querias um post?

Escrevo o que quero e quando quero: é para isso que me serve um blog.
O post que publiquei ontem acumulava diferentes intenções, falhando redondamente no seu propósito. Havia a oportunidade de assinalar a derrota do Sporting, mas essa era a camada superficial. Na primeira versão tinha uma diferença que eu esperei fosse assinalada por alguém, o dedo acusatório. Rebuscado, sim, numa estratégia sofisticada de atirar o barro à parede. Esperava poder tergiversar a partir daí, mas tal não aconteceu. Razão de ser do presente.
Quando vi a peça televisiva na sexta à noite, fragmento de passagem, não pensei escrever sobre o assunto. Pensei nas questões intrínsecas e depois fui levada por diferentes linhas de reflexão. Havia, então, essas primeiras, as que vêm afloradas de modo literal no texto: a autoridade e a educação, a miséria de um povo, a esperança de redenção. Sobretudo a criatividade como forma de luta – na história do Pedrito e também nas evasivas do cantor sénior, tentativas de explicar que restringia o seu esforço de construção a uma mensagem, veiculada pela música e por uma actuação como representante de Angola.
Quando Bonga escapa às críticas directas procuradas pela entrevistadora, comenta que ainda há cinco meses lá esteve. Visita o seu país regularmente, conhece a realidade actual e compara-a com as outras, anteriores, e um possível futuro. Neste ponto eu penso claro, ele vai lá, não pode correr o risco de criticar abertamente. Também eu não o faria, está quieto ó preto. O pensamento levou-me para um salto: as expressões de origem racista que já perderam para nós esse contexto, mas pedem um cuidado no uso quando se cruzam com a possibilidade da temática, como aqui. Era esta expressão (uma sua variante, está quieto ó Bonga) que constava da primeira versão, no lugar de «só pelo contorno». Não servia, é óbvio, o meu propósito, mas recorri à piada íntima e esperei, debalde, que alguém tivesse dado por ela, repondo a fórmula inicial uma hora e tal após a publicação.

As outras questões relevantes continuavam a partir daqui e ligavam-se à polémica ali abaixo. Tal como a anterior, essa necessidade de não ofender gratuitamente alguém por uso displicente da linguagem, em oposição a eventuais ofensas colaterais de algo com uma intenção específica de intervenção – política, social, ou outra.
Bonga, por correr riscos óbvios para quem sabe o mínimo da realidade angolana, não deve falar abertamente. Vai, assim, pelo contorno. A ligação, em mais um salto temático que mostra como podemos falar de tudo a propósito de tudo, foi com o caso do Théo Van Gogh, abordado lá em baixo. Foi dito que este pensava usufruir de um estatuto de impunidade, o que é uma aleivosia. Théo não se consideraria impune, mas teria todo o direito de se considerar protegido. Protegido pelas leis e pelos meios do seu país, pela segurança a que todos deveríamos poder aspirar. Ele não foi para lá, onde impera outra lei, ou um regime despótico: estava a exercer a sua liberdade, onde esta é um dado adquirido. A arma para quem se revolta com uma actuação semelhante à dele é a crítica, a acção dos pares. É, no fundo, aquilo que podemos observar nestas caixinhas, numa comunidade como é a blogosfera, em que, mesmo entre desiguais, a desigualdade não impede o fundamento da paridade.
Como no pretexto utilizado, por outro lado, as caricaturas são um modo de ir pelo contorno, pois constituem um recurso à criatividade como forma de crítica política. Não pode ser esquecida, nem confundida, a existência de países que mantêm connosco relações diplomáticas e, numa instância como esta, movem esforços no sentido de imporem a lei corânica, sua, sobre as leis seculares de outros, num atentado à soberania destes países. O facto é que estes países estão, conscientemente, a atribuir legitimidade aos actos de terrorismo que se levantam, demarcando-se hipocritamente dos mesmos.
Pouco importa se a única coisa verdadeiramente sagrada, para alguns, é a religião, seus valores ou ícones. Sagrado deve ser o respeito que temos uns pelos outros. Em que possamos assumir que sagrado, para outros, seja apenas a vida, as pessoas e a liberdade. A existência de religiões em estados seculares comprova a mais-valia destes últimos: ninguém impõe o laicismo a outrém, cada um pode reger-se pelos valores que, em liberdade, decide abraçar.
Como se confirma pelo labirinto que consegui implantar na minha rotunda, no entanto, o caminho de uma conversa é sempre um rumo imprevisível. Basta sabermos que do outro lado está um interlocutor cuja subjectividade e interpretações não podem ser ignoradas. Menos ainda podemos presumir que a sua atenção se vire para nós, ou incida sobre o nosso essencial.

47 thoughts on “querias um post?”

  1. Susana de facto o Sporting empatou mas o árbitro tudo fez para que perdesse, inclusive preparando e pondo-se a jeito para um remate com selo de golo para o Benfica na meia-lua da área do Sporting. O golo do Benfica nasce dum «canto» inventado por ele eu estava lá e vi o meu lugar é no sector B28 fila 13. Em Portugal a «verdade desportiva» não existe mas não é politicamente correcto dizer esta óbvia verdade. Andei lá dentro dez anos e pedia para fazer jogos do futebol juvenil porque lá é menos evidente a podridão.

  2. Também eu não o faria, está quieto ó preto

    ou “ está quieto ó preto » não são expressões idiomáticas. Aliás, nunca as ouvi.

    “Trabalhar é bom pró preto”,sim. Essa era uam expressão usada e o sentido entia-se.

    De qualquer forma agora é que toda uam linguagem cujo sentido já tinha sido desactivado pelo tempo, é que passou a ser considerada manifestação de racismo.

    Do mesmo modo que falar em onzeneiros, ou ler o Auto da Barca do Gil Vicente.

    Nada disso tem comparação com caracterizar um povo ou uma raça.

    Por exemplo: quando se diz (foi o caso, aqui aproveitado para post) “a pretalhada da linha de Sintra” num contexto que se opunha a um magrebino a chamar “enraba-cabras a outros magrebinos tão imigrantes quanto ele, se algo podia existir de ofensivo era na segunda expressão: os muçulmanos magrebinos= enraba-cabras.

    Razão: porque a primeira expressão foi usada para caracterizar bandos de marginais (com negros e brancos à mistura) e no sentido de dizer que o magrebino que caracterizou desse modo desprezível os muçulmanos menos português que eles.

    Seria patético substituir a expressão por: “os senhores negros que abusam do alheio e agridem as pessoas na Linha de Sintra”.

    Já usar a expressão “enraba-cabras” como caracterização de uma raça ou povo, só pode ter um sentido- perfeitamente ofensivo. E nem é expressão com história conhecida em Portugal. Eu nunca a tinha ouvido, por exemplo.

    A piada da questão é que me foi chamada a atenção para a “pretalhada da Linha de Sintra” enquanto se considerou que o que tinha sido dito acerca dos muçulmanos até era digno para eu aprender.

    Claro que achei engraçado por outro motivo. Não existe caracterização de racismo por via de ideologias pu linhas políticas a que as pessoas se encostem. Existem actos e pode existir alguma embirração com variantes graus- desde o mero encanitanço ao facciocismo ou obsseção doentia.

    Ora isto pode acontecer com qualquer pessoa. Logo, é perfeita mentira dizer-se que só existe racismo e xenofobia de extrema-direita, susceptível de dar direito a prisão. Enquanto que à esquerda, quando o mesmo racismo se manifesta, é apenas disgarçado com maior dose de hipocrisia.

    No caso em questão- pelo Valupi- foi disfarçado de “liberdade de expressão”. No caso de quem citou os enraba-cabras e cujo testemunho o mesmo Valupi subscreveu- houve apenas verdade, sem se preocupar em disfarçar.

  3. errata: entedendia-se.

    De qualquer forma a questão diz apenas respeito ao tomar-se por manifestações de “incitamento ao ódio racista” ou racismo meras palavras. E isso sim, é produto da ditadura do politicamente correcto e das brigadas de inspecção da novilíngua e duplo-pensar.

  4. Politicamente este exemplo também serve para 2 outras questões:

    Todo o novo código penal foi alterado por força de lobbies e emanado da UE. Fiz mesmo uma pesquisa sobre o assunto e consegui encontrar-lhes os traços, os grupos com assento de conselheiros, as ONGs financiadas e 1 ou 2 lobbies mais poderosos com ramificação entre EUA e Europa.

    Tudo isto pode ter muito bonitas intenções mas torna-se discriminatório, uma vez que se considera crime apenas o que pode tocar ao lobbie com mais poder.

    Por outro lado, já deu origem a uma “linha da denúncia” perfeitamente pidesca onde se faz o pleno: consegue-se colocar a palavra “discriminação sexual” ou a expressão “manifestação de racismo com práticas de pedofilia. Incitando-se à denúncia de ambas como se fossem questões identificáveis do mesmo modo.

    Segunda questão: esta tendência para se centrar a estigmatização das pessoas pela tal dialéctica erística dos “ismos”; dos lugares de vergonha, marcados na testa de quem os profere, é o alibi perfeito para que se disfarcem comportamentos verdadeiramente degradantes, desde que se usem as palavras permitidas e se faça auto-censura e denúncia por brigada de policiamento dos outros.

    Nada de dirente da velha prática inqusitorial- denúncia e estás protegido. Nada de diferente da velha prática estalinista ou maoísta, agora disfarçada neste mundo novo a bater à porta- o mundo em que aquilo que não é proibido se torna obrigatório. E onde tudo o que se deve ou não deve fazer já só é reconhecido se for decretado por lei.

  5. Uma nota: não referi o nome da pessoa que proferiu o enraba-cabras (até foram várias) e nada disto deve ser tomado com pessoal. A questão da naturalidade também não foi devassa, apenas mera informação acessível e até divulgada.

  6. E há que não esquecer que o racismo existe também entre pretos e brancos, há muitos pretos racistas e normalmente discriminam e são mais racistas, em média, do, que comparativamente os brancos racistas. E também há racismo entre pretos e amarelos, etc, etc. Os portugueses, esses, como se sabe, são acastanhados, como têm muitas raças e misturas no sangue é que não podem, mesmo que o queiram, ser racistas…

  7. Quanto à questão do Theo ou vai tudo fazer poesia e inventar coisas que não conheceu´ou mero empsatelanço para nada.

    Eu não sei nada do sujeito, tirando aquilo que é público- e acho mesmo de mau-gosto pegar-se no que não se sabe e num exemplo de alguém que até já morreu.

    A única questão para que foi chamado dizia apenas respeito a uma prática boçal, falsa (porque moralizava com o que não acreditava) e provocadora que não deve servir de exemplo para nada.

    E aquilo que não serve de exemplo para nada, não serve por si mesmo; seja permitido ou proibido. A liberdade não é valor. valor é o uso que se faz dela. Assim como pode ser muito ética uma prática de excepção, mesmo que proibida.

    E, muito menos se pode saber o que se deve ou não deve fazer, à custa das consequências nefastas que esse acto pode acarretar.

    Não existe julgamento ético de um acto, pelo acto que se lhe segue e que não é da mesma autoria.

    É claro que se torna paleio de chacha dizer que matar alguém é algo proibido num Estado de Direito, ou chamar terrorismo a uma mera ameaça, ou dizer o que o terrorismo é uma prática sem qualquer relativização moral possível e colocá-la a par da prática livre de provocação à Theo.

    E isto é que devia ser compreendido. Porque ninguém aqui, se vai rever, pró sério, em actos terroristas ou é sequer assassino profissional ou mercenário.

    Mas, contrapor esta evidência à relativização ou elevação ética de um modo de lidar com problemas de imigração à Theo, sim, essa é uma desculpa esfarrapada para incitar ao racismo e manter-se de costas quentes à custa da famosa “liberdade”.

    No “meu tempo” liberdade era coisa muito difícil de se conquistar. Davamos-lhe um grande valor. E ninguém ia pedir para que essa liberdade passasse a entrar no Código de Leis. Do mesmo modo que era uma liberdade com um sentido, bem preciso, no seu uso.

    Ninguém desbaratava “liberdades que até podiam custar, no mínimo, uma noite na prizão, por dá cá aquela palha ou, pior, para a virar como arma de arremeço contra os que pudessem estar numa situação mais infesa.

  8. la´vem o grunho da casa. Mas pronto, também não vou ser eu a dizer que as intervenções do Zeca Diabo em relação a mim, são exemplos de “odio machista” ou discriminação da mulher. Acho apenas que ele me troca pela mãezinha.

  9. Racismo é como tudo. Para mim só conta o que se pode traduzir em actos. De outro modo andava meio mundo a psicanalizar outra metade e a ver se encontrava sinais desse ódio (hate do americano traduzido à pressa e mal e porcamente pelas ONGs) em qualquer pessoa.

    Andava tudo a fazer de pide e a escutar e denunciar outra metade.

    E já anda…

    e o problema é esse…

    E por isso, como vivem virados do avesso, tentando esconder o que, em muitos casos, é perfeitamente inofensivo e natural, e se pode reduzir a não dizer pela frente, por questão de educação, que depois há mesmo muita má-fé entalada.

  10. De todo o modo, a frase do exemplo dado pela Susana não é sequer conhecida. Nunca me lembro de ouvir essa expressão: “está quieto ó preto”

    mas, também é verdade que nunca estive em África nem ninguém da minha família. Imagino que por lá pudesse ser usada.

    Não sei. De colonialismo é que não sei mesmo mais nada do que se pode ler nos livros. Rien de rien. Não há memórias familiares fora daqui ou da Sicília

    ahahaha

  11. essa necessidade de não ofender gratuitamente alguém por uso displicente da linguagem, em oposição a eventuais ofensas colaterais de algo com uma intenção específica de intervenção – política, social, ou outra.

    isso é questão de treta. Ninguém trata outra pessoa por “ó preto” a menos que seja na brincadeira e com sinaléctica entendida e retribuida pelo próprio.

    Também não é por se dizer essa expressão a própósito de um comportamento, que alguém ia ficar com sentido desprezível ou indelicado em cima.

    Donde tudo se resume a educação e trato.

    Como só conheço um único modo de lidar com as pessoas- paralelo; sem olhar de cima para baixo, nem de baixo para cima, é questão com que não perdia sequer um minuto de ensimesmamentos ou arrependimentos. Só conheço respeito por hierarquias e mesmo aí, apenas as hieraquias implicam graus diferentes de aproximação, mas o olhar é sempre o mesmo- a par, de igual para igual.

  12. Motivo pelo qual, admito, me incomodou (de forma gratuita e sem fulanizar a questão, apenas como imagem que me saltou à vista) ouvir alguém a tratar pessoas com a mesma origem magrebina como enraba-cabras e com toda uma justificação para se diferenciar dos que deixam mal-vistos e não acabar por ser corrido de lá também.

    Isto sim, soou-me mal, porque aqui entra (em abstracto) a imagem do que renega as suas origens e a imagem do que se cuida de modo pouco honrado.

    Mas é claro que, acerca disto nada tenho que pronunciar, foi apenas uma imagem e nem o próprio fez luxo dela. Posso é pronunciar-me porq quem a leu, a aferiu e me deu como exemplo de bom-senso contra o meu suposto racismo para eu aprender.

    Porque racista era eu, por considerar insultuoso aquilo que manifestamente incomoda os outros e é feito com intenção de incomodar, repetindo-se o insulto até que eles demorem uma semana a reagir.

  13. Quem a leu, mediu, pesou, confrontou com o “meu racismo” e ma recomendou para eu aprender com o exemplo foi o Valupi (para que não haja confusões em relação à autora do post).

  14. pegaste bem na expressão (que não conheço de angola, mas daqui, tal como essa que referiste ou aqueloutra «e eu? sou preto?!») pela relação que tinha com a tua «pretalhada». como dizes, o uso pode não ser intencionalmente dirigido, ou, mesmo, é bem improvável que seja. no entanto, mesmo que não queiramos sucumbir ao politicamente correcto, acabamos por ter um cuidado no seu uso, quando ele possa sujeitar-se a equívocos. por exemplo, se falasses na pretalhada dos hoolligans da bola, não teria o mesmo risco de falares na pretalhada da linha de sintra, por relações de contexto. do mesmo modo, se a pessoa em referência fosse branca, não haveria mal algum no uso da minha expressão, tornando-se uma piada seca considerando a pessoa em causa.

    quanto a tudo o resto: como é evidente não estou a dialogar exclusivamente contigo, pelo que não se pode inferir do post que os assuntos abordados têm o intuito de se te oporem, mas apenas a fazer uma incursão no tema.

  15. E´verdade, já que estás aí, esquecia-me de te agredecer o título do post” querias um post”.

    Queria, quando estivemos em debate e tu entravas para desconversar e depois dizias que não tinhas que responder porque não era pertinente.

    Não achaste pertinente a comparação da ameaça dos mullhahs aos cartoonistas com a mesma ameaça ao Papa. Disseste que isso não fazia sentido ser comparado, quanto eu tentei entrar em diálogo contigo para explicar melhor o que estava a querer dizer.

    Realmente não encomendei post. Noto é que é resposta um tanto “engalinhada” por eu ter dito para então fazeres tu um post e dizeres o que pensavas sobre a questão- as caricaturas”.

    Mas pronto, nada de novo debaixo do Sol, é epenas mais um exemplo que há coisas que também são património da humanidade e não se alteram com doutrinas- a velha mania das mulheres se engalfinharem…

    e eu até nem ando na corrida….
    É a minha cruz. Sempre foi assim, toda vida e eu nunca lhes liguei…

    Acho que, se chegar aos 80 anos, ainda hei-de ter garinas de 30 à perna a chagarem-me os cornos

    “:OP

  16. pelo contrário zazie: eu não pensei fazer um post até o discurso ter aparecido por ele. eu nunca escrevo “porque decido escrever sobre um tema”, mas quando as palavras se organizam por força própria. não tinha feito um post, o meu post era aquele ali em baixo, que me permitiria fazer referência a tudo isto aqui contido tivesse alguém dado por ela. a explicação é simples: não disponho de muito tempo para isto, pelo que qualquer texto que demore mais de meia hora já está a ser um roubo ao que me é essencial. o que agora leste apareceu-me. e apareceu-me pelas melhores razões – ou seja, não foi como resposta a um conflito, mas por um encadeamento de associações.
    de resto, se quiseres reler a minha troca contigo, verás que não é evidente que me tenha “engalfinhado” contigo. em nenhuma das ocasiões em que me dirigi a ti tinha perdido a calma, nem alguma vez me tomei de emoções que me tenham toldado o raciocínio.

  17. A pretalhada da Linha de Sintra é mesmo a pretalhada e até já houve por aí malta a escrever textos fabulosos com o complexo em se dizer isso.

    Cito de cor um do maradona, que era genial e mostrava como, em se estando em minoria e a perder a mera liberdade de andar na rua, quem a tira é apelidado de tudo o que possa ser ofensivo- de filho-da-puta a sacana do preto. Como o Tiago Cavaco que escreveu um texto de chorar a rir precisamente dedicado aos pretos da Linha se Sintra e à mesma paranóia e melindres na sua nomeação.

    O texto do Tiago Cavaco era tão inteligente que vou ver se o encontro. Tive amigos que me telofonaram por o ter lido.

    Em poucas palavras o que ele dizia é qeu a “qualidade de preto” só por si, já é uma ameaça física com vantagem para o próprio. Se a essa qualidade de avanço lhe juntarmos o gang a esfaquear e maltratar quem lhes apetece, então temos a qualidade de preto como eufemismo bem inferior ao que designa.

    No caso que ele deu como exemplo, foi o virar da situação, quando um cunhado dele, deu uma sova a uns destes pretos que o ameaçaram no comboio.

    E lembro-me que ele acrescentou que a lição a tirar é que o “Preto da Linha de Sintra” ia ficar, no mínimo, uma semana sem dançar quizomba.

  18. Vou procurar o post do Tiago e depois a ver se lhe dedicas também ium post.

    E olha que ele é neocon mas tem uma enorme vantagem sobre mim: sabe redigir muito bem.

  19. pois. nem a designação «preto» é ofensiva, pois dizê-la ofensiva é considerar a identidade (os próprios se dizem “nós, os pretos”) como diminuição. o contexto, sempre o contexto – e a interpretação, a subjectividade – é que podem condicionar literalidade e expressão.

  20. Está aqui a resposta às racções ao post dele. Também lhe caíram em cima, claro, já se sabe… bebeu tudo do mesmo biberão. foi tudo formatado em aviário…

    had it coming
    Só um poste com a expressão “aviar um preto” para ressuscitar a caixa de correio do blogue no mês de Julho. Deixam cair, não sem alguma gentileza, a suspeita: serei racista? Claro que sou racista. Se vivo com duas mulheres na minha casa e continuo com medo do género não haveria de temer pretos que o mais perto que estão é cinco andares abaixo? O que fazer do escândalo de existir vida para além de nós próprios? Assusto-me facilmente. Quanto mais diferente mais borradinho fico.
    O inevitável: um amigo, preto, escreve-me lamentando o textinho. Devo-lhe explicações. Não pela sua pele mas pela nossa amizade. Hermeneutizo a coisa: o “preto” naquelas linhas não é uma pessoa (aliás, se alguém quer ser uma pessoa no meu blog o melhor que posso fazer é linká-lo mal arranje o seu próprio blogue – este filme tem actor único desde o primeiro caracter, há mais de dois anos, segundo consta). É um bandido. Podia ser um cão. É um satélite em relação ao planeta que sou. Um agente de perigo externo. Sendo que tem a pele escura, facto abosutamente essencial para a acção.
    Mas aproveito a preocupação do meu amigo. Censuro-lhe que a dúvida no meu suposto racismo assente mais no que escrevi do que ele conhece em mim. Convém distinguirmo-nos de Ana Drago, pessoa reputada pela sociedade portuguesa em geral por não ter medo de nada. Para ela o racismo é mais o que se diz do que o que se é. Por isso ser-me-ia elogioso ser acusado de xenófobo pelos rigorosos lábios da deputada.
    O preto que assaltou o Ricardo não o fez de palavra em riste. Fê-lo com a consciência que o facto de ele, preto, estar a assaltar um branco é mais afiado que a lâmina que segurava. As minhas letrinhas são compensaçãozita pouca de um mero racista cobarde. Mais que racista, cobarde. Tomem nota, ó destemidos humanos.

  21. Acrecente-se que também sou uma mera passageira da mesma linha e do metro que para em Chelas à sexta-feira.

    Detesto automóveis na cidade. Ando a pé e de transporte público. É mais fácil falar de racismo com a boca cheia dentro de um carro.

  22. Bem eu nem li os comentários, que não tenho paciência, mas sei duas coisas: não vale a pena explicar o que se escreve, que haverá sempre quem não entenda ou entenda de outra forma. A outra coisa é que eu gosto da zazie, mas também não vale a pena discutir com ela. (desculpa, lá, zazie, mas eu cá mando-te beijocas; de resto, tá queto ó preto! :D)

  23. Olá Catarina:

    também gosto muito de ti. E estas coisas são assim- se calhar não foi por acaso que nos encontrámos naquela velha associação dos radicais pela ética…

    né?

    beijocas

    E eu que detesto grupos e sempre citei o Groucho a esse propósito, foi a única onde ainda deixei que, virtualmente, me incluissem.

  24. Er…3 coisas. Isso são 3 coisas! Estou desconfiada que a parte da mana não entrou no comp…ahn, esquece, sim, são duas coisas. :D Para mim é que são 3. :)

  25. ehehehe

    Estas coisas virtuais são uma macacada com muitos mal-entendidos. Mas é um facto que há uma linguagem nova que me faz sentir ET.

    E não sou só eu. Trabalho com um puto que diz o mesmo. Ele até conta que resolve logo a questão de rajada quando lhe vêm com essas coisas das palavras proibidas. Diz logo que é isso tudo: racista, xenófobo, homo-metro-sexual, ur-fascista, romanofóbico (esta é nova mas já vem na cartilha da UE) e o que for preciso, para saberem com o que contam

    “:O)))

    Mas é uma anormalidade porque eu lido com malta nova e nunca me fizeram o menor reparo. E sou tão politicamente incorrecta ao vivo como aqui.

  26. E ainda há aspectos mais cretinos nesta mania de se aferir os supostos actos das pessoas pelas palavras recicladas ou em upgrade (porque toda a gente adquire uma linguagem correspondente à sua geração, não se anda a aprender vocabulário novo só para parecer bem) é que este é mesmo um assunto em que, mesmo que quisesse não conseguia ser…

    ehehe

    De resto, as fobias metro-fufices-gayzices e todas as variantes de ur-fascismos na maior, até engalinho com muita coisa, fora do meu território, mas essa do racismo é que nem pó.

    Só não ando é perseguir ninguém por palavras, mas admito que não gosto de racismos. Porque implicam um tratamento de supremacia em relação aos outros, ou de paternalismo, ou mesmo de higienismo e o que eu mais curto é a festa. Qualquer embirranço abstracto é facilmente anulado com uns copos, umas conversas, ou um dar ao pé de dança.

  27. Só uma última questão (ehehe) porque é teórica e é difícil deixar passar uma meramente teórica.

    A questão do que é sagrado. Sagrado, por oposição a profano só pode ter esse sentido. Ou seja, podemos considerar uma série de questões “sagradas” no sentido em que intocáveis- tipo família, por exemplo. E isso é como tu disseste, Susana, não se aliena, não está à venda nem se permite que sejam insultadas ou desrespeitadas. Dizemos que são sagradas nesse sentido, porque se tornam dogmas dos quais não abrimos mão.

    Mas nada disso tem a ver com a questão que já andava por lá e que era outra- pelo facto de alguém não ter religião, apenas tem o dever de respeitar todas as religiões- mas não existe retribuição sagrada para a negação e afronta ateia às religiões. Isso é que é descabido e essa ideia é que já a li em muito lado, incluindo nos jornais, pela pena do Historiador Rui Tavares.

    Porque, o que eles dizem é que as religiões são uma afronta para quem não tem crença. E mais, dizem até (ele disse-o) que não permitia que alguém rezasse por ele, fosse em que circunstãncia fosse, porque isso era insulto por ser negar Deus.

    Isto é apenas o complexo da orfandade do demo. Porque dantes, estes ateus militantes e endemoninhados, sempre se entregavam ao culto do demo. Tinham a tal configuração “sagrada a quem render culto”. É claro que minoritaria, felizmente, ainda que haja muito satânico e muito ritual, incluindo na serra de Sintra.

    Mas, os intelectuais endeominhados, decidiram inventar agora uma outra categoria- a neutralização do sagrado de quem tem crença, pelo paridade em o negar.

    Isto é que é imbecilidade. Porque o facto de um estado ser laico, apenas significa que as religiões estão protegidas da sua prática por ele. Porque ele, Estado laico, é neutro nessa matéria- ou seja, não impõe qualquer religião no âmbito da sua mera intervenção ainda que tenha de acompanhar a tradição da socieade. Até porque não existe Estado, como um boneco. Existem servidores do Estado e esses podem ser tudo, ter ou não ter a religião que queiram.

    Logo, não se pode falar em sacralidade só para os que acreditam e coitadinhos dos ateus que a não têm. Seria o mesmo que se dizer que tinhamos dar batatas a quem não gosta de comer cenouras. para compensar.

  28. No mesmo sentido, e voltando ao tema do post- também é sagrada a pátria que se tem, ou as origens e língua e povo a que se pertence.

    Donde, não oconsegui perceber como é que o Valupi, o grande defensor da “igualdade de cidadania perante o Estado” pode ter achado pedagógico e recomendar-me um exemplo onde alguém que tem essa naturalidade magrebina tomou os próprios magrebinos como uma espécie de “ódio de estimação” ao ponto de os tratar por “enraba-cabras”. E a ele próprio, por antonomásia.

  29. bom, mas com isso é fácil não discordar. cada um tem o seu sagrado. o sentido religioso tem implantação genética e está até provavelmente relacionado com a selecção natural, na medida em que permite a coesão em torno de alguma crença, o ritual, a compreensão de que não se compreende, fundamental para podermos suportar a nossa condição de inteligentes.

    já o profano só é o oposto do sagrado como parte do mesmo: o profano pressupõe o sagrado, basta pensar-se no que é uma profanação. não é, portanto, a sua negação, mas a sua confirmação.

  30. Exacto. Mas o sagrado e o respeito por todas as religiões nem necessita de formação religiosa. Como disse, eu apenas sou baptizada. Os meus pais não eram ateus mas eram muito liberais em matéria de formação. Donde isso de religião foi coisa mais ou menos “entregue à natureza” .Como ninguém nasce ateu, devo estar no mesmo estado em que nasci, fora a parte em que o fascínio por uma série de questões que estudo e outras que me tocam me levou a aproximar mais.

    Mas, apesar de assim ter sido e o meu irmão até ter ficado em estado mais para agnóstico, fomos ensinados, desde pequenos, a respeitar toda e qualquer religião. E isso implica tudo- o que as pessoas sentem, os seus ritos, os locais e símbolos de todo e qualquer culto.

  31. E, o que me repugna verdadeiramente e repugnou nisto tudo é a facilidade com que se puxa para baixo. Num instante já é meia humanidade para o caixote de lixo e toda uma cultura fora, porque não presta, porque é terrorista, porque não sei quantos não tem democracia e o raio que o parta.

    Porque, a única maneira de introduzir distanciamento em relação a eventuais fanatismos só pode ser feita pela cultura!

    Só com boa formação histórica e muito gosto em conhecer tudo, tanto mais o que nos é estranho, é que pode existir elevação intelectual.

    Ora o que a merda dos sacanas dos cartoonistas e, ainda antes desses imbecis, o imbecil mor do livrinho de BD para crianças fez, foi o inverso- o achincalhamento pelo básico mais básico e grotesco que se podia arranjar.

    E foi isto e é isto que é papagueado par aí como supremacia da “civilização ocidental” ou da puta que os pariu.

  32. E aposto que quem diz isso nunca leu o Corão e muito menos o estudou.

    Eu até vou fazer post, logo que tiver tempo, para se ver como até houve sincretismos entre representações cristãs, judaicas e islâmicas.

    è só ter tempo que boto post. Porque a blogosfera deve servir para brincar ou elevar, para puxar para baixo já temos a tv.

  33. E o facto de os meus pais terem feito assim, o deixar mais ou menos entregue ao tempo e à natureza o religioso, não quer dizer que eu ache o mais certo.

    Se eu sei que o cristianismo é algo bom, não tenho de temer por aproximar dele os meus. E foi isso que fiz, pela minha parte. O resto é liberdade de pensamento e essa só se adquire com cultura, nunca com ideológias e, ainda menos, com diabolizações do que não se conhece.

  34. zazie,
    Mil e tal depois, peço-te autorização para subscrever por inteiro estas tuas palavras:
    «A única maneira de introduzir distanciamento em relação a eventuais fanatismos só pode ser feita pela cultura! Só com boa formação histórica e muito gosto em conhecer tudo, tanto mais o que nos é estranho, é que pode existir elevação intelectual. (…) O resto é liberdade de pensamento e essa só se adquire com cultura, nunca com ideológias e, ainda menos, com diabolizações do que não se conhece.»
    A todas, ensino em baixo. Por todas daria a cara. Todas, resumem o que eu quis dizer, acredita.

    (Sem intenção provocatória, digo-te: é outro discurso, este teu. Ou uma melhor, mais feliz abordagem do teu assunto, talvez. Mas já é plataforma, convenhamos.)

  35. zazie, ainda não esqueci mas pronto, ao menos este é um primo.

    Para não ficares triste, antes de eu ir passear, aí vai:

    «Depois da primeira “queda”, a religiosidade caiu ao nível da consciência dilacerada; depois da segunda, caiu ainda mais profundamente, no mais fundo do inconsciente: foi “esquecida”. Param aqui as considerações do historiador das religiões: É aqui também que principia a problemática própria ao filósofo, ao psicólogo e até mesmo ao teólogo.»

    Mircea Eliade, O Sagrado e o Profano, (1957), Livraria Martins Fontes Editora Lda, S. Paulo, (1992), 2001

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