Assume the position

Em menos de 6 meses, a SEDES publicou duas Tomadas de Posição. A primeira, em Fevereiro, teve grande sucesso. Apareceu no auge das crises na Saúde e Educação, juntamente com os casos BCP, ASAE, Lei do Tabaco, licenciatura/casas Sócrates, criminalidade no Porto e desastre Menezes. Foi o período de maior patologia colectiva de que há memória na democracia, à excepção do PREC, com tudo o que era cão a ladrar de raiva; e até pilares como António Vitorino vergaram. A Posição de Fevereiro foi, porém, um mero acto de oportunismo, em nada contribuindo para a resolução ou esclarecimento fosse do que fosse. Serviu para simular uma importância que a instituição não tem, justificando mais uns almoços bem servidos, e melhor regados, para aquela rapaziada. A natureza bacoca desta inútil associação foi exibida para lá de qualquer dúvida com a Posição de Julho.


Começa assim:

A aproximação das eleições de 2009 –europeias, legislativas e autárquicas– tem tido consequências claras e visíveis na vida política portuguesa.

O Governo, após três anos de esforços de estabilização orçamental e de várias reformas que exigiram coragem política, dá agora sinais de preocupação com o calendário eleitoral em detrimento da administração do País. São disso exemplos a declaração do fim da crise orçamental, a ênfase nos investimentos públicos de grande dimensão, a cedência à agitação social e as recentes baixas de impostos.

Trata-se da falácia Cum hoc ergo propter hoc, e ilustra a intenção e miséria intelectual do documento.

No maior partido da oposição poder-se-á ter iniciado um ciclo de estabilidade, condição necessária para a afirmação de uma alternativa credível. Por sua vez, os partidos à esquerda do partido do governo, em aparente crescendo, competem pela mobilização dos mais descontentes com a situação actual, sem, contudo, constituirem uma alternativa credível.

Aqui estamos perante uma muito desajeitada declaração de apoio à Manela, e passagem que comprometeu a popularidade da peça junto da trupe Alegre e tal.


A mudança de expectativas e o espectro da recessão aumentaram a conflitualidade social, tornando aparente alguma desorientação por parte do Governo.

Registe-se que a SEDES considera aparente alguma desorientação, desorientação essa que não é identificada no todo ou na parte. Registe-se também que esta frase ocupa toda a extensão de um parágrafo.

A inversão do ciclo de boa-vontade face ao Governo, experimentado na primeira parte do mandato, poderá ser irreversível, a crer nos indicadores disponíveis. Portugal é hoje, segundo os dados mais recentes do Eurobarómetro, um dos países com a opinião pública mais pessimista sobre a evolução da economia e a situação financeira das famílias no próximo ano.

A crer nos indicadores disponíveis, alguma coisa poderá ser irreversível. Ou seja, os indicadores disponíveis estão na intendência do factor crença, condição sem a qual não se poderá colocar uma hipótese. Terrível. E também nos permite concluir não estarem disponíveis para a SEDES os indicadores relativos à popularidade do PS e de Sócrates ao longo da governação. O que permite confirmar, dispensando a crença, a existência de um estado de imbecilidade irreversível já vigente na associação.

Simultaneamente, verifica-se uma desconfiança dos cidadãos em relação aos políticos, aos partidos e até ao funcionamento da democracia representativa. Descrevemos estes fenómenos na nossa anterior tomada de posição. Não sendo novos em Portugal, nem exclusivos do País, também não ajudam à recuperação da confiança dos eleitores, seja no partido de governo, seja naqueles que se apresentam como alternativas.

Pois não, não ajudam. Lá isso é certinho, não ajudam. Aliás, é caso para dizer que não ajudam. Sejamos até ousados na mensagem, correndo o risco de ser mal interpretados: os fenómenos de desconfiança não ajudam à recuperação da confiança!

Salientámos ainda que “O mal-estar e a degradação da confiança” conduziriam “mais cedo ou mais tarde, uma crise social de contornos difíceis de prever”. O recente bloqueio das estradas por parte de camionistas e empresas de camionagem, e as suas consequências, foi um pequeno exemplo dessa possível crise.

A SEDES, em Fevereiro, avisou a malta de que uma crise social de contornos difíceis de prever vinha a caminho, não tinham era a certeza da hora de chegada. Isto porque a falta de contorno dessa crise impede a rigorosa mensuração da sua velocidade. Ora, que não se comece já a mandar foguetes, pois o recente bloqueio das estradas, e suas consequências, não passam de um pequeno exemplo da tal crise. Pode acontecer que surjam exemplos médios, como um bloqueio das portas dos prédios por parte de trolhas, carteiros e senhores de idade, todos em ceroulas, ou exemplos grandes, como uma greve de jogadores de futebol ou o marisco não estar grande coisa no Tavares. Sejam lá quais forem as catastróficas consequências, é preciso realçar que estaremos ainda a lidar com exemplos. Então, quando a famigerada crise que a SEDES avistou no horizonte, a qual garante vir na nossa direcção, realmente chegar, então… aí… ai, ai… aí… minha amiga e meu amigo… prepara-te para cenas escabrosas, o horror, para o filho a bater no pai, a mãe a cuspir na filha, bolas de fogo a rasgarem o céu e, descalabro final, completo desinteresse pela completamente desinteressante opinião dos senhores da SEDES.

Mas sobretudo, o bloqueio tornou evidentes fragilidades do Estado de que os cidadãos não tinham consciência: a incapacidade para prever, prevenir e reagir perante situações de crise e acções ilegais de alteração da ordem pública.

Marcelo Rebelo de Sousa e Pacheco Pereira, a debocharem sem tino, foram também por aqui. O Governo tinha falhado porque não tinha antecipado que um grupo de pessoas, até então ordeiras, iria ter um comportamento ilegal. A SEDES acrescenta outro dado: os cidadãos não tinham consciência da dificuldade em prever o imprevisível. Estas revelações são chocantes, pois todos crescemos na certeza de poder confiar nas manigâncias da telepatia. Afinal, temos governantes que não adivinham futuras situações de crise nem futuras acções ilegais de alteração da ordem pública. Estamos entregues à bicharada.

Não deixa de ser verdade que exactamente no momento em que o Governo inicia uma aparente suspensão do processo das reformas, a opinião pública parece voltar-se contra ele. Coincidência ou causalidade, nunca saberemos, mas os sacrifícios feitos por todos não podem, nem devem, ser desperdiçados.

É destas verdades que o País precisa para se regenerar e crescer. Repare-se no sucesso do adjectivo aparente ao longo do texto, neste passo tomando conta da nossa relação com a suposta suspensão de reformas. Logo de seguida, o verbo parece é o eleito para registar um dado movimento da opinião pública. Acabamos a compreender perfeitamente, embargados de compaixão, a confissão de ignorância perante o dilema coincidência ou causalidade. A SEDES baralha-se muito com estes dois determinantes lógicos, isso é indiscutível ou assim parece que aparenta. A nota trágica, o nunca saberemos, é que configura uma tomada de posição assim para o obsceno.

26 thoughts on “Assume the position”

  1. Valupi, não é para te chatear mas é para conversar, quando calhar,

    então o tricheur subiu os juros e o barbas manteve os dois por cento e dá nisto?

    http://www.agenciafinanceira.iol.pt/noticia.php?id=981744&div_id=1727

    tás a ver como o barbas é que está a ganhar? E foi porque jogou toda a sua credibilidade numa única coisa: dentro dos limites do seu raio de acção fez o máximo para ajudar as pessoas do seu país, e protelar o ataque ao Irão (que é o que acontece quando a bolsa crasha mesmo, dá guerra) e ousou pôr a taxa de juro real negativa

  2. santos, o país está bem governado. É daqueles assuntos, para nosso prejuízo, indiscutíveis.
    __

    z, muito engraçada a reacção da princesa. Também não se sabe se ela estava a gozar…

    Quanto ao Tricheur, é o maior, foi pelo caminho mais corajoso.

  3. Ui agora é a SEDE, qualquer dia o INE, depois UE, quem será a seguir? Sim porque o BP só diz o que convém!

  4. Antão, não perca tempo pelos vistos estes artigos são alguém a tentar justificar alguma coisa, quiçá um lugarzito. O mais certo é não passar dum Astroturfer!

  5. só tu amigo para me surpreenderes, mas é bom assim

    quanto à Letizia ela é guapa, e nós gostamos sempre de guapas, né?

  6. “e até pilares como António Vitorino vergaram” já agora, pilares do quê?

    Essa faz-me lembrar o acto de contrição de um outro “pilar” na sua despedida da quadratura do círculo, onde afirmou (cito de cor): “às vezes tive que defender posições no limite da minha consciência” ;-)

  7. Que tacho se atribui a um gajo com um perfil tão multifacetado e um discurso que oscila entre a “irreverência” bloquista, a teimosia cega comuna e o (aparente) seguidismo rosa típico dos regimes com maioria absoluta, tudo isto devidamente mesclado com uns toques ocasionais de conservadorismo bacoco da mais fina direita?

  8. “…,licenciatura/casas Sócrates, …”

    Mas o que é que tu andas para aqui a insinuar, pá?
    Que o nosso primeiro é um indescritível badameco?

    “…pilares como António Vitorino…”

    Eu nem te pergunto o que é que queres dizer com isso do pilar. Mas tu andas a mamar no orçamento. Andas ou não andas? Pões essa pose de janado mas andas a abichar, ai andas, andas.

  9. shark, lata, mas da boa.
    __

    Antão Pinto, o Manel também, mas é um daqueles pilares cheios de caruncho.
    __

    dutilleul, larga lá a droga. Vá lá.

  10. O Marco Alberto dá 18 ao Artigo (alarvemente gargalhento!…) e medíocre menos aos comentários.

    Calões! Estudem a matéria, ou vão comentar mas é para os cafés de Campo de Ourique, seus babosos…

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