Na ara do Araújo

Porque sou doente e cuidadoso, fugi cobardemente ao debate – ver um espertalhão tourear um pateta, esfregar o chão com a cara do poeta, rematar a lide com um par de bandarilhas e sair em ombros pela porta grande, seria tormento penoso que, decerto, me mataria. Para mais, sem o consolo de voltar, por uma segunda vez, a nascer. Porque, nascer segunda vez, para isto, não me parece excessivamente aliciante e, também, porque me não interessa especialmente um concurso de seriedade com o Dr. Cavaco.

Este mito, da seriedade do senhor, é, aliás, assunto francamente menor, sobretudo quando comparado com o outro mito que inventou para consumo dos incautos, de que foi um óptimo, o melhor de todos, primeiro-ministro. Se foi um bom, sequer sofrível, primeiro-ministro ou, como suponho, o pior desastre que nos calhou em sorte, desde o senhor Marquês do Alegrete (não confundir com o senhor poeta Alegre), eis um debate que teria valido, há muito, travar, nem tanto para dizer mal (ou bem) da criatura, mas para entendermos as verdadeiras origens dos males que, inelutavelmente, nos arrastam para as profundas e que, também inelutavelmente e creio que definitivamente, nos impedem de vir a uma superfície no mínimo decente. Assim como as coisas são, ficamos, na melhor das hipóteses, com a sensação, achamos, que o sujeito não terá sido tão bom como o pintam (porque criou o monstro, ou coisa semelhante) e que não é tão sério como teima em pintar-se (o patético caso BPN; o poético negócio da família nas falésias da praia da Oura; a alegre vivenda Mariani e outras ocasionais tropelias).

E o mais grotesco é que a esta extraordinária criatura, a alternativa que nos oferecem é uma amiba intelectual, um oportunista desavergonhado, inventado por outro espertalhão para atirar às canelas do Engº Sócrates, para usar e deitar fora.

Por isso, porque não tenho candidato em quem votar – no actual estado das coisas, teria gostado de ver apresentar-se, ou ser apresentada, a Dra. Isabel Jonet, que não seria outro Dr. Fernando Nobre – abro aqui uma subscrição, estendo a mão à caridosa solidariedade que me financie, em moderado luxo, uma viagem a um qualquer lugar, situado a mais de 12 horas de viagem da minha assembleia de voto e de uma tentação abjecta de colaborar na patuscada ignóbil que se prepara.

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Oferta do nosso amigo Francisco Araújo

4 thoughts on “Na ara do Araújo”

  1. Li que hoje há uma entrevista ao candidato Defensor (de?) Moura. A ver se vejo, porque é o único que me resta.

  2. Pois mais ignóbil ainda é pensar que, fugindo assim soberbamente aos deveres de Eleitor, se rejeita a “patuscada”, quando apenas se contribui, ainda que cómoda e passivamente, para atear as brasas da inconsequência e da demissão cívica que a permitem. Eu não fujo a nada, nem comerei carne esturricada. Votarei em Fernando Nobre, com moderada convicção, na primeira volta e, se for preciso, até votarei numa insignificância política como Francisco Lopes, na segunda, se for para desinfectar Belém. Só assim dormirei descansado, depois de encarar os meus putos, nessas duas noites.

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