Um confuso bem-estar

Um grupo de patuscos botou faladura sobre o estado da Nação. Quiseram aproveitar a onda choné — onde brilham espécimenes cada vez mais raros como Manuel Alegre, Garcia Leandro e Marinho Pinto — e participar na festa da democracia com foguetes de três tiros. Para lá da opinião que cada português tenha da SEDES, nomeadamente da fundada suspeita de ser uma agremiação vocacionada para a comezaina, há um mérito que ninguém lhes pode tirar: na Tomada de Posição de Fevereiro não aparece assinatura de mulher. Esta negatividade é positiva, se coada semioticamente, indicando-nos que estes senhores não querem que as suas senhoras se tomem de entusiasmos e se ponham em posição à frente de toda gente.

Outra possibilidade é a de não existirem senhoras na SEDES, o que seria coerente com o intenso bafo a balneário que emana do comunicado. Ou que existam, mas que não se angustiem com a actualidade, talvez por estarem ocupadas a cuidar dos senhores angustiados e dos seus muitos problemas quotidianos. Questão que pomos de lado, perante a urgência em reflectir nas reflectidas palavras deste órgão de reflexão:

1) UM DIFUSO MAL ESTAR
Sente-se hoje na sociedade portuguesa um mal estar difuso, que alastra e mina a confiança essencial à coesão nacional.

Aqui temos o 1º ponto e respectivo 1º parágrafo, dos 5 e respectivos 27, que constituem a peça. Funciona como súmula do que segue, contendo os elementos da expressão mais citada pelos jornalistas e comentadores, as palavras difuso, mal e estar. E nada poderemos compreender do título e da frase supra se desprezarmos a problemática do hífen. De facto, uma e outra vez, escreve-se mal estar e não mal-estar. Ignorância? Esquecimento? Ou intenção? Só há uma resposta: deste grupo de notáveis, num acto de aviso solene à Grei, tudo é lucidez e vontade. Pretendem, portanto, apontar o mal de um estar, ou até o estar de um mal; e nisso revelam-se metafísicos, tangem o abismo gnóstico.


Mas porquê difuso? Dizer que o mal é difuso implica reconhecer que está espalhado para além da contenção. Porém, o texto apenas refere quatro áreas de infusão maligna: sistema partidário, justiça, comunicação social e criminalidade. É curto. Pelo menos, deviam ter também falado da banca, do patronato, da universidade e do clero. E se não fossem calões, igualmente refeririam os intelectuais, os dirigentes desportivos, a blogosfera e os vendedores de castanha assada. Ter algo a dizer sobre estas camadas sociais, relacionando os vasos comunicantes e estrangulantes, seria feito de leitura basto proveitosa. Mas ficaram-se por uma declaração patareca, onde o único contributo para a espuma dos dias vem de mais uma piada sobre a ASAE:

[…] calculem-se as vítimas da última década originadas por problemas relacionados com bolas de Berlim, colheres de pau, ou similares e os decorrentes da criminalidade violenta ou da circulação rodoviária […]

A SEDES cumpre um importante papel na sociedade portuguesa, como os seus membros decerto serão capazes de explicitar. Embora dê ideia de ter entrado em letargia em 2006, a consulta online do acervo das suas actividades contém decisivos e profundos contributos para se aferir do cumprimento do lema da associação: a promoção do desenvolvimento económico e social. Por exemplo, a secção Grupos de Trabalho inclui a temática da Cidadania. É área vastíssima, onde se detecta há muito, e por todos, um défice transversal aos diferentes estratos da comunidade. Oportunidades não faltam aqui para exercer uma influência pedagógica, construtiva, generosa; enfim, cívica e civilizadora. E que fizeram estes amigos? O que se vê no ecrã indica que realizaram duas iniciativas, uma de 2006, o documento Lisboa — Capital Atlântica da Europa, e outra de 2002, um inquérito sobre os valores da cidadania. Chamo a atenção para o inquérito, o qual foi feito no universo dos sócios, tendo respondido 63 deles. É pouco? Tal não pode ser conclusão legítima, visto faltar termo de comparação. Se, à época, os sócios ultrapassavam os 6.300.000, por exemplo, sim. Mas talvez a quantidade de sócios fosse só de 64 indivíduos, ou mesmo de 63, quiçá 62. Nessas supostas circunstâncias, a resposta teria sido muito boa, excelente ou desmesurada.

A possibilidade deste inquérito ser um instrumento de diagnóstico que não se deixa tolher pela tamanho da amostra passa a certeza logo no começo:

ANÁLISE DAS RESPOSTAS (sumária)

Questão 1

Nas 63 respostas recebidas, aparecem destacadas como mais importantes:

1.4 – Educação – 45 destaques
1.3 – Participação Cívica – 30 destaques
1.1 – Reforma do Estado – 29 destaques
1.2 – Reforma da Administração Pública – 29 destaques
1.7 – Política de Justiça – 24 destaques

Isto mostra que são estes os temas que mais preocupam a maioria dos portugueses. […]

Há mais ocasiões de pasmo com a ilustração e confiança exibida pelo redactor da análise, mas não posso elencá-las a todas sob pena de ser obrigado a pedir licença sabática para a tarefa. Fique só uma última nota, elucidativa da minúcia com que a SEDES lida com a realidade circundante:


Questão 3

No conjunto das 63 respostas há 50 sócios que se disponibilizam para dar a sua colaboração activa num ou mais temas da Questão 1 e da Questão 2, sendo que alguns se propõem colaborar em ambas. Assim, 29 sócios disponibilizam-se para colaborar na primeira e 31 para colaborar na segunda. Na Questão 1, aparecem em primeiro lugar as alíneas 1.1 – Reforma do Estado 1.3 – Participação Cívica e 1.4 – Educação com 7 participações cada, seguidas da 1.2 – Reforma de Administração Pública com 5 e da 1.9 – Fiscalidade e 1.11 – Ambiente com 4 cada. Todos estes números podem ser aumentados se lhes juntarmos os que se disponibilizam para colaborar sem especificar em quê (5) e os que se disponibilizam para colaborar em todas (4).

Eis a força deste projecto, conseguindo captar o empenho de 50 sócios para actividades colaboracionistas. Alguns há, atente-se, que se disponibilizam para duas questões em simultâneo, não temendo a multiplicação da adversidade. Mas os que se mostram heróicos, os que ficam paradigmaticamente gravados na memória de uma geração, são aqueles cinco que aparecem referenciados como estando disponíveis para colaborar sem especificar em quê. Creio que não erro, nem exagero, se afirmar serem estes 5 bravos capazes de qualquer coisa. Ainda mais valentes, por incrível que pareça, do que os outros 4 que informaram estar prontos para colaborar em todas. Porque ir a todas é grande, mas ir não se sabe para onde é enorme. Tendo em conta que estávamos em 2002, só a imaginação poderá vislumbrar os triunfos que terão alcançado no entretanto.

A Tomada de Posição de 2008 não se diferencia substancialmente das restantes sete. O País está mal desde 2001, segundo a SEDES, ou, para sermos rigorosos com as datas institucionais, o mal estar acompanha-nos desde 1970; mas havendo por aí quem aponte maior distância, 1870, e outros remontando a 1570. Camões falou como ninguém desse estado de coisas, da austera, apagada e vil tristeza sua, que era também a da sua terra. Nada de novo, então, quase meio milénio depois. Resta só aceitar que nessa má-língua, cobardolas e pândega, reside o nosso bem-estar. Herança que continua a confundir quem está confortavelmente sedado.

15 thoughts on “Um confuso bem-estar”

  1. Porra!
    chegar a casa, longe de Portugal, cansado depois de subir a london street em bicicleta a roer-me com as experiências das células T e as interacções com as B, e o respectivo “porque?”… e mesmo assim rio com este texto a pensar que somos mesmo únicos!só nós para termos a sedes, o bcp, o Menezes, o Marcelo o Pacheco, o Balsemão, o Valentim!oh, o Valentim! etc e tal, para os ouvirmos a todos e continuar sempre!em frente, pois então não!com o mal-estar, com o bem-estar, sempre!baralhar, dar de novo e continuar!pensamos amanha!hoje, continuamos!
    Obrigado pelo sorriso e pelas saudades!
    Ricardo
    Oxford

  2. bonita hipertopia Valupi, tem uma grande roda espaço-temporal. É capaz de ser tudo por causa daquele grande ledisse de Ourique, porque também somos os que gostamos mais de concertos

  3. Pode dizer-se que lhes acabas com a secura em meia dúzia (sem hífen e tudo) de bastonadas certeiras.
    Ainda bem que és sportinguista e eu sou hetero, senão a malta ainda julga que andamos sempre às beijocas.

    Mas é mesmo porque não consigo antagonizar-te de forma artificial, o nosso consenso desarma-me.

    E agora que já esgotei a quota de bajulação recomendada (recomendável), digo-te que fazia falta quem fizesse o trabalho deles mas a sério. Assim tipo uns 500 sem especificarem o quê…

  4. Primo, digamos que seria um trabalho pouco jornalístico…

    Entretanto, quando voltas? Anda tudo a sofrer à tua pala, grande sádico.
    __

    Ricardo, obrigado eu, nós, pelo abraço – e pela pedalada!
    __

    z, tens mil por cento de razão. (vês? tenho aprendido matemática com a ministra, fica tudo mais criativo)
    __

    shark, também estou contigo. E nenhuma organização com este ideal e missão está a mais, obviamente. Mas se é para trabalharmos juntos, então comecem por arrumar a casa.

  5. tu é um safadinho peludão, mas ao menos sabes o que é uma sacanagem gostosa

    (olha lá, a mim contaram-me que essa grande crise fiduciária que anda aí é porque os bancos se puseram todos a desconfiar uns dos outros, porque não sabem até que ponto o ‘outro’ está metido no carrossel, e então não emprestam dinheiro uns aos outros, ou emprestam a taxa muito alta e …

    e parece que essa coisa do ‘subprime’ é uma bola de neve porque os créditos estavam sucessivamente titularizados em pacotes cada vez maiores, e cada vez que se agregava num pacote levava mais uma taxa, então ficou uma piramide invertida de valor, tremeu no bico,)

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