Com o título de capa “Dei mil contos a Pacheco Pereira”, numa chamada para a entrevista a Abel Pinheiro, uma figura que poderia ser metida num frasco com álcool e estudada em cursos anti-corrupção, o semanário de Balsemão, dirigido por essa fraca figura que é Henrique Monteiro, alimenta a filha-de-putice que vai marcando a imprensa em 2008. Não temos jornais de referência, é o que isto significa.
Arquivo mensal: Março 2008
Um confuso bem-estar
Um grupo de patuscos botou faladura sobre o estado da Nação. Quiseram aproveitar a onda choné — onde brilham espécimenes cada vez mais raros como Manuel Alegre, Garcia Leandro e Marinho Pinto — e participar na festa da democracia com foguetes de três tiros. Para lá da opinião que cada português tenha da SEDES, nomeadamente da fundada suspeita de ser uma agremiação vocacionada para a comezaina, há um mérito que ninguém lhes pode tirar: na Tomada de Posição de Fevereiro não aparece assinatura de mulher. Esta negatividade é positiva, se coada semioticamente, indicando-nos que estes senhores não querem que as suas senhoras se tomem de entusiasmos e se ponham em posição à frente de toda gente.
Outra possibilidade é a de não existirem senhoras na SEDES, o que seria coerente com o intenso bafo a balneário que emana do comunicado. Ou que existam, mas que não se angustiem com a actualidade, talvez por estarem ocupadas a cuidar dos senhores angustiados e dos seus muitos problemas quotidianos. Questão que pomos de lado, perante a urgência em reflectir nas reflectidas palavras deste órgão de reflexão:
1) UM DIFUSO MAL ESTAR
Sente-se hoje na sociedade portuguesa um mal estar difuso, que alastra e mina a confiança essencial à coesão nacional.
Aqui temos o 1º ponto e respectivo 1º parágrafo, dos 5 e respectivos 27, que constituem a peça. Funciona como súmula do que segue, contendo os elementos da expressão mais citada pelos jornalistas e comentadores, as palavras difuso, mal e estar. E nada poderemos compreender do título e da frase supra se desprezarmos a problemática do hífen. De facto, uma e outra vez, escreve-se mal estar e não mal-estar. Ignorância? Esquecimento? Ou intenção? Só há uma resposta: deste grupo de notáveis, num acto de aviso solene à Grei, tudo é lucidez e vontade. Pretendem, portanto, apontar o mal de um estar, ou até o estar de um mal; e nisso revelam-se metafísicos, tangem o abismo gnóstico.
Conclusões de fim-de-semana
A minha sobrinha é a princesa mais linda de todas as princesas juntas e partilha com as tias um gosto exemplar por sapatos vermelhos.
Sou a pessoa mais cerebral entre todas as conhecidas de alguém que me conhece. Só não sei muito bem o que isso significa.
Em cada esquina, heterónimos.
O fervor empregue por todas as mulheres concentradas numa pista de dança na execução vocal de I will survive, na versão original ou na dos Cake, sugere um soltar da franga pontuado por gritos do Ipiranga que só pode ter significado sociológico.
Nas estações de serviço vendem pão fresco, cedo, pelas 7 horas. Guardado no peito, dentro do casaco, chega a casa quente. Com lâminas de manteiga gelada é o acepipe perfeito para uma ceia matinal.
Não cai mal dar as boas noites à portageira numa gloriosa manhã de domingo. Nem mesmo numa manhã tão manhã como a de ontem.
Vinte Linhas 251
«Não é preciso revisor; os computadores fazem isso!»
Esta frase é célebre e foi ouvida numa redacção nos anos 90 a um «engenheiro» que administra jornais como poderia administrar supermercados ou lojas de bricolage. Hoje lembrei-me dessa frase pois caíram na minha mesa de trabalho três exemplos de como ele está profundamente errado. Vejamos o primeiro caso: no «Diário de Notícias» de ontem (15-3-2008) aparece a palavra crisóstomo para definir a lampreia quando deveria ter sido empregue a palavra ciclóstomo. Sim, o «ciclóstomo» é que é «a ordem dos peixes que compreende as lampreias e formas vizinhas». A Revista «Guias Convida» dedicada ao Bairro de Santos apresenta uma entrevista a Raul Solnado sobre a Sociedade Guilherme Cossoul que, num texto assinado por Isabel Lindim, terá dito: «Iam lá muitos poetas. O Possidónio Muralha, por exemplo, que uma vez jogou pingue-pongue comigo.» Claro que não disse; o nome do poeta é Sidónio Muralha, Possidónio Cachapa é outro autor, muito mais moderno. Entretanto a Revista do Círculo de Leitores no seu nº 176 apresenta Anabela Natário, jornalista que eu conheço desde os tempos em que ela trabalhava no «Correio da Manhã» em 1982, como tendo nascido na Foz do Douro em 1942, licenciada em Direito e advogada no Porto entre 1966 e 1983. Não, não pode ser. Estes dados pertencem a outra pessoa, por acaso do sexo masculino, chamado Vasco Rebordão da Graça Moura, primo do escritor António Rebordão Navarro. Coitada da Anabela Natário, assim de repente promovida a «mais velha» – uma coisa que em África até tem muito prestígio mas que aqui na Europa nem por isso. Fiquemos por aqui. Mais uma vez se prova que os computadores podem fazer muita coisa na ortografia mas só uma pessoa pode perceber os erros de sentido. O «engenheiro» não tem razão, os computadores não fazem isso…
Pimenta e pão de milho
Hoje eu vou-lhe contar umas coisas daqueles tempos, mas peço que as escreva direito. Eu falo torto porque não tenho letras, mas o senhor sabe o que eu quero dizer. O pessoal ri-se da gente, dos modos como a gente fala, mas se os senhores escrevem isso tal e qual a gente fala não falta quem diga que é… como se diz?… Literatura, é isso. Quer dizer que a gente fala, e dá para rir; os senhores escrevem, e levam palmas.
Eu não aprendi a ler porque havia só uma escola de rapazes, alguns cinquenta, ou mais, do professor Francisco Costa, que parece que depois foi posto daqui para fora de castigo, porque não gostava do Salazar. Acho que foi para Setúbal, mais ou menos por trinta e um. Bem, mas a verdade é que meu pai precisava de mim para trabalhar, minha mãe teve oito filhos, morreram dois rapazes e duas raparigas, de machos fiquei só eu e meu irmão, era preciso dar ao gadanho se a gente queria comer. Lembro-me de uma vez à noite estar deitado cheio de fome, a gente não tinha ceado, minha mãe deu-nos água quebrada da friura para beber e enganar o estômago, e eu ia pedir uma nica de pão, mas mal disse “mamã” ela percebeu que eu ia pedir de comer e deu logo um assopro na luz, apagou-a, a modos que quando eu disse “tenho fome” ela respondeu “agora já apaguei a luz”. É triste, e ainda hoje tenho pena dela, que eu ouvi-a chorar na cama, e foi por não ter pão para dar à gente.
Já se sabe que muitas vezes se comeu pão de milho com pimenta salgada, o sal e a água que se bebia enganavam mais a fome do que o resto, era como as sardinhas de Lisboa, aquilo era só sal mas consolava a comer. O senhor pode não acreditar mas uma sardinha de Lisboa dava para a gente todos, a barriga não era sempre para o mesmo, era cada um a sua vez, porque era o que todos gostavam mais. A gente comia mais pelo cheiro que outra coisa, com uma grande tigela de chá e pão de milho, já se sabe, que o de trigo era vê-lo.
Meu pai, que Deus lá tem, se Deus não acode não chegava a ver os filhos crescer. Deu-lhe uma pneumonia, mas a gente pensava que era gripe, foi-se aguentando com chazinhos com uma nica de açúcar, que minha irmã Conceição ia comprar por um ovo, e ainda trazia o petróleo e uma unha de queijo para meu pai meter na boca. Quando minha mãe viu que aquilo ia cada vez pior, chamou o senhor doutor, ele viu meu pai naquele estado, chamou minha mãe de parte e perguntou “Maria do Rosário, tens uns dois contos de rei?” Acho que foi isso, dois contos de rei. Minha mãe tinha a graça de Deus que é grande, disse “ó senhor doutor, para que é que é preciso os dois contos de rei?” O senhor doutor disse que meu pai estava difícil de se salvar, mas podia experimentar penicilina, que era remédio novo nesse tempo e era muito caro porque parece que vinha de Espanha, e disse a minha mãe “já tens os filhos criados, tem paciência que o teu homem não está nada bom, vai contando com o pior.”
Aquilo foi de frio que ele apanhou. Dizem que agora não faz frio como antigamente, mas experimente o senhor a vestir roupinha de cotim por riba da pele e dormir numa casa que o vento entrava por todos os buracos, tapado com mantas de retalhos, e veja se não há frio como naquele tempo. E descalço por esses caminhos, que não havia sapatos, eu só tomei a Nosso Senhor quando os pés serviram nos sapatos de meu irmão. E meu pai tomou a Nosso Senhor descalço, e não foi só ele, que só teve um par de sapatos na vida toda, os do casamento. E sabe como foi o jantar dos noivos de meu pai e minha mãe? Pão de trigo com queijo de cabra, uns canjirões de vinho e uns bolos de massa sovada que uma tia de meu pai cozeu. Mas quando havia casamentos quase toda a gente mandava aos noivos um prato de louça fina, não era da Lagoa, cheio de trigo. O prato ia de oferta com o trigo, tudo junto dava para as primeiras cozeduras ou para guardar para a festa do Santíssimo e do Natal, que era isto o mais certo. Agora não falta fartura, mas naquele tempo as pessoas eram mais amoráveis, acho eu.
Vinte Linhas 250
«Prix Nationale Blaise Cendrars» para um poeta português
Liberto Cruz, com o poema «Partir», foi o vencedor do Prémio Nacional Blaise Cendrars de 2008. O júri, presidido por Miriam Cendrars, atribui o prémio com o nome de seu pai ao poema que veio de Lisboa destacando-o como o melhor entre 415 participantes. Para os leitores do nosso Blog aqui fica em primeira mão o poema de Liberto Cruz:
«São idênticas as águas / de nossas terras e gentes / e um sopro de memória / nos habita e conduz.
Por cá ou por lá correndo / é por líquidos caminhos / de mares e oceanos / que nossa vida jogamos.
Partimos para voltar / e só vacila quem quer. / Se perdemos ou achamos / não importa. Nosso lema / é seguir. Nossa viagem / é terra já inventada. / Todo o espaço é / como tempo já vivido.
Por toda a parte soubemos / raízes distribuir / O exílio não vence / quem nasceu para lutar. / São nosso companheiros / o sonho e a coragem / mais a raiva e o luto / com desejo de partir.
A saudade é a nossa / arma. Dela nos servimos / dia a dia. Traiçoeira, / é difícil enfrentá-la: / ora súbito nos mata / ora não deixa morrer.»
(notícia elaborada por José do Carmo Francisco)
Duas garrafas de Macieira
Olhe qu’ê gosto munto do João Cravalho, aquilo nã era partida qu’ele me fezesse. A gente só pode levar duas garrafas de bebida, dizem qu’a lei nã permete nem sequer essas duas, mas eles fechim os olhos s’a gente nã leva más que duas. Quer-se dezê que eu levê aquelas duas e nã podia levar más ninua. Uma era pra ofrecer ó mê doutor, um belo home, que até fala uma nisquinha de pertuguês, e tá sempre numa ipequeia comigo, quer qu’ê largue a bebida, mas, mê rico amigo, um home bebe desde o breço, nã há modos de largar, nã le parece? Isto nã é mintira ninua, era cma todos os outros pitchenos do mê tempo, mal davam um grito as mãs pansavam qu’era dôs de barriga, ala dar-les licô de esprite de canela, a gente ficava era bêbedos, coutadinhos, ó dispous, já más maorzinhos, era sopas de cavalo cansado, sabe isto o que é, o sê pai tamam dava às mulas uma garrafa de vim e um pã trigue, antes da viage da cedade prà Maia, sete léguas aluídas por aí adiante, entanse pra subir a Croa da Mata, mas más principalmente o Coucinho do Porto Formoso, aqui os carroceros tinham de metê a giga nos varales da carroça pra dar uma ajuda às bestas. Nos Calços, a camineta, qu’era a cravão, nã subia, os passageros tinham de descer e dar uma ajuda a impurrar, o malero ponhava uma pedra mal ela subia uma becadinho, os homes tomavam folgo e ala outro impurrãzinho. E cando era pra sair aqui da Maia, o malero ia aí plas quatro da manhã acender a caldera, despous a camineta tomava balanço pra pegar pla rua da igreja abaxo, se não pegava tava lá em baxo uma junta de bous pra a levar pra riba até à igreja, e lá ia ela por ali abaxo até pegar. E no Coucinho do Porto tava sempre outra junta.
Pous, fu ê munto prezado ofrecer uma garrafinha ó mê doutor, nem faz ideia cm’aquele home tratou a minha mulher, qu’ela morrê fou porque teve de sê, era uma santa, o que penou comigo só Dês sabe e ê tamam. É por isso que agora que tou viúve e na ritaia venho cá más vezes, mas esses coriscos pregam-me cada partida qu’ê nunca m’alembro de ter feto igual a outros, e inda menos a eles, mês ricos amigos. Mas esta fou ideia do João Cravalho, que se ri cm’o demoino cando le conté, e ê tolo inda le fu contar o que m’acontecê. Pous segue-se que cando ê incontré o doutô, despous de le dar a garrafinha, era de Macieira, tava à espera qu’ele me fezesse um elogio, qu’aquilo vendo era mesmo Macieira, eles fezeram a cousa munto bem feta, era tal qual. Um elogio, isso é qu’era bum! Cal-te-cá elogio! Sabe o qu’ele me disse? Os coriscos tinham botado era chá nas garrafas, qu’ê despous provê a outra, que tinha na ideia ofrecê-la a outra pessoa amiga. O doutor ri-se e disse-me, ele fala uma nisquinha de pertuguês, já le disse, “Ó senhor Franco, a aguardente na sua terra é munto fraquinha.”
A sopinha do José Zélia
Como há uns amigos que confessam gostar destas histórias, aqui deixo outra, o mais próximo possível do modo como me foi narrada. O José Zélia foi das pessoas que mais me abençoaram na vida, pois de cada vez que eu ou qualquer outro lhe oferecia um copinho de vinho, incluindo minha mulher quando ia tomar café e o encontrava à espera de uma boa acção, ele punha as mãos num jeito muito característicos e exclamava: “Alminha santa!” Era tão magro que tentar a descrição pareceria um exagero. E não havia uma única dessas almas, santas ou não, que não gostasse dele. Vivia com uma irmã também solteira, seu anjo da guarda.
Notas- “pial” ou piar, amassaria, o que agora se diz bancada da cozinha.
* * *
O senhor prefessor vá-me desculpar, mas eu já contei isto ao senhor Adelino, sê sogro, e ele ri-se que fou misteres. Eu já sou velhinho, a cabeça já não aguenta munto, bebi dous copinhos e fiquei logo tonto. Cheguê a casa, Maria não tava, mas a sopinha tava sôbelo pial, peguê na binquinha, assantê-me e comi tudo nuns arages. Quando acabê de comer, vou pra me alevantar e dê uma grandessíssima cabamdela pr’aquele meo do chão. Ó senhor prefessor, fiquê pr’ali a esgatanhar alguns cinque menutres, já tinha as unhas negras cmà terra da cozinha, e pensê “ó Senhor Santo Cristo queride, se aquela putcha de merda chega agora, tou desgraçado”. Esgatanhê, esgatanhê, e não saía do memo lugar. Ó senhor professor, de repente eu sinti abrir a porta e disse “ó Senhor Santo Cristo, cá vem aquela putcha de merda, tou desgraçado.” Ela vi-me naquele trestalho, pegou-me na gadelha e apuxou, apuxou. O senhor prefessor desculpe, mas ê nã tinha onde agarrar, agarrê-le na marreca e apuxê. Ela gritou “tá-me doendo, cara de macaco”. E ê disse “tamam me tã doendo, putcha de merda, tamam me tá doendo”.
De sapatos e vinho
Mestre Luís Perneta? Aquilo era um demoino em forma de gente. O senhor sabe daquela vez que ele fez os sapatos prò sargento do Continente, não sabe? O home tinha estado aí co’a tropa no tempo da guerra, e ia-se embora, queria uns sapatos bem feitos prà viage. Mestre Luís fez-le os sapatos, ficaram com bum ar, cousa fina. Fina de mais, meu rico senhor. No dia que era prà tropa embarcar veio um temporal medonho, com chuva que Deus la dava, o barco não pude fazer viage. Pous aquela aguaria foi caindo no sargento, que não era melhor qu’os soldados nem qu’os oficiais, o pobre ficou todo num pinto. Os sapatos é que fou pior. Aquilo era cma uma espece de papelão, ou lá que era, começaram a arregoar, a desmanchar-se, o triste ficou quase descalço. Veja lá a figura que fazia se chegasse assim a Lisboa. A tropa voltou prà Maia, à espera de bum tempo, e o sargento fou logo no outro dia ter com mestre Luís. O qu’o home le disse, louvado seja Deus! Daquelas gordas, finas e grossas, umas à nossa moda outras à moda de Lisboa, e mestre Luís ouviu que nem uma pedra. Quando o sargento acabou de botar abaixo, e tinha toda a rezão, disse “garoto, aldrabão”. Mestre Luís alevantou-se, segurou o corpo na perna sã e contra a mesa, e apontou o dedo na cara do sargento dizendo-le: “Garoto e aldrabão é o senhor, que disse que se ia embora ontem e não foi.”
Levado dum corisco, isso é o que ele era. E lembra-se d’ele ter a tenda ali na casa onde mora o senhor Pedro, em frente da igreja? O dono da casa tinha casado c’uma senhora muito mais velha, mas rica, que mandava em tudo. Ele ia às vezes pra lá conversar com mestre Luís, e um dia mestre Luís pegou numa garrafinha, qu’inté tinha o gargalo partido, qu’uma garrafa era um luxo, nesse tempo, porradaria qu’a gente levava se quebrava alguma, qu’era pra encher na fonte qu’havia ao pé das escadas do adro, o senhor alembra-se? Mas vai mestre Luís e vira-se prò senhor Raposo: “A gente vai beber água, com vinho aqui ao lado?” É que mesmo apegado à tenda ficava a adega, era só abrir uma porta, mais nada. Mas o senhor Raposo disse “Ei home, a dona Maria se ouve dá cabo da gente.” Dona Maria era a mulher, e ele tratava-la era assim. Mas mestre Luís disse qu’abria a porta sim fazer barulho. E abriu mesmo. Levantou-la um poucachinho, e fou muito, muito devagarinho inté caber pla greta. Fou à vasilha, tirou o batoque, abriu a fonte e encheu a garrafinha. E fou logo garrafa prà boca, fou duma vez, benzò Deus. O pobre do senhor Raposo tava à espera da sua vez, mas quando mestre Luís acabou meteu a mão no peito cma quem diz que tava consolado, e deu um “ah!” do tamanho d’hoje e d’amanhã. E inda teve o descaramento de dizer “Foge, senhor Raposo, qu’a Dona Maria se vem aí mata a gente os dous.”
joaninha voadora

Uma rotina que já faz parte dos ciclos aspirínicos é convidarmos a Ana para nossa colaboradora, convite que ela tem sempre tido a elegância de não declinar. Mas é com alegria que o presente anúncio ainda não é o do novo reforço contra o excesso de testosterona no blog. Trago, praticamente em primeira mão, a novidade: a partir de dia 24 vão poder adquirir um novo exemplar de literatura para a infância escrito em bom português. Da Ana Cristina Leonardo.
palavras que deviam ser inventadas
interlúdio pró-musical
A ausência do João Pedro começa a ser acusada na vizinhança, carente de títulos de peso e extensa medida, que começa a ressacar. João, está na altura de quebrares o tabu.
Liberdade condicionada
“Bem-aventurados aqueles que nada têm a dizer, e não podem ser persuadidos a fazê-lo.” (James Russell Lowell)
“Tudo é permitido, mas nem tudo é conveniente.” (S. Paulo)
As palavras são as armas dos pacíficos. E também podem ser usadas como pedras de arremesso. Ou como catapultas de destruição.
A liberdade de expressão consiste em dizer o que pensamos, não em querer que os outros pensem como nós. Porque isto já faz parte da sua liberdade para decidir. E a qualidade do discurso não se define pelo modo como se impõe, mas pela maneira como respeita o pensamento alheio.
um deus para todo o serviço
Há dias recebi um telefonema. O Isaías é empreteiro e imigrante em Portugal. Fez umas pequenas obras em minha casa há uns anos e criou-se uma relação especial. Ele aceitava a minha sopinha e conversávamos sobre a vida, a religião, a ética e as pessoas. Quando lhe paguei disse-me que era o primeiro dinheiro do qual poderia dispor, mandando uma parcela para a sua mãe, e que iria poder declarar, facilitando a sua legalização laboral. No Natal seguinte enviei-lhe uma mensagem de conforto e encorajamento e ligou-me para dizer que tinha sido a única recebida dentre os portugueses que conhecia. Entre a gratidão e o reconhecimento de estar diante duma pessoa boa e correcta, ficámos a gostar um do outro. Ao longo dos anos tivemos contactos esporádicos e dentro do mesmo registo.
Quando atendi o telefone pensei que me ligava por motivos de trabalho. Não era. Quis falar comigo porque era dia 8 de Março, o dia internacional da mulher, e se tinha lembrado de mim. Queria dizer-me que me admirava, como mulher, mãe e pessoa. E ainda informar-me que Deus tem um plano para mim. Tivesse eu fé, pois o perdão não tem que ser uma amnésia e o caminho está em aberto. Sensibilizou-me e enterneceu-me. Fiquei-lhe, eu, grata.
Sou daquelas pessoas que se lembram de Deus para lhe agradecer a sorte, sempre que ela parece desmedida em relação ao merecimento. Também lhe peço atenção perante um grande temor relativo àqueles que amo. Mas, de modo geral, não acredito nele. No entanto, no fim-de-semana passado, um amigo que trabalha por conta própria contou que a rapariga das limpezas lhe faz rezas no escritório. Aparece, então, mais trabalho e os clientes em dívida começam a pagar em massa. Outra pessoa tem-me contado que nas vindas a minha casa, onde é difícil estacionar, sempre que se lembra de pedir a deus arranja lugar.
Compreendo o deus que une uma comunidade em torno de um ritual, mesmo que apenas se amem uns aos outros nessa duração. Compreendo o deus que se alberga num lugar de culto e de quem sinto uma presença empática se ali procuro recolhimento. Mas tenho uma enorme dificuldade em compreender este deus cobrador de fraque ou aqueloutro deus nosso senhor arrumador.
A Marcha da Estagnação

Na imagem, professora segura cartaz com importante reivindicação da classe.
Se o número de indivíduos reunidos em espaço público passa a ser critério para decisões governamentais, os estádios de futebol e o Santuário de Fátima irão ter um glorioso futuro legislativo. 500.000 crentes juntinhos uns aos outros, com velas acesas, serão capazes de reverter o resultado do último referendo sobre o aborto em menos tempo do que se demora a ir do Marquês ao Terreiro do Paço num táxi. A beleza de se ver 100.000 manifestantes é inegável, número que tem provocado chiliques em inveterados e batidos sindicalistas de bigode e senilidade PRECoce. As previsões iniciais eram de 10.000 participantes, e tal já teria sido uma vitória. Tudo o que o sindicalismo e os partidos fazem é sempre uma vitória, como os seus representantes não se cansam de nos informar uma e outra vez. Mas cem mil é lindo, orgasmático. E foi encantador ouvir tantos com o mesmo estribilho, o qual imaginavam judicioso e judicativo: Eu nunca tinha ido a uma manifestação na vida, e vim a esta! Achavam que estava nessa dramática confissão a prova última da superior razão do protesto. Eles tinham vindo, tinham-se dignado a mexer o cu e a misturarem-se com a turbalmulta, a caterva da berraria. Então, cuidado ó ministra, vê lá isto ó Sócrates, o assunto era sério.
no país dos brinquedos
A minha irmã estava a instalar o filho de três anos na cadeirinha do carro.
Temos que pôr o cinto, se não o senhor polícia pode aparecer e ficar zangado…
Ó mãe o marido da B. é polícia, não é?
Sim, o marido da B. é polícia.
Ó mãe eu quero ir a casa da B.! Podemos ir a casa dela ver o senhor polícia? O marido da B. é o Sr. Lei, não é mãe?
Sim, pois, o Sr. Lei…
Ó mãe e em casa da B. também há Sonso e Mafarrico?
além mar
O vento e o casamento

Não gosto de espanhóis. Explico: gosto tanto de espanhóis como de franceses, marroquinos e russos. Quero que todos sejam felizes, e muito felizes, mas não gosto de espanhóis. Por isso não gosto do Camacho. Fala rápido demais, alto demais e parece estar sempre irritado com algum assunto de merda, tal e qual como todos os outros espanhóis de quem eu não gosto. Vê-lo ir-se embora é um alívio para o meu coração de leão espectador televisivo. Mas acho uma filha-de-putice ir embora agora, só porque a cada jogo se comprovava a bosta que ele é como treinador. Nisso devia aprender com o Paulo Bento, outra caga de treinador, mas com a coragem para aguentar o barco já meio afundado. Porque isto de ser treinador é a melhor profissão do mundo: pagam-lhes para ir assistir a jogos junto ao relvado. E pagam até muito bem a uns quantos sortudos. Ficam ali a olhar para os acontecimentos, emocionam-se, chateiam-se, berram, levantam os braços e podem fazer um máximo de 3 substituições. No final dos jogos, são entrevistados. E contam o que viram. Antes dos jogos também são entrevistados, e aí falam do que gostariam de ver. Não tem nada que enganar. Então, ir embora porquê? E logo agora que a equipa está no intervalo da eliminatória europeia e vai jogar a meia-final da Taça com o meu clube? E sair assim de repente, apanhando o amigão Vieira com as calças na mão e o charuto na borda do autoclismo? Mas que gajo é este, este Camacho dum cabrão, que deixa os meus estimados inimigos ao cuidado do Chalana?!… Já se perdeu por completo a decência?
Dizer que os jogadores não têm motivação é a explicação mais delirante que alguma vez se deu para uma demissão. O vendaval que a sua irresponsabilidade provoca, no entanto, é coisa pouca quando comparado com a sua esposa, a cagufa.
Sobre o Inferno
(Que diria o padre António Vieira a respeito das declarações de Bento XVI acerca do Inferno e das reacções que se geraram por causa delas? Talvez algo não muito diferente do que aqui se diz, embora mais bem dito, sem dúvida alguma.)
“Ecce Agnus Dei, ecce qui tollit peccatum mundi.” Assim S. João Baptista apresentou Cristo aos penitentes que acudiam ao baptismo a pedir perdão das suas culpas. “Eis o Cordeiro de Deus, eis aquele que tira o pecado do mundo.” Porém eu vos digo que grande mal houvera Cristo de trazer à humanidade se viera para tirar os pecados do mundo. Porque já as más acções não levariam ninguém ao Inferno, nem por míngua das boas se não iria ao Céu. Vedes mais desconcerto do que se assim fosse? Porque é tão desgraçada a condição da alma humana que, se com grande temor não é imposta a lei, é o mesmo haver lei como não haver. Pois se com haver a lei de Deus, que tem promessas de Céu e ameaças de Inferno; e se com haver a lei humana, que tem justiças de cadeias, e de prisões, e de açoites, e de forca, e de muitos outros e variados tormentos, não há bondade nos homens ou se não toleram uns aos outros, que seria do mundo sem justiça divina nem lei humana? E se é certo que desta pode fugir o criminoso, à de Deus jamais nunca há-de fugir. Porém não falta quem viva como se, por não ver Deus enquanto faz o mal, não fosse visto por Ele. Néscios somos, que tão ligeiramente levamos as coisas desta vida, com risco de tão pesadamente sofrermos as da outra. E isto que uma é breve, e logo se acaba; e a outra é eterna, e nunca finda.
Mas será que Cristo não tira ao mundo os pecados, tal como disse S. João Baptista? Ora o santo profeta, inspirado por Deus, certamente não se enganou. Porém há uma condição para que Cristo perdoe os nossos pecados, e assim no-los tire da alma, e do mundo porque dela os tira. “Remittuntur ei peccata multa, quoniam dilexit multum.” Muitos pecados lhe são perdoados, disse Cristo da mulher que Lhe lavou os pés em casa do fariseu, porque muito amou. E este é o preço por que Cristo tira o pecado do mundo, que o não faz somente pelo seu sangue senão que nos pede também a nossa parte, que é o amor. Porém outra condição há para que Deus perdoe os pecados dos homens. Mas não de todos, senão de alguns. “Pater, dimitte illis; nom enim sciunt quid faciunt.” Já moribundo estava o Cordeiro Divino quando pediu ao Pai que perdoasse aqueles que O matavam, porque não sabiam o que faziam. Ergo, Deus não perdoa de qualquer modo, senão que o faz por duas razões: ou por amor ou por nescidade. Porque néscio não é mais nem é menos do que aquele que não sabe. “Nesciat sinistra tua quid faciat dextera.” Vedes? Não saiba a tua esquerda o que faz a direita. Mas se aqui se louva que tão caladamente se faça o bem que nem saiba a mão esquerda o que a direita faz, não saber as coisas de Deus só pode ser louvado pelo Demónio. Será justo, pois, que aqueles que não quiseram saber de Deus enquanto não podiam vê-Lo, como se não lhes bastasse ver Cristo em cada um dos irmãos, O vejam quando já sabem que é isso a felicidade eterna? Certamente que não, irmãos. Tratai pois de saber quanto podeis e de amar como deveis. E assim vos não há-de consumir o temor do Inferno nesta vida nem o de não ver Deus na eternidade. Que esta cegueira, ou frígida ausência, é o único fogo que há no Inferno, e não outro.
idiossincrasias hereditárias
Um arroto mínimo recordou-me a ocorrência. Um discreto e elegante arroto, não se pense numa coisa sonora de boca escancarada à amigo do Homer Simpson, que eu sou uma senhora. Todos tinham acabado de almoçar quando cheguei. O meu pai depositou-me um copo de vinho na mão, tinha que provar aquele, um bordeaux de Graves de 97. Depois publicitou o empadão, uma delícia, que a minha mãe tinha improvisado a partir de uns restos de carnes várias, caída toda a família lá em casa.
Fui aquecer o prato no micro-ondas. Ao abrir a porta encontrei uma taça de cenouras baby salteadas em azeite e alho, das quais acabei por ser a única a disfrutar. Estou certa de isto me trazer a razão de, na manhã do mesmo dia, ao abrir o micro-ondas de minha casa para aquecer o café com leite, ter encontrado a caneca da beberagem matinal da véspera. A genética explica quase tudo, mas a minha mãe não arrota. Talvez por ser muito mais senhora do que eu.