o pai natal da abundância

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As coisas estão ao contrário. Dantes pedia-se uma prenda ao menino Jesus, uma só. Se ela aparecesse no sapatinho a gratidão era toda. Agora faz-se listas e dá-se cabo da cabeça sem saber o que dar a quem.
O Pai Natal também mudou, como constatou o meu filho pequeno. Até ao ano passado ainda trazia alguns presentes. Já não lhe escapava a azáfama em volta dos embrulhos, pelo que concluiu que o velhinho trazia só alguns, há sempre uns presentes que ninguém sabe quem deu, mãe, devem ser esses os do Pai Natal….
Mas, há dias, apontou para a parede de um prédio, onde proliferavam os enfeites natalícios de exterior mais em voga. Percebeu, de imediato, afinal ao que vem o biltre, com a conversa de entrar em nossas casas. Olha, mãe, lá está outro! Mais um Pai Natal Ladrão!

Cê que sabe

Com algum atraso – mas as belas coisas são eternas – divulgamos o texto que Lélia Nunes (por extenso, Lélia Pereira da Silva Nunes), professora brasileira, de Florinápolis, nos enviou.«Tomo a liberdade», diz ela, «de lhe escrever do mesmo jeito que tenho deixado meus bilhetinhos no blogue Aspirina B e que tenho adorado visitar. Como “a reforma ou a unificação da Língua Portuguesa” tem merecido maior atenção da mídia brasileira nos ultimos tempos (não tanto quanto os nossos escândalos políticos já tão corriqueiros e banalizados) e tendo em vista a entrada oficial do querido amigo Daniel de Sá na “categoria de enfermeiro” envio-lhe uma crônica que escrevi e que já foi publicada aqui (‘Jornal de Letras’, dirigido por Arnaldo Niskier e Antônio Olinto), em semanários açorianos e da Costa Leste americana. Um grande abraço e muito obrigada pela boa dose de aspirina que chega pelos Caminhos do Mar impedindo um enfarte antes da hora…».

*

Para o Daniel de Sá

Pelo correio eletrônico tenho me correspondido com amigos açorianos. Gente das letras e com eles o aprendizado tem sido uma constante, as trocas de idéias são substanciais e os puxões de orelha quando escorrego no puríssimo vernáculo da matriz, a última flor do Lacio, é “vapt e vupt”. Vêm a galope no mundo virtual, em tons vermelhos, verdes e azuis para não deixar dúvida da infração cometida contra a Língua Portuguesa.

Uma troca gostosa que dá imenso prazer sem qualquer compromisso com a resposta ou o resultado. Até porque se for compromisso, vira obrigação e a cobrança se torna inevitável. Aí estraga tudo e vai para o espaço a alegria da espera. Aquela mesma espera que fazia a gente ficar com a cara colada na vidraça e o olho comprido, espreitando por trás das cortinas, esperando o carteiro aparecer lá na curva da rua ou surgir de repente por trás da vidraça. Tenho saudade do carteiro e do sentimento que provocava quando chegava a nossa casa e gritava: CARTEIROOO, trazendo as cartas numa sacola de sarja atravessada ao peito. Hoje, nem vejo quando as cartas chegam, nem sei quem as traz e já são tão escassas e raras. Pois, tudo chega aqui, online e em tempo real.

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Capicua

Ele faz hoje, em idade, uma bela capicua. Lembro-me de irmos num eléctrico, e de ser o meu bilhete, digamos, 23132, podia até ser mais bonito. E foi quando ele me ensinou essa palavra, «capicua». Eu tinha nove anos, talvez oito. Ele andava, pois, pelos 35. Não é a capicua que, hoje ainda, me espanta. Mas o ele ter estado algum dia nesses 35, e eu estar vendo isso.

O teu mundo na garrafa

O vinho é mais que vinho é também terra
Nesta garrafa se concentrou o teu mundo
Intervalo da luz do rio para o frio da serra
Onde tudo é mais verdadeiro e profundo

Onde as pedras formam a lareira dum lar
Onde a água é a origem e a força da vida
Vejo-te com arte e paciência a cozinhar
A receita local é a perfeição perseguida

Este mundo está no bilhete de identidade
Onde os teu nome está de facto registado
As palavras chegam do campo à cidade
Andam contigo na mala por todo o lado

As castas que estão na origem do vinho
Trazem com as uvas a luz do teu lugar
Convite a que ninguém fique sozinho
E mesmo num dia triste venha cantar

Cavaco, quero que tenhas mais cuidado com o que dizes

Cavaco disse que a actual presidência europeia, concluída por Portugal neste Dezembro, tinha sido um indiscutível sucesso. Tendo sido eleito em Janeiro de 2006 para súbdito do Presidente Cavaco Silva, é ponto de honra cumprir esse mandato o melhor que possa. Assim, tenho a obrigação de ajudar o meu Presidente — neste caso, rogando-lhe que pense antes de falar. Afinal, que coisa estrambólica é essa do indiscutível sucesso?

Quanto a indiscutível, não há qualquer discussão: estamos todos de acordo em não discutir o que é indiscutível. Mas quem de nós saberá, mesmo que no modo tímido-inefável de Santo Agostinho, o que seja o sucesso? Os romanos, claro, que consta terem sido especialistas em latim. Na sua engenharia linguística, empurraram o prefixo suc para junto do pospositivo cessus, criando mais uma ponte para o pensamento: successus. Tradução: o que acontece\cessus\cede, move-se a seguir\suc\próximo, depois. Em português corrente: sucesso é aquilo que acontece depois de alguma outra coisa, com ele relacionada pelo vector movimento, ter acontecido. Explicitando: há um acontecimento que, no seu desenvolvimento, gera outro acontecimento. É o que fica claro no conceito de sucessor: sucede como sucessor aquele que estiver relacionado, de alguma forma particular ou circunstancial, com o sucedido.

Ora, iluminados pela lição etimológica, descodificação telepática do pensamento profundo do orador, e crentes na intencionalidade política do Presidente, que raio quis o homem dizer? Isto: que não devemos discutir o facto de Portugal ter exercido a presidência da União Europeia no ano de 2007. E se bem o disse, melhor o cumpriu, nada acrescentando que permita atribuir-lhe opinião ou, tão-só, dizer-se que foi visto a passar perto de uma. E não custa compreender o porquê deste apelo ao silêncio: o Governo alcançou uma extraordinária vitória, deu corpo ao que se entende por excelência. Chega até a ser incomodativo nada haver a apontar como falhanço nesta presidência. Tal como perturba, ao ponto de causar enjoo, contemplar a logística diplomática e organizativa necessária para realizar todas as complexas tarefas na agenda. É um feito político nunca visto em Portugal desde há séculos, uma prova de virtude, de virilidade. E que, ao arrepio da mensagem do Presidente, devia abrir imediato espaço de questionamento: se isto foi possível, que mais poderemos fazer por Portugal, fazer uns pelo outros, aqui e agora, no presente para o futuro e apoiados no vitorioso passado?

Na visita à Guarda, neste Novembro, Cavaco foi interpelado por um popular que lhe pedia soluções para a crise económica e social na região. Às rádios, o Presidente daquele português confessou não saber o que lhe dizer. Ou melhor, não ter nada para lhe dizer. Dias depois (26 de Novembro), Santana, na TSF, louvava o passeio à Guarda e maldizia o investimento do Governo em estradas no e para o Interior. Terminava a rábula, o biltre que estaria a aplaudir as mesmíssimas estradas fossem elas obra do PSD ou sua, ligando novas vias em regiões desfavorecidas com decadência nacional. E, na sua voz de quem quer cagar e não consegue, anunciava revolta a sério.

Estou disposto a deixar passar a vergonha de não ter sabido o que dizer ao meu patrício, com a condição de se arrepender, mas não admito que o meu Presidente deixe em silêncio uma declaração asquerosa como a de Santana — ameaçando, cobardemente, a democracia com revoltas de difuso contorno. Porque um Presidente não tem de governar, nem de interferir na governação. Governar é amoral, cínico, calculista. Ao Presidente exige-se, antes, que seja um probo, um sage e um bravo. E isso obriga a dar açoites aos meninos-pantomineiros.

Portanto, Cavaco, tem cuidado com o que dizes. Mas tem mais cuidado com o que não dizes.

A Luz que Guiou os Magos

Houve grande alvoroço entre as estrelas quando se soube que uma delas guiaria os Magos até Belém. A que se julgou com mais direito a essa glória foi a imensa Betelgeuse, tão grande que, se deixasse a constelação de Orion e viesse aos tombos por aí abaixo, poderia esmagar ao mesmo tempo o Sol, Mercúrio, Vénus, a Terra e Marte, como se fossem poeira do deserto sacudida pelas mãos de um gigante.

Mas Deus passou por ela e não a escolheu.

Então Sírio, a mais brilhante, que reina em Cão Maior, convenceu-se de que seria a eleita do Senhor. Mas Deus passou também por ela e não a escolheu.

“Fica muito para o Sul. Sou eu quem mais resplandece a Norte.” Proclamou Vega., confiante no mérito da sua luz. Mas Deus passou por ela e nada lhe disse.

“Serei eu decerto”, pensou a Estrela Polar. “Porque eu guio os homens e hei-de guiá-los por mais uns quatro mil anos ainda, até ceder o meu cargo às minhas vizinhas de Cefeu.” Mas Deus foi adiante.

Na constelação de Centauro, a sua Alfa, a estrela mais próxima da Terra, ganhou todas as esperanças. Beta, sua companheira, com algum despeito tentou desfazer-lhe as ilusões. “Como poderias ser tu a escolhida, aqui sobre estes confins do Sul? E, de facto, Deus passou por ela sem Se deter.

“Sou eu a estrela de Israel. A luz que guiará os magos será por mim dada, certamente.” Saturno o pensou. Mas enganou-se.

Foi então que Júpiter começou a preparar-se para agradecer a divina escolha. Tinha o nome do pai dos falsos deuses, e brilhava intensamente. Quem melhor do que ele poderia anunciar o nascimento do Filho do Deus verdadeiro? Mas Deus passou por Júpiter e tão-pouco o escolheu.

Restava Vénus. O excelente luzeiro das tardes e das manhãs, o companheiro das madrugadas dos pastores. Ali Se deteria Deus para o convite. Mas não. Não era ainda aquela a escolha do Senhor.

Cheias de espanto, e como que não acreditando ser possível, todas as estrelas viram Deus dirigir-Se a uns minúsculos destroços de pedra vagabundos nos caminhos do firmamento por onde a Terra anda. E ouviram, com mais espanto ainda, que Deus os convocava para serem eles a indicar aos magos o caminho de Belém.

“Nós, como, Senhor?” Perguntaram, incrédulos. “Ninguém repara em nós aqui no espaço. Ninguém nos vê. Como poderemos, tão humildes, cumprir tal ordem?”

Deus disse-lhes que Maria também não acreditara ser possível tornar-Se na Mãe do Seu Filho. Mas Ele, o Senhor, sabe exaltar os humildes até à glória que nem os mais poderosos alcançam. E explicou-lhes a sua missão. Precisava de umas centenas que se fossem lançando um a um na direcção de Belém. Ao aproximarem-se da Terra haveriam de deixar um brilhante rasto de luz. Os magos, seguindo-o, chegariam seguros ao seu destino.

E assim foi. Os santos homens viajavam quase sempre de noite, para evitarem o calor do sol do deserto. Não se enganaram nem foram enganados uma única vez. Quando chegaram a Belém, olhando a cidade à sua frente, não sabiam, porém, onde encontrar o Menino. Mas o último dos meteoritos riscou um caminho no céu, mais brilhante que todos os outros, e foi explodir, abrindo-se num leque de luz, sobre o lugar onde Jesus dormia nos braços de Sua Mãe.

E-mail a dois

Também você se chateia com aqueles casalinhos, muito pombinhos, muito aconchegadinhos, que têm um e-mail a dois? E que assim se vêem para a vida inteira? Bom, até ao dia em que… 

 – Abriste um endereço de e-mail para ti só?
– Abri. Porquê?
– Podias ter sido menos desagradável.
– Como?! Explica lá isso melhor. Se não te importas.
– Já não confias em mim, não é?
– Eu?!
– Pois. E queres receber umas coisinhas que eu não possa ver.
– Agora quem é desagradável és tu. Não te parece?
– Gostavas que eu fizesse o mesmo?
– O quê?
– Abrir uma conta só para mim.
– E porque é que não fazes?
– Porque não tenho nada para esconder, percebes?
– E eu tenho?
– Pelos vistos…
– Eu abri porque me apeteceu. Ora esta!
– Ai, não duvido. E porque te deu pra uma de desconfiança.
– Desculpa, mas se há, aqui, alguém que desconfia, és tu.
– Ai, agora eu é que desconfio! Está bonito, está!

Você teria saída para esta conversa? Diga como. Tire duas pessoas deste filme.

«O tubarão de Luís Filipe Menezes»

Eu já tinha lido. E tinha pensado que o fulano havia visto bem, muito bem mesmo. Era um artigo do historiador Rui Ramos no Público de hoje. Uma visita ao Da Literatura deu o empurrãozinho para chamar mais atenções para um artigo excepcional. Como os quiosques fecharam já – e essa chuva não pára – há motivos, mais esses, para pôr o texto aqui. Divirta-se. «Não quero ridicularizar Menezes», afirma Rui Ramos. Você acredita?

*

«Não sei se fazemos um grande favor aos políticos quando lemos os seus livros. Experiências recentes fazem-me pensar que não. E Coragem de Mudar, que Luís Filipe Menezes fez sair durante a sua marcha para a liderança do PSD, confirmou a impressão. Li-o só agora. E, sem recomendar a leitura, sempre direi que talvez tivesse poupado alguns erros de previsão acerca da liderança do autor.

O livro de Menezes inclui uma entrevista especialmente reveladora acerca da sua pessoa. Não me refiro à pessoa privada, que não nos deve interessar, mas à sua pessoa pública, ou mais exactamente: à imagem que ele gostaria de dar de si próprio. Eis o que descobrimos: “Sou capaz de fazer dois mil quilómetros num fim-de-semana para ver uma exposição.” Ou isto: “Cosmopolitismo, para mim, é navegar ao luar nas Marquesas, é entrar no Triângulo Dourado e acampar no Norte do Camboja” (p. 21). Não temos aqui alguém a expor-se aos seus semelhantes, segundo o método radical de Rousseau, mas uma pessoa desesperada para ser aceite. Ou, nas suas palavras, “amado” (p. 45). É uma carta de amor, e, como tal, ridícula. O destinatário somos todos nós. E parece que Menezes imaginou, como qualquer rapaz de 15 anos, que nós, como qualquer rapariga de 15 anos, nos deixaríamos comover por devaneios de Indiana Jones, fúrias cinéfilas e vestígios de leitura.

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Um cálice à intenção do menino

Ao nosso clássico e satírico amigo José Luiz Tavares também chegou a notícia de que vem aí um Natal. Mas isto, as notícias, às vezes chegam assim.

Dizem-me que nasceste no distante
oriente, numa noite fria como esta.
Isto me dizem. Atentos escrutinadores
do passado atestam tua meninice
num árido país. Nisto, minha infância
foi igual à tua.

Debaixo de coruscantes céus transitei
a penúria, enquanto tu te preparavas
para desígnios bem maiores
— morrer pelos meus pecados,
dizem-me os quatro evangelistas,
apócrifos e fabulistas.

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Retrato breve de Paula F.

Os teus olhos são palco da fantasia
A fronte dá uma ideia de planície
Ouvidos são o registo da harmonia
Entre a profundidade e a superfície

Os lábios trazem ondas de humidade
Da água mais antiga mais essencial
As palavras que procuram a verdade
Fazem o teu mais importante capital

A tua voz é na verdade uma bandeira
Representa o teu país, o teu território
Ele não se fecha no muro de fronteira
Nem se esconde no lugar do escritório

Maior do que o cartaz de um cinema
Teu rosto acabou a diluir-se na cidade
Não cabe mais nas linhas dum poema
Passou já a ser luz, memória, saudade

Revulsivo, insuportável, viciante

O nome do blogue é, por vias travessas, saramaguiano. Chama-se Intermitências da… Corte. Seguindo a erudita sugestão, deveria ler-se «da Córte», como Saramago as escreveu «da Morte». Mas – como aliás somos alertados – pode colar-se-lhe a sonoridade «da Côrte». Irritante? Oh, meus caros, ainda só vamos no título.

O blogue de Confúcio Costa é incrivelmente belo. Não no design, que é vulgar… mas inteiramente adequado. Porque os conteúdos são puras surpresas. Nada agradáveis, de resto. Antes atrozes, do mais radioso sadismo. Como esta. Ou desumanas, velhacas. Como esta. Ou esta. Ou canalhas, de uma graça reles. Como esta. Ou esta.

De longe a longe – e é isto o mais viciante – surge um tom diferente. Trazendo justiça, como aqui. E alguma subtil humanidade, como aqui.

O mais belo post – para mim, e quem sou eu? – é, todavia, duma ordem inteiramente outra. Que nem caracterizo. Que deixo na sua misteriosa beleza. Este, de 4 de Dezembro, aqui por extenso:

Cozinha

Sono leve, acordar pesado. Barulhos estranhos na cozinha. Levantar, coração que bate. Medo. João Garcia, o heróico alpinista, a olhar-me com olhos de satisfação. Regressar à cama com a certeza de que já é altura de lavar a loiça. E de reduzir, pelo menos, a altitude da montanha de pratos que me enche a cozinha.

Confúcio Costa foi já descoberto por muita gente. Os comentários de leitores chegam às dezenas. Um dia, ainda sou capaz de ir ler alguns. Devo confessar que me põem curioso.

E uma coisa me pergunto: se existirão prémios para tamanha… categoria.

Paixões a sério

Sobre o fazer dum livro até à sua edição, e tudo quanto nesse processo mexe, temos desde há anos o magnífico blogue Extratexto, do Nuno Seabra Lopes. 

Ora bem, acaba de surgir um blogue, promissor na forma e na autoria, sobre o livro quando já editado. É obra do José Mário Silva, que assim se autopromoveu – e não lho regateamos – a Bibliotecário de Babel.

O José Mário Silva, o eternamente «nosso» Zé Mário, foi, com o Blogue de Esquerda (acessível aqui ao lado), um dos grandes artífices da blogosfera portuguesa quando ainda menina e moça. Como jornalista do DN, e agora da Time Out, não parou de promover e valorizar o «medium» de que foi founding father.

Mas sempre foi o livro a sua paixão. E ele há – está visto – paixões mesmo muito sérias.

Ena Pá Oitavos!

Que os blogues Atlântico, e A Causa Foi Modificada, e o Blasfémias tenham sido os melhores de 2007 na categoria de «Política & Sociedade», eis o que não me espanta. Que, depois, um excelentíssimo público e um ainda mais excelentíssimo júri tenham considerado muito mencionáveis no sector A Origem das Espécies, o Zero de Conduta, o Arrastão e o 31 de Armada, aí está o que só fica bem a gente atenta.

Agora que em oitavo lugar das suas atenções surja o ASPIRINA B, antes ainda do Kontratempos, do Abrupto e do Causa Nossa, coisa é de muito folgar.

Justo? Justíssimo. Não pelo Aspirina no conjunto, menos ainda por este que assina, mas por aquele de nós que, com garbo e acutilância, tem vindo, deste lugar, medindo a varapau a feira política e social portuguesa. O incomensurável Valupi.

Parabéns, moço! E nunca as mãos te doam. Contigo, somos até os primeiros. Mas não contes a ninguém.

Está tudo aqui.

Uma Cruz no Presépio

(A Eduardo Nery)
Nota: A história de “A Cruz nas Montanhas” (1807/08) é verdadeira.
* * *

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Não era habitual um católico visitar a oficina de pintura de Caspar Friedrich. Mas o padre Olaf Berger era seu amigo de infância. Deteve-se longamente a observar um quadro com moldura de talha dourada à maneira de altar. Uma rocha nua, sem sinais de vegetação, subia em cone, rodeada por abetos, sob um céu de nuvens cor de fogo. No cimo, entre os dois penedos mais altos, uma cruz culminava a paisagem. Uns feixes de luz solar apontavam ao alto como faróis entre nevoeiro, fazendo um deles realçar a imagem de Cristo no crucifixo. E uma hera, mais improvável que os abetos, abraçava até metade a longa haste da cruz. Não havia perspectiva. Apesar disso, a conjunto fascinava. O oiro do baixo-relevo, com anjos e alegorias sobre Jesus e a Trindade, formava contraste com a austeridade das cores e do desenho. O trabalho de talha fora de Gottlieb Kühn, amigo de Friedrich, que o concebera.
Quando o padre Berger acabou a contemplação, perguntou: “Isto é um nascer ou um pôr-do-Sol?”
O pintor pareceu pensar como se não soubesse a resposta. Disse: “Se estiveres cheio de esperança, é manhã. Sem alento, é o ocaso.”
A obra fora criada para oferecer a Gustavo Adolfo, rei da Suécia. Cristo, no alto das montanhas, como Senhor do Mundo e da vida, estava ali em sinal de esperança universal. A redenção que começara com o Seu nascimento. O cenário da cruz era, pois, uma espécie de presépio de Belém. Mas, ainda antes de o quadro estar completo, Gustavo IV, enlouquecido, fora deposto. Caspar Friedrich permanecia como um dos seus raros admiradores, mas já não poderia oferecer-lhe a pintura. E aquele nascer do Sol original transformou-se num crepúsculo da tarde.

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Meditação para um quadro oferecido por Jorge Bretão

Trouxeste num quadro a luz da tua cidade
Eu só tenho para te dar o escuro de Lisboa
Nos dias em que anoitece sobre a verdade
E a raiva é uma nuvem que nos sobrevoa

Numa cidade cheia de prisões e hospitais
De eléctricos vagarosos com os atrelados
A vida era diferente dos bilhetes-postais
Era mais cinzenta e nós muito cansados

Anos depois veio um projecto de alegria
Na manhã de Abril hoje perdidas ilusões
Uma excelente promessa de democracia
E ficou reduzida a um ritual de eleições

Salva-nos o tempo; permanece o mistério
No usufruto duma manhã plena de festa
Os músicos que tocam frente ao Império
São toda a felicidade que nos resta