À noite logo se vê

541595_tn.jpg

*

Não é provável que qualquer dos dois, PSOE ou PP, consiga a maioria absoluta. Não há espanhóis suficientes a reconhecerem-se quer num quer noutro. E, no entanto, uma maioria absoluta será sempre indispensável ao PP para ser governo. É que com Rajoy ninguém quer governar. E nem tanto por causa de Rajoy – na realidade, um fraco – mas porque ele não passa do homem-de-mão dum Aznar que, da sombra, ainda mexe tudo.

Como o espectro político espanhol não possui um partido de extrema-direita, nem no parlamento nem fora, toda a cambada nazi e fascista se juntou, e pesa muito, no PP. Aí está um partido que, inicialmente de vocação centrista, tem disponível gente muito sensata e capaz, mas hoje trucidada por cavaleiros de tristíssima figura. O aberto apoio episcopal torna a organização ainda mais sinistra. É o Valle de los Caídos em superprodução.

O PSOE, esse, tem reais chances de continuar governo. Todos os outros partidos, nacionais ou autonómicos, estão dispostos a apoiá-lo, pelo menos a tolerá-lo. Cada um deles procura, sem dúvida, o mais largo assento parlamentar em Madrid. Mas isso não ameaça a Zapatero, antes pelo contrário. Todo o voto que não for PP é voto útil.

Logo à noite saberemos mais, provavelmente saberemos tudo. A nós, resta-nos esperar. E ir pondo uma velinha à Senhora. Ela, melhor que ninguém, sabe quantos bispos há já no Inferno.

*

P.S. Em vão se procurará, nos últimos dias, na «Opinião», e até nos «Editoriais», quer do Público quer do DN uma reflexão sobre estas eleições gerais espanholas. A malta não dá peso a estas coisas, se é que a malta entende sequer estas coisas. Qualquer baptizado principesco ocupa mais mentes portuguesas.

Ter-se-ão eles já instalado tão bem que não os vemos? Será a invisibilidade do «espanhol em nós» afinal um facto? 

«A Terceira Atlântida» de Fernanda Durão Ferreira

A história começa em 26-7-1880, quando o súbdito britânico Gordon Mason, viajando de Southamptom para o Rio de Janeiro, em escala técnica na Ilha Terceira, assiste com o imediato do navio «Santa Helena» a uma tourada na Vila Nova. Depois da tourada o lanche, depois do lanche a conversa e, chegada a noite, o amigo terceirense do imediato do navio emprestou dois cavalos e cedeu um criado para os acompanhar até Angra do Heroísmo.

No caminho, encontraram dez homens da «Justiça da Noite» que se dedicavam a derrubar um muro e um portão com marretas e cordas. Passado o susto inicial, com a preciosa ajuda do criado, o viajante (e o imediato) seguiram viagem e, já a caminho do Rio de Janeiro, ouviu a bordo um professor de História afirmar: «Esses e outros costumes são quase tão antigos como a própria Ilha. Ilha que há muitos, muitos séculos tinha um outro nome e possuía outra cultura.»

As touradas à corda são hoje uma prática igual à que foi descrita por Platão com os dez pastores a serem a memória dos dez reis da Atlântida. A «Justiça da Noite» que funcionou até à segunda metade do século XX é a memória da justiça dos dez reis da Atlântida, pois nesse tempo, como escreveu Platão, «o rei não era senhor de condenar à morte sem o assentimento de mais de metade dos dez reis.»

O próprio rei D. Afonso V, numa carta de mercê ao cavaleiro Fernão Teles de 10-11-1475, escreve o seguinte: «Faço mercê de quaisquer ilhas que achar, ilhas despovoadas, ilhas povoadas e ilhas povoadas que ao presente não são navegadas nem achadas nem tratadas por meus naturais.» Como se percebe pelas citações, este livro tem muito que se lhe diga sobre as raízes da tradição Atlante nos Açores. Mas ficamos por aqui, lembrando só o que Vitorino Nemésio escreveu um dia: «A Geografia para nós vale tanto como a História».

Editora: Zéfiro
Prefácio: José Fonseca e Costa

Buena suerte, Zé Luís! [actualizado]

phpthumb.jpg

*

– Tá, Zé?

– Oi, Zé Luís. Outra vez?

– Desculpa, pá, desculpa. É que eu ando um bocadinho…

– … nervoso, eu percebo. Mas, vais ver, domingo à noite, isso passa-te num sopro.

– Talvez, talvez. Mas, até lá, muito pode acontecer. E é até por causa disso que te estava a ligar.

– Homem, lá por isso, tens aqui um país inteiro solidário.

– A sério? É que, desculpa lá, mas há uns zunzuns de que afinal ides, até domingo, reconhecer o Kosovo. E isso…

– Eu sei, não é o que ficou combinado.

– Pois, e diz-se que, na vossa imprensa, há umas pressões…

– Pressões, Zé Luís? Francamente, até parece que não me conheces. Além disso, a imprensa aqui não abre o bico sobre a questão. Acagaçam-se, como sempre. Cheira-lhes a esturro.

– Mas tu vê lá, ãh? É que, se vocês reconhecerem, isso custa-me, a brincar a brincar, duzentos mil votos. E, tu sabes…

– Eu sei. Faziam imenso jeito ao Raxói.

– A quem?

– Ao Rajoy. O gajo não é galego?

– Tá bem, entendam-se lá na vossa língua. Os meus problemas são outros.

– Não, a sério, Zé Luís. Comigo podes contar. Antes da meia-noite de segunda, não vai haver reconhecimento. Depois, sinto-me desligado do nosso acordo.

– Zezinho, calma aí. Isso não me ajuda por aí além. Não querias esperar mais um mesezinhos? Pelo menos até ao referendo do Ibarretxe?

– Pá, Zé Luís, isso é que já vai ser mais fodido de explicar à malta. Mas, tá bem, pronto, vou ver o que se consegue arranjar. E olha, por agora, buenas tardes y buena suerte. Não é como tu dizes?

– Ah, já me apanhaste essa. És um gajo sabido. Então, até…

– Até domingo à noite. Hei-de ser o primeiro a…

[caiu uma chamada, algures entre a Moncloa e São Bento]

*

Actualização

Este «post» foi publicado antes do assassinato, por terroristas, dum socialista basco, facto que conduziu à suspensão da campanha eleitoral espanhola. Perante a morte, toda a humana leviandade, também a do autor deste «post», é ridícula.

Canalha graúda

Entre os anos lectivos de 94-95 e 97-98, fui professor no Ensino Secundário. Passei por 5 escolas, trabalhei com perto de 100 professores e avaliei cerca de 700 alunos (20 a 30 alunos por turma, ou mais, com 7 ou 8 turmas por escola). Desse tempo, a experiência mais importante para o meu crescimento, como cidadão e como pessoa, foi a das reuniões de avaliação. Constatei diferenças de escola para escola, de director de turma para director de turma, de grupo de professores para grupo de professores. Como seria inevitável. Mas todos os episódios apresentavam uma característica que me fez querer sair do sistema de ensino na primeira oportunidade: havia uma fraude generalizada na atribuição das notas finais.

Em cada turma, aparecendo alunos com negativas recuperáveis — alunos com 3, 4, mas mesmo 5 negativas! — podia haver pressão para a alteração da nota. O director de turma perguntava se algum dos professores aceitaria rever a sua avaliação, adentro da autoridade do conselho de turma para ponderar os casos onde o chumbo poderia ser evitado. E evitar os chumbos era apresentado, ou tacitamente aceite, como sendo um benefício evidente, quase uma causa patriótica. Depois, via-se de tudo: desde aqueles que se recusavam a mudar a avaliação, passando pelos que faziam cenas e se mostravam constrangidos antes de a alterarem, até aos que alinhavam sem demora para despacharem a coisa. Foi a minha iniciação à quântica social: a responsabilidade colectiva das instituições a nascer da irresponsabilidade profissional dos indivíduos.

Continuar a lerCanalha graúda

A próxima vítima [actualizado]

z0332.jpg

*

Geert Wilders, fixem esse nome. Vão ouvir falar mais dele. Quem é?

É um deputado holandês que há dois anos foi expulso do Partido Liberal, e hoje preside no Parlamento a um grupo próprio. Houvesse hoje eleições, e Wilders (o «i» soa como ê) seria o chefe do quarto partido político, se não do terceiro, do país. Essa popularidade de Wilders vem-lhe, sobretudo, da frontal oposição ao Islão.

Estamos na Holanda, país que, em matéria de liberdade de expressão, não recebe lições. Vivem nele meio milhão de islamitas, mas Wilders tem a plena liberdade de exprimir-se. Não como eu, ou como o meu vizinho. Não, ele é, depois da Rainha, o cidadão mais protegido no país.

Até aqui tudo bem.

Mas Wilders quer mais. Quer contar ao Mundo inteiro a desfaçatez e o perigo que é o Islão, e isso sob a forma dum filme, Fitna, que ele espera ver passado na TV. Por ele, simples questão de dias. Simplesmente, até ao momento, nenhum canal holandês se prontificou. Wilders afirma que nada no filme viola a lei holandesa, o que é de admitir, já que é das mais permissivas do Planeta. Caso a TV recuse, sobra-lhe a vasta Internet.

Na opinião pública, ninguém acredita que Geert Wilders faça tudo isso só para proteger-nos do Islão. Pode fazê-lo, lá num recesso do seu íntimo. Mas o fito dele é o Poder. O que é absolutamente legítimo. Simplesmente, de momento, e de confessável, só os seus anseios apostólicos.

Entretanto, os holandeses que vivem e trabalham em países muçulmanos – cooperantes, pessoal médico, professores, pequenos empresários – começam a ficar preocupados, e não só um bocadinho. Um qualquer deles, não o vigiadíssimo Wilders, poderia ser a próxima vítima. A próxima, depois do cineasta Theo van Gogh, nas ruas de Amsterdão.

Muitas vozes se erguem na Holanda, a começar pelo primeiro-ministro, rogando a Wilders que não use a grande liberdade que aqui se vive para pôr em perigo vidas de compatriotas, aqui, ou Mundo afora. Mas Wilders repete sempre o mesmo: que nada fará de ilegal.

Pode ser. Mas, sabendo-se o que do Islão ele tem dito, no Parlamento e fora dele, é altamente provável que o filme vá ferir convicções, e sentimentos, de muitos. E seria ingénuo pensar que Wilders não percebe que isso é uma provocação aos mais débeis e fanáticos entre esses muitos.

Nas numerosas, diárias «Cartas ao Director» sobre o tema, em todos os jornais do país, uma fez-me particular impressão. Perguntava uma senhora se era exagerado medo, o seu, de achar-se um dia, por um estúpido acaso, no local em que Wilders fosse alvo dum atentado. Essa senhora incarnava, pode inferir-se, qualquer cidadão holandês. Nem ela nem eu temos a mínima vontade de virmos, um dia, a ser condecorados em condições um nadinha esquisitas.

Resta-nos, pois, por entre as bênçãos à liberdade de expressão, rezarmos um poucochinho. Por Wilders, também, claro. Mas esse sempre tem os seus guarda-costas.

*

Actualização [6 de Março]

Geert Wilders anunciou que vai mostrar o filme, em finais de Março, na sala de imprensa do Parlamento. 

Entretanto, esta manhã, a polícia holandesa entrou na segunda mais alta fase de alerta. Significa uma «chance real» de haver um atentado terrorista em solo holandês. (A primeira é para depois do atentado).

Alarmismo? Medo? Quem falou em tal? Mas ninguém acha sumamente interessante ir pelos ares aos bocadinhos, só porque lhe calhou viver num país que – de tão tolerante – não desarma o braço a um louco.

Há muita fé no Reino da Dinamarca – III

danish_cartoons.jpg

Sem surpresa, a pseudo-discussão das caricaturas de Maomé foi uma exibição da dificuldade de pensar o religioso. Desafio que sempre foi doloroso, e sempre o será no actual estádio antropológico. Ainda mais grave é a dificuldade de pensar o político, como se constata no dia-a-dia. Sem educação para a secularidade, o cérebro mágico fará regredir 2.500 anos a Civilização. E não interessa distinguir entre o quadro cultural de uma tribo amazónica, de uma comunidade aborígene ou de um grupo de crentes cristãos, hindus ou islâmicos: sem aceitação da racionalidade filosófica, não se faz Ciência. É esta a guerra das civilizações: o medo de conhecer contra o amor da sabedoria.

Chá de marmeleiro

Que há de comum entre o marmeleiro e o chá? Aparentemente nada, a não ser que ambos são originários da Ásia, embora um do Sudoeste deste continente e o outro de Assam e Manipur, no Nordeste da Índia.
No entanto, fala-se de um tal chá de marmeleiro, que é coisa que não se deseja a ninguém por se tratar de uma lambada com uma vara. E também se diz de alguém, que careça de boas maneiras, que não tomou chá em pequenino.
Ora um dos hábitos antigos era sovar as crianças como forma de educação. E, na China e no Japão, a cerimónia do chá obedecia a um ritual quase sagrado, costume que passou à Inglaterra e a muitas famílias europeias mais evoluídas socialmente. Tomar chá tornou-se, assim, um acto de civilidade e uma aprendizagem das tais boas maneiras que faltam a quem precisa de um chá de marmeleiro.
E eis como, afinal, entre um chá de marmeleiro e o simples acto de tomar chá em pequenino há uma certa relação, se bem que condenável aquele, e de melhores resultados e maior proveito este.

querias um post?

Escrevo o que quero e quando quero: é para isso que me serve um blog.
O post que publiquei ontem acumulava diferentes intenções, falhando redondamente no seu propósito. Havia a oportunidade de assinalar a derrota do Sporting, mas essa era a camada superficial. Na primeira versão tinha uma diferença que eu esperei fosse assinalada por alguém, o dedo acusatório. Rebuscado, sim, numa estratégia sofisticada de atirar o barro à parede. Esperava poder tergiversar a partir daí, mas tal não aconteceu. Razão de ser do presente.
Quando vi a peça televisiva na sexta à noite, fragmento de passagem, não pensei escrever sobre o assunto. Pensei nas questões intrínsecas e depois fui levada por diferentes linhas de reflexão. Havia, então, essas primeiras, as que vêm afloradas de modo literal no texto: a autoridade e a educação, a miséria de um povo, a esperança de redenção. Sobretudo a criatividade como forma de luta – na história do Pedrito e também nas evasivas do cantor sénior, tentativas de explicar que restringia o seu esforço de construção a uma mensagem, veiculada pela música e por uma actuação como representante de Angola.
Quando Bonga escapa às críticas directas procuradas pela entrevistadora, comenta que ainda há cinco meses lá esteve. Visita o seu país regularmente, conhece a realidade actual e compara-a com as outras, anteriores, e um possível futuro. Neste ponto eu penso claro, ele vai lá, não pode correr o risco de criticar abertamente. Também eu não o faria, está quieto ó preto. O pensamento levou-me para um salto: as expressões de origem racista que já perderam para nós esse contexto, mas pedem um cuidado no uso quando se cruzam com a possibilidade da temática, como aqui. Era esta expressão (uma sua variante, está quieto ó Bonga) que constava da primeira versão, no lugar de «só pelo contorno». Não servia, é óbvio, o meu propósito, mas recorri à piada íntima e esperei, debalde, que alguém tivesse dado por ela, repondo a fórmula inicial uma hora e tal após a publicação.
Continuar a lerquerias um post?

Fora do sítio

729265.jpgclarapintocorreia.jpg

Às seis e meia da tarde de domingo, vi Clara Pinto Correia actuando na pista de «Dança Comigo», da RTP. Senti dó. Horas depois, já quase meia-noite, vi Rosa Lobato de Faria na série «Aqui não há quem viva», da SIC. Voltei a sentir dó. De bailarina, Clara não tem nada. De actriz, Rosa nada tem.

Clara escreveu, em 1985, um dos nossos grandes romances das últimas décadas, Adeus Princesa. Rosa, também ela, escreveu, em 1996, um dos nossos grandes romances das últimas décadas, Os pássaros de seda. Uma e outra escreveram muito mais, e conseguiram, aqui e ali, encher-nos de novo as medidas.

Posso ser eu o esquisito. E sei que os biscates das senhoras não são da minha conta. Mas preferia não vê-las assim.

a persistência talvez compense

Anteontem, num zaping lento, detive-me a ouvir um pequeno cantor angolano de grande sucesso. Pedrito do Bié era um menino pobre. Por ser franzino para a lavoura, partiu para Luanda à procura de trabalho. Mal teve contacto com uma guitarra de três cordas tornou-se músico. Passa agora uma mensagem positiva para as crianças do seu país, em espectáculos que canta com alegria e convicção.
Na conversa que se seguiu, Sofia Pinto Coelho convidava Bonga para comentar o fenómeno. Entre generalidades sobre a música angolana e os ritmos mais característicos, a entrevistadora procurou, repetidamente, obter do cantor declarações sobre o futuro do país e, sobretudo, o estado da nação e situação actuais. Bonga ia respondendo. O futuro teria que unir todas as facções que se tinham guerreado, o presente era a ponte entre o passado e o que se desejava para o país, falava da sua música e projectos próximos. Responder às perguntas, só pelo contorno.
Sobre a comparação da sua experiência com a dos meninos a crescer nas ruas do seu país retive este fragmento: Eu tive os velhos do meu tempo, da minha educação da rua. Que não precisavam de ser da família, para nos ensinarem os nossos provérbios, a nossa tradição, e também para nos repreenderem. Frisou a importância desta autoridade perdida.

Foi dele que hoje me lembrei, porque a derrota também se dança. Com uma lágrima no canto do olho.

Continuar a lera persistência talvez compense

As mulheres de 53 anos aparentam 35

Uma das memórias mais doces e mais permanentes da minha infância é a das quadras das cantigas de roda da escola primária no Montijo. As meninas cantavam assim:

Fui lavar ao Rio Lima
Cheguei lá sem o sabão
Lavei a roupa com rosas
Ficou-me o cheiro na mão

Um dia destes, uma querida amiga (que aprendi a conhecer melhor numa revista literária onde ambos fizemos tarimba jornalística) fez 53 anos. Logo me lembrei de lhe dedicar uma quadra de sabor popular sugerindo uma estrondosa troca de algarismos. Foi assim:

Trinta e cinco na verdade
São os anos que respiras
O bilhete de identidade
É um poço de mentiras

A resposta via SMS foi um longo «Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!» seguido de um «Bom dia!»

Também me lembrei de uma quadra famosa do João de Deus feita a pedido de um vizinho que, perante a morte de um cunhado, se deslocou a casa do poeta com o irmão do falecido pedindo um epitáfio, mas onde eles constassem. O poeta fez num instante a vontade aos dois vizinhos. Assim:

Aqui jaz João Morgado
Homem honrado e benquisto
Seu irmão e seu cunhado
Mandaram aqui pôr isto

Tudo isto para dizer que fica sempre bem dizer a uma senhora de 53 anos que na verdade tem 35, e que o erro é do BI.

Um infindável Sporting-Benfica na minha vida

193839su3.jpg

*

Esta confissão tinha que sair um dia. Sim, foi uma pulhice, essa minha, foi uma gratuita safadeza, foi uma criancice em todos os sentidos.

Teria eu sete, no máximo oito anos. E era um sábado. Seria pedir muito que fosse, como hoje, também dia de ‘derby’ (vejam-me esta linguagem), tanto mais que, então, raramente se jogava fora do domingo. Ao sábado, trabalhava-se.

Terá sido, pois, um fim de tarde de sábado, esse em que a minha mãe regressou a casa com um enorme embrulho. Nós éramos pobres, sem sermos miseráveis (isto passa-se na Rua Pedro Dias, em Lisboa, «ali às Cortes», como dizíamos), e um embrulho assim não era visão comum. A minha mãe trazia um retalho para um casaco de inverno. Isso já ela andava anunciando havia meses. Seria um retalho de ‘papa’, já o sabíamos, quentinho, para aqueles invernos bons de antigamente.

Aberto o embrulho, ali em cima da cama dos meus pais, vem o meu espanto, vem a minha fúria. O retalho era verde. Verde. Dum verde leve, quase alegre. Poderia eu perdoar aquilo à minha mãe?

Eu era – e aqui começa a confissão – era do Benfica. Não pelo Benfica, que não me interessava nem um niquinhas, mas pela razão mais simples e devastadora: o meu pai era (e, para felicidade nossa, é ainda) um sportinguista. Eu era um Édipo em calções.

A partir daqui, estou filmando um miúdo de sete, oito anos no máximo, nuns calções efectivamente muito curtos, que sai do quarto, vai desencantar algures uma tesoura, das grandes, das de costurar, e que volta ao quarto, agarra no tecido e faz nele um valente rasgão. Ouço, e gravo, gritos, duma mãe, duma maninha mais nova, dumas tias, dumas vagas primas. Volto a ver, e a filmar, correrias, desvairos.

A fita de gravação salta, a película de filme solta-se. Dias depois, o rasgão há-de ficar resolvido, elegantemente camuflado como bolso.

Mas a vergonha, essa que ninguém jamais conseguiu filmar, perscrutar sequer, continua a projectar-se. No escuro, no vazio. Até hoje.

Fernando (pois, este tinha que começar com maiúscula), seguramente inspiras-me, mas eu vou pelo menos ter a decência de colocar este texto no devido lugar, ou seja, a reboque do teu, e ai meu deus que isto está a ficar muito parecido com a soca, até já há encadeamento de posts

Cá em casa, quando éramos dois, reinava o Sporting. Como quase todas as escolhas jovens de clube desportivo ou de partido político, a minha provinha de factores aleatórios que nada tinham a ver com a apreciação das virtudes de uma equipa. Na família era-se da Académica de Coimbra, razões de geografia. Mas precisava de um clube perto de mim e, já agora, de um clube relevante, para os saudáveis antagonismos clubísticos. Houve, então, uma escolha mista. Primeiro, a escolha da cor, o verde mais apreciado do que o vermelho; por discrição, ausência de grito e de espalhafato, mas também esperança, futuro. Depois a simpatia; era possível uma estatística entre os meus conhecidos em que havia um índice maior de apreço (meu) entre os adeptos do Sporting do que entre os do Benfica. Finalmente, e mais importante, a defesa dos fracos; seria fácil e interesseiro fazer-me simpatizante do clube que ganhava por sistema. Já a equipa de Coimbra, ao chegar-me por parentesco, sempre assumiu a forma de um clube tio.
Quando se passou à prole (a minha), com um pai também sportinguista (este por motivos de peso e de força maior), todos vibravam com o Sporting e os jogos, vistos na televisão, imitavam uma espécie de harmonia familiar. Foi então que um Édipo em calções* deixou o Sporting pelo benfica, num acto de súbita confrontação e espelho de uma cisão familiar. Já o mais novo tem ido pela cor. O mano mostrou-lhe os cromos da bola e ele dividiu os afectos, de início, entre o Beira-mar e o Santa-Clara. Como todo o gosto se educa, o amarelo perdeu a preferência e foi substituído pelo vermelho. E eu acho muito bem, pois adoro quando se veste dessa cor desde as cuecas ao blusão. Como não tem cornichos, é um doce diabrete.

*O Édipo em calções do Fernando foi a causa do texto.

Os Impérios de Santa Maria

Os impérios do Espírito Santo, em Santa Maria, têm quase a idade do povoamento da ilha. E por isso mantêm a memória de uma receita culinária de antes da chegada das especiarias orientais. A carne, cortada em grandes pedaços, é temperada apenas com sal e cozida durante várias horas. Depois, com o caldo ainda meio fervendo, põe-se-lhe dentro hortelã e endro. Uma delícia, apesar de que o aspecto das copeiras era algo soturno. As mesas enchiam-se de manhã à noite. E havia sempre um lugar no estômago onde cabia mais um bom naco ou dois de carne, postos sobre fatias de pão endurecido e no qual fora vazado aquele caldo generoso que depressa enchia os lábios de gordura. Entretanto, os serventes da mesa não se descuidavam, para que nada faltasse. Ora traziam mais sopas, mais caldo e mais carne, ora iam andando à volta servindo o vinho a todos no mesmo copo, que logo ficava besuntado. Viam-se ao longe as marcas da gordura. Agora, embora no essencial nada tenha mudado, deixou de haver os “agarradores” (cuja função era arrebanharem gente para a copeira, às vezes à força para que não houvesse um único lugar vazio), os copos são de plástico e individuais, há água quente na cozinha para lavar a loiça, e, para além do imprescindível vinho, não faltam os refrescos da moda.
O mordomo, apesar de ser chamado imperador, pouco ou nada manda. Uma verdadeira democracia. Até nas filas para entrar na copeira não há senhorias. Como muito bem escreveu, em 1920, o padre Joaquim de Chaves Cabral: “A ficção liberal – o rei reina mas não governa – do constitucionalismo acha a sua plena realização nos impérios marienses.” Mandam todos os outros, sobretudo o trinchante, com o seu lenço de seda branca, ou colorida, ao pescoço. Tem a seu cargo a carne, que pode ser de até umas oito reses ou mais, dirige todos os restantes membros da “equipagem”, e é ele que distribui o pão de mesa e as formidáveis roscas, de massa ligeiramente adocicada. Os enormes pães da mesa são mais insípidos, sendo os menores de alqueire, cerca de doze quilos de farinha. Para os cozer, todos os fornos foram feitos com uma pedra amovível na boca. E não é costume faltar o pão leve, os biscoitos encanelados e os biscoitos de orelha. Pelo menos estes são receita mariense já com fama nacional.
Abaixo do trinchante, também dito presidente, vem o mestre-sala, o primeiro dos três briadores, que acompanham todos os momentos mais importantes da função. São rapazes escolhidos entre os de melhor fama do lugar. E há o copeiro, que põe e dispõe na copeira, e que tem a seu cuidado o vinho. Lá no fim da lista, aparecem os serventes ou ajudantes, que são o pau para toda a obra. As mulheres, claro, são indispensáveis. A elas pertence a maior parte dos segredos da cozinha e todos os do forno.
Uma das recordações mais fortes que ficam dos impérios de Santa Maria são os foliões. No aspecto, em pouco diferem dos companheiros da equipagem, com o lenço colorido à volta do pescoço. Um toca o tambor e outro os ferrinhos ou uns minúsculos címbalos, indo ao meio o porta-bandeira. Nada acontece sem a sua presença antes do dia da função e, durante esta, de manhã até à noite ouve-se aquela toada mourisca que vão como que ronronando sempre. De nada serve aclarar-lhes a voz de pouco a pouco com gemadas em vinho e açúcar, servidas numa tigela. Mas a presença da folia é fascinante.