De sapatos e vinho

Mestre Luís Perneta? Aquilo era um demoino em forma de gente. O senhor sabe daquela vez que ele fez os sapatos prò sargento do Continente, não sabe? O home tinha estado aí co’a tropa no tempo da guerra, e ia-se embora, queria uns sapatos bem feitos prà viage. Mestre Luís fez-le os sapatos, ficaram com bum ar, cousa fina. Fina de mais, meu rico senhor. No dia que era prà tropa embarcar veio um temporal medonho, com chuva que Deus la dava, o barco não pude fazer viage. Pous aquela aguaria foi caindo no sargento, que não era melhor qu’os soldados nem qu’os oficiais, o pobre ficou todo num pinto. Os sapatos é que fou pior. Aquilo era cma uma espece de papelão, ou lá que era, começaram a arregoar, a desmanchar-se, o triste ficou quase descalço. Veja lá a figura que fazia se chegasse assim a Lisboa. A tropa voltou prà Maia, à espera de bum tempo, e o sargento fou logo no outro dia ter com mestre Luís. O qu’o home le disse, louvado seja Deus! Daquelas gordas, finas e grossas, umas à nossa moda outras à moda de Lisboa, e mestre Luís ouviu que nem uma pedra. Quando o sargento acabou de botar abaixo, e tinha toda a rezão, disse “garoto, aldrabão”. Mestre Luís alevantou-se, segurou o corpo na perna sã e contra a mesa, e apontou o dedo na cara do sargento dizendo-le: “Garoto e aldrabão é o senhor, que disse que se ia embora ontem e não foi.”
Levado dum corisco, isso é o que ele era. E lembra-se d’ele ter a tenda ali na casa onde mora o senhor Pedro, em frente da igreja? O dono da casa tinha casado c’uma senhora muito mais velha, mas rica, que mandava em tudo. Ele ia às vezes pra lá conversar com mestre Luís, e um dia mestre Luís pegou numa garrafinha, qu’inté tinha o gargalo partido, qu’uma garrafa era um luxo, nesse tempo, porradaria qu’a gente levava se quebrava alguma, qu’era pra encher na fonte qu’havia ao pé das escadas do adro, o senhor alembra-se? Mas vai mestre Luís e vira-se prò senhor Raposo: “A gente vai beber água, com vinho aqui ao lado?” É que mesmo apegado à tenda ficava a adega, era só abrir uma porta, mais nada. Mas o senhor Raposo disse “Ei home, a dona Maria se ouve dá cabo da gente.” Dona Maria era a mulher, e ele tratava-la era assim. Mas mestre Luís disse qu’abria a porta sim fazer barulho. E abriu mesmo. Levantou-la um poucachinho, e fou muito, muito devagarinho inté caber pla greta. Fou à vasilha, tirou o batoque, abriu a fonte e encheu a garrafinha. E fou logo garrafa prà boca, fou duma vez, benzò Deus. O pobre do senhor Raposo tava à espera da sua vez, mas quando mestre Luís acabou meteu a mão no peito cma quem diz que tava consolado, e deu um “ah!” do tamanho d’hoje e d’amanhã. E inda teve o descaramento de dizer “Foge, senhor Raposo, qu’a Dona Maria se vem aí mata a gente os dous.”

17 thoughts on “De sapatos e vinho”

  1. Luís, obrigado. Posso pedir-lhe um favor? Passe a escrever “açoriano”, sim? É que “açoreano” é erro muito difundido por empresas e era a forma que a FLA (o movimento independentista) usava. Isto já deu discussão nas Sete Vidas do Rui.
    Rui, obrigado também. Quando eu contar a história do José Zélia far-te-ei a vontade em todos os pormenores. Até porque de outro modo a história não tem piada. Verás.

  2. Se eu fosse açriano era capaz (não vou apostar)de estranhar a facilidade com que os meus conterrâneos conseguem pronunciar palavras como conversar, sargento e descaramento sem darem um arzinho da sua graça regional de dizer coisas. Como não sou, fico calado e ponho isto na bandeja das criosidades litrárias para arquivo imediato.

  3. Belíssimo texto arrancado do melhor da oralidade. Poderia chamr-se «O home da décima ilha»: demoravam quatro goras e meia a chegar à capital.

  4. Ernesto,

    O galego está guardado ali, no relicário açoriano. Bom, também em todo o relicário que somos nós. Mas lá, nos Açores, um tanto mais protegido.

    *

    Daniel,

    Bela coisa. E, se alguma insatisfação fica, é a de ver essa linguagem tão sistematicamente ligada a cenários rurais. Não servirá ela também para o urbano e suas complexidades? Porque, se sim, esse é o supremo escândalo.

  5. No curto espaço de tempo em que se lê, vive-se imenso. Viajei, por dentro. Estive nos Açores. Visitei as aldeias dos meus avós (que não faço há muito)… saboreei a essência que se tem esfumado… tanta coisa…

  6. Chico
    Gente assim vai-se perdendo. Convém arquivar, de facto, para que fique ao menos a memória.
    JCF
    Com ida num dia e regresso no outro.
    FMV
    Sabes bem que a Língua se mantém com menos mexidas no léxico e maiores mudanças na fonética é precisamente nos lugares pequenos e isolados. “Bum” (bom) ou “muncho” (muito) não se dizem em Ponta Delgada, só as vogais é que são muito abertas, normalmente.
    Elypse
    É para que o fogo desse fumo não se perca que se deve registar o que resta de uma linguagem que o rádio e a TV foram diluindo. As novas gerações limitam-se, em muitos casos, a uma fonética áspera, um falar demasiado gutural e aos solavancos, sem nenhuma das palavras que eram muito nossas. Já quase não há “bilhafres” em S. Miguel…

  7. Concordo que a norma é definitiva e não se pode voltar à balbúrdia do séc. XIX. Mas que ‘açoreano’, ‘cabo-verdeano’, eram mais família, é verdade. Por isso a FLA e outros movimentos do género piscam o olho com os pergaminhos.

    Vamos deixando para trás alguns laços, é inevitável. Aproximar a grafia da fala é sempre um bom propósito, mas afasta-nos de afinidades.

    Belo texto.

  8. Daniel, excelente. Como já disse noutra ocasião, estás a criar um museu da oralidade. E, coisa curiosa, e coisa sem mistério algum, muitas das expressões e sonoridades que grafas são-me conhecidas através do povo do Ribatejo.

    O que estes textos deixam patente é o espaço para uma edição em livro. E com duas possibilidades de concretização: uma colectânea, onde um autor por região, ou falar, do País faria recolha e daria corpo narrativo; ou tu mesmo correres esta terra de lés-a-lés (e até andando pela diáspora!), amando com esse amor açoriano o Portugal deste e de outros mundos.

  9. Daniel,

    Eu falei em «linguagem» para «temas» (o que era implícito elogio), e perguntei se também o não-rural se podia vazar nela. Vou dar-te um caso paralelo.

    Está na net um romance («Sete Fontes») da autora galega Concha Rousia, escrito em padrão português. Podes procurar, encontras logo. É, em si, uma experiência interessante. Só há um problema: o romance demonstra que o galego é muito adequado para temáticas rurais… O que vem confirmar o que menos interessa: que o galego é uma língua de aldeões. Ora bem, o supremo escândalo é mostrar que se podem contar, em galego também, histórias duma actualidade urbana.

    A sistemática associação ao rural ajuda a manter (sublinho, ajuda a manter) secundarizadas as particularidades linguísticas. Esta semana ainda, falei sobre isso com os meus alunos de Línguas Regionais Europeias. Daí, também, o meu empenho na questão.

    Pergunto-te, pois: há ou não um açoriano citadino? E podem nele contar-se histórias? E serias tu capaz de fazê-lo? Ou sabes quem o faz, ou já o fez?

  10. Mais um excelente retrato rural, daqueles a que nos habituaste. Quem não tem na sua memória um Luís Perneta, um senhor Raposo,uma temerosa Dona Maria que assusta cães e lobos, mas que é sempre desafio para os mais espertos e destemidos?
    Adoro estas tuas narrações com genuína alma popular.E não são nada fáceis, embora pareçam levezinhas de “BUBER”.
    Até o Valupi degustou, sem temer a a dita cuja…

  11. Valupi, Fernando, Lia
    Não há um padrão definido para este tipo de oralidade. O Cristóvão de Aguiar tem um romance magnífico, “Raiz Comovida”, em que optou por uma das possibilidaddes. Dentro da ilha, e dentro da mesma freguesia ou até da mesma família, os registos são diferentes. Por isso acabo de deixar outra história, tanto quanto possível tal como o narrador ma contou.
    Na cidade este falar dilui-se. Além disso, a vida citadina não é fértil em brincadeiras tão famosas como as que aconteciam nas aldeias. Há todo um manancial de memórias, a maior parte delas anteriores à generalização da rádio, sobretudo da televisão, que pouco tem que ver com as urbes maiores mas que fazia parte da maneira de viver das gentes do povo. Prometo ir pondo outras aqui. Porque eu mesmo me delicio a escrevê-las, além de que reconheçoo que é importante não deixar perder momentos que definiam a maneira de ser de um povo. E cada um deles é semelhante a outros que aconteceram por este país fora e entre os nossos emigrantes. Têm sido salvas algumas coisas, mas será sempre um trabalho incompleto.

  12. daniel,
    Talvez seja sempre incompleto, mas é um trabalho importante de ser feito, no complemento dos registos audiovisuais que lhe dariam a aferição, se necessária. É no fundo o que vais fazendo, com estes e outros textos. Mas estou com o valupi na questão do livro, ou colectânea. E fmv: há um açoriano citadino, sim, mas é difuso, muito difícil de estereotipar uma oralidade, por sofrer influências por demais misturadas. Televisão, sim, como já disse o daniel, mas também um ‘falar à lisboa’ de que o Ricardo Rodrigues, (deputado do PS) é um bom exemplo. Muito mais rico o rural, acredita. (que é muito menos saloio, por ironia.)

  13. Boca santa, Rui. Isso é a ideia que eu tenho também da nossa gente rural, mas temia que fosse preconceito por eu mesmo ser rural da cabeça aos pés. É que o problema de Ponta Delgada (e das vilas, incluindo a Ribeira Grande, dita cidade, a que, como eu disse na altura, só falta promover a ribeira a rio) é ter alma de aldeia numa estrutura de cidade. Como a alma da aldeia é muito maior, fica apertada no fatinho, dá uma figura caricata, nem fu nem fá. E aquele “ão” de lá até arrepia. Ainda por cima com a tendência de dizerem uns quatro ou cinco seguidos… Pelo menos o “aõ” do Porto já foi assim em tempos, que até se escrevia “naçaõ” e outras do género.
    Agradecimento longo. Não merecias. (A “longura”, não o agradecimento.)

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