Abençoada blasfémia

O Ocidente é uma religião. É a religião do Direito. Tem templos, sacerdotes, teologias, livros sagrados. Responde a preces. Os seus concílios são abertos à participação de todos os cidadãos maiores de idade. Está em perpétua revelação. Tem raízes na filosofia grega, na tradição judaico-cristã, na civilização romana. Sabe-se friável, e nessa fraqueza vai sempre renovando a sua força. Corresponde ao império do Espírito da Lei, a Idade da Justiça.

Em boa hora, os simpáticos e pacholas dinamarqueses recuperaram a alma viking e deram um imprevisto abanão na modorra ideológica. Agora que aconteceu, até custa a crer que não tenha acontecido mais cedo. É que o ataque aos bonecos teve o condão de desenhar um novo mapa conceptual. De um lado, vemos uma vontade de poder obscura, manipuladora, que trata os seus como carne para canhão na busca de vantagens políticas, ganhos financeiros ou fruição de delírios sociopatas. Do outro, 2.500 anos de gesta heróica na procura da liberdade. Este é o tempo de assumirmos a nossa diferença, reclamarmos a memória de todos aqueles que deram as suas vidas por um ideal humanista, chamem-se eles Sócrates, Cícero, Cusa, Galileu, Thoreau, Marx ou Teresa.

A raiz etimológica de civilização remete para comunidade, referida a um complexo urbanístico complexo com estatuto de cidade. Implica uma ordem que rege a convivência, regula as transacções sociais, confere direitos e deveres, organiza o poder, autonomiza a política. Neste sentido, os conflitos com os terroristas, psicopatas e alienados que se reclamam defensores do Islão não configuram um choque de civilizações; pois estes infelizes não estão a desenvolver civilização alguma, apenas a ferir a deles e a nossa. Porém, o Islão tem uma questão para resolver: a secularização da sua política e respectivo edifício jurídico. Um Islão político é incompatível com o Ocidente, como se vê pela retórica e práticas dos fundamentalistas. Um Islão político não reconhece fronteiras nem o valor absoluto da vida humana, não admite laicismos nem direitos humanos. Mas um Islão cuja política e lei civil sejam seculares será no mesmo passo um humanismo. Foi precisamente isso que conseguimos fazer do cristianismo, e muito nos custou.

Aqueles que neste momento aproveitam para, mais uma vez, verter bílis contra o Ocidente têm a razão dos trapaças. Queixam-se de a obra não estar acabada, o terreno sujo e continuarem a morrer operários na construção. Enfim, é uma desculpa como outra qualquer para não estarem a trabalhar.

62 thoughts on “Abençoada blasfémia”

  1. Pensei exatamente, quão úteis apesar de tudo, são as famosas caricaturas…sem dúvida um abanão…na nossa tolerância é tempo de não tolerarmos, de dizermos claramente e com coragem, o que não queremos e o que defendemos…e mais, se em última instância for necessário…
    Um abraço
    Morfeu

  2. Ah, a perfeição do Mundo Ocidental…. e o confundir de batatas com cebolas. Como se os extremistas só vivessem do outro lado da vedação do nosso “complexo urbanístico complexo”.

    “continuarem a morrer operários na construção”, não estou a ver ninguém a rir deste lado. São mais do que pequenas questões as que envolvem o nosso “complexo urbanístico complexo”. Nos EUA e Canada houve num periodo de 10 anos 163 atentados ou tentativas de atentado à bomba ou fogo posto e 21808 queixas de ameaças de bomba, telefone ou correio para clínicas de aborto. Continua a ser dogma ensinarem-se métodos de contracepção na escola (o nosso superior hierárquico religioso aparentemente não se comprometeu a permitir o uso de certos instrumentos, ao contrário de outras ideologias mais primitivas). E claro, não esquecendo toda a glória renascentista do século passado, de Conquistas e Descobertas de milhões de mortos em Guerras de dimensões das quais a História não se lembra.

    Há 35 anos andávamos a recitar o pai nosso nas escolas, a inclinarmos até as costas doerem para o senhor Prior, e agora já se pode andar a dizer que os outros ainda não fizeram nada para mudar…

  3. Lumumba,

    Você faz um erro comum. Está a fixar-se na realidade diária, que por vezes é realmente desoladora, e a esquecer os concertados esforços por melhorá-la.

    E esses esforços (os princípios de convivência que, apesar de tudo, continuamos a exigir uns dos outros) é que são a civilização.

  4. Eu só acho perigoso andar a julgar essa civilização (ou não civilização) pela lupa de quem quer essa guerra cultural. Ou de quem quer essa superiorização deste lado ocidental.

    Mas voltando um pouco atrás. A Europa esteve no século passado envolvido da forma mais directamente possível na definição do mapa político do Médio Oriente. E depois vem reclamar que esse mesmo Médio Oriente não consegue criar Democracia? Por questões culturais intrínsecas? Isso é no mínimo hipocrisia.

  5. Lumumba,

    Você continua a ter razão, e a esquecer-se de coisas. Tem razão na denúncia de desmandos feitos por ocidentais. Mas será bom lembrar-se de que essa mesma sua capacidade (e a sua chance) de denunciar os próprios desmandos é uma conquista da civilização que nos calhou, e que você encontrou já feita. Só lhe ficará bem se for, também, agradecido.

  6. Ah catano! Como diriam os super dragões, somos os máiores! já se vê lisboa a arder! Por falar em vikings, onde é que se compram chapéus com cornos e gajas boas com tranças?

  7. Não vejo que a falta de crítica no Médio Oriente tenha um défice tão grande. Basta consultar a versão inglesa da Al-Jazeera, ou outros media da região. A própria capacidade crítica de certas facções palestinianas, aliás, é surpreendente, vistas as condições actuais.

    Agradeço o que foi feito para mim pelos outros. Agora não vou é considerar esse caminho como único. A crítica como está feita no post e como muitos fazem, implicam que o remédio para os males desses povos é o nosso. A nossa política, o nosso saber. Não há a crença que os próprios compensem as suas falhas (que são bem enfatizadas aqui do nosso lado). A revolucao iraniana tinha forte pendor comunista antes do Ayatolah tomar conta da coisa. O Egipto organizou o movimento dos nao-alinhados junto da ONU. E que exemplos é que temos da nossa democracia levada para lá? Vamos falar do Iraque?

  8. Agora já todos sabemos qual é a opinião da Nova Ordem Mundial (versão lisboeta, professor Valupi) sobre este intricado assunto. Podia ter sido o Nuno ou o José Mario, mas o departamento determinou assim e temos de nos contentar. Os leitores mais sofisticados podem carregar no botãozinho que diz “Peter Lorre com olhinhos de rato”, e escutar estas mesmíssimas palavras na sua voz inconfundível de meliante intriguista ao serviço da grande potência do mal. Não acham lindo? Quem é que andava por ai a pensar que a sonolência não era vital para a compreensão da politica tocada a fogo pela intriga?

    Despreze-se o cabeçalho muitíssimo revelador e passemos ao texto das frases de martelada na cabeça, isto é, ao verdadeiro significado das palavras do manifesto “Valupiano”. O primeiro parágrafo tem isto tudo muito bem alinhavado, que interpreto cono ele de facto interpreta do fundo do seu coração secreto:

    O Ocidente é uma religião: Vamos resolver esta merda com o auxilio da cruz (lembrem-se, filhos, da Dona Afonsa Henriques que gostava de matar a mouraria!) a mandado dos nossos amigos judoneoconistas que não gostam nada que o Irão esteja a mudar o sistema falido do dólar para compras e vendas de petróleo. Sistema que eles controlam há muitos anos com um lucro em dinheiro que ainda é mais valioso em termos de controlo político desta planeta.

    Responde a preces: isto das queimaduras e gritos loucos foi tudo preparado de antemão, mas não vou dizê-lo porque posso estragar tudo; também é importante evitar que alguem se lembre da subserviência de nações da área da Dinamarca à politica e planos de guerra dos titereiros de Bush. E ainda menos que alguem se lembre como é fácil às mossads e Cias untarem as mãos a provocadores muçulmanos para convencerem gente da sua raça e religião a cair nestas ratoeiras de deitarem fogo a embaixadas.

    Perpétua revelação: Não se admirem nem se revoltem contra nada que a Nova Ordem Mundial lhes ponha no prato, a falar de Deus ou do Diabo ou das constantes necessidades de medidas contra o “terrorismo”. Acontece todos os dias e todos os cinco minutos. Que esta ideia de perpetuidade até à vossa completa robotização não os assuste. Faz parte do processo de renovação das mentalidades. Nunca recusem aquilo que é decidido pelos nossos concílios centrais “abertos à participação”.

    Tem raizes na filosofia Grega: Lá porque vocês ou eu não temos porra de certeza do que é que realmente se passou na “antiga” Grecia, é sempre bom e bonito virmos com uma destas de toga branca para ajudar toda a gente a engolir o óleo de figado de bacalhau que aqui lhes trago.
    Corresponde ao Império do

    Espirito da Lei a Idade da Justiça: Crap, crap, crap.
    ——
    E isto é só em relação ao primeiro parágrafo dum muito enjoativo discurso de preparação das mentalidades cristo-esquerdistas para a nova crusada contra os povos do Islão. Espero que os rapazes e as raparigas não caiam em mais uma esparrela descarada. Os maltezes que organizaram as antigas surtidas de caravela e lança ao outro lado do Mediterrâneo em busca de ouros e ouropéis ainda por cá andam e como sempre estão-se cagando para os verdadeiros interesses da humanidade. Sangue para eles não passa de ketchup. O que lhes interessa são os esplendores de amarelo lindo a reflectirem-se-lhes nas meninas.

    Não sei se valerá a pena voltar para a espremer o resto dos limões da semântica valupiana. Tudo depende da reacção das ludovinas ocidentais.

  9. O Ocidente é uma religião como o Porto é uma Nação, carago! O profeta Valupi apresenta a sua candidatura a líder (ou imã?) dos “super-dragões” da civilização superior: os super-vikings!

  10. “Porém, o Islão tem uma questão para resolver:”

    Certo. Tem que escorraçar todos, os terroristas cruzados que o invadiram, da Palestina ao Afeganistão. E não vai durar muito…

  11. “Enfim, é uma desculpa como outra qualquer para não estarem a trabalhar.”, sentenciava, às 05:03 AM, o ayatola da religião do Ocidente, Valupi, depois de já nos ter iluminado com alguns divinos versículos às 01:33 AM

  12. Valupi, você em matéria de civilização árabe é um ignorante. Limita-se a reproduzir clichés vindos do gangue da Casa Branca, ou de meios gay ou feninista. Se você visse a Al Jazeera, veria o melhor canal de notícias do Mundo, com todas as vantagens tecnicas e de know-how de uma BBC, mais a efectiva independência e uma visão do mundo mais centrada. Aliás, a região do Golfo começa a ser o centro do mundo em muitos domínios. Se for a Abu Dhabi, Muscate, Quatar ou Bahrein verificará de imediato como as sua palavras são ridículas. Para não falar da nossa matriz árabe do Al Andaluz… Quanto à democracia árabe e islâmica (impedida pelos EUA e seus fantoches)ela vem aí e em força (já se viu na Turquia, Palestina e Irão), com o derrube nas urnas ou na rua de todas as ditaduras corruptas e satânicas dos fantoches pró-americanos. Em matéria religiosa, estão muito mais avançados que uma Europa que muitos se obstinam a empurrar para a decadência. Visite países árabes e depois fale…

    E, sobretudo, reparei que você não disse NADA sobre a actual agressão contra o Islão que já vitimou centenas de milhares e que começou em 1948 na Palestina… Não acha que isso é o essencial ? Que isso justifica protestos e violências cem vezes superiores às actuais ?

    Manifestar solidariedade com um gangue neo-nazi e xenófobo dinamarquês que reivindica a “liberdade” de insultar as crenças mais profundas de 1.500 milhões de muçulmanos é um acto NAZI….

    Querer “humilhar im Islão e pichar o Corão de sangue menstrual” não é “liberdade” nenhuma. Hitler também queria “humilhar os judeus”. É crime de blasfémia merecedor do castigo mais severo…

  13. “Neste sentido, os conflitos com os terroristas, psicopatas e alienados, que se reclamam defensores do Islão, não configura[m] um choque de civilizações […]” (Valupi)

    O que aqui nos é dito é que todos (!) os terroristas, psicopatas e alienados se reclamam defensores do Islão. Para dizer outra coisa teria de ser removida a vírgula que segue a “alienados” e precede “que se reclamam”. Mas se o linguista Fernando Venâncio diz que tudo está bem, ou melhor (que bem…), “percuciente, redondo, perfeito”, é porque tudo está onde devia estar e tudo diz o que se queria que fosse dito.

  14. Condenar ataques a embaixadas de países que albergam blasfemos e que não usam contra eles o arsenal legislativo que possuem (só blasfémias anti-judaicas são normalmente punidas…), ataques em que não morrreu ninguém, e NADA DIZER sobre a agressão brutal, em larga escala e totalmente à revelia do direito internacional que está a acontecer na Palestina e Iraque contra o mundo árabo-muçulmano é DESONESTIDADE INTELECTUAL, É REACCIONARISMO BUSHISTA, É RACISMO SIONISTA…

    Os muçulmanos reagem assim porque estes cartoons são um símbolo da demonização crescente no Ocidente contra o agredido e ocupado Islão. Essa demonização é parte integrante da guerra psicológica, funcionando como uma barragem de desinformação e ódio que prepara novos massacres (no Iraque só desde 2003 são já 150.000 os massacrados e vem este JMS protestar contra incêndios de duas embaixadas em que não morreu ninguém ?) e rapinas coloniais.

    É por isso que os muçulmanos reagem assim. Não podemos ver só a árvore e não ver a floresta. Não é só o pasquim blasfemo que está em causa. É a guerra de agressão, de que esses cartoonistas bushistas e nazi-sionistas são meros peões, contra um Islão demonizado.

    Essa guerra dos bushistas ladrões de petróleo e dos nazi-sionistas ladrões de terras será ganha pelo Islão e os novos terroristas cruzados serão esmagados ! Allah u Akbar !

  15. “todos os terroristas, psicopatas e alienados se reclamam defensores do Islão”

    Terrorista, psicopata, ignorante, alienado, caniche de Bush e SSharon, apóstata do direito internacional, defensor do genocídio muçulmano e da piratagem do petróleo, É VOCÊ, VALUPI, um verdadeiro porco nazi-sionista !

  16. O Aspirina B cheira mal !

    Está infiltrado por porcos nazi-sionistas que apelam ao massacre de muçulmanos, que acham que “humilhar o Islão”, isto é, 1500 milhões de pessoas, e “pichar de sangue menstrual o Corão” é exercício da “liberdade de expressão” !

    CORRAM COM ESTA ESCUMALHA DO ASPININA ! LIMPEZA GERAL, JÁ ! ASPIRINA stinks !

  17. SM,

    Você tem razão: a vírgula está a mais. É também, de facto, «não configuram». O Valupi, que não é parvo nenhum, concordará, suponho. Já agora, tire também a vírgula seguinte (…Islão,…). Você dava um bom revisor / uma boa revisora. Precisamos em Portugal instantemente disso.

    Euroliberal,

    Descontraia um pouco. Cruze os dedos na nuca e conte pausadamente de 88 a 73. Vai ver que passa.

  18. “Tem raízes na filosofia grega, na tradição judaico-cristã, na civilização romana” diz o ignorante Valupi…

    Tem a certeza de que se não esqueceu de nada ?

    Então quem é que nos transmitiu a cultura greco-latina, base da nossa civilização ? Pois, foram os árabes. Foi através de traduções e comentários árabes que recebemos esse legado, sem o que seria perdido para sempre. De facto, durante mil anos, entre o crepúsculo romano e a alvorada do Renascimento, um período de trevas, qual foi a única civilização que brilhou intensamente e que assegurou a ligação entre o mundo antigo e a modernidade ? Exacto foi a civilização árabe, sobretudo a do Al Andaluz, único período da História em que a nossa Ibéria foi o centro cultural do Mundo. E vem agora este reles busho-sionista Valupi cuspir na sopa… Aquilo que somos hoje é fruto da civilização greco-latina-árabe. Mais nada.

    E em matéria de tolerância religiosa, os melhores mestres são os árabes que sempre tiveram ao longo dos séculos igrejas e sinagogas abertas nas suas cidades, que nunca tiveram pogroms anti-judaicos nem conversões forçadas e que acolhiam todos os judeus perseguidos na Europa pela “brilhante civilização europeia”, a tal que também fez o Gulague e o Holocausto e Hiroxima !

    Brilhante, este Valupi…não acerta uma…

  19. Caro Fernando Venâncio,

    Pelo presente, e com o respeito devido a todos os intelectuais de carteira, permita-me a veleidade de lhe colocar esta simples pergunta: Não acha que o “ferir” e “bater” de percuciente não merecem pertencer à mesma família do “perfeito”, ou sou seu que estou a salpicá-lo com uma picuinha desnecessária?

    Caro Andrónicus,

    Cuidado com as “intricadas” “crusadas” en que te andas a meter. Tens um coração muito perto da boca e isso é mau numa floresta de lobos vestidos de carneiros aborregados.

    Caro Euroliberal,

    És um rapaz muito bem informado e vais beber ao oasis Al-jazera. Estranho, com tantos milhares doutras palmeiras de escrita longa que há pelo deserto da Internet fora. Sim, eles podem ser o maior canal do mundo mas ainda te andam a enganar com os vídeos da Al-Caida.

    Lumumba e SM,

    Bem observado, meus queridos. A avó concorda com tudo o que disseram.

    Senhor Valupi,

    Não lhe dá pena de haver tanta gente “cega” que não concorda consigo? Sim, tem o Fernando Venâncio, but how much is that, in real petrodollars de Mértola?

  20. Euroliberal, queres ser tão de esquerda, tão de esquerda, tão de esquerda… que furaste a parede ideológica e passaste para o outro lado…para a extrema direita.

  21. Só uma pergunta: perante as posições defensivas e reaccionárias de tanta gente que se diz de Esquerda, resta uma pergunta: mas ainda há Esquerda? Esquerda, sim, aquela coisa Universalista, Progressista, etc, cheia de maiúsculas. Isso ainda existe? Volto a dizer: ser-se anti liberal, ser-se anti americano, ser-se anti ocidental não significa, necessariamente, ser-se de esquerda. Há outros nomes para isso.
    Esta esquerda, esta não esquerda, é uma velha aristocracia decadente. Sem solução e dominada por uma coisa tão bíblica: pagar por todos os pecados da história.

    Henrique Raposo, in http:\\oacidental.blogspot.com

    É triste quando sou forçado a concordar mais com o acidental do que com o aspirinab, não devo ser suficientemente de esquerda, pelo menos da esquerda de alguns.

  22. Salpique, Ermelinda, salpique sempre. (E agora reparo: você é =Emerlinda=, e eu a subverter a sua graça). Sim, tenho de conceder: «percuciente» é de diferente ordem de «redondo» e «perfeito».

    Mas, você saberá isso, ele há, noutros terrenos, coisas percucientes muito perfeitas. E muito redondas.

  23. Lumumba, seja qual for a solução que o Islão encontre, terá sempre de passar por um qualquer tipo de reconhecimento do direito a viver fora da axiologia corânica. Caso contrário, continua a actual confusão em que se permite interferir com os Estados e os indivíduos laicos. É só nesse sentido jurídico que o modelo terá, forçosamente, de ser equivalente ao ocidental.

    Andronicus, já te vi em melhor forma.

    Sm, o que tens contra as madrugadas? Quanto à vírgula, discordo até prova em contrário. A ideia da frase, tal como está, implica que no universo dos defensores do Islão haja legítimos e ilegítimos. São estes últimos que aparecem nomeados. Mas, claro, mudarei de opinião logo que fique convencido, pois isto dos blogues é também uma escola de formação contínua.

    EUROLIBERAL, deliras.

    Fernando, quanto ao “configura” também me parece um erro de distracção evidente, a falta de concordância em número. Aproveito é a tua douta presença para a pergunta: em caso algum seria aceitável a discrepância? É que, mentalmente, o singular está a remeter para “a” situação na qual ocorrem os conflitos…

    Dona Emerlinda, o facto de adormeceres com o Andronicus e acordares com o Tio Tadeu não te anda a fazer bem aos joanetes.

    Pedro Almeida, concordo. Dizermo-nos daqui ou dali não conta nada.

  24. “Ficam os muçulmanos ofendidos? Não deviam, porque têm sempre uma maneira de responder a esta situação: serem os primeiros a manifestar-se pela liberdade dos dinamarqueses, pelo seu direito de caricaturarem o profeta, como muitos cristãos marchariam, como cidadãos, pelo direito de se caricaturar a Igreja, o Papa e Deus, em nome da liberdade que prezam no “reino de César”.” (J.Pacheco Pereira)

    Quanto à vírgula, o Fernando Venâncio, que é linguista, já opinou. E quem opinou foi o Fernando Venâncio que é linguista, não outro. E, no que à vírgula respeita, ponto final.

    Mas, ainda a propósito de “todos” e de “alguns”, atente-se no que ficou dito por Pacheco Pereira: para responderem de modo satisfatório à situação, OS MUÇULMANOS — isto é: TODOS os muçulmanos — deveriam manifestar-se a favor dos direitos dos dinamarqueses, mas, quanto aos cristãos, basta que muitos — isto é: ALGUNS ou PARTE DELES — estejam dispostos a marchar pelo direito de caricaturar a Igreja, o Papa e Deus, para que, presumo, fiquem provados o amor à liberdade de TODOS os cristãos e a superioridade GLOBAL da dita civilização ocidental.

    Valupi:

    “Até prova em contrário”, continuarei a admitir que, entre o seu texto e o de Pacheco Pereira, existe esta diferença: para dizerem coisa diferente, do seu seria preciso retirar apenas uma vírgula, do outro seria necessário remover o Pacheco todo.

  25. Valupi,
    Essa do “valor absoluto da vida humana” no Ocidente só pode ser piada.
    Pareces, um vendedor de banha da cobra que lê a bula que escreveu e passa a acreditar nela.
    Tem-se visto nos multiplos bombardeamentos humanitários de Israel e dos Estados Unidos, na Palestina e Iraque, o valor da vida dos nativos. Claro vais-me dizer que o Concílio da Treta não provou que os árabes tivessem alma, e como tal podem ser caçados. Recomendo-te o documentário sobre Faluja e a utilização de armas de fósforo branco sobre civis.

  26. Valupi,

    Continuemos a escalpelizar (guloso verbo) a tua frase.

    «Neste sentido, os conflitos com os terroristas, psicopatas e alienados, que se reclamam defensores do Islão, não configura um choque de civilizações».

    Propus, na sequência de SM, o plural «configuram». Não me parece que um singular remetesse, nesta frase já de si complexa, para qualquer coisa de aproveitável.

    Quanto às vírgulas depois de «alienados» e depois de «Islão». Estão realmente a mais. É uma questão de conteúdo. Compara: «Os meus irmãos, que vivem em Lisboa, são uns patifes» e «Os meus irmãos que vivem em Lisboa são uns patifes». A primeira absolutiza, a segunda selecciona.

    Ora, tu – espero bem! – quisestes seleccionar, falando só daqueles terroristas, daqueles psicopatas e daqueles alienados que se reclamam do Islão, e não de todos os terroristas, de todos os psicopatas ou de todos os alienados do mundo.

    Sim, vê lá no que te metes. Se todos os terroristas, e todos os alienados, e todos os psicopatas se sentirem atingidos por ti, ainda não jantaste.

  27. Pedro Almeida dixit “Euroliberal, queres ser tão de esquerda, tão de esquerda, tão de esquerda… ”

    Mais um ignorante nestas coisas. Quem é que lhe disse que quero ser de esquerda ? “Euroliberal” não lhe diz nada ? Sou liberal, logo mais de direita do que de esquerda, mais para o centro do que para o extremo e (muito) mais para a Europa (a minha Pátria) do que para a Cocacolândia (tão apreciada por alguns aspirinos) …

    Aliás, no mundo árabe, sou mais Hamas (direita islamista e patriótica) do que Fatah (esquerda corrupta e capitulacionista). No mundo árabe, o progressismo está no islamismo patriótico e pan-árabe. Que unirá a Nação árabe, derrubará, nas urnas ou na rua, os ditadores fantoches e corruptos e estabelecerá uma democracia próspera em todo o Médio Oriente, incluindo a entidade sionista-apartheidesca, que será esmagada e dará lugar a um estado único, laico e multicultural para as 3 religiões do Livro !

    P.S. o ignorante Valupi limita-se, como resposta, a um “deliras”… Pois, estão verdes…

  28. “o valor absoluto da vida humana…” Só contaram para ele…

    As façanhas da “civilização superior” no Iraque:

    100.000 mortos na auto-estrada da morte em 1991, dois dias depos do cessar-fogo.

    Uma divisão iraquiana inteira enterrada viva pelos tanques americanos que passaram por cima das entradas dos seus abrigos no deserto em 1991

    500.000 crianças iraquianas (numeros da UNICEF) mortas (91-2003) pelo urânio empobrecido e pelo embargo dos terroristas cruzados

    150.000 civis iraquianos mortos no shock and awe de 2003/6, incluindo a população de Fallujah, Qaim e Tal Afar, exterminadas com fórforo branco…

    30.000 presos e torturados barbaramente pelos nazi-bushistas e seus caniches em Abu Graib, Guantanamo, Bagram e todas as prisões secretas do Gulague Buhista através do mundo…

    E não falemos já da Palestina, do Vietname, de Dresden, Hiroxima e Nagasáqui…

    Depois disto, QUEM PODERÁ NEGAR QUE O DEMOCRATA E DEFENSOR DOS DIREITOS DO HOMEM VPV (e o Valupi)TEM RAZÃO AO CONSIDERAR A CIVILIZAÇÃO DA COCACOLÂNDIA SUPERIOR À ISLÂMICA ?

    De facto os muçulmanos não têm, nem de longe, tal curriculo…

  29. Valupi, já percebi o nim. Para si, quando se trata de bater à porta, a regra só vale para um lado. Aquilo que no seu post anterior me pareceu honestidade, não é, afinal, mais do que uma enorme hipocrisia. Você demonstra, neste post, o que 2000 anos de intolerância e 500 de massacre e rapina, produzem. O seu mundo, a sua casa, é tão boa, tão boa, que lhe é impensável que os “outros” não queiram entrar. Você é “civilizado”, os “outros” aspiram a sê-lo. Na sua ânsia de metáfora, confunde tudo, concílio com conclave, religião com divino, humanismo com secularismo.
    Os seus “simpáticos dinamarqueses de recuperada alma viking” são, hoje em dia, o país mais xenófobo da Europa. Paradoxal que o país que teve um P.M. que afirmava “aprenderemos a viver com os que do resto do mundo venham até nós, independentemente de serem Checos, Turcos, ou Chilenos”, hoje participe na ocupação militar do Iraque.
    Revelador é que na lista dos seus mártires não apareça um único dos outros, dos bárbaros.
    A sua aspirina para o Islão – e presumo que para todos os que não tenham ainda adoptado a “nossa religião do direito” – é simples, só têm que fazer o que nós fizemos.
    É precisamente essa atitude, vinda de quem, nos últimos 200 anos mais não fez do que impôr “valores” numa casa que não é a sua, que faz com que, se eu fosse muçulmano, e lesse o seu post, ficasse um bocadinho mais “fundamentalista”.

  30. A cólera crescente do taliban Euroliberal faz-me recear que mais dia menos dia o veremos entrar por aqui de burka e com uma grinalda de granadas na cabeça, a gritar: Morram, cães Infiéis!
    Que alucinado! Há gente que odeia de tal forma o Pai que era capaz de se cortar às postas e fazer-se enviar em 99 sobrescitos fechados para o seu emprego, só para lhe estragar a promoção.
    Perante uma voz tão gritantemente sectária, a única coisa que me ocorre é que o homem tenha sido formado em alguma escola corânica; ou então é um agente provocador, a soldo da Mossad, cuja missão é fazer-nos perceber como é valioso o apreço que temos pela liberdade de expressão e as demais garantias que o Estado de direito, formalmente, nos concede.
    Diz alguém aí para cima, e muito bem, que não se deve confundir anti-americanismo com esquerda. Não podia estar mais de acordo. Embora deteste o cinismo, o materialismo e a prepotência dos americanos (e dos judeus, já agora), não é pelo facto de estes serem maus que vou preferir os piores.

  31. Caro EuroLiberal, muitos parabens. Foi a melhor e mais hilariante satira que li desde o Modest Proposal do Swift. Que grande malandro que voce me saiu.

  32. O grunho Nosferatu não disse nada. Só grunhiu… Pois… Esquerda ou direita são conceitos ultrapassados. A linha de fractura hoje divide os que são contra as agressões unilaterais e os gulagues à revelia do direito internacional com pirataria de riquezas naturais e apoio a ditadores fantoches, e os que apoiam essas intervenções “civilizadoras”e que chamam aos patriotas da resistência que as combatem “terroristas”…

    E, de facto, nesta luta não há quartel. O terrorismo cruzado será aniquilado, como acontece hoje mmesmo no Iraque. E quem apoia o terrorismo internacional yankee-sionista é um reaccionário cujo destino inexorável é o caixote de lixo da história, ou o poteau… como Brasillach. Apoiar publicamente o genocídio dos muçulmanos é crime de guerra… Atenção às derrapagens…

  33. Manifestar solidariedade com um gangue neo-nazi e xenófobo dinamarquês que reivindica a “liberdade” de insultar as crenças mais profundas de 1.500 milhões de muçulmanos é um acto NAZI….

    Querer “humilhar im Islão e pichar o Corão de sangue menstrual” não é “liberdade” nenhuma. Hitler também queria “humilhar os judeus”. É crime de blasfémia merecedor do castigo mais severo…

  34. “No mundo árabe, o progressismo está no islamismo patriótico e pan-árabe. Que unirá a Nação árabe, derrubará, nas urnas ou na rua, os ditadores fantoches e corruptos e estabelecerá uma democracia próspera em todo o Médio Oriente, incluindo a entidade sionista-apartheidesca, que será esmagada e dará lugar a um estado único, laico e multicultural para as 3 religiões do Livro !”
    Gosh! Isto é que é ter fé no invisível! O Euroliberal deve ter “inside information” sobre os desígnios secretos do Hamas. Visto de longe, aquilo que o Hamas nos transmite é a ideia de preferiam instaurar na Palestina uma teocracia, com as mulheres de burka e os homossexuais K.O.
    Fico pois muito contente por saber que o futuro Estado palestianiano há-de ser, afinal, uma próspera e laica democracia; no espírito, aliás, da grande tradição democrática do mundo árabe. Sem dúvida.
    A enumeração de atrocidades cometidas pelo Ocidente, gentilmente fornecida pelo Euroliberal, prova apenas que o Ocidente é capaz do pior. Nada prova, contudo, contra o facto de ser TAMBÉM capaz do melhor. O maniqueísmo do Euroliberal não lhe permite apreciar essas subtilezas; prefere que a realidade seja a preto e branco, com os dois tons nítidamente delimitados, para que todos saibamos onde acaba o Mal e começa o Bem, e possamos assim ir dormir os sono dos justos. O certo, por muito que isso pese ao euroliberal e a outros maniqueus, é que a realidade tem mais matizes do que lhes agrada reconhecer. Os EUA não se definem apenas pelo racismo, a descriminação, a censura, a ignorância, os ghetos e o imperialismo agressivo. Americanos são também Thoreau e Luther King, e Nabokov e Henry Miller e o movimento feminista, e o Black Power, e algumas das ONG’s mais actuantes. De igual modo, alguns dos mais lúcidos opositores do consumismo e do imperialismo são americanos.
    Assim, se o mundo ocidental produziu o pior, produziu também a crítica desse pior. O eurolliberal, ao entoar-nos a ladaínha do paraíso islâmico está apenas a imaginar que o Islão há-de um dia reter em si o melhor dos dois mundos: a democracia ocidental e as tâmaras, o laicismo e o haxixe, a liberdade de expressão e Hafiz, Bach e Omar Khayam.
    Quem me dera, arranje-me esse paraíso, que eu sou o primeiro a comprar bilhetes para lá.

  35. Este post parece irónico.
    Se o não for é uma pedrada no charco, direi mesmo mais: uma pérola que os porcos não saberão entender.
    O preço da Liberdade é a constante vigilância.

  36. Sabe, Nosferatu, há dois tipos de pessoas, as inteligentes e as que se limitam a reproduzir clichés. Você não está entre as primeiras…

    Burka: um cliché. Nada tem de islâmico, mas de étnico (sul do Afeganistão, região pachtun). E a prova é que já não sendo obrigatória, a maioria das mulheres pachtuns ainda a trazem… Mas há 1500 milhões de muçulmanos e os pachtuns são menos de 1%… Panasquice: há em todo o mundo, incluindo o islâmico. Se você precisar de um arrebenta muçulmano, não vai ter dificuldade em encontrar, não desespere.

    Democracia: quem conhece o mundo islâmico sabe que hoje em cada vinte eleições livres que haja nesses países, os islamistas ganharão vinte. DEMOCRATICAMENTE, saliente-se. Na Palestina viu-se… No Egipto, também (se não tivesse havido fraude gigantesca…lá ia o Mubarak, mas este não perde pela demora…), Turquia, Irão (uma democracia a 80%, tal como no Iraque), etc.

    Que lhe permite afirmar que os islamistas não são democratas quando eles pretendem chegar ao poder através de eleições e respeitar a alternância, sendo ainda o grosso dos opositores encarcerados e mortos pelas ditaduras fantoches pró-americanas ? Não será simples preconceito ? E se eles querem uma sociedade islâmica (embora com cidadania total para cristãos e judeus) quer você obrigá-los a viver à ocidental, com blasfémias, pornografia, anomia e decadência moral inteiramente asseguradas ?

    Desde que o escolham democraticamente e possam mudar quando quiserem, isso é democracia, ou não ? Ou democracia para si é ser corrupto, pró-americano, meter na cadeia todos os opositores à ditadura chamando-hes “terroristas”, receber em out-sourcing prisioneiros do Império para torturar, capitular perante o genocídio diário dos palestinianos, etc. ?

  37. Euroliberal,

    Fiquei muito mais descansado, agora que você me garantiu que no mundo árabe também há potentes “arrebentas” (para usar a sua curiosa expressão); não é que eu seja gay, mas nunca se sabe o que me pode acontecer, à vista daqueles másculos (diz você) machos alfa do mundo árabe.
    Também me tranquiliza muito saber que as burkas é só no Afeganistão. Fico então avisado, e quando for ao Afeganistão terei o cuidado de ir sozinho (a minha mulher detesta burkas, veja lá você, e não admite viajar para um país onde a obriguem à camuflagem; enfim, esquisitices). Preocupa-me, contudo, ainda no âmbito dos direitos femininos, aquilo que ouço dizer dos costumes, comuns no mundo islâmico de o macho ter direito de vida ou morte sobre o feminil rebanho. Quer dizer que se a minha mulher me trair eu vou ter que anavalhar, para limpar a honra? E que se a minha filha andar por aí a fornicar com toda a rapaziada do bairro, eu, perante tal exemplo de “decadència moral” (para usar a sua curiosa expressão), tenho que a estrangular ou, se não tiver coragem, entregar o serviço a um magarefe? É que, repare, eu sou pacifista, não consigo matar um frango e você não imagina o dilema moral em que fico quando percebo ter esmagado, inadvertidamente, um caracol. Assim, e a menos que você me garanta de que estas informações que tenho não passam de boatos lançados pela central de propaganda sionista, continuarei na minha de que o Ocidente é que é bom para viver e criar a minha prole.

  38. Nosferatu: mais clichés…

    Você precisa de uma desinfestação intensiva…
    Só em Espanha (país que ninguém considerará bárbaro) houve no ano passado 62 mulheres assassinadas pelos maridos ou companheiros… e milhares de mulheres agredidas. Muito mais do que todos os “crimes de honra” em todos os países muçulmanos sobre mulheres.
    As estatísticas não mentem… As centrais de desinformação, sim…

    E mesmo esses crimes de honra não se devem ao islamismo, mas à cultura mediterrânica, comum a cristãos e muçulmanos… Lembra-se do filme Zorba, sobre os costumes cretenses cristãos ? Deixe-se de clichés…

  39. Uma notícia triste:

    A Joana (Gomes) do Semeramis faleceu de embolia pulmonar fulminante no último domingo, 3 dias depois do seu último post. Podem prestar-lhe uma última homenagem nos comentários do seu último post no Semiramis.

  40. E acha que posso levar a minha senhora a um café em Damasco ou Amã? E que ela não será mal vista por causa do costume que tem de andar sempre de mini-saia e fumar e rir-se muito alto e chegar ao ponto de, numa discussão, questionar a minha autoridade e até (veja lá você) me mandar à merda? Não sei, não sei, com uma mulher assim, rebelde e indisciplinada (mas é assim que eu gosto dela) acha que o mundo árabe me vai acolher bem?
    A isto acresce o facto de eu ter um blogue, milintantemente ateu, intitulado “Cristo, Maomé e outros cabrões”, e que gostaria de poder continuar a actualizar uma vez tendo fixado morada em Teerão ou no Cairo. Você garante-me que o poderei fazer em segurança, sem temer ser degolado a meio da noite por uma brigada de indignados maometanos? E já agora (desculpe tanta pergunta, mas não é todos os dias que se pode interrogar um especialista em liberdades árabes) se eu quiser consultar conteúdos pornográficos na internet, que eu e a minha esposa tanto apreciamos, acha que lhes poderemos aceder a partir de Riade?

  41. 62 Mulheres mortas pelos maridos em Espanha, aqui está um exemplo dos benefícios proporcionados por uma imprensa livre: sabemos exactamente o que aconteceu, com números e o mais. Num país onde vigora um estrito controle da informação, como na Turquia, no Irão, etc., etc, vá-se lá saber quantos são os crimes de honra. Um pai degola uma filha numa aldeia montanhosa da Anatólia, e quem é que quer saber disso? O que não é noticiado, não existe. E os crimes só são noticiados quando a imprensa tende para a liberdade absoluta. No Portugal de Salazar também não havia crimes, nem violações, nem desempregados, nem comunistas, nem acidentes de trânsito. Era um verdadeiro paraiso comparado com a França, onde pululavam os distúrbios, as greves, os assassinatos.
    Veja lá se me arranja argumentos em condições, não tente rebater os meus “clichés” com falácias e sofismas.

  42. A resposta é sim a (quase) todas essas perguntas angustiadas… Nada há no Islão que proiba um marido de ser bananas ou corno… Já quanto ao blogue sobre “cabrões” é capaz de ser má ideia… mas isso é assim tão importante ? Em todas as sociedades há tabus… Eu, por exemplo, gostava de viver numa sociedade em que me fosse permitido saltar qualquer gaja boa que se cruzasse comigo, assim sem mais nem menos, mas não pode ser… Que quer, é a vida… Conteúdos pornográficos ? À vontade. A internet não é censurada… e os árabes adoram ver a decadência ocidental na internet… Mas se quer erotismo a sério, aconselho-lhe um espectáculo de belly dance…

  43. Sm e Fernando, vírgulas retiradas, plural acrescentado. Muito obrigado aos dois. Sem dúvida, anulam-se as ambiguidades na leitura. (e que luxo este de ter o Fernando como revisor de texto!)

    Nuno, mas que argumento pífio é esse? Desde quando é que as acções dos governos dos EUA, ou de outra nação ocidental qualquer, subsumem a História?… Tens tu é de me responder a isto: estamos pior no Ocidente em matéria de Direito do que estávamos à 100 ou 1000 anos? Há no mundo modelo filosófico preferível? Foi sobre isso que falei. Os teus fantasmas são muito pouco católicos.

    Map, explica-me lá as confusões, que eu ando nisto é para aprender. Entretanto, não há como fugir da questão: religião e laicismo são antagónicos na esfera do jurídico. Com certeza, o problema não se resolverá com o retorno a um Ocidente religioso. Então, há que aparecer um paradigma islâmico estabilizado na secularidade.

    Savonarola, sem qualquer ironia.

  44. Estimado Valupi,
    Em matéria de argumentos pífios sobre “civilização”,tu esgotaste o mostruário e as peças em armazém.
    A civilização não é um “estado de alma”, é um conjunto de práticas. A nossa é uma espécie de democracia ateniense, em que há cidadãos e metecos; vícios privados e públicas virtudes. Há, potencialmente, meios que nos permitem ter uma vida melhor e mais democrática, para nós cidadãos; e uma política, com instrumentos muito mais destrutivos, para os selvagens que vivem fora do nosso condomínio privado. Nunca na história humana houve tantas possibilidades de isto acabar mal.

  45. Euroliberal,

    Supõe que escrevias num blog Norte-Americano e que o teu moto, inspirado em Voltaire, era:

    “As long as people believe in absurdities they will continue to commit atrocities”.

    Qual das versões de A a G, todas atribuidas ao Voltaire, basearias a tua?

    A) Ceux qui vous font croire des absurdites, vous feront commetre des atrocites”

    B) Qui peut vous faire croire des absurdités peut vous faire commettre des atrocités”

    C) Si nous croyons les absurdités, nous allons commettre des atrocités »

    D) Croyez des absurdités, et vous commettrez des atrocités”

    E) Ceux qui peuvent vous faire croire des absurdités, peuvent vous faire commettre des atrocités.

    F) S’ils vous font croire des absurdités, ils vous feront commettre des atrocities.

    G) Ceux qui en arrivent à croire en des absurdités sont aussi capables de commettrent des atrocités’’.

    Como vês, pouco falta para termos uma revolução em Lisboa com a ajuda do Voltaire. E nenhuma corresponde perfeitamente à tradução que preferiste. Talvez pudesses dizer-me onde a encontraste a tua versão em francês para juntar à minha colecção.

    Este é o dilema que se põe constantemente àqueles que procuram fugir às lavagens de cérebro do Big Brother. Daí que chamar ignorante a uma homem como o Valupi, por exemplo, demonstra, no mínimo, que não vives muito longe das influências da área 51. Disso é que homem não tem nada. Believe moi.Há que haver respeitinho nesta casa.

  46. Caríssimo e estimadíssimo Nuno, por que raio as pessoas de boa vontade não conseguem sequer dialogar, fosga-se?… Achas que eu aprovo, apoio, ignoro, sanciono um qualquer acto criminoso, venha da Direita ou da Esquerda, do poder instituído ou do poder subversivo? Ser-te-á impossível admitir que se pode reconhecer uma doença e, em simultâneo, achar que há melhoras? O que pretendes tu, e a tua malta, com o discurso da perpétua conspiração?

    Sinceramente, acho isso anti-democrático, desmazelado, irresponsável; e não é por estarem vocês falhos de razão, que a têm em parte. É que o desafio principal deveria ser o de chamarmos mais vontades para se comprometerem com este-para-sempre imperfeito modelo democrático. Deveria ser uma causa republicana, nossa, de todos. Não o reforçar a percepção de que nada vale a pena – de que nem a política em Portugal vale a pena – porque os americanos estão a matar crianças no Iraque.

    De resto, é uma ingenuidade persistir na visão ideológica da realidade sem primeiro a testar no forno da antropologia. Cometem-se crimes desde que há humanos e concepções morais, em todos os tempos e lugares. Tu não tens um único exemplo de um qualquer sistema político que tenha evitado a guerra e o seu caos, que tenha realizado a justiça na sua plenitude utópica. E não tens, nem vais ter, porque a dimensão humana é imprevisível e inacabada. Por isso, por exemplo, um momento de esperança tão grandioso, e aparentemente final, como o foi a Revolução Russa descambou em mais um cortejo de misérias.

    Prefiro as imperfeições do regime americano e do regime europeu. São o que de mais próximo existe da concepção idealista de democracia, e não vejo razão para deixar de trabalhar nessa matriz.

  47. Tio Tadeu: Não percebi bem onde queria chegar com a sua charada. Claro parecer ser que o moto de Voltaire serve como uma luva aos neocons, o maior perigo para a paz mundial nos dias de hoje. Quanto às versões francesas nenhuma lhe corresponde inteiramente. Tant que quelques uns croiront à des absurdités, ils continueront à comettre des atrocités ? Há entre os bushistas ou neocons portugueses muita gente intelectualmente bem preparada, o que não os impede de tomarem posições criminosas de que mais tarde se envergonharão (tal como já se envergonham do seu passado maoista). E na questão sobre a qual me pronunciei, as relações com o mundo árabo-muçulmano, é evidente que são perigosos ignorantes. É facílimo desmontar os sofismas do seu discurso islamófobo. Peguemos nas últimas pérolas do Valupi: Começa por jurar que não sanciona qualquer acto criminoso, para depois dissolver qualquer ideia de responsabilidade normativa (“ideológica” para ele…) num pessimismo antropológico à outrance: “nenhum sistema político evitou a guerra” diz boçalmente, parecendo esquecer que a União europeia, a pátria dele, realizou o sonho kantiano da Paz Perpétua na Europa pós-45, pondo fim a uma guerra civil de mil anos, e que transpor esse modelo para a escala mundial é precisamente a sua principal missão.

    Mas depois volta ao registo ético- normativo errando 180º o tiro quando não ataca os terroristas cruzados, ocupantes, ladrões de petróleo e genocidas a população civil com armas químicas, como seria natural numa consciência bem formada, mas os ocupados, agredidos unilateralmente à revelia do direito internacional, os roubados e massacrados, chamando-lhes raivosamente “terroristas, psicopatas e alienados que se reclamam defensores do Islão” !!! Os nazi-fascistas é que costumavam chamar terroristas a patriotas como De Gaulle, Mandela, Cabral ou Xanana… Dois e pesos e duas medidas sempre, é o lema de qualquer nazi-sionista que se preze !

    Só mais um disparate: apresenta a questão como uma opção a tomar entre o modelo europeu e o islâmico. É evidente que não é disso de que se trata: os muçulmanos só querem expulsar os invasores cruzados das suas terras na Palestina, Iraque, Afeganistão, Golfo, etc. e escolher livre e democraticamente os seus governos derrubando as ditaduras pró-americanas que lhes são impostas pelo terror interno e externo (gulague bushista). NÂO QUEREM DECIDIR A NOSSA FORMA DE GOVERNO NA EUROPA, NÃO NOS QUEREM INVADIR NEM ROUBAR AS NOSSAS RIQUEZAS. Logo, se o modelo deles é melhor ou não que o nosso não está aqui em questão. Eu acho que o modelo europeu (mas não o americano que já não é democratico desde o 9/11, com Guantanamo, Patriot Act, agressões unilaterais, tortura em larga escala, etc.) é o melhor do mundo. E os árabes querem esse modelo adoptando a democracia, como na Palestina, não querem a “democracia” de Mubarak, Abdalah, Musharaf e outros ditadores fantoches. Querem também a ordem multilateral kantiana à europeia, que os põem ao abrigo das cobiças assassinas e piratas do Império… Logo, nas linhas gerais, não há incompatibilidade de civilizações. Democracia, independência nacional, sistema internacional (TPI)que puna os criminosos de guerra como Bush, Blair e Rasmussen

    A luta actual é entre o modelo kantiano-europeu de relações internacionais, baseadas no direito IGUAL (sem double standards) para todos, contra o modelo unilateral, imperial, terrorista dos EUA. E por isso eu, europeu, liberal de direita liberal e católico apoio a causa do Islão ocupado e agredido. Por ser ocupado e agredido, não por ser Islão. Se o Islão fosse o invasor e os EUA os ocupados eu seria pró-americano, pelas mesmas razões. Por amor ao direito internacional que é igual para todos.

    O cinismo valupiano e de outros biltres nazi-sionistas (quase todos ex-adoradores histéricos do autor do Grande Salto em Frente dos 30 milhões de mortos) em relação aos massacres “naturais” no Iraque, Palestina e, (pretendem eles) no Irão, é o novo nazismo, sempre anti-semita (ontem judeófobo, hoje anti-árabe) que se insinua sinistramente como ameaça letal ao futuro pacífico da Humanidade. Se o nazismo hitleriano foi esmagado sobretudo nas estepes russas, o actual nazismo busho-sionista terá a espinha quebrada pela heróica resistência árabo-islâmica. O Golfo será o Alcácer-Quibir da Cocacolândia e do seu Imperador Macaco. Muitos bravos irão juntar-se aos mártires já caídos. Mas há dezenas de milhões prontos a pegarem nas armas dos caídos e a esmagarem de vez os novos cruzados. A vitória é certa e pertence sempre aos justos porque DEUS É GRANDE !

  48. http://pt.wikipedia.org/wiki/Conc%C3%ADlios_ecum%C3%A9nicos
    Um concílio (também conhecido como sínodo) é uma assembléia de uma Igreja, geralmente uma Igreja cristã, convocada para decidir um ponto de doutrina ou administração. Um concílio ecumênico (ou ecuménico) é assim chamado porque é um concílio de toda a Igreja (ou, mais exatamente, do que aqueles que o convocam consideram ser toda a Igreja).

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Conclave

    Conclave (do latim cum clave, que significa com chave) é a reunião em clausura muito rigorosa dos cardeais aquanto da eleição do Papa. Os cardeais permanecem incomunicáveis com o exterior até haver um Papa escolhido.

    Ora diga-me lá onde cabe o seu “Os seus concílios são abertos à participação de todos os cidadãos maiores de idade”

    Quem responde a preces é o divino, não a religião.

    O etnocentrismo que revela é espantoso. Que eu saiba, há apenas um país islâmico, a Arábia Saudita, que não tem estruturas representativas. Todos os outros têm parlamentos, constituições, normalmente derivados dos sistemas legislativos dos países colonizadores. Nessa medida, a esmagadora maioria dos países islâmicos tem já uma lei civil secular, e com uma matriz “ocidental”.
    Você, que afirma a superioridade do “seu” sistema, não percebe que o problema não é que o Islão lhe quer impôr, mas exactamente o oposto, o que a colonização lhes impôs, o que o “Ocidente” pretende continuar a impôr-lhes.
    Apenas um exemplo, o caso do Hamas. Ganham as eleições e são imediatamente advertidos pelos membros do “quarteto” que caso não reconheçam Israel, não desarmem e não renunciem ao “terrorismo”, serão sancionados. Como se as verbas que o “quarteto” paga para o funcionamento da A.P. fossem uma esmola e não a tentativa de reparação do desastre pelo qual são responsáveis.
    E que melhor prova da indigência moral da sua “religião do Direito” que a reacção ao boicote ao leite? É que só aí é que deixou de se falar de liberdade de imprensa, separação de poderes, e se esboçaram desculpas. Quando lhes tocaram na carteira.
    Quanto ao laicismo que lhe é tão caro, em Espanha o ensino religioso, ministrado pela Igreja Católica, é pago pelo estado. Na Suécia, a Igreja é estatal e executa as funções administrativas do registo civil, como também na Dinamarca. No Reino Unido o monarca é o chefe da Igreja.
    Perigo islâmico, pois. Nestes 100 anos quantos ataques, quantas invasões, quantos bombardeamentos o “Ocidente” sofreu do Islão, e faça depois as contas ao contrário. E depois dessas contas feitas, neste momento em que se prepara mais uma, e se ameaçam novas Hiroshimas, diga-me então onde está o Direito e a Justiça.

  49. map, não vale a pena bater mais no ceguinho… ele já levou tantas que já nem se defende.. e nas últimas 24 horas foi uma farturinha…

  50. Map, obrigado pela boa resposta.

    É verdade que escrevi o texto à pressa, a horas impróprias e que ninguém me paga para isto. Mas também é verdade que era concílio o termo que eu queria usar, pois não estava em causa encontrar apenas uma analogia para um acto de votação, antes para uma dimensão mais vasta onde o cidadão maior de idade fosse um agente político com um complexo espectro de actividade. O cidadão pode pertencer a diversos tipos de organizações, “concílios”, onde se discuta a “doutrina”, a política em sentido lato. Por exemplo, um blogue pode ser visto como um concílio, onde os intervenientes tentam conciliar as suas opiniões. [not!]

    Tal como o divino não existe fora de um quadro religioso qualquer, pois o termo religião concerne directa e exclusivamente com a relação entre a humanidade e o divino, e respectivos modos da sua expressão. O curioso é que em algumas das religiões pagãs existiam formas de “resposta” aos pedidos que eram mais concretas e materiais do que hoje em dia se espera do divino judaico-cristão ou muçulmano. Assim, a analogia do texto acima remetia para os actos de execução da justiça em resposta às “preces”, acções, dos cidadãos. De resto, só para um crente é que a palavra “divino” tem substância ôntica. Para mim, é um mero conceito abstracto, apenas mental.

    Quanto ao etnocentrismo, nim, outra vez. Será etnocentrismo no campo da História, pois foi no território ocidental que primeiro e melhor se instituiu o primado do Direito laico. Mas deixa de o ser no campo filosófico, onde o Direito como paradigma fundante da natureza, função e limites do Estado se institui como necessidade universal. Neste ponto não há saídas fáceis, curas rápidas, milagres. Por exemplo, deveremos tentar acabar com a excisão do clítoris que se continua a praticar em algumas populações? Se levássemos à letra o mandamento da não intervenção, posto que essa seria uma brutal e absurda tradição aceite pelos indivíduos que a praticavam e que eles teriam o direito de preservar, essa decisão iria entrar em conflito com a obrigação ética de defender os Direitos Humanos. Se intervirmos, estaremos sempre a impor uma nova tabela de valores e referentes culturais, exógenos ao grupo em causa. Que fazer, então? Estou curioso pela tua resposta.

    Quanto à problemática do Islão, importa distinguir entre a estrutura cultural, a política, a ideológica e a patológica. Culturalmente, os povos muçulmanos sempre foram explorados por todos, estrangeiros e nativos. Aconteceu o mesmo com todos os povos tecnológica e economicamente em patamares de desenvolvimento inferiores a outros. Politicamente, os condicionalismos nascidos e desculpados com a matriz religiosa são opressores da liberdade individual tal como no Ocidente se entende essa dimensão. É um assunto para os povos respectivos decidirem por si próprios. Ideologicamente, o Islão pisa o risco da soberania alheia ao alimentar uma rede internacional de fundamentalismos de perigo variável. Alimenta-a porque não a combate, no mínimo. A ideia que temos é a do Islão teocrático ser uma organização internacional sem um centro conhecido. Deste modo, não está dependente das organizações estatais, as quais apresentam sistemas que simulam a laicidade. Esta laicidade é de imediato desmentida pela densidade religiosa na esfera social e psicológica. Finalmente, o Islão tem como epifenómeno uma subcultura de psicopatas que são utilizados ao serviço dos jogos de poder ou aparecem espontaneamente por dinâmicas de alienação.

    Então, e o Ocidente? O Ocidente tem todos os defeitos e mais alguns. Somos uns pulhas, temos muito sangue e miséria nas mãos. Será só o que temos? Não. É disso que falo acima.

  51. Valupi: Eu percebi a ideia, e por isso é que achei que havia confusão. Porque sendo o concílio o local onde se determina a doutrina e a regra, não podemos deixar de o equiparar, no estado laico, ao legislativo, e como sabe, o legislativo é privilégio de uma elite, escolhida nuns casos, nomeada nos outros. Excepcionalmente o resultado ou a premissa de um processo legislativo podem ser referendados, mas em regra a participação dos cidadãos, maiores e menores, limita-se à escolha entre a Coca ou a Pepsi, ou mais recentemente e com novas tecnologias, do vencedor do Big Brother.
    A própria organização dos partidos políticos, reflecte a matriz original do “Ocidente”, a Igreja do Império Romano.
    As vozes, que a meu ver com toda a justeza, se levantaram contra a inscrição desta verdade histórica na defunta Constituição Europeia, fizeram-no em nome do multi-culturalismo. Mas o multi-culturalismo não é apenas tolerância, é também convivência e inscrição dos valores do “outro”, não a adopção da sua prática. Nesse aspecto, as sociedades muçulmanas são históricamente multiculturais, como o foram os Impérios Austro-Hungaro, Otomano e Russo, no interior dos quais conviviam diferentes religiões e etnias. É a Ocidente que encontramos a matriz da exclusão e da intolerância, e não deixa de ser irónico ser a sua ascendência, só possível pelo afluxo de capital das Américas, – ouro e prata – à custa do aniquilamento de todas as culturas aí existentes e do genocídio dos seus habitantes, a causa da destruição desses três Impérios, acompanhada pelo rol de massacres que a acompanhou.
    Foi com mares de sangue que se amassou o cimento da “religião do Ocidente” a que o Volupi chama do Direito, mas que, no meu entender, é do Mercado. Digna sucessora da Igreja do Império Romano, que também em mares de sangue construiu o seu poder, sempre com o pio pretexto da salvação das almas.
    Dieu reconnaitra les siens.
    São mares de sangue que custa o fluir do petróleo, no qual a nossa aparente prosperidade se baseia. E arrogamo-nos o direito de dizer aos que pagam com sangue o que têm que fazer?
    Em nome de um Direito que, longe de ser um consenso, um reflexo da variedade cultural, porque produto apenas dos valores do dominador, da sua religião, das suas instituições, é uma imposição de conquistador, o direito do mais forte.
    Só por direito de conquista é que este Direito se pode pretender universal.
    Aqui está a contradição. Só se pode pretender universal por ter sido imposto por conquista, mas em si rejeita a conquista… a não ser que seja para o aplicar. A guerra só é legítima na defesa de uma agressão, diz o Direito. Como no futuro podem agredir-nos, vamos “defender-nos” já, dizem os guardiões, paladinos e auto-nomeados defensores do Direito. E destrói-se o Iraque, onde há 45 séculos nasceu o Direito.
    Sob a capa do Direito, e com a rapina em mira, aplica-se, de facto, a vendetta, induzindo a ofensa – antes da invasão do Koweit, o Saddam pediu licença ao Império, que disse nada ter a opôr.
    Coloquêmo-nos na pele do outro, que imagem captamos?

    Deixo-lhe aqui duas respostas:

    http://www.arabeuropean.org/article.php?ID=94

    http://www.mernissi.net/gallery/sindbad.html#postcard_1

  52. Pois, Map, entendo essa interpretação da história. E por a entender na sua lógica simplista – em que os dominadores são inevitáveis culpados – discordo dela. A história mostra como todos os povos se equiparam em violência. A violência é a herança animal. Povos muçulmanos atacaram, exploraram e escravizaram tribos africanas. Tribos africanas extinguiram outras tribos africanas. O homem é o lobo do homem, enfim.

    A única nota digna de nota no meio disto tudo é o nascimento do Direito. Basta um exemplo para a compreensão se fazer: o estatuto da mulher. Todas as grandes religiões são machistas, o que levou a códigos culturais e legislativos igualmente machistas. A primeira vez em que à mulher foi reconhecida a plena igualdade no plano do Direito foi no Ocidente, e há muito pouco tempo! Esta conquista, que começa por ser apenas um conjunto de palavras inscrito nas constituições, leva depois a uma sucessão de alterações sociais e psicológicas. Este é o caminho, sangrento, que o Ocidente tem seguido, onde cada conquista no campo do Direito é mais um passo dado em direcção à humanidade. Compara agora com outros códigos que fazem lei noutros lados.

    Discordo da tua visão cínica do espaço político consignado ao cidadão, onde apenas vês elites onde eu vejo representantes. O que eu vejo é muito preguiça e desmazelo, as pessoas não se querem organizar e depois queixam-se de não terem poder. É uma neurose.

    Quanto à política internacional, esse é um território onde ninguém é inocente. Mas ela não irá mudar sem nós começarmos por baixo, comprometendo-nos na acção política de base.

  53. Eu punha este Valupi entre os cinco ou seis sábios que passariam a velar, temporariamente, pela loja.

    [Mas… e se depois lhes subisse, como aos outros, o Poder à cabeça? Eu não sou cínico. Sou infeliz.]

  54. Valupi: Que a sua interpretação da História é diferente da minha, já percebi há 3 dias. A sua é a da “missão civilizadora”, é a do “papel positivo” do colonialismo que alguns “representantes” franceses quiseram, há um ano, estabelecer como dogma. Só que, como o provam as reacções dos ex-colonizados que são a esmagadora maioria dos inquilinos do planeta, estes não a compartilham.

    Há 3 anos centenas de milhões de seres humanos manifestaram-se contra a anunciada invasão do Iraque. Foi talvez a maior manifestação de repúdio da história. Como é que os “representantes” dos cidadãos traduziram esse mandato?

    Anuncia-se outra guerra, desta vez com Hiroshimas. Com os mesmos pretextos, as mesmas mentiras, justificada com o mesmo “Direito”… e o que nos preocupa é a liberdade de imprensa.

    Os arautos do “fim da história” e do “choque de civilizações” fizeram bem o seu trabalho.

  55. Disse Lumunba: “Agradeço o que foi feito para mim pelos outros. Agora não vou é considerar esse caminho como único.” E como se propõe Lumumba rebobinar “o que foi feito por si pelos outros” e regravar o seu caminho alternativo? Que, aliás, não revela.

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