Quarto poema para Vó Mam

(in As emboscadas do esquecimento, Edição O MIRANTE, 1999)

Fala de um sábio chinês a um homem triste

Ninguém pode viver sem uma aldeia
Todos nós temos que ter uma avó.

Quando o teu olhar fica cinzento
não procures as pequenas desculpas
aquilo que julgas ser o motivo mais forte
porque só podes alterar o teu olhar
e o cansado ritmo da respiração ansiosa
quando encontrares de novo a tua aldeia

Tens que descobrir o som da chuva ma terra
mesmo quando a única terra à vista
é a dos pequenos jardins desta cidade.
Procura transportar a luza da pequena adega
para o ar ainda mais que condicionado
dos grandes centros comerciais feitos de vidro.

A seguir tens a obrigação de descobrir a avó
aquela que tu escolheste e julgas merecer
desde o momento em que a sentiste como tua.
Depois deves conservá-la, guardar o som
da sua voz quando apaga o teu temor
ou quando enche de calor a tua alma fria.

Verá então como defrontas melhor a cidade
e te parece menos hostil a noite fechada
quando está frio e fica só contigo mesmo.
Verás então como tudo se transforma
e a perdida serenidade que procuras
chega nas mãos da avó que te abençoa.

Ninguém pode viver sem uma aldeia
Todos nós temos que ter uma avó.

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