Episteme

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Passaram quase 4 meses desde que o nosso amigo PY tentou arrastar-me para discussão que era descarada armadilha fáustica. Exemplo de prudência, fingi que não era comigo e saí à francesa. O bravo que sabe fugir vive para lutar outra vez, escreveu com utilidade um cobardola. Reconheça-se que discutir epistemologia e metamatemática em campo aberto, num blogue, tem algo de heróico — ou de vexante, sendo Portugal um território de endémico, e epidémico, anti-intelectualismo. Mas aos cobardes é sempre munida redenção (usualmente sob a forma de suicídio, tal como se ensina em Hollywood).

Lanço peito contra o fogo inimigo postulando que a ciência é a suprema realização da cultura, superior à arte, à política e à religião. Só perde para a filosofia, por razões com que encerrarei a nano-diatribe. Este assomo de valentia vem da (ainda) recente notícia que Paul Davies protagoniza. Tendo sido um dos primeiros, pós-Einstein, a defender a existência da “energia negra”, este ecléctico físico procura agora alumiar questões que se devem tomar, em exacta deferência etimológica, como metafísicas: porquê estar na matemática a essência da natureza?; porquê serem as leis cósmicas tão propícias ao aparecimento, evolução e crescente complexidade da vida?; porquê a existência de seres humanos, possuindo consciência, corpo material e livre-arbítrio?


O pyanamente invocado Gregory Chaitin é críptico e patusco demais para ser vedeta nesta discussão. Todavia, há uma lição, atribuída a Sebastião da Gama, que fiz minha e não largo: “Quando não puderes chegar, aproxima-te.” E o que encontrei num passeio rápido ao chaitinismo apresenta a mesma paixão revelada no actual projecto de Paul Davies. Trata-se do mais radical dos desportos radicais, uma das últimas aventuras que restam: saltar para os costados da ciência, agarrando-nos aos seus fundamentos epistemológicos, e deixarmo-nos ir disparados pelo ar quando ela estaca abrupta nos limites do conhecimento.

Leia-se este artigo de Paul Davies. As questões são do mesmo calibre teórico das que preencheram a palestra do nosso João Magueijo em visita recente à Capital, mas vão muito mais longe. Tão longe vão, tão vertiginosas são, que, de repente, percebemos a sua suprema acessibilidade: são histórias para apaixonar putos. Putos de todas as idades, claro, mas por urgente carência nacional refiro-me aos estudantes do ensino básico e secundário, esses que ninguém parece conseguir convencer a gostar de matemática e ciências aplicadas, esses cujos pais afirmam não procurar nenhuma fonte de informação científica. Não é possível passar pela temática deste fácil artigo de divulgação e não sentir um frémito que é salto de consciência, espanto iniciático. Voltam as questões primevas, aquelas onde se encontram as células estaminais da civilização ocidental [ou assim provisoriamente designada]: o que é a realidade?; para quê esta realidade?; porquê?

O que melhor define o Ocidente é a secularização, a condição sine qua non para o advento científico, e esta talvez tenha começado por volta do século VI a.C., com figuras como a de um tal Ferecides de Siros. Opinou sobre os deuses de uma forma abstractizante; logo, objectivante. A partir daí, ou no mesmo caldo cultural, apareceu uma chusma de racionalistas assanhados. Dois séculos depois já nenhum grego acreditava nos seus deuses, os quais eram óbvias metáforas dos elementos constitutivos da vida psíquica e social. Esse teocídio foi dramático apenas no sentido em que chegou a ser representado nas tragédias e, em especial, nas comédias. De resto, aquele povo andava muito entretido com o novo Olimpo na terra, sob a forma da primeira sociedade que se concebeu como democracia. Não sofreu com a neurose colectiva que envolveu (e abafou) outros erupções do Logos em geografias e calendários variados, antes e depois do “milagre grego”. Nesse peculiarmente fértil ambiente político, foi possível desenvolver uma vasta operação de terraplanagem conceptual, não tendo ficado pedra sob pedra das engenharias mitológicas herdadas. E finalmente lá nasceu a episteme, a mãe de todas as ciências, a filha dilecta da filosofia.

Questionar a realidade do real descoberto pela ciência, quando a ciência se sabe feitora do conhecimento, quando se admite que todo o objecto é inevitável construção de um sujeito, não corresponde à degradação dessa fonte de objectividade. Ainda e para sempre, é da ciência que vem a salvação — e a tecnologia é o seu maná. A ciência promove a justiça, e a justiça promove a democracia, que por sua vez promove a justiça. A ciência é pedagógica e ética, ensina a pensar e a agir, porque agir é a consequência de pensar. A ciência é criativa, aumenta as capacidades intelectuais, alarga a imaginação. A ciência é livre.

Só que a ciência não é a verdade. E nunca o poderá ser, sob pena de acabar. A ciência não confirma, só infirma. É canibal, autofágica, suicida. De cada vez que morre, renasce mais forte. E nisto, nesse movimento avassalador que ultrapassa a velocidade da luz e imobiliza o tempo através da feitiçaria conceptual, a ciência é frágil, infante. Está à mercê das forças cegas que habitam o humano, aquilo que por simplicidade pode ser descrito como o mal. O século XX mostrou, e o XXI irá tragicamente confirmar, que, podendo, o mal irá utilizar o poder da ciência para infligir o dano máximo. Sim, também o mal é suicida, mas sem esperança nem fruto.

A filosofia é apresentada aos estudantes do ensino secundário, logo na primeira aula, segundo a estafada etimologia “amor da sabedoria”. Depois, ao longo dos dois anos seguintes, o aluno não voltará a ouvir a palavra “sabedoria”. E no caso raríssimo de ir para uma licenciatura em filosofia, também não é seguro que encontre o vocábulo nos claustros do saber académico. Há magníficas razões para tal fenómeno do Entroncamento escolar; uma delas, a principal, radicando no facto de os professores ignorarem o que seja essa tal de “sabedoria”, por um qualquer capricho histórico inscrita na génese do nome da sua disciplina. Coitados, ninguém os ensinou; e, pelos vistos, eles também não perguntaram. Mas toda uma vida poderia ser dedicada à procura da sabedoria. Foi, aliás, por alguns o terem praticado, e deixado em obra o resultado, que os Estados ocidentais consideraram importante estudar filosofia. Como falar de filosofia e nada dizer da sabedoria? Eis uma proposta esquizóide que os técnicos da educação oficial têm instituído num jogo torpe de anulação do que supostamente se ensina.

O que os gregos considerados filósofos fizeram no seu tempo, a transição das narrativas mitológicas para os discursos científicos, continua a ser possível de ser feito hoje. Mais: tem de continuar a ser feito, pois a qualquer momento a irracionalidade pode reger o comportamento humano. Temos o ADN exactamente igual ao dos nossos confrades gregos, ao dos fascinantes egípcios, dos complexos hindus, dos engenhosos chineses. Somos os mesmos que inventaram a agricultura, dominaram o fogo, começaram a enterrar os seus mortos. Somos os mesmos, e por isso também conservamos nas nossas florestas interiores os deuses, titãs e demónios que vêm do começo da eternidade — e, tantas vezes, é deles que aceitamos conselho.

Superior à ciência, a filosofia é heróica. Não se passeia no palácio do rei, nem é adulada pelo mercador. Foge à popularidade, por não ceder ao gosto, nem à preguiça. Confronta o injusto, denuncia o hipócrita, ajuda o oprimido, liberta o ignorante. E tudo isto por causa de uma psicologicamente singela, ontologicamente decisiva, cosmicamente bizarra característica: a curiosidade. Uma absoluta curiosidade, a maior ambição a que se pode almejar. A louca tentativa de encontrar a verdade.

Que, para tal, se tenha de ser verdadeiro, eis o que não se ensina em nenhum curso de filosofia ou escola. Não se ensina, escuta-se.

16 thoughts on “Episteme”

  1. Vejo o Luis Rainha destacado na lista das visitas antigas. Já não é enfermeiro?

    Peço que me confirmem porque se for verdade deixo de ter motivos para cá passar.

    (foi por causa do desacordo com o pateta do afixe?)

  2. discordo na parte final.os filósofos vivem desligados e não compreendem a ciência e sobretudo da tecnologia sem as quais o mundo actual não funciona

  3. Valupi, cheguei agora!, venho de rastos do Apocalypto, há uns anos estive no México e cheirei tudo o que podia, Chichen Itza, Tulum, Teotihuacan, Tenochtitlan entendi o dispositivo sacrificial, a guerra florida – a Xochiyaotl – a metaregulação da população reprodutora pelos corações saltitantes, Kukulzan ou Quetzalcoatl, Tlaloc ou Uitzilopochtli. Maias ou Azstecas. Até me entretive a decompor uma cadeia de Markov para entender como o sacrifício da geração reproductora podia contribuir como feed-beck estabilizador, conjugado o mito sacrificial da origem.

    E a cultura do milho, Zea mays, altamente productivo por força de uma enzima – a PEPcarboxilase, a má da fita, quando o pousio não era utilizado. Saí de lá contente, afinal desde miúdo que eu tinha fascínio pelos Maias e pelos Mexica, e tinha-os descascado…, colando pedaços de histórias, desde o Popol Vuh até aos codex.

    Entendi, mas não senti.

    Hoje senti.

    Obrigado pelo teu post, fizeste-me reerguer do abysmo. Concordo contigo, só a filosofia é heróica.

  4. Como é que se aprende a escutar?
    Achas que se nasce curioso e/ou louco pela busca da verdade?
    (TT desta vez vou guardar a fatiota)

  5. …penso que os nomes estão bem.

    Agora um presente mais divertido pró pessoal:

    What is dark matter, and how is it affecting the universe?

    “Dark matter is a proposed solution to an as yet unresolved phenomenon – the mismatch between measurements of the gravitational mass and the luminous mass (the mass contributed by light-emitting matter) of galaxies and clusters, gravitationally bound groups of galaxies. This disparity suggests the presence of matter in the universe that does not efficiently produce light – hence it is invisible, or ‘dark.’ (…)
    Other indicators, including recent NASA measurements of the cosmic microwave background radiation (which provides a glimpse of the universe at an early age), give us further information: dark matter outweighs normal matter by a factor of 6 to 1.”

    Robert Caldwell, Scientific American, November 2006, pag. 80

  6. Meus amigos

    Todas as vossas questões encontram respostas nos vossos corações. Aliás, na ciência do coração…

    (hehehe)

  7. Como diria o RIAPA, “eu não sou senhora de me meter nestas coisas”, mas este py podia era começar a postar na vez de fazer só comentários.

  8. Valupi, estive ontem a pensar junto com o Morfeu. Está aí uma coisa engraçada: com a H. Clinton, a S. Royal, a Merkel, etc., há uma vaga de cromossoma X a tomar (ou tentar) conta dos destinos do Mundo, quando o sapiens sapiens se aproxima dum vipe nuklear. Será que é a falência do Y? Da testosterona?

  9. …que bom, fico à espera, gosto muito dos teus textos, és inteligente, culto e divertido. Já viste o Apocalypto? Eu fui ver outra vez, sózinho para ver tudo bem – tem lá uma parábola muito boa sobre o bicho-homem, contada por um xamane ou parecido.

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