Liberdade condicionada

“Bem-aventurados aqueles que nada têm a dizer, e não podem ser persuadidos a fazê-lo.” (James Russell Lowell)
“Tudo é permitido, mas nem tudo é conveniente.” (S. Paulo)
As palavras são as armas dos pacíficos. E também podem ser usadas como pedras de arremesso. Ou como catapultas de destruição.
A liberdade de expressão consiste em dizer o que pensamos, não em querer que os outros pensem como nós. Porque isto já faz parte da sua liberdade para decidir. E a qualidade do discurso não se define pelo modo como se impõe, mas pela maneira como respeita o pensamento alheio.

24 thoughts on “Liberdade condicionada”

  1. O texto está giro Daniel… Ainda que muitas vezes é não querendo influenciar que acabamos por o fazer (é o caso;)

    Deixo um pormenor:

    Aqui há uns anos tive a veleidade de organizar um concurso de poesia cujo título era: “Poesia condicionada de tema livre”.

    Estava voltado, o concurso, para a generalidade das pessoas, ainda que o tivesse divulgado mais aos universitários de Coimbra.

    Foi com espanto, que muitos vieram ter comigo perguntando: “O que significa? O tema é sobre o quê? Em que consiste este concurso?”; etc.

    Lá tive que explicar que o objectivo era aquele mesmo: a condição, era o tema ser livre (Digam o que quiserem, sejam o que sentem).

    Ficaram baralhados porque estavam sobre uma condição libertadora.

  2. Discordo, Daniel. Estás a fazer uma abstracção. Lembras-me o Kant e a famosa crítica de que ele tinha desenvolvido uma moral para anjos. Na verdade, aqui pelos lados da antropologia e da História, falar é um acto político. E, sendo político, está sempre relacionado com a hierarquia do poder. Repara nisto: a fala de um implica o silêncio dos restantes. Por essa razão, fala mais, e fala “melhor”, quem tem mais e “melhor” poder.

    Diria que a tua posição é, afinal, também ela política. E das mais intrincadamente subtis, fingindo uma partilha do poder… Ao rematares com considerandos sobre a “qualidade” do discurso, estás a reclamar um critério que fica subjectivo: passa a depender do que tu concebas como “respeito” do pensamento alheio.

    Perigoso caminho, amigo.

  3. É inevitável Valupi, que acabe por haver discordância para bem da dinâmica. O estarmos de acordo (uns com os outros) é uma fraqueza.

    Uma vez, tentei explicar isto da seguinte maneira:

    Dizes-me: ter pena, é uma fraqueza.
    Digo-te: ter ódio o que é, senão outra fraqueza?

    Olham-se momentaneamente – pareciam estar de acordo. Até que se apercebem que estar de acordo implicava fraqueza (consistia numa cedência de ambas as partes – e que ninguém anda aqui para perder/ceder.

    Um ser verdadeiramente independente nunca irá aceitar um acordo. Aliás, acordo de quê e para quê? Isto é estresbuchar até ao último suspiro…

    Direi mais: o estar de acordo fica bem àqueles casalitos (de namorados), que pouco sabem em que consiste o fingimento das relações :)

    Eh eh eh

  4. O Valupi, contrariando aqueles que dzem que aqui só nos bajulamos uns aos outros, discordou. A ajuda veio inesperadamente elíptica. Que agradeço. Bendita Susana, do Venâncio fico-me com o “eu não diria melhor”. Que mais posso querer?
    Elypse, no ano passado umas pequenas licenciadas em não sei quê fizeram uns jogos florais infantis. Atribuíram a vitória a um miúdo que apresentou o poema “O Beijo”, do João de Deus.

  5. Daniel, podes querer isto, por exemplo,

    Quando te li, sério, pensava que hoje era Quinta-feira da Citação. Lowell, S. Paulo, Frei Daniel.. Palavras para pensar, pois claro. Mas doem mais no teu remate, pois fico sem saber o que fazer , atarantado com tanta rectidão para assimilar.

    Dizes: “As palavras são as armas dos pacíficos. E também podem ser usadas como pedras de arremesso”. Mesmo fazendo um esforço razoável para não me precipitar, não posso fugir à tentação de concluir que as pessoas fisicamente violentas ou devem ser mudas, ou surdas ou as duas coisas, ou então não gostam de escrever.

    Depois: “A liberdade de expressão (não) consiste … em querer (usá-la de modo a) que os outros pensem como nós” Não. A isso chama-se lavagem de cérebro, que pressupõe a existência de fulanos com a liberdade de ouvir a expressão dos outros. Não achas?

    Por último: “..a qualidade do discurso ….define-se pela maneira como respeita o pensamento alheio”. Boa. Mas como é que o orador, ou escriba, sabe aquilo que os outros estão a pensar quando o ouvem ou lêem?

    A citação do Lowell é ainda mais tenebrosa, porque incompreensível. Uma espécie de problema com várias soluções. Se encontraste a mais feliz das soluções para esse enigma, compara-a com esta. “Aqueles que nada têm a dizer sobre uma coisa são os que nos fazem perder mais tempo a ouvi-los não falar dela” (inspirada num dito semelhante do mesmo Lowell)..

    Abraço e sorte com as menássimas futuras.

  6. Daniel, há aqui uma situação que não vou poder deixar passar – pelo caricato e gravidade.

    Organizei 3 concursos literários – não oficiais.

    Num deles, um poeta iraniano, que exerce medicina presentemente, ganhou com o poema que se segue:

    rosa vermelha
    rosa vermelha
    rosa vermelha

    eu,
    levei-a
    ao jardim das rosas vermelhas
    e às suas tranças rebeldes
    atei uma rosa vermelha
    e deitei-me com ela enfim
    sobre uma rosa vermelha

    agora
    oiçam-me
    pombos apaixonados sem destino
    oiçam-me árvores inexperientes
    e janelas cegas
    debaixo do meu coração
    e no fundo do meu ventre
    cresce agora uma rosa vermelha
    vermelha
    como um pôr-do-sol no Outono

    grávida
    grávida
    grávida

    Mohsen Rostami

    Mais tarde, soube, através do Rodrigo de Matos, que o Eduardo Pitta, tinha publicado um texto sobre um tradutor iraniano. Qual não foi o meu espanto, quando vim a saber que uma das poetisas que ele (Mohsen Rostami) traduzira era a autora do poema que ganhara um dos concursos…

  7. Vocês são tramados. Escangalharam-me o discursozinho de fio a pavio. Salvou-me a Lia, que talvez me tenha lido como eu gostava de ser entendido. Pois então o Chico Estaca partiu-me a loucinha toda. Chico, o pensamento a que me refiro não é o pensamento só pensado, é o pensamento dito. Valupi, é tão perigoso eu decidir pelo meu próprio critério como pelo teu, do Kant, do Kiergegaard, do Sartre, seja lá de quem for. É sempre uma escolha, não é?
    Elypse, pensas que não tenho mais histórias de concursos literários e que me admiro do falso poeta iraniano, que afinal era uma poetisa? Nos meus tempos de moço ainda, recebi um segundo prémio de soneto. Por acaso até me pareceu que o terceiro classificado era melhor que o meu. Vim a saber que se tratava nada mais nada menos do que de Manuel Augusto de Amaral, belíssimo poeta cá da ilha, que morrera uma porrada de anos antes. Para cúmulo do azar, o jornal que organizou esses jogos florais publicara pouco tempo antes um poema do mesmo autor, assinado por um rapaz que se despedia para ir para a guerra do Ultramar. E houve um emigrante que publicou uma grande série de artigos num jornal do Canadá, assinados por ele, claro, e que eram excertos de sermões do padre António Vieira. Incluindo um que todos estudávamos antigamente “É a guerra aquele monstro…” Há mais, mas ficam de reserva.

  8. Caro Daniel de Sá. Essa faz lembrar o António Silva dirigindo-se à Amália Rodrigues: «Ó Amália tu com a tua voz e eu com a minha garganta, podemos ir longe!» Mas não vão longe esses pobres diabos. O que eles fazem vale menos que o peido de um cigano…

  9. Daniel, quando relatei o que relatei, sobre o poeta/tradutor/iraniano, fi-lo por partilha com o que tinhas deixado escrito:

    “Elypse, no ano passado umas pequenas licenciadas em não sei quê fizeram uns jogos florais infantis. Atribuíram a vitória a um miúdo que apresentou o poema “O Beijo”, do João de Deus.”

    Mostrei que também tinha desconhecimento e que podia ser iludido. Por isso, se reparares, deixei um sorriso :) logo a seguir ao teu texto, que queria dizer: como te compreendo ;)

  10. Daniel, escreveu poesia? E não é coisa para se mostrar? Pois, o plágio é um facto, quer dizer acho que, agora, um facto não é um facto, é um fato. Estranhíssimo. Descansei, ‘homem’ ainda mantém o seu h. Isto no dicionário do acordo ortográfico.

  11. Daniel, se a Lia foi a única a meter a chave hermenêutica na fechadura, isso confirma o primeiro diagnóstico. Porque ela começa por louvar os que tanto sabem. Depois limita o uso da palavra ao esclarecimento. E a estes que só falam para “esclarecer” atribui o estatuto de sábios. Ou seja, propõe uma hierarquia de poder com constrangimentos óbvios e cerrados para a liberdade de expressão.

    Caminho cada vez mais perigoso, amigo.

  12. Valupi, estás a complicar cada vez mais. Desisto.
    Elypse, os factos não são comparáveis. Nos casos que relatei trata-se de poetas muito conhecidos, para não falar do Vieira, claro.
    C
    Às vezes tento. Raramente. E já deixei por aqui umas amostras.

  13. Gostei da “chave hermenêutica”, porque a metáfora vem comprovar que sempre há uma hierarquia de sábios.
    Parabéns,Valupi, você é um deles.

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