Um livro por semana 213

«História da vida privada em Portugal – A Idade Média»

A partir da já clássica «História da vida privada» de Georges Duby (1985), esta edição dirigida por José Mattoso e coordenada por Bernardo Vasconcelos e Sousa, engloba quatro volumes. No que diz respeito à Idade Média convém notar que conceitos como indivíduo, propriedade, religião ou Estado existem na sociedade contemporânea mas tinham outro sentido antes do século XVIII. Os temas focados dizem respeito às variações entre espaços e lugares, mundo rural e mundo urbano, casa corrente e residência senhorial, sociabilidade familiar e estruturas de parentesco, celebração e festa, corpo e alma, nomes próprios e alimentação, a mulher e a criança, a sexualidade e o tabu, a saúde e a doença, o sagrado e o profano, os mortos e os vivos, as memórias e os sonhos. Inesperada é a quantidade de imagem que testemunham actividades tais como sementeiras, fiação de linho, matança de porco, pastorícia, ceifa, poda, vindima, pisa das uvas, hortas, pomares ou fabrico do pão. Num livro cuja capa reproduz um quadro no qual a mulher descobre o esposo com uma criada, um dos capítulos mais curiosos é o da sexualidade. João Gil de Zamora, na biografia de D. Afonso III, refere as suas qualidades mas adverte: «Mas porque a ociosidade é um esgoto de crimes, mãe e promotora de todos os vícios, assim o dito Afonso, rei de Portugal, depois que repousou dos combates e dos outros negócios do reino, vergou indignamente as suas coxas a mulheres de seitas diferentes e assim manchou a sua glória». Álvaro Pais, bispo de Silves, refere em 1349 que «os reis de Espanha recebem em sua casa e em sua companhia um grande número de meretrizes públicas e, a algumas destas chamadas estipendiárias, dão dinheiro e pensão em seu palácio».

(Edição: Círculo de Leitores – Temas e Debates, Iconografia: Maria Adelaide Miranda, Luís Correia de Sousa, Capa: DPI Cromotipo)

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