Primeiro poema para Vó Mam

(in «Iniciais» Moraes Editores 1981)

Por detrás do seu sorriso esconde-se a biografia
Dum amor repartido por tantos lugares do mundo
Como se o seu percurso atravessasse o olhar
E todos nós soubéssemos que sempre nos amou

As crianças facilmente acreditam nessa verdade
Porque o sonho de as amar começou antes da vida
Quando ainda o projecto se desenhava nas noites
E as dúvidas enchiam o tempo da espera

Nós apenas a podemos conhecer a meio da vida
Ainda assim o tempo suficiente para ver
Toda a dimensão da luz do seu olhar
Toda a confusão das nossas palavras para si

Na ara do Araújo

Porque sou doente e cuidadoso, fugi cobardemente ao debate – ver um espertalhão tourear um pateta, esfregar o chão com a cara do poeta, rematar a lide com um par de bandarilhas e sair em ombros pela porta grande, seria tormento penoso que, decerto, me mataria. Para mais, sem o consolo de voltar, por uma segunda vez, a nascer. Porque, nascer segunda vez, para isto, não me parece excessivamente aliciante e, também, porque me não interessa especialmente um concurso de seriedade com o Dr. Cavaco.

Este mito, da seriedade do senhor, é, aliás, assunto francamente menor, sobretudo quando comparado com o outro mito que inventou para consumo dos incautos, de que foi um óptimo, o melhor de todos, primeiro-ministro. Se foi um bom, sequer sofrível, primeiro-ministro ou, como suponho, o pior desastre que nos calhou em sorte, desde o senhor Marquês do Alegrete (não confundir com o senhor poeta Alegre), eis um debate que teria valido, há muito, travar, nem tanto para dizer mal (ou bem) da criatura, mas para entendermos as verdadeiras origens dos males que, inelutavelmente, nos arrastam para as profundas e que, também inelutavelmente e creio que definitivamente, nos impedem de vir a uma superfície no mínimo decente. Assim como as coisas são, ficamos, na melhor das hipóteses, com a sensação, achamos, que o sujeito não terá sido tão bom como o pintam (porque criou o monstro, ou coisa semelhante) e que não é tão sério como teima em pintar-se (o patético caso BPN; o poético negócio da família nas falésias da praia da Oura; a alegre vivenda Mariani e outras ocasionais tropelias).

E o mais grotesco é que a esta extraordinária criatura, a alternativa que nos oferecem é uma amiba intelectual, um oportunista desavergonhado, inventado por outro espertalhão para atirar às canelas do Engº Sócrates, para usar e deitar fora.

Por isso, porque não tenho candidato em quem votar – no actual estado das coisas, teria gostado de ver apresentar-se, ou ser apresentada, a Dra. Isabel Jonet, que não seria outro Dr. Fernando Nobre – abro aqui uma subscrição, estendo a mão à caridosa solidariedade que me financie, em moderado luxo, uma viagem a um qualquer lugar, situado a mais de 12 horas de viagem da minha assembleia de voto e de uma tentação abjecta de colaborar na patuscada ignóbil que se prepara.

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Oferta do nosso amigo Francisco Araújo

Da competição pelos mortos em nome de Deus

As tristes notícias que deram conta de um massacre de cristãos coptas no Egipto permitiram uma série de discussões que revelam uma competição doentia em torno do número de mortos cristãos, uma espécie de felicidade disfarçada pelo facto de poder entrar no jogo dos mortos, mas com uma bandeira.

Aproveita-se a morte de seres humanos para se ofender ateus, para se recordar que não há apenas muçulmanos a morrer a gritar por um deus, para se exigir uma atenção especial aos mortos que sejam cristãos, havendo mesmo quem faça uso adaptado do famoso título de Kipling, “o fardo do homem branco”, para reclamar com matemática pronta perante uma alegada aprovação silenciosa de atrocidades cometidas contra cristãos.

Só em 2010, quantos muçulmanos morreram? E cristãos? Pelo meio fala-se em “ciganos”.

O que textos e exortações como estes recordam a quem os lê e escuta com incredulidade é que nunca superaremos o factor religioso. Por mais intensa que seja a liberdade religiosa, que deve ser defendida sem hesitações, há sempre uma identificação de grupos através de um critério religioso que não é meramente analítica, é também fruto de uma estratégia de poder.

Essa estratégia desenvolve-se por detrás da semântica dos consensos, mas torna-se evidente em momentos de crise, de confronto, em momentos cheios de mortos para reclamar com uma bandeira por cima deles, uma bandeira ajustada à tal estratégia de poder.

Em nome de alguma coisa ou em nome de um “quem” ou, regressando a um passado anterior às unificações baseadas no pluralismo político que aconchega nacionalidades e credos, diz-se assim: morreram tantos a rezar a Cristo; morreram tantos a rezar a Maomé; morreram tantos a rezar a Buda; e por aí fora, mortos em nome do divino que é um para uns e um para outros.

Quando o critério é usado para definir o Deus que menos mata ou o Deus que mais mortos faz, dá-se um tiro ambicioso na tal da liberdade religiosa, que é a liberdade de adoptar ou não uma religião, de escolher a religião y, de fazer o discurso que defende a crença ou o ateísmo, de não ser prejudicado por uma atitude religiosa nem por uma atitude anti-religiosa.

Há muitos mortos, todos os anos, que dão jeito a uma nova guerra por um certo tipo de poder.

Serão efectivamente rezados?

Canção breve para Vó Mam (1918-2010)

Numa tarde que continua
Não se pensa a despedida
Multidão que enche a rua
Projecta a lição de vida

Avó e mãe sem horário
Disponível todo o dia
Na folha do calendário
Numa teimosa alegria

Contra tudo contra todos
Teimosia convocada
Uma energia a rodos
Força sem dar por nada

2 rapazes, 5 meninas
Era a vida uma manhã
Fazia luvas pequeninas
Passa-montanhas de lã

Seus olhos as bandeiras
Seus cabelos estandarte
Voz de palavras inteiras
Ouvia-se em toda a parte

Nasceu no fim duma guerra
Morreu só na Conservatória
A moral que a tarde encerra
Faz duma derrota a vitória

Um amor não perdido
Multiplicado por nós
Vai dar um novo sentido
À memória da sua voz

Que todos vamos guardar
No coração bem fechada
Parece a força do mar
Não tem medo de nada

O melhor 2011 das nossas vidas

Experiências feitas com rãs – na Estação Espacial Internacional, onde nada parece ter gravidade – mostram que não voltará a existir um 2011 tão bom como este. É aproveitar, pois.

Claro que nem todos dão o devido crédito à ciência, preferindo os estreitos limites da subjectividade e as múltiplas ilusões do senso comum. Esses estão zangados com um país onde desfrutam das mais avançadas leis em matéria de liberdades e direitos. Ter hospitais, escolas, esquadras, estradas e uma imensa panóplia de serviços públicos a funcionar, a que se junta a oferta de todo o tipo de mercadorias e produtos de consumo, não chega. A meta é o crescimento fulminante dos salários e regalias laborais, o desaparecimento do desemprego e da pobreza por decreto, mais a imunidade absoluta contra convulsões económicas ou meteorológicas. A perfeição, o Céu na Terra.

Mas há um problema com os paraísos. É que até neles aparece quem se aborreça, quem sinta falta de qualquer coisa que ainda não provou. Um certo tipo de fruta, por exemplo. Para esses, todos os anos são maus. Eles sabem-no para lá de qualquer dúvida porque o sentem. Sentem-se mal. Seja porque não almoçam nem se cruzam nos aniversários e casamentos com os bandidos que estão na governança, seja porque precisam de inventar inimigos para se levantarem da cama, seja porque a vida é madrasta e eles já passaram há muito a idade das ousadas esperanças. Cresce-lhes o azedume, uma infecção na alma que só a realização da sua megalomania faria desaparecer. O abismo chama o abismo.

Vamos ter o melhor 2011 de sempre, essa é que essa. Os que disserem o contrário não pertencem a este tempo, apesar de ocuparem o mesmo espaço. É deixá-los entregues às suas dilectas neuroses e tratarmos do que mais importa: a incomparável beleza do acontecer.

Um livro por semana 213

«História da vida privada em Portugal – A Idade Média»

A partir da já clássica «História da vida privada» de Georges Duby (1985), esta edição dirigida por José Mattoso e coordenada por Bernardo Vasconcelos e Sousa, engloba quatro volumes. No que diz respeito à Idade Média convém notar que conceitos como indivíduo, propriedade, religião ou Estado existem na sociedade contemporânea mas tinham outro sentido antes do século XVIII. Os temas focados dizem respeito às variações entre espaços e lugares, mundo rural e mundo urbano, casa corrente e residência senhorial, sociabilidade familiar e estruturas de parentesco, celebração e festa, corpo e alma, nomes próprios e alimentação, a mulher e a criança, a sexualidade e o tabu, a saúde e a doença, o sagrado e o profano, os mortos e os vivos, as memórias e os sonhos. Inesperada é a quantidade de imagem que testemunham actividades tais como sementeiras, fiação de linho, matança de porco, pastorícia, ceifa, poda, vindima, pisa das uvas, hortas, pomares ou fabrico do pão. Num livro cuja capa reproduz um quadro no qual a mulher descobre o esposo com uma criada, um dos capítulos mais curiosos é o da sexualidade. João Gil de Zamora, na biografia de D. Afonso III, refere as suas qualidades mas adverte: «Mas porque a ociosidade é um esgoto de crimes, mãe e promotora de todos os vícios, assim o dito Afonso, rei de Portugal, depois que repousou dos combates e dos outros negócios do reino, vergou indignamente as suas coxas a mulheres de seitas diferentes e assim manchou a sua glória». Álvaro Pais, bispo de Silves, refere em 1349 que «os reis de Espanha recebem em sua casa e em sua companhia um grande número de meretrizes públicas e, a algumas destas chamadas estipendiárias, dão dinheiro e pensão em seu palácio».

(Edição: Círculo de Leitores – Temas e Debates, Iconografia: Maria Adelaide Miranda, Luís Correia de Sousa, Capa: DPI Cromotipo)