Vinte Linhas 316

Uma cidade de futebol ou Os fotógrafos de Estaline não se cansam

Descobri o livro intitulado «Uma cidade de futebol», edição Assírio & Alvim/Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa. Embora refira os autores dos textos (Paulo Catrica, Nuno Domingos, Miguel Amado e José de Monterroso Teixeira) nada diz sobre o autor das legendas. Vê-se logo o BI do dito na página 34 «Equipa de futebol do Sport Lisboa e Benfica 1906/1907» Repete o erro na página 35. Fundado em 13 de Setembro de 1908, o Sport Lisboa e Benfica não existia em 1906, nenhum documento anterior a 1908 refere o Sport Lisboa e Benfica. Está na massa do sangue dos fotógrafos de Estaline a permanente reescrita da história do desporto em Portugal. Em 2002 dois nortenhos lançaram o livro «A paixão do Povo» e embora «historiadores» lá caíram no mesmo erro de rasurar a verdade histórica. João Nuno Coelho e Francisco Pinheiro ousam escrever «decidiu bem quem decidiu pela data oficial…» ou seja, decidiu bem quem trocou 1908 por 1904. Nas tabelas do campeonato de Lisboa de 1906/7 lá aparece Sport Lisboa e Benfica em vez de Sport Lisboa. Depois em 1981/2 o Sporting ganhou a Taça de Portugal por 4-0 ao Braga mas no livro aparece 2-1. A seguir ao referem-se ao livro «Glória e Vida de Três Gigantes» e omitem o meu nome que está na ficha técnica ao lado de António Simões e Homero Serpa. Depois há um livro de Álvaro Magalhães («História natural do futebol») também da Assírio & Alvim (já é sina) que cita um poema da escritora Ivone Chinita (minha amiga falecida em 1983) que integra um livro por mim organizado e editado em 1989 («O desporto na poesia portuguesa») mas sem citar a origem quase como se tivesse andado com ela na costura em Grândola. Para concluir: fotógrafos de Estaline, já chega!

Um livro por semana 101

«Contos, fábulas & outras ficções» de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa é o mais avassalador de quantos polígrafos o século XX deu à literatura portuguesa. Em boa hora a editora «Bonecos Rebeldes» resolveu publicar uma recolha de Zetho Cunha Gonçalves que junta textos de ficção narrativa publicados em jornais e revistas pelo próprio Fernando Pessoa. «Contos, fábulas & outras ficções» é um livro irreverente e indisciplinador, um hino à liberdade e um libelo contra toda e qualquer forma de censura, prepotência, submissão e conformismo. Na página 83 deste livro aparece «A origem do conto do vigário» no qual Fernando Pessoa explica à sua maneira a origem da expressão «conto do vigário» como tendo a ver com as façanhas de um tal Manuel Peres Vigário, lavrador ribatejano que teria enrolado seus irmãos num negócio de vinho. Mas a versão que eu tenho como correcta sobre a expressão vem de Vasco Botelho do Amaral e tem a ver com o conto do vigário «lisboeta» digamos assim. O burlão diz ao papalvo que o vigário da sua freguesia lhe confiou uma grande quantia para entregar a alguém quantia essa que está no embrulho – chamado paco. A pessoa que vai na conversa entrega o dinheiro pedido, acreditando que dentro do embrulho estão as notas que largamente compensarão o dinheiro emprestado em troca. E assim «vai no embrulho» pois, aberto o dito, vê que dentro dele só havia papel de jornal inútil e não as notas que seduzem os incautos. Estaremos perante uma invenção, mais uma, de Fernando Pessoa que teria aproveitado a expressão «conto do vigário» para imaginar uma história que viria a publicar no jornal «Sol» em 30-10-1926? Quem tem razão – Vasco Botelho do Amaral ou Fernando Pessoa? Será que a razão está com os dois? Responda quem souber…

(Editora: Bonecos Rebeldes, Organização, prefácio e notas: Zetho Cunha Gonçalves, Capa: Fernando Martins, Foto: Teresa Gonçalves)

Vinte Linhas 315

Dos selos da Lituânia às ruas presas às rodas

Fazer parte de um júri de um prémio literário tem destas consequências: nem sempre o original que nós mais valorizamos vence o concurso. E havendo três membros do júri basta os outros dois se juntarem numa opinião convergente para o (digamos) nosso original perder por 2-1. De qualquer modo a qualidade vem sempre ao de cima e, mais tarde ou mais cedo, o original (digamos) não vencedor acaba por ser publicado, saindo do silêncio das gavetas para o bulício das ruas.

Foi isto que aconteceu comigo em dois anos seguidos. Num concurso de livros de poemas gostei muito (mesmo muito) de um original com um título muito curioso – «Os selos da Lituânia». Na altura não sabia nem podia saber que o seu autor era Amadeu Baptista. Hoje sei que esse belíssimo livro já foi publicado apesar de não ter recebido o (digamos) meu prémio. O ano passado noutro concurso, agora de ficção narrativa, fiquei encantado com uma história de um taxista do Porto, exemplarmente escrita, com um ritmo e uma riqueza vocabular imensa, uma destreza absoluta na organização narrativa. Chamava-se o livro «As ruas presas às rodas». Hoje fiquei a saber que o seu autor é António Rebordão Navarro. Fiquei descansado porque a minha intuição não me traiu – uma vez mais. Acertei na qualidade deste livro em prosa como tinha acertado nos poemas do original «Os selos da Lituânia». A vida é feita destas coisas: derrotas e vitórias. Às vezes meias-derrotas e meias-vitórias que é assim que eu defino estes acidentes de percurso. O importante é cada um ser igual a si próprio. Coerente, justo, correcto. Não atropelar os direitos dos outros. Assim ganha sempre mesmo quando perde.

Problemas na mente


Na foto, professora exibe as suas competências pedagógicas em prol da elevação do debate político e do respeito pela honorabilidade alheia.

Manuela Ferreira Leite aprovou uma campanha da JSD que chama mentiroso ao Primeiro-Ministro. Disse que era uma expressão da irreverência. E uma forma de fazer oposição. Ora, a senhora está a mentir. Por um lado, mente porque a campanha da JSD apenas pretende suavizar o discurso da líder, tentando que ela conceda abandonar o radicalismo de expressões como coveiro da Pátria ou as bem esgalhadas teses sobre a honra dos profissionais da LUSA, entre outros exemplos da verdadeira irreverência. É que esse estilo talvez seja ineficaz, suspeitam os miúdos da JSD; mas não há motivo para alarme, desde que se evite dar alguma importância às sondagens, explica o povo. A estratégia dos jotinhas passará, então, pela imitação das infantilidades favoritas dos comunas, entretanto validadas pela classe docente. Por outro lado, a senhora mente porque esta não é uma, antes a única forma do PSD fazer oposição: indo a reboque do folclore da esquerda imbecil e chafurdando na política acéfala.

Facto é que o consulado da Manela tem inovado em duas áreas decisivas, a gestão do silêncio e a protecção das propostas. Os analistas confirmam a supremacia da táctica, pois nunca antes se tinha visto esse fenómeno de um chefe partidário ser mais popular calado e sem propostas do que a comunicar e com ideias. Os laranjinhas vêm agora consagrar a originalidade, provando que podem ser tão broncos como os adultos (ou seja, estão prontos para ocuparem uns lugares no Parlamento; já a sabem toda, os maganos).

Tem razão o cada vez melhor Santos Silva. O problema mental da oposição pede malho.

Brevíssima história do Aspirina B

Era uma vez o Blogue de Esquerda, é assim que começa a história do Aspirina B. O BdE foi um dos mais importantes blogues na História da blogosfera portuguesa; mas não tenho nem a memória, nem a autoridade, para lhe fazer aqui justiça. Quando acabou, uma das suas notáveis figuras, o Luis Rainha, agregou novo grupo: João Pedro da Costa, José Mário Silva, Júlio Roriz, Luis Rainha, Nuno Ramos de Almeida e Valupi. Era um dream team de consagrados bloggers e pujantes intelectos, se excluirmos a minha humilde e estreante pessoa. A recepção foi a melhor possível, tanto dos leitores como dos críticos.

Participar num blogue colectivo é uma experiência de cidadania, aconselho-te a passar por esse curso rápido de iniciação ao mistério humano. Especialmente se não existirem laços pessoais anteriores, como foi o meu caso. Muito mais do que da tertúlia, é do kibutz que um blogue colectivo é análogo. Escrever é lavrar a terra, a blogosfera o território da identidade e conquista. Começa-se com um espírito comunitário de cariz religioso, a tal paixão dos inícios onde reina a fraternidade e se simula a confiança. Um por todos e todos por um, vamos a eles. Esta fase durará entre duas a quatro semanas. Depois regressa a normalidade do quotidiano dos normais.

Em Janeiro de 2006 mexeu-se na equipa. Entraram ainda mais, e mais desvairadas, vedetas: Daniel Oliveira (com o Rui Tavares às cavalitas), Fernando Venâncio, Jorge Mateus, António Figueira, Vanessa Amaro, Afixe, Rodrigo Moita de Deus, Gibel. Foi o período de maior popularidade do blogue, porém destinado a uma efémera existência nesse pico de fama. Em Março e Abril a debandada estava consumada, a equipa reduzida ao Fernando, eu, Jorge Mateus, um Rainha semi-demissionário e um Zé Mário ausente. Em Junho entraram o Jorge Carvalheira e o TT. Em Outubro começou a colaboração do José do Carmo Francisco. Em Dezembro regressou o João Pedro, ausente desde Fevereiro. Em Janeiro de 2007 saem, definitivamente, o Rainha, Mateus, Gibel e Afixe. Em Março entra a Soledade Martinho Costa. Em Julho entrou a Susana e saiu a Soledade. Em Setembro entra o Daniel de Sá. Em Outubro mudámos para a rede Tubarão Esquilo, deixando cair aqueles que nunca mais deram notícia nem responderam aos apelos, o Zé Mário e o TT. Em Janeiro de 2008 entra a Isabel. Em Março saiu o Fernando. Em Abril saiu o Daniel. Em Novembro saíram a Susana e a Isabel. Em Dezembro saiu o João Pedro. Restam dois autores no activo.

O Aspirina B já devia ter acabado há muito tempo, logo em 2006, a mando da lógica centrífuga reinante nos blogues colectivos. E assim teria sido se o Rainha, que era o líder tácito por ter tido a iniciativa e ter assumido o comando moral, não tivesse saltado fora com o comboio em andamento. Isso gerou uma situação de vazio de poder, o qual foi naturalmente preenchido por quem ficou. Serve esta resenha para fazer um especial agradecimento ao Fernando e à Susana, cada um a seu modo foram inexcedíveis na generosidade e entusiasmo com que participaram no espectáculo e no trabalho de bastidores. É que preparar as refeições e lavar a roupa é tão importante como semear e colher. Num blogue, num kibutz ou em qualquer lugar onde duas pessoas se encontrem e queiram estar juntas.

Um livro por semana 100



«Uma memória de Pereiros» de Joaquim do Nascimento

São 14 crónicas de revisitação («Nasci nos Pereiros e ali vivi até aos doze anos») e daí o subtítulo – «Quotidianos de uma aldeia do Alto Douro – 1930-1980». A geografia sentimental é vasta: «A fonte da aldeia, a azenha ou lagar do azeite e o forno, tal como a igreja, as capelas, o cemitério, as tabernas, ou sotos quando vendiam tecidos, a escola do Combro e as salas de aula que precederam esta, se alguém ainda as conseguir identificar, os velhos caminhos, o rio e os seus açudes e pontes, o moinho da tia Elisa, a caminho de Valongo mas ainda do lado de cá do rio, tudo isto constitui a memória colectiva do povo dos Pereiros». Tudo começa na paisagem («As árvores da minha terra são os sobreiros, embora uma ou outra oliveira de tronco carcomido pelos anos possa figurar em segundo lugar») e acaba no povoamento: «Nos Pereiros, ao pedreiro, ao carpinteiro, ao ferreiro, ao ferrador, ao sapateiro chamava-se artista». Fiquemos pela crónica sobre a carreira: «Mais do que o seu percurso entre a Meda e o Pinhão, a carreira era para nós a velha camioneta que vinha todos os dias e nos ligava pela EN 222 à Vila, ao Comboio e ao Mundo. A carreira da Meda ou a carreira da Viúva passava todas as manhãs, pelas oito e trinta minutos a caminho do Pinhão e regressava às quatro e meia da tarde. Mostrar-se na Avenida para ver passar a carreira constituía a actividade social mais importante da gente da Vila e não vestir a melhor roupa para solenizar esse momento podia desqualificar um cidadão. Nesse curto intervalo desfilavam pela Avenida funcionários, artistas, comerciantes, desocupados, donas de casa virtuosas e meninas casadoiras, bisbilhotando quem tinha chegado e imaginando o destino de quem seguia».

(Editora: Padrões Culturais, Capa: Mário Andrade, Apoio: Associação Amigos de Pereiros)

Vale a pena continuar a anotar o que acontece ao Pacheco

Pacheco Pereira está em alta. Conseguiu revitalizar a sua imagem de polemista através de um triplo estratagema: primeiro, estigmatizou a comunicação social no seu conjunto; segundo, criou uma classificação lúdica e provocadora; terceiro, explora vilmente o ritmo e perversão da campanha contra Sócrates. A lógica é a da política-espectáculo, o ganho mede-se em notoriedade para o artista. Pacheco investe em si, na sua marca, sabendo muito bem que esse é o único lugar onde quer estar. No campeonato particular com Marcelo Rebelo de Sousa e Vasco Pulido Valente, leva destacada vantagem.

Quais ideias reformadoras quais quê, ninguém lhas conhece. Qual projecto político e qual futuro do País, deixa-te disso ó pá. Quer ele lá saber da Manela para alguma coisa, era só o que mais faltava. Os chefes vêm e vão, esta lapa fica e fica. Aliás, gorada a possibilidade de fazer da senhora alguma coisa com pés e cabeça à frente do partido, Pacheco já só trabalha para garantir um poiso em Bruxelas, no bem-bom. A reforma quer-se dourada, platinada, e a vida de eurodeputado tem encantos irresistíveis para quem não suporta a choldra nacional.

O Índice do Situacionismo funciona através de um sofisma primário: sendo inevitável o acompanhamento da actualidade e a reciclagem dos conteúdos noticiosos, Pacheco infecta essa mudança com o vírus da conivência. Se algum órgão de comunicação social não corresponder ao farisaico critério que só se encontra definido na sua carola, passa a ser denunciado com factos: capas, títulos, textos, fotos, alinhamentos, minutos, segundos. Ninguém pode escapar. Ou melhor, só o Avante, no saudoso ódio contra Sá Carneiro, estaria conforme ao zelo com que chicoteia a deontologia e honestidade intelectual alheias. A inevitável ambiguidade do real, mediado segundo as idiossincrasias individuais e de grupo, é a matéria do labéu. Não contas a história à minha maneira? Então, não prestas, és filho da puta e estás feito com eles, com a situação.

Esta manha de vendedor de atoalhados funciona, porque é tóxica, terrorista. Mas o antídoto tem de ser encontrado no veneno. O que alimenta o demónio do Pacheco não é o amor à cidade, a qual está cheia de gentalha com quem ele não quer perder uma caloria. O que diz dos blogues é o exacto espelho do que pensa da comunidade, onde 99% dos seus concidadãos são do piorio. Naaa. O que faz correr o Pacheco é o pavor da responsabilidade. Por isso há muito que ele desistiu de vir a chefiar o PSD, quanto mais a governar o rectângulo. Quão melhor não é ficar na plateia, ou no camarote, mandando bocas, pateando, aplaudindo por capricho e vingança. E depois adormecer alucinando-se com a missão cumprida.

Enquanto Sócrates vai para a frente do exército, dando o coiro ao manifesto, Pacheco barafusta e agita as perninhas de longe, ao largo. Ninguém o pode atingir. Afinal, ele não assume qualquer responsabilidade pela situação.

Freeport começa finalmente a dar lucro

Terminado o Prós e Contras, eis o lucro do caso Freeport até agora:

– Os viciados em teorias da conspiração saltaram da toca assanhados e agora sabemos melhor quem eles são e do que são capazes. O problema desta gente não está no levantamento do problema, está no boicote da solução.

– Apenas para o País ter ficado a conhecer a qualidade técnica e política de Rui Gonçalves já tudo valeu a pena, passe a boutade. Como ele há milhares e milhares de portugueses. E é com eles que nos queremos governar.

– Cresce a fervura social que pode levar à reforma da Justiça, a mais importante das reformas a fazer, sob qualquer ponto de vista. Só por uma funda ignorância cultural e cívica, essência do salazarismo estrutural que tanto demora a passar, o povo não tem exigido aos partidos um decidido e transparente investimento no sistema judicial. O povo tem tido medo, tem sido cobarde, é miserável. Mas o poder continua na sua mão. Assim ele acredite na superioridade da democracia. Assim cada um acredite em si e queira viver com honra.

Vinte Linhas 314

Ruslam Botiev dá um «bom dia a Portugal»

Esta chuva que parece não ter fim é trazida por uma frente polar fria que nenhum anticiclone açoriano detém. Pode encher barragens mas prejudica a vida de muita gente. O meu amigo Ruslam Botiev, artista plástico mongol apaixonado por Lisboa, costuma fazer do passeio ao lado da porta da Basílica dos Mártires o seu atelier-exposição. Esta chuva só o prejudica a ele e aos seus quadros de pequeno formato. Um destes dias tenho que lhe dizer que os seus desenhos sobre Lisboa, suas ruas e suas gentes, seus transportes públicos e suas estátuas, seus telhados e seus gatos, me faz recordar o traço de Nuno San Payo. Parece-me óbvio que Ruslam Botiev, o sorridente artista plástico que veio da Mongólia, só por mero acaso poderá ter ouvido sequer falar dos desenhos de Nuno San Payo que integram um álbum intitulado «Calendário de Lisboa», editado em 1948 pela Livraria Popular de Francisco Franco. Ruslam Botiev entra todos os dias em Lisboa pelo comboio da ponte 25 de Abril. E, porque gosta da cidade dos alfacinhas apesar de ser natural da Mongólia, chamou «bom dia a Portugal» a uma série de desenhos seus feitos sobre Lisboa. Depois de ter vivido em Murça onde trabalhou sob diversas formas a figura da «porca de Murça», Ruslam Botiev veio para Lisboa e veio para ficar na Rua Garrett. Quando a tempestade passar, quando o sol chegar com a sua força contra a frente polar fria, eu hei-de oferecer ao meu amigo Ruslam Botiev uma reprodução da série «calendário de Lisboa» de Nuno San Payo provando nas parecenças do traço com a sua série «bom dia a Portugal» porque quando se ama uma cidade todos os desenhos de todos os artistas acabam por ser, afinal e no fim de contas, muito parecidos entre si.

Lembretes

– Mesmo que apareçam emails a revelar que Sócrates planeou o 11 de Setembro, fez a cabeça aos Távoras e foi uma muito má influência para Judas Iscariotes, Manuela Ferreira Leite continuará a ser um desastre.

– Dias Loureiro voltou a ser desacreditado por António Marta, desta vez com peso institucional máximo. Escusado será dizer que Dias Loureiro deve estar convencido de que nunca cairá sozinho, se é que alguma vez cairá. E é óbvio que este caso de corrupção, o da SLN, é só o mais grave no pós-25 de Abril, pela extensão do que está suposto – atingindo o centro executivo e ideológico do cavaquismo, mas também todo o tecido político e bancário pelas debilidades sistémicas expostas.

– Enquanto o PS tem várias figuras prontas para substituir Sócrates imediatamente, sem espinhas para o eleitorado, até capazes de recolher o apoio das franjas irritadas, o PSD não tem ninguém que prometa mais do que estancar a hemorragia. E à volta vegetam o Portas, Louçã e Jerónimo, três tristes tipos. É este o único problema da política nacional.

– A histeria dos ataques contra Sócrates, logo desde 2006, não se explica só pela política reformista do Governo. Mais fundo se encontra o casus foederis (tradução: aquilo que os fode): é uma luta entre gerações, modelos de conhecimento, práxis politica, estilos de vida. Os pançudos não perdoam a boa forma do corredor, e farão de tudo para lhe reduzir a passada.

– O desfecho do caso Casa Pia vem aí e será um importantíssimo momento de reflexão para a Nação, seja qual for o resultado.

– 2009 já só tem 11 meses para dar cabo desta merda toda.

Manel, larga o vinho

Manuel Monteiro é uma personagem trágico-cómica, como qualquer português very typical. O seu maior desejo era voltar ao CDS, regressar ao vaidoso corrupio dos jornalistas, ter poiso garantido na Assembleia, receber convites para brunches e almoços em hotéis de luxo, atravessar feiras com passo seguro e olhar confiante, desfrutar de momentos em que até ele acreditaria no que estivesse a dizer. O sonho é lindo, e nessa visão adormece embalado há anos, mas não teve Portas por onde entrar. Assim, arrastou-se pelo PND até ao dia em que a filial da Madeira introduziu a suástica na gesta do parlamentarismo insular. Esse foi precisamente o dia, horas depois, em que fugiu do hospício.

Ontem discursou no 4ª Congresso do PND. Aproveitou a ocasião para mostrar o que Portugal está a perder ao ignorar as suas ideias. Eis o raciocínio: os partidos com representação em São Bento são corruptos e/ou incompetentes, o Primeiro-Ministro é suspeito de crimes vários, o Presidente da República está a ser irresponsável, os militares só não fazem um golpe de Estado por carência de recursos não especificados (munições? gasóil?) e, algures em 2009, os patrícios irão para a rua fazer mal uns aos outros. Que fazer? Demitir o Governo, diz ele. E para quê, se tudo à volta é uma desgraça e ninguém irá escapar? Isso já não explicou, talvez por falta de tempo.

O Manel faz parte da legião dos zangados, a qual vive com a certeza de que alguma coisa no seu quotidiano está completamente errada. Mas que será? O sentimento de confusão e insegurança aumenta com o declínio cognitivo, a ansiedade torna-se angústia, desespero. Algo está errado, e alguém tem culpa, mas nunca os zangados. Claro. A zanga só é possível num estado de narcisismo e projecção, não em abertura e renovo. A intensidade deste rancor justiceiro é a exacta medida da sua impotência política. O verbo solta-se cristalizado, lancinante, e substitui a acção. Aparecem as matrizes do social, os emblemas do poder, as forças coercivas a prometer a salvação. Quando o seu mundo parece ruir, os zangados acabam invariavelmente a chamar pela tropa. A tropa-fandanga.