as vantagens de uma pose de estadista e uma estratégia de captação do centro, tem sido olimpicamente ignorado no PSD por todos os líderes pós-fuga de Barroso e queda de Santana. As razões merecem investigação académica, dada a persistência do fenómeno até num político com a tipologia de Passos Coelho, de quem se esperaria muito maior inteligência sociológica. Se o PSD finalmente aceitar entrar em territórios que lhe são actualmente desconhecidos, os sectores mais dinâmicos da sociedade, e trouxer de lá ensinamentos, então estará em condições de preparar equipas governativas de grande qualidade.

Em flagrante contraste com este posicionamento, Portas e Louçã mostraram que são políticos serôdios e esgotados. Discursaram como parlamentares, usando uma retórica tão primária quanto as suas ideias: um, a dizer que vai para o Governo daqui a nada; o outro, a dizer que fará a revolução com o grupo de amigos que tem lá guardado no partido. Devem agradecer ao Cavaco por não terem ficado nesta noite eleitoral como o exemplo maior do que é a decadência política.

Num plano ainda mais inferior, temos Nobre e Francisco Lopes. Há várias similitudes na forma como os dois candidatos moldaram um universo paralelo onde foram ambos vencedores, apenas se distinguindo na magnitude da vitória. Chico Lopes, sem nada de objectivo a que se agarrar, despejou a cassete. Nobre, possuído por uma variante da Síndrome de Jerusalém, projectou um filme. Ambos são pastores de seitas.

Alegre era um derrotado ambulante bem antes de ter assumido a derrota. Foi ao tapete com a entrevista de Correia de Campos, que lhe serviu um gelado com sabor a fel. As sondagens finais acabaram com o que restava, e já não restava nada.

Defensor de Moura, ao se recusar a felicitar Cavaco, introduziu uma lhaneza política que nunca tínhamos visto. De facto, este candidato, noutras circunstâncias, teria abalado ainda mais Cavaco.

José Manuel Coelho é tosco demais para perceber a sua popularidade fora da Madeira. Nem tudo nele é desaproveitável, mas o homem não tem condições para ir mais longe.

E Sócrates esteve impecável, na forma e no conteúdo. Para quem o quis ouvir, voltou a explicar por que se meteu nesta barca condenada ao afundanço: mais ninguém se chegou à frente, Alegre secou as potenciais candidaturas dentro do PS.

Aquela coisa do 5 contra 1

O Cavaco rancoroso e vingativo que apareceu a dar início à sua última fase como político é a manifestação de um homem doente. Está doente de solidão, ao ponto de ter estilhaçado o respeito próprio. À sua volta só vê inimigos, e nem no actual PSD pode confiar. Para além de temer enviar mensagens pela Internet, falar ao telefone ou frequentar jantares na Madeira, vira-se agora num frenesim alucinado contra os jornalistas, que tão bom serviço lhe tinham prestado quando as baixezas e vilezas foram – durante anos! – dirigidas para Sócrates. Isto também quer dizer que Cavaco consome as drogas duras do Pacheco, por sua vez traficadas por arraia-miúda sem escrúpulos, acerca da mão do Governo na campanha suja. O que permite antecipar, portanto, que um dia destes Cavaco virá apontar o dedo na direcção do blogue Câmara Corporativa e identificá-lo como o grande inimigo da verdade.

Esse momento será a justa consumação do Cavaquismo – o clímax para uma casta de onanistas.

O festim dos luditas

Voto numa das freguesias mais populosas do País, e fui lá marcar um voto anónimo por volta das 5. Tirando a estranha ausência dos vendedores de castanhas, estava o ambiente normal de outros actos eleitorais. Dentro do pavilhão escolar onde funcionava a Junta de Freguesia, porém, havia confusão maior do que o costume, resultante de uma bicha com algumas 50 pessoas que afectava a mobilidade naquele espaço exíguo. Ao entregar o boletim à mesa, ouvi o diálogo em que uma eleitora sexagenária (?) descobria que tinha de se deslocar à Junta, a funcionar no andar de baixo, para descobrir onde conseguiria votar. Ela respondeu que não o faria, que já lhe tinha custado a deslocação quanto mais ter ainda de estar à espera. A presidente da mesa despachou-a com indiferença, largando um impaciente Pois, lamento, mas nós aqui não podemos fazer nada. Nem sequer a tentou convencer a aguentar o último esforço para poder cumprir o seu direito, tratou-a ao pior estilo do funcionalismo público e revelando uma absoluta ausência de espírito republicano e dever de cidadania. À saída, nos grupos que estavam à conversa ou se afastavam pelo passeio, ouviam-se comentários de protesto contra os atrasos e confusão resultante.

Para além daqueles que não votaram apesar de terem ido até à assembleia, muitos outros ficaram em casa por lhes terem pintado retratos de caos em primeira mão. Não sei se será possível fazer um cálculo com alguma legitimidade científica acerca do impacto dos problemas técnicos na abstenção, mas mesmo que só tivessem afectado um eleitor continuariam a ser inadmissíveis. O que sei é que uma parte do problema teria solução simples: aumentar os pontos de informação nos locais de voto. É que bastava alguém com um portátil e uma ligação à Internet, não parece que as Juntas de Freguesia tivessem dificuldade em montar tal extensão aos seus serviços. Quanto à ausência de uma campanha informativa que preparasse os eleitores para os problemas que se verificaram, parece agora óbvia a sua necessidade.

Nas próximas horas, e dias, ouviremos ataques ao Simplex, ao Cartão de Cidadão, à Internet, aos computadores, à electricidade e à água canalizada, obras maléficas do Governo. Sócrates será acusado, enfim, de ser um dos principais responsáveis pela civilização – e isso, convenhamos, não está muito longe da verdade.

Interrupção Voluntária do Cavaquismo

Recordo-me do primeiro referendo sobre a despenalização do aborto como se tivesse sido há 12 anos e meio. Fazia parte das mesas eleitorais, tal como acontecia ininterruptamente desde meados dos anos 80, e nunca tinha visto tão pouca gente num acto eleitoral. Aliás, nunca tinha visto o fenómeno de faltarem tantos elementos para as mesas e de não se encontrar ninguém para os substituir, ao ponto de se ter de juntar mais do que uma mesa eleitoral na mesma sala de voto. Isto foi no tempo em que ainda não se pagava nada pela presença, assim que os membros das mesas começaram a receber dinheirinho nunca mais recebi a carta a convocar-me para prestar esse nobre serviço à República e presumo que acabaram as carências em matéria de recursos humanos. Sim, o entusiasmo com a cidadania e a celebração da democracia também têm o seu preço.

Nesse referendo, o calor mandou a esquerda para a praia. Aquela que se dizia ser uma vitória certa, de acordo com as sondagens e a constatação empírica de cada um, resultou numa das maiores surpresas políticas em Portugal. Hoje, o frio poderá fazer o exacto simétrico à direita: não a deixar sair de casa. E sabemos que qualquer aumento da abstenção só penaliza Cavaco, podendo pôr em causa o seu plebiscito.

Os políticos

Aqueles que fogem da política, que abominam os políticos, são os que mais precisam dela. São os ignorantes, no sentido ontológico da expressão. Ignoram qual é a sua natureza, e que não a poderão abandonar. Porque só há um caminho para os humanos, ir em direcção à Cidade.

Aqueles que exploram estes miseráveis, alimentando a sua menoridade e impotência, usando a sua desorientação e dores para as lançar contra o Governo e as autoridades – seja quem for que esteja no Governo ou nas autoridades – são tiranetes codiciosos. Não são de esquerda ou direita, independentemente do lado onde surjam e que simulem assumir. A fonte do seu poder é o medo que vem dos medrosos arrebanhados.

Aqueles que nos lembram ser a Cidade a dimensão onde a liberdade se realiza, porque é lá que nos encontramos uns aos outros, são os políticos. Os políticos, estejam ou não nos partidos, dizem-nos que a liberdade no vazio, sem empatia e mistério, é a definição mesma de loucura. Os políticos reconhecem-se pela coragem de que dão provas. E pela coragem que inspiram. Os políticos amam.

Vinte Linhas 576

Dizer bancários não é o mesmo que dizer bancários no activo

Foi num telejornal na RTP 1 mas podia ser noutra qualquer estação televisiva. Foi o José Rodrigues dos Santos mas outro qualquer pivot poderia ter dito a mesma notícia falsa: «Os bancários já estão integrados na Segurança Social» E falsa porque o Decreto-Lei n 1-A/2011 de 3 de Janeiro no seguimento do Decreto-Lei nº 54/2009 de 2 de Março apenas contemplava «bancários no activo» o que é muito diferente de «bancários». Ora se o Decreto-Lei que tenho aqui à minha frente é o mesmo que o pobre diabo da televisão tinha no momento de redigir a notícia não há como explicar a discrepância. Confundir «bancários» com bancários «no activo» é um desastre mas o facto de nada terem dito sobre a CAFEB (que foi extinta) não augura nada de bom. Se tivessem pegado no assunto seria o desastre total.

Pois a CAFEB (Caixa de Abono de Família dos Empregados Bancários) foi extinta e os seus beneficiários passaram naturalmente para o regime geral da Segurança Social para efeitos de maternidade, paternidade, adopção e velhice. Se tivesse pegado no assunto da CAFEB o mesmo pobre diabo que escreveu «Os bancários já estão integrados na Segurança Social» podia ter escrito «A CAFEB foi extinta» assim sem mais nem menos e aí os mesmos espectadores que ficaram assustados ao ouvir dizer que «os bancários» foram integrados na Segurança Social (porque tomaram a sério o que ouviram) poderiam ficar ainda mais assustados. Mas não – nem tudo foi mau. O José Rodrigues dos Santos só fez um erro, foi poupado ao segundo. Não partiu os dentes e as orelhas ficaram onde já estavam antes. Mas o susto, esse já ninguém o apaga.

Viiktórya para o Tomaz

Um amigo meu, acabadinho de ser pai pela primeira vez, não consegue dar ao seu filho o nome que o seu pai lhe deu a si nos anos 70: Tomaz. O Estado agora só admite o plebeu Tomás. Espero, então, que a Lyonce Viiktórya, para além de encher de alegria a sua família e ter uma vida longa e feliz, também derrote este desacordo ortográfico.

Rapaziada alegre: essa direita de espuma.

Leio por aí uma direita excitada, rapazes e raparigas com os lábios a tremer, talvez já entregues a uns serões com a política deles, a dos restaurantes dos costumes, excitados, excitados, tesão no ar, porque parece que Cavaco vai ganhar e se calhar logo à primeira volta. A rapaziada não está na cama da suas piadas superficiais – esse seu modo de ser – por causa da vitória de Cavaco em si mesmo considerada ou por entender com substância (ui, palavra difícil) que o homem é importante naquele cargo. Nada disso. Leio por aí a geração jovem de direita, que tem coisas para nos dizer, numa frase, em registo de humor, não uma vez, duas, ou umas quantas intervaladas com alguma coisa de jeito, mas um humor sequencial, o qual se transformou num espelho, o espelho dessa rapaziada pateta que sabe que Cavaco foi criminoso como PR e o pior Chefe de Estado que tivemos a exercer as suas competências. Essa rapaziada canta, ulula, cria mais piadas, bebe, não por uma qualquer visão (ui, palavra difícil) do cargo de PR, mas porque enfiou seja onde for a estratégia segundo a qual se Cavaco ganhar poderão afirmar que  Sócrates – esse alvo de toda a calúnia com o seu patrocínio, muitas vezes lucrativo –  terá de descer de um sítio alto onde eles o imaginam.

Estas crianças que têm assim uns valores de família que basicamente servem para a selecção natural do outro estão super-hiper-espectacularmente contentes com a metralhadora de textos que está em produção acerca da perda de legitimidade do PM e mais um par de botas. E com o país?

É a política puramente assente na estratégia, a política superficial, sem causas, as causas que justificam a tal da política, sem a qual nada se tenta, nada se faz. É gente que não entende que uma pessoa que vote normalmente no PS não vote Alegre, por melhor que fosse, estrategicamente, fazê-lo, mas há gente que sabe que o voto foi uma conquista demorada, suada, para cada um, pessoal e intransmissível.

Quem acredita na necessidade de ir ao fundo das coisas, sabe que uma eventual vitória de Cavaco não diz nada sobre Sócrates.  De memória, diria que tivemos aí uns 10 PR de cor política diferente do PM. E então? Sei isto, sei que Alegre é um mau candidato, sei que a esquerda está pulverizada por maus candidatos, sei que Cavaco é um tuga eis como com a forma te engano, sei que pouquíssimas pessoas votam nestas eleições a pensar nas legislativas. Trata-se de evitar Cavaco ou de evitar Alegre. Sei que Sócrates ganhou a Manuela Ferreira Leite contra tanto, mas tanto do que foi acusado, dito, apontado, demonstrado. Sobretudo contra uma tal de verdade. Sei, enfim, porque não se deve fazer jogos nisto, que se Pedro Passos Coelho ganhar as próximas eleições legislativas, em nada ficará a dever o feito a Cavaco. Nessa hipótese, os factores são e serão outros.

Continua, no entanto, meio mundo no mesmo tom da mesquinhez, o mesmo que leva Eanes, com imparcialidade histórica,  a dizer que seria interessante que Mário Soares tivesse participado na campanha. Interessante? Ver o homem deixar de ser pessoa?

Seria bom menos estratégia à flor da pele de cada um, falo das pessoas, dos maluquinhos coleccionadores de frases e de coisas muita giras.

Seria bom que a rapaziada alegre um dia entrasse em casa, está sempre à porta, mas nunca o fará e hoje sai uma rodada de imperiais.

O.

…e votar Cavaco por via da Esquerda?

Parece um contra-senso, mas o panorama é tão mau que a tal pode obrigar. Seria assim uma espécie de virar do avesso do tecido do espaço-tempo ideológico (como quando se entra num buraco negro). Vejamos:

Não votar Cavaco na primeira volta é alimentar o risco de haver uma segunda e, por via disso, contribuir para uma onda maluka que, por exemplo, permita eleger Alegre. Ora a mediocridade de Cavaco e o seu apetite pelo governo (ocupe que cargo ocupe) tornam-no previsível. E, em cenários de incerteza, a previsibilidade é fundamental, mesmo a má.

Ao contrário, com Alegre na presidência, seria um corre-corre geral de ansiedade matinal até nos apercebermos que lhe segredou ao seu inspirado ouvido a musa que vive no café, como mote para a declamação temerária daquele dia. E bem sabemos que na cabeça dos poetas não há grilos falantes assessores que ombreiem com uma bela duma musa assanhada. Ninguém pode viver assim. Nem governar. Maria de Lurdes e Correia de Campos que o digam.

E esse (o do governo que aí vem) é outro motivo. Cavaco no poder torna mais verosímil o cenário da reeleição de novo governo socialista, e essa é a que verdadeiramente interessa. O eleitorado do centro não gosta dos ovos todos no mesmo saco. Poderá acreditar em Cavaco, quando ele se apresenta como o outro prato da balança democrática. Alegre é uma passadeira para a eleição de Passos Coelho. Por causa dos tais ovos.

Votar Cavaco, a bem da nação. Era o que eu faria se tivesse estômago.

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Oferta do nosso amigo Joaquim O.

O que este bandalho disse

O homem que, no dia em que Portugal estava no centro da atenção mundial por ir enfrentar o impiedoso juízo dos mercados em nome da Europa e sua moeda, andou a exibir-se para os jornalistas – primeiro dizendo que sabia tanto como o Governo, depois dizendo que sabia mais do que o Governo, por fim dizendo que estava farto do Governo, tudo isto em poucas horas – é o mesmo homem que diz agora ao eleitorado que Portugal deve abdicar da democracia para não perturbar os mercados.

Não temos vernáculo com riqueza semântica suficiente para adjectivar o que este bandalho disse. Futuros Camões, Vieiras e Pessoas, juntos e com esforço, talvez o consigam criar.