O.

…e votar Cavaco por via da Esquerda?

Parece um contra-senso, mas o panorama é tão mau que a tal pode obrigar. Seria assim uma espécie de virar do avesso do tecido do espaço-tempo ideológico (como quando se entra num buraco negro). Vejamos:

Não votar Cavaco na primeira volta é alimentar o risco de haver uma segunda e, por via disso, contribuir para uma onda maluka que, por exemplo, permita eleger Alegre. Ora a mediocridade de Cavaco e o seu apetite pelo governo (ocupe que cargo ocupe) tornam-no previsível. E, em cenários de incerteza, a previsibilidade é fundamental, mesmo a má.

Ao contrário, com Alegre na presidência, seria um corre-corre geral de ansiedade matinal até nos apercebermos que lhe segredou ao seu inspirado ouvido a musa que vive no café, como mote para a declamação temerária daquele dia. E bem sabemos que na cabeça dos poetas não há grilos falantes assessores que ombreiem com uma bela duma musa assanhada. Ninguém pode viver assim. Nem governar. Maria de Lurdes e Correia de Campos que o digam.

E esse (o do governo que aí vem) é outro motivo. Cavaco no poder torna mais verosímil o cenário da reeleição de novo governo socialista, e essa é a que verdadeiramente interessa. O eleitorado do centro não gosta dos ovos todos no mesmo saco. Poderá acreditar em Cavaco, quando ele se apresenta como o outro prato da balança democrática. Alegre é uma passadeira para a eleição de Passos Coelho. Por causa dos tais ovos.

Votar Cavaco, a bem da nação. Era o que eu faria se tivesse estômago.

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Oferta do nosso amigo Joaquim O.

5 thoughts on “O.”

  1. É um contra-senso porque com Cavaco a bomba atómica vai ser usada quando a direita tiver boas condições eleitorais, o que não será difícil com a economia em recessão. Cavaco tem pouco apetite mas algum dia vai ter de comer. Não apostem no *se*, apostem no *quando*.

    Já Alegre é o único que pode colocar a direita no poder quando esta não tem as condições ideais, ou seja, já no início da recessão, fazendo-os sofrer o impacto do descontentamento popular.

    Ainda por cima, Nobre não entrou nesta equação. E Nobre não tem no BI político uma identificação imediata de direita ou de esquerda. Dá para os dois lados, mas em princípio fará mais o jeitinho ao PS soarista.

  2. O argumento não é completamente desprovido de sentido, sobretudo a primeira parte. A questão é que não tenho a certeza que Cavaco seja assim tão previsível como o pintam. Ninguém, mesmo os que o julgavam conhecer bem, conseguia prever uma canalhice como a inventona de Belém, por exemplo. E estamos a falar do primeiro mandato, em que a campanha de reeleição está no horizonte. Agora, o que fará Cavaco num segundo mandato, com essa preocupação afastada e rédea livre, não sei se alguém poderá dizer. Arrisco que a queda do governo está por agora afastada, até PPC cair e dar o lugar a Rui Rio. A partir desse ponto, all bets are off.

    Nesse aspecto, a imprevisibilidade de Alegre talvez (saliento: talvez) seja mais fácil de gerir, até porque Alegre não tem o mesmo peso institucional de Cavaco, nem as ligações deste aos mundo dos media e negócios. Mais barulho, sim, mas naquele sentido de mais latidos e menos mordidelas.

    O segundo argumento, sinceramente, nunca me convenceu.

  3. O Vega9000 disse tudo. Isto apesar de me parecer que a capacidade do estômago dos eleitores vir a ser um factor decisivo para a escolha de um voto com a cabeça (no meu caso: Alegre) ou com o coração (no meu caso: Defensor Moura).

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