Alta cena, alta bronca

No Dia dos Namorados, o Duarte meteu-me os cornos. É que nem na Sexta-feira, dia 13, o dia me correra tão mal. No telemóvel dele, descobri uma “Coelhinha” (eu era a “Menina Linda”). A Coelhinha dizia assim: “Amor, vens hoje a casa almoçar?”. Sem ele ver, tirei o número da coelha, esperando o meu momento de glória: o da vingança.
No primeiro bar da Ribeira, fui à casa de banho. A minha vontade de mijar era muita, mas nem me lembrei de o fazer. Peguei no meu telemóvel (já passava da 1h da manhã) e telefonei. Tocou. Ninguém atendeu. Então escrevi: “Sou a namorada do Duarte. Agradecia que atendesse.” A coelha respondeu-me: “E eu sou a Senhoria do Duarte. Não tenho nenhum assunto a tratar com a Senhora.”
A Coelhinha, a senhoria dele?
O gajo, após ter levado com a minha crise de ciúmes e berros e palavrões à mistura, levou com mais:
-Então a senhoria? Convém graxar a senhoria, não convém? Umas facilidades e tal.
O Duarte, que entrara numa de mutismo tenso pouco habitual, lançou-me o olhar de Lúcifer, a besta das chamas.

Desde ontem não sei nada dele, mas ganhei uma amiga: a Coelhinha que se chama Diana.

Cláudia

A certeza da incerteza

Vukcevic é um jogador quântico. O maioria dos golos que marca são o resultado de singularidades, pontapés repentistas, tabelas manhosas, efeitos marados. A esta capacidade acrescenta-se o lado artístico, o modo como resolve desafios com súbitas fintas e simulações brilhantes, ou passes geniais. Como no célebre Sporting-Benfica para a Taça, em Abril de 2008, onde é Vukcevic a virar o jogo aos 67 minutos, precisamente por se ter virado de modo completamente imprevisto. Ou como neste exemplo com o Belenenses, que até recolheu o favor dos deuses e levou Postiga a acertar com donaire.

Enquanto que Derlei gera incerteza destrutiva, e já devia ter abandonado os relvados há 2 anos, Vuk gera incerteza criadora. Durante alguns meses, Bento abdicou deste poder, mas logo que reintegrou o jogador ele começou a marcar golos, alguns decisivos. E para a glória ser completa, a sua atitude é sempre de entrega heróica. Por isso é amado pelos adeptos, é um exemplar da raça do Sá Pinto.

Resta saber se Bento aprendeu a lição. E se consegue reconhecer a química da dupla Vuk-Postiga.

Cruz de tinta

Há uma cruz de tinta no teu dedo

Recado, lembrança, não se esqueça

Na tua mão se concentra um segredo

Que eu tento descobrir na promessa

Todos os dias no lugar do santuário

Onde teus olhos são altar principal

Nos lábios um sermão extraordinário

No teu rosto a grandeza da catedral

Há uma cruz de tinta no teu dedo

Que eu procuro decifrar devagarinho

Na abordagem feita quase a medo

Não vá a tua mão noutro caminho

E se perca no bulício desta cidade

O fascínio dum sinal já decifrado

Nas tuas mãos a tinta é a verdade

O segredo vai contigo a todo o lado

Vinte Linhas 317

«Um professor sem palmatória é um artista sem ferramenta»

Descobri na Livraria Alfarrabista «1870» um livrinho («Notas de um professor liceal») da autoria de João Anglin e publicado no ano de 1955 em Ponta Delgada. O que é espantoso nisto tudo é que na página 62 aparece a mesma data (1870) como referência dum grave incidente em Vila Franca do Campo: uma professora indigna desse nome infligia às suas alunas maus-tratos continuados. O comissário dos estudos Eugénio do Canto dirigiu-se ao administrador do concelho solicitando um inquérito urgente: a filha de João Oliveira Júnior tinha um tumor na sobrancelha e ferimentos nas orelhas, a de Manuel Açafroa estava quase a morrer no hospital porque tinha o osso do peito partido, a de Manuel Furtado tinha um braço deslocado. As filhas de Manuel Cantareira, Manuel de Medeiros, Serafim Tavares Pereira e Maria de Jesus também tinham razão de queixa do monstro. É neste contexto que o autor lembra «A paixão de Jane Eyre» de Charlotte Bronte e os problemas das raparigas no internato de Lowood mas também o conto «Para a Escola» de Trindade Coelho com o título desta crónica. Um episódio menos doloroso tem a ver com o Teófilo Braga que em 1860 motivou um «Conselho Escolar» no liceu de Ponta Delgada devido aos problemas que teve com o professor Coelho de Amarante (uma altercação prolongada que obstou à continuação da aula) mas tudo se resolveu a bem: o pai de Teófilo era professor no Liceu e garantiu que o filho não voltaria à aula do professor queixoso. Este, quatro anos depois, comprou e ofereceu aos melhores alunos do Liceu seis exemplares do livro «Visão dos Tempo» do mesmo Teófilo Braga. Pudessem todas as histórias acabar assim mas a maldade humana é infinita e não permite.

Um livro por semana 105

«A Batalha das Lágrimas» de Joana Ruas

Trata-se de um romance de 749 páginas que conta as histórias da História e cujo pano de fundo é a vida em Timor entre 1870 e 1910, um período que apanha em pleno o Ultimato britânico. Nesse tempo o governador de Timor repetia muitas vezes: «Estou aqui para governar e governar é submeter!».

Um viajante recém-chegado define assim o território: «Timor não tem uma biblioteca, nem um grémio, nem um teatro, nem um bilhar, nem uma orquestra, nem um meio qualquer de distracção do espírito». Resta fazer política: «Fazer política aqui reduz-se a discutir se se é pelo governador ou contar o governador». A diversidade religiosa é complicada: «Há quatro religiões aqui: a animista, a católica, a islâmica e a budista. E há a considerar a pressão do calvinismo a partir do Timor Ocidental».

A autora explica o que entende por povo de Timor: «Esta sociedade incaracterística, sem tradições definidas, invadida e perturbada pela massa de estrangeiros que a explora e abandona, continha muitas raças sem que houvesse um povo».

Poderia chamar-se este livro «O governador e a rainha» mas não. Primeiro esqueceria o papel de João Maurício, o brasileiro que liga habilmente os diversos fios da narrativa. Depois não poderia esquecer que «A batalha das lágrimas» é o nome que ficou para sempre nos relatórios escritos dos militares portugueses e na memória dos habitantes de Timor. Este livro é mais do que um livro; é um acontecimento…

(Editora: Calendário das Letras, Capa: Miguel Madeira)

Anti-cunha

Mais 3 minutinhos de higiene profissional e cívica graças à TSF e à Controlvelt. O que se ouve nesta peça é de bradar aos céus, mas em agradecimento. Chamo a tua atenção para os critérios de selecção, mais a respectiva explicação. É um raciocínio tão simples e óbvio que até os pêlos do cu batem palmas. Se fosse a norma em Portugal, há muito que estaríamos todos ricos.

Um livro por semana 103

«Mata – um falar peculiar e outras curiosidades» de Manuel Barata

Houve tempos em que as localidades portuguesas aspiravam a ter uma Monografia. José Cardoso Pires fez da Monografia da Gafeira personagem do seu romance «O Delfim». Este livro de Manuel Barata, publicado por Edições Alecrim poderia ser a «Monografia da Mata». Existe na Mata (Castelo Branco) um falar peculiar. Esse é o ponto de partida. Na Mata diz-se acajadar por guardar, apalamado por adoentado, arrezoar por murmurar, assedento por mau-olhado, baldão por desleixado, banquinha por mesa-de-cabeceira ou burra por picota. Seguem-se algumas expressões populares (como sardinha no ar em vez de levar um estalo) e as alcunhas, os ofícios e as profissões do campo. Depois surgem os lagares de azeite, as mercearias, as tabernas, os cafés, as forjas, as oficinas., os sapateiros, os alfaiates, os barbeiros, os talhos, as serrações, os moleiros. Noutro capítulo recorda-se a festa do casamento que incluía o cortejo, os rebuçados, o copo de água e a terrina de sopa para as crianças. Segue-se a memória das casas: «uma porta de entrada e um corredor, no início deste uma porta que dava acesso a uma salinha e esta dava comunicação a dois quartos, um destinado ao casal e o outro aos filhos e/ou às filhas.» Também a memória das festas e procissões, danças e cavalhadas. Por fim os jogos e a culinária, o posto da GNR, a prática religiosa e a difícil sociabilidade dos seus habitantes: «A Mata esteve isolada durante séculos. A construção da actual estrada, que liga a povoação à EN 240 ocorreu já nos anos cinquenta. A anterior ligação era de terra batida. A Castelo Branco ia-se ao médico quando a coisa não passava com os remédios caseiros e rezas ou para tratar de assuntos importantes».

(Editora: Alecrim, Patrocínio: Junta de Freguesia da Mata e Intermarché (Os Mosqueteiros), Paginação e Design Gráfico: RIP 2000 Valentim Costa e Lourenço Lda.)

Síndrome do Gozo

A Selecção com Queiroz é um festival, sim, mas da risota. O desconchavo táctico só é ultrapassado pela mímica desesperada e desesperante do treinador no banco de suplentes. Embora seja certinho que alcançaremos o apuramento para a África do Sul, dando uma desvairada alegria à diáspora lusitana, e permitindo uma eventual vingança do Professor caso nos calhe a equipa da casa, esse caminho será feito com as mãos na barriga e o coração na boca. É que não vamos ter uma equipa, vamos ter uma rapaziada que vai jogar à fuçanga e ter sorte, muita sorte. De resto, o futebol não passa da sorte, o mais sendo aparato e contingência. Pode é haver equipas que facilitem a sua chegada e outras que a dificultam. Neste jogo com a Finlândia, voltámos a ver uma equipa que jogou à antiga portuguesa, tudo fazendo para enxotar a sorte. Que ninguém se iluda: falhar golos de baliza aberta não se consegue apenas por um qualquer tipo de inépcia ou inércia, é preciso ter a deliberada intenção de alterar a probabilidade natural desse tipo de eventos. Ora, quem consegue tais feitos mirabolantes, poderá também conseguir o seu contrário. Basta que se esforcem menos, que sejam menos criativos na altura da finalização. É só.

Síndrome de Gaza

A Síndrome de Gaza é uma patologia mental caracterizada por sintomas de forte identificação com o Hamas, o qual aparece como a parte boa do conflito israelo-palestiniano. A psicose opera através da recuperação das matrizes bíblicas, projectando-se nos palestinianos as estruturas das narrativas judaicas onde se fala de um Povo Eleito. Concomitantemente, transformam-se os israelitas em romanos, real e simbolicamente vistos como o invasor.

Cá pela terrinha, a vítima mais conhecida deste distúrbio psíquico é o Daniel Oliveira. O que ele escreve aqui é apenas um pequeno exemplo da distorção habitual. No entanto, os comentários respectivos merecem leitura exaustiva, repondo sanidade naquele ambiente. Confrontam o autor com as suas incongruências, contradições e cumplicidades. Dizem que pouco lhe importa saber dos crimes cometidos pelo Hamas contra o seu próprio povo e os planos de extermínio do povo vizinho, pouco lhe importa saber das mentiras e manipulações que diabolizam o exército israelita, pouco lhe importa a existência de uma verdadeira democracia que permite protestos públicos contra a política de Israel dentro de Israel e confere direitos cívicos e políticos aos árabes, pouco lhe importa a tirania nascida da ignorância e alucinação de grupo em Gaza, pouco lhe importa que a demência seja o alimento da luta que apenas consegue aumentar os sofrimentos dos envolvidos.

Isso para nada importa. A Síndrome de Gaza reduz toda a complexidade do presente, e todos os nós cegos da História, a uma faixa de percepção demasiado estreita para que lá caiba a coerência.

Patrões e bispos conspiram para garantir nova maioria socialista

É o que podemos inferir destes protestos: um patrão a malhar em Sócrates e no Parlamento, e um bispo a cascar no PS e na sociedade. Qual a intenção? Apresentar Sócrates ao eleitorado num apelativo posicionamento de esquerda, de modo a conter uma eventual erosão para PC e BE nas legislativas. A estratégia não tem como falhar, até Alegre (se tiver um grama de coerência) correrá em defesa de Sócrates.

Também convém começar a aceitar uma singela explicação para o que preenche a espuma dos dias: muito do que passa por ideologia, ideário, ideal, ou meras ideias, é apenas o resultado de limitações cognitivas individuais e de grupo. Que as há.

Um livro por semana 104

«CAMPOAMOR – Uma história de encornados, encornadores e pássaros avisadores» de Hugo Santos

O palco da história é Campoamor: «há por aqui casas que, inesperadamente, se desatam dos alicerces e se põem a subir céu acima como se tivessem asas». Uma das personagens é Amílcar Cravo que, segundo as boas e más-línguas da vila, tem um par de cornos que vão do Bairro Operário ao largo do Curral dos Coelhos». Outra personagem é Fernanda Raposo, a catequista que adverte o padre «o senhor prior não pode» mas faz tudo para que ele possa transformar o «não» em «sim». Não é de estranhar que surja no café da vila uma lista de encornados: «Felismina Coxo e Daniel Entrudo, Zulmira Ataíde e Aureliano Chambel, Fátima Grisalho e Leopoldino Pé-de-Ouro, Mónica Soveral e Ismael Martinez, Domitília Fragoso e Armelim Constantino, Fernanda Raposo e o prior da Matriz, Claudina Tremoço e Joaquim Pardalinho, Conceição Tecedeiro e Jacinto Cortesão, Cândida do Ó e Jeremito Água-Nova, Celina Abrantes e Aurélio Alvorão, Salomé Mendes e o filho do Zé António». Sem esquecer Isaura Soveral de Almeida cujo marido «saía para Évora para negócios de gado» e que descobre o amor do jardineiro e da sua criada acabando a senhora com o jardineiro num fardo de palha que havia ao fundo do casão a pedir «faz devagar para que eu sinta tudo».

Depois há os pássaros que chegam aos milhares e todos perguntam: «que faz esta passarada aqui nesta época do ano, vieram eles festejar o quê?» A resposta está na página 153: «tombam gotas de luz dos céus de Campoamor, sagra-se a Primavera no trinado dum rouxinol, reinventa-se um amor urgente». Um amor no qual a única medida é amar sem medida, um amor que muda o nome da vila de Campo Maior para Campoamor.

(Editora: Campo das Letras, Capa: Arnaldo, Nota introdutória: Urbano Tavares Rodrigues)

PSD, quem te viu e quem te vê

O Gabinete de Estudos do PSD mandou-nos esta carta, intitulada Desafios para Portugal em 2009:

Ex.mos Sr.s,

A economia portuguesa tem tido um desempenho muito insatisfatório. Desde há cerca de dez anos que o crescimento económico se mantém muito abaixo do que seria possível e desejável. Os problemas avolumam-se, a prosperidade estagna, o atraso relativo do País aprofunda-se.

Os problemas da economia portuguesa são de carácter estrutural e resultam de uma política económica profundamente errada, baseada numa total incompreensão do que é uma economia moderna, aberta ao exterior e competitiva, num mundo global, cheio de oportunidades, mas também de riscos. A actual crise internacional veio demonstrar de forma ainda mais evidente a fragilidade da nossa economia e a inadequação da nossa política económica.

Não é possível concretizar o enorme potencial da economia portuguesa e restaurar a prosperidade e o dinamismo empresarial enquanto se persistir na ideia de que é o Estado que deve tudo controlar, orientar e financiar. Esta visão dirigista da política económica não é compatível com a inovação e o progresso tecnológico, com a recuperação das nossas empresas no contexto internacional, com a criação de emprego à medida das nossas necessidades. Conduz apenas a um endividamento cada vez mais preocupante do País, sem que se veja para que serviu afinal tanto crédito externo.

Em paralelo, assiste-se a uma perversa concentração de riqueza e de poder económico nas mãos de muito poucos, a um aumento do grau de controle das empresas pelo governo, a uma administração pública incapaz de se modernizar e de responder às necessidades dos portugueses.

Este trabalho do Gabinete de Estudos do PSD documenta, para além de qualquer dúvida, o caminho desastroso que a nossa economia vem percorrendo, a injustiça gritante da distribuição de rendimentos, o peso crescente do endividamento externo. Os dados são objectivos e, na maior parte dos casos, de fonte independente.

Que cada um dos nossos concidadãos tire as suas conclusões.

Gabinete de Estudos PSD

Informações: gepsd@gepsd.org

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Vamos lá, então, tirar as nossas conclusões. Por exemplo, eu concluo pela impossibilidade de encontrar uma única proposta política nesta cacofonia de generalidades parcelares e adjectivação manhosa.

Um livro por semana 102

«O Século» de Lopes de Mendonça: O primeiro jornal socialista

António Pedro Lopes de Mendonça (1826-1865) figura no nosso século XIX ao lado de Garrett, Castilho e Herculano: historiador, poeta, jornalista, folhetinista, doutrinador, crítico e ensaísta. Mas também fundador e redactor anónimo de «O Século», um jornal de 11 números com 16 páginas cada, que se publicou entre 10 de Abril e 25 de Junho de 1848. Ernesto Rodrigues recupera-o para os leitores de hoje em 165 páginas de texto anotado que dedica a Manuela Rego e a Teresa Martins Marques.

Vejamos de modo breve como Lopes de Mendonça escreve sobre a República em 1848: «A república não tem classes, não tem distinções, não tem interesses rivais: as lutas são as das ideias e a sua expressão é, tem de ser manifestada pela imprensa. Ás revoluções armadas hão-de suceder as reformas pacíficas; às paixões, os sentimentos; aos certames de partido, os combates de princípios. Alcançar-se-há esse ideal que debalde têm querido realizar as monarquias representativas? O sistema republicano acolherá no seu seio o princípio da perfectibilidade humana sem que ele ressurja de espaço a espaço tinto de sangue?»

Incansável jornalista e homem de ideias, Lopes de Mendonça responde à pergunta «O que quer o socialismo?» deste modo: «A fraternidade substituída ao individualismo: isto é, o indivíduo ligado pelos sentimentos e pelas instituições à sociedade: a associação em vez da concorrência, isto é um regime industrial que iguale as condições dos três agentes da produção, o capital, o talento e o trabalho».

A capa deste livro que vem revelar um novo aspecto na história das ideias do século XIX em Portugal, reproduz um quadro do pintor Gaspar David Friedrich (Nuvens passageiras).

(Edição: Ernesto Rodrigues, Execução Gráfica: Textype Lda.)

Agradecimento

Eu costumo agradecer quando me oferecem algo. Todos os dias, ouvimos Bom dia, Obrigado, Desculpe, Com licença. E mesmo aqueles que não agradecem, por orgulho, por complexo, lá no fundo, agradecem, nem que isso se note após em actos. Há também os ingratos. A ingratidão. Contudo, como um dia, ouvira a determinada pessoa: Nunca te arrependas do bem que fazes.
Esta introdução, para quê? Para agradecer a influência positiva, fulcral, que o João Pedro da Costa teve sobre mim, ao indicar-me o caminho das traduções.
Esquecera-me das palavras e até da verdade que as próprias pedras teriam uma vida para além das leis imutáveis que nos querem impor. Esquecera-me de mim.
Portanto, fica aqui a minha gratidão para com o meu ex-colega da Faculdade e ex-blogueiro do Aspirina B.

Cláudia Rodrigues

Obrigadinho, ó Crespo

O número dos que denunciam a opressão fascista em que vivemos não pára de aumentar. Eles estão em todo o lado: na comunicação social, na oposição, no PS, na bancada parlamentar socialista, nas escolas, nos blogues e na rua. Mário Crespo acaba de se juntar a esta maioria ruidosa, lançando o seu manifesto. E nele encontramos um elemento inovador. É que o costume estava a ser o da filha-da-putice rasteira. Esta modalidade, tão do agrado do filha-da-puta comum, consiste em fazer denúncias não explicitadas, vagas, apelando ao preenchimento perverso pela imaginação da audiência. Estes filhas-da-puta rasteiros expõem as suas teses conspirativas no curioso pressuposto da inexistência de autoridades: morais, políticas, judiciais ou policiais. Ao lê-los ficamos com a impressão de que vale tudo, de que se legalizou a infâmia, de que reina a impunidade nacional-porreirista. Mas com o Crespo, não. Veja-se:


Façamos de conta que o ministro da Presidência Pedro Silva Pereira não me telefonou a tentar saber por “onde é que eu ia começar” a entrevista que lhe fiz sobre o Freeport e não me voltou a telefonar pouco antes da entrevista a dizer que queria ser tratado por ministro e sem confianças de natureza pessoal.

Que temos aqui de anómalo? Não faço ideia. Pelo que está relatado, o Ministro interroga um jornalista quanto a uma interacção futura, o qual é livre de lhe responder como lhe der na gana. Para além disso, o Ministro pede profissionalismo no trato; o que se recomenda, aliás. Do que eu faço ideia, clara e distintamente, é da absoluta vantagem em saber o que foi dito, por contraste com a denúncia usual dos filhas-da-puta comuns quanto a esconsos, crípticos e tenebrosos telefonemas de ministros e autoridades variegadas…

Portantos, ó Crespo, obrigados pá. Também alinhaste na filha-da-putice reinante, apanágio dos pulhas, mas tiveste estilo. E o estilo faz o homem, ó Crespo.

Mulher feliz

O texto mais popular do José do Carmo Francisco, aqui no blogue, está quase a fazer dois anos: Coisas infelizes numa revista chamada Happy. É um pinga-pinga de comentários, ontem mais um, e isto sem qualquer envolvimento do autor no polémico ambiente.

Acontece que a revista tem mesmo problemas no que concerne à expressão escrita. Atente-se nalguns exemplos inclusos na edição de Fevereiro do corrente, no artigo SEXO: TUDO O QUE DEVE EXPERIMENTAR PELO MENOS UMA VEZ (com os seguintes subtítulos: Salto da fantasia para a realidade num baptismo erótico e Conheça a check list das experiências sexuais que nenhuma mulher deve perder). Comecemos por este:

Entre num bar, seduza os homens presentes e convide para ir consigo para a cama o mais atraente deles.

Se entrar num bar não merece reparo, já seduzir todos os homens presentes levanta alguns problemas morais e logísticos dignos de nota. Porém, o que escandaliza é a artificial construção convide para ir consigo para a cama em vez da natural versão convide para ir para a cama consigo ou a económica opção convide para a cama. Isso que publicaram, caras amigas, é mau português, é de evitar, tira a tesão.

Outro exemplo:

Faça o seu próprio filme erótico, com direito a striptease e masturbação, e envie-o por correio ao seu companheiro. Vai ser uma surpresa muito excitante.

Estamos perante um caso de léxico equívoco. Afinal, o termo correio a que se refere? A menos que esteja pressuposto o uso de película Super-8, raríssima e demasiado dispendiosa nos tempos que correm, a ideia de enviar um filme digital por envelope será realmente uma surpresa muito excitante, mas pelas mais anacrónicas razões.

Mais um:

Experimente a dupla penetração com dois homens desconhecidos. A excitação será ainda maior.

Este é um exercício de escrita formalmente irrepreensível, mas com graves falhas informativas. Às leitoras não é revelado que a prometida maior excitação assim obtida resulta, afinal, de um inevitável desastre – aquele que advém de se tentar proeza tão técnica, tão carente de longo treino e especial cuidado, logo à primeira e logo com dois desconhecidos. Por favor, não enganem as senhoras em matérias tão sensíveis.

E finalmente:


Ofereça ao seu parceiro um vibrador. E quando ele lhe disser que o vai usar para lhe dar prazer, surpreenda-o dizendo-lhe que o brinquedo é para ser utilizado nele.

Ora bem, não sei quem é que manda mesmo na revista, no sentido de ter o poder para dar uns berros e ameaçar com despedimentos, mas importa que essa pessoa, seja mulher ou homem, tenha maior respeito por uma indústria em franco crescimento e capaz de, por si só, vencer a crise financeira internacional. É que se esta moda pega, isto das mulheres forçarem os amantes a utilizar os vibradores em si mesmos, o negócio pode entrar em colapso. Estou a avisar.

Em suma, continuam a escrever-se coisas infelizes numa revista chamada Happy.

As vacas também têm sentimentos

É o que este estudo sugere. As vacas a que se dá nome, e com as quais se estabelece uma relação personalizada, produzem mais leite. E a quem interessará a notícia, para além dos produtores leiteiros? A todos nós, inevitável resposta. A maior parte dos problemas na vida são o resultado do esquecimento do nome próprio e do nome de família. Algo que até uma inteligência bovina percebe.