Sufi Ciente

Eis uma muito conhecida parábola de Jalal al-Din Rumi – místico e poeta sufi nascido no séc. XIII, no actual Afeganistão – que se grava facilmente no coração e à qual não nos cansamos de voltar, aqui transposta em versão livre:

Um homem vai visitar o seu melhor amigo. Bate à porta e ouve “Quem és?” Responde “Sou eu.” O amigo diz-lhe “Vai-te embora, não te conheço.” Magoado, o homem vai embora. Passado um ano, volta lá. “Quem és?” Responde “Sou tu.” O amigo abre a porta. E diz-lhe “Bem-vindo. Esta casa é tua.”

Enquanto os cães ladram, a caravana da história faz caminho. Para quem gosta de números, apostaria os meus rentes em como há centenas de milhões de muçulmanos cuja ambição é viverem em paz, conforto e harmonia com o resto do mundo. Quantas centenas de milhões? Vou arriscar uma quantidade: entre 10 a 12.

São pessoas condicionadas pelos poderes políticos, religiosos e culturais. Pessoas cuja voz não se faz ouvir, que talvez nem a si próprias se oiçam. Mas são aquelas que nós deveríamos tentar conhecer, apoiar, defender. Estão em todo o lado, aqui em Portugal. Costumam ser chamadas de “moderados”, o que não lhes faz justiça. Não pode haver moderação no combate pela dignidade. E dependemos delas para estancar a sangria, reduzir a loucura.

Começar por nos aproximarmos das comunidades islâmicas, não sendo remédio santo, já seria suficiente.

28 thoughts on “Sufi Ciente”

  1. Parece-me óbvio que o nosso planeta está a atravessar uma crise civilizacional grave, mas não consigo encontrar explicação nas tão badaladas caricaturas. Morrem pessoas em pseudo manifestações de fé com o argumento da ofensa blasfémica?

    Lamento mas parece-me no mínimo um contra-senso.

    Matar é algo de proibido em qualquer religião, todas apregoam a vida como um bem a preservar e como legado dos seus deuses, mas rapidamente surge uma corja de oportunistas que a titulo da defesa do respeito, da moral e dos bons costumes (o que quer que isso seja) estão logo disponíveis a (r)criar os delitos de opinião ou de ideias, para além de prestarem vassalagem aos fundamentalistas…

  2. É frequente persuadir mais por acção do que por palavras. As palavras são bonitas, mas por vezes desnecessárias! Não será agora o caso das que vou transcrever de ‘Verdade e Política’ de H. Arendt, certamente.«Às opiniões sempre mutáveis do cidadão sobre os assuntos humanos, eles próprios num estado de constante fluxo, o filósofo opôs a verdade sobre as coisas que são por sua própria natureza eternas e de onde, por consequência, é possível derivar princípios para esta estabilizar os assuntos humanos. Daí resultou que o contrário da verdade foi a simples opinião, apresentada como equivalente da ilusão, e é esta degradação da opinião que dá ao conflito a sua acuidade política; porque a opinião e não a verdade, é uma das bases indispensáveis de todo o poder.»
    Uma constatação:«E se pensamos agora em verdades de facto – em verdades tão modestas como o papel, durante a revolução russa, de um home de nome Trotsky que não surge em nenhum dos livros da história da revolução soviética – vemos imediatamente como elas são mais vulneráveis que todas as espécies de verdades racionais tomadas no seu conjunto.»

  3. Valupi, vou deixar este comentário em ‘Ruinas Circulares’, pois acrescido de mais algumas palavras poderá ajudar a esclarecer aquele tema e a discussão de assunto é sempre interessante, na minha opinião.

  4. Valupi, As Ruínas não aceitam os meus comentários, é a segunda vez e nickles, posso deixar aqui?
    (Para juntar aos comentários em Ruínas Circulares no link ao lado): “A sério, ela até gosta do jogo,;) mas está cheia de trabalho e não tem tempo para estudar a estratégia que ele exige. Porque não vão jogar com o verde BES ou com os milhares de amarelinhos BESinhos, eles ainda não entraram vão certamente adorar. Se não puderem, paciência, têm que brincar sozinhos! Isso é bué chato,eu sei que ela sabe, mas não dá mesmo e depois passa a vida a dizer que já deu para esse peditório,e já não lhe dá ‘pica’ – afirmações dela. Por outro lado,diz que com’macacos de imitação’, não tem pachorra para brincar… sorry e jokas.LOL.
    Já agora, quero dizer a alguns ‘papás’ que os adoro e que podem sempre vir brincar comigo quando eu estiver livre, sem trabalho. Mais Jokinhas, ‘have fun’!Por Ruin(zol)as Circulares, m.azul

  5. Valupi, quero só dizer que a acção a que me refiro não ´tem a ver com agressão e morte como é obvio, mas sim com atitudes solidárias e de não discriminação.

  6. F. Marinho:
    Aqui tem um link com a cronologia do caso.
    http://www.juancole.com/2006/02/fact-file-on-reaction-to-danish.html

    4 meses de protestos pacíficos, de esforços diplomáticos tiveram como resposta desprezo e indiferença. Um boicote leiteiro põe tudo o que é ministro e comissário a pedir calma e a dizer que os bonecos são ofensivos. Já percebe porque é que as embaixadas arderam?

    Valupi, parabéns pela honestidade.
    “São pessoas condicionadas pelos poderes políticos, religiosos e culturais.”
    “Eles” são, portanto, exactamente como “nós”.

  7. Lírico.
    Que diga que há milhões de «muçulmanos cuja ambição é viverem em paz, conforto e harmonia com o resto do mundo», aceita-se. Mas que cifre esses “aspirantes à harmonia” em centenas de milhões, e que essas centenas sejam 10 ou 12 — isto é, que para mais de mil milhões de muçulmanos a «ambição [seja] viverem em paz, conforto e harmonia com o resto do mundo» é lirismo. Ou demagogia.
    O Islão é “estatutariamente” expansionista — não há expansionismo sem atrito.

  8. Ficou por dizer isto:
    Afirmar que a ambição de virtualmente todos os muçulmanos é «viverem em paz, conforto e harmonia com o resto do mundo», mas infelizmente essas centenas de milhões «são pessoas condicionadas pelos poderes políticos, religiosos e culturais» é, uma vez mais, lírico, infantil ou demagógico.

    Disse Ortega y Gasset: «Eu sou eu e a minha circunstância». De facto, os condicionalismos sociais, políticos, religiosos fazem parte de cada um (da sua maneira de ser, pensar e agir); se sou “naturalmente” tolerante*, mas a educação e a sociedade me leva a assumir atitudes intolerantes, ENTÃO eu NÃO sou tolerante — pois não posso separar o que faço e o que me levam a fazer e defender daquilo que SOU!

    * Ai Rousseau, os estragos que ainda fazes!…

  9. Fernando Gouveia, o Islão é expansionista, o cristianismo é expansionista, o capitalismo é expansionista e até o meu Sporting é expansionista. E depois ainda há as pessoas e a sua circunstância. Exactamente.

  10. Eu não disse que SÓ o Islão é expansionista. Mas para a questão em análise, que outras religiões e sistemas económicos o sejam é irrelevante.
    O que é relevante é que, se se é expansionista, não se é ‘harmonioso’, pois a expansão (que implica substituição de sistemas) é por natureza conflituosa. Por isso o Islão é conflituoso. E o capitalismo. E o comunismo. E o Cristianismo. E a Cientologia. E…
    Ora, voltando à questão actual: o Islão é conflituoso.

  11. oh meu caro Fernando Gouveia…q raciocínio circular o seu!:->

    …essa curcularidade q o leva a constatar q ‘todos’ são expansionsitas, mas q só o expansionismo de ‘um’ é q é pernicioso…essa é de mestre!:->…até parece q cada expansionismo vive isolado…dos outros!…e q ñ contribuem, todos entre si, para a porcaria de mundo em q vivemos…meu caro, nesta guerra suja já ñ há culpados nem inocentes…:->

  12. Fernando, pois sim. Daí o texto acima deste. Mas não quero confundir as pessoas com os poderes que habitam e se servem do Islão.

  13. 1. As caricaturas em causa são um meio inapto para incitar o ódio racial.
    2. O público alvo daquele jornal e, em particular, os dimarqueses,são do mais avançado que há na europa em termos de tolerância e defesa dos direitos humanos.
    3.Os eventuais “lesados” ou ofendidos tratam as mulheres de uma forma bárbara e insultuosa, do ponto de vista de qualquer ocidental civilizado.
    Posto isto, porque temos que ter tanto cuidado em não ferir a susceptibilidade que quem, reconhecidamente, não tem? Já agora, para não ofendermos estes senhores, porque não começar a rezar ao Alá? e cuidado com os trajes de carnaval!

  14. Isabel, pois sim. Daí o texto acima deste. Mas não quero confundir as pessoas com os poderes que habitam e se servem do Islão.

  15. Valupi,

    “Mas não quero confundir as pessoas com os poderes que habitam e se servem do Islão”. Nice one.

    Há cerca de dez anos atrás um canal da televisão turca, o canal 7, salvo erro, filmou secretamente uma sessão completa de rituais maçonicos algures na terra adoptiva do nosso Constantino.

    A reportagem foi devidamente transmitida. No entanto, para surpresa do produtor do programa, nenhum dos outros canais ou imprensa mainstream fez eco desse choque cultural (a maçonaria não se livra da fama de ter os Cruzados muito perto do coração das cuecas). Os barões da media turca calaram-se como ratos. Será (também) a coisas como esta que te estás a referir? Espero que sim.

  16. Valupi,

    Muito obrigado por me teres dado a minha opinião. Já tenho visto actos de menor coragem em tempo de guerra. Como precaução, vou tomar uma dose homeopática reforçada de Mercurius Sublimatus Corrosivus. E confundes-me. Se queres que te diga, já não sei se é pantomineiros ou pantomimeiros. Em qualquer dos casos, a que não for pode ficar para a Irmandade do Islão, também excelente rapaziada acostumada a pôr preconceitos religiosos de parte, enquanto o cacau vai escorrendo. Temos de perguntar isso ao flamejante EUROLIBERAL para ficarmos com a certeza.

  17. Caro amok,
    Não há qualquer circularidade no meu raciocínio — nem se pode deduzir com propriedade das minhas palavras que eu defenda que «só o expansionismo de ‘um’ é q é pernicioso»*.
    O que eu digo é que o facto de outras religiões serem expansionistas e perniciosas é irrelevante para a questão de o Islão ser expansionista e pernicioso.
    O autor inicial apresenta um Islão cor-de-rosa; eu nego que assim seja. Se alguém apresentar um Catolicismo (etc.) cor-de-rosa, eu também nego que assim seja — mas o post inicial era sobre o Islão.

    * Como ateu, sou da opinião que todo o expansionismo religioso é pernicioso; como realista, sou da opinião que o expansionismo ateu é contra-producente e, por isso, pernicioso.

  18. Não pude conter um sorriso sarcástico quando li: «Mas não quero confundir as pessoas com os poderes que habitam e se servem do Islão.»
    Já agora, a turba que resfolegava a ponto de quase se vir nos autos-de-fé e guilhotinações era também toda muito tolerante, civilizada, bondosa e et-cetera-e-tal — os cabrões dos poderosos é que os manipulavam…
    O Rui, quando é que vais perceber que se os poderosos manipulam as massas (e não há dúvida de que o fazem), as massas, deixando-se manipular, perdem* a “pureza original”?!

    * Perdem, diriam alguns; para mim nunca a tiveram…

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