Cê que sabe

Com algum atraso – mas as belas coisas são eternas – divulgamos o texto que Lélia Nunes (por extenso, Lélia Pereira da Silva Nunes), professora brasileira, de Florinápolis, nos enviou.«Tomo a liberdade», diz ela, «de lhe escrever do mesmo jeito que tenho deixado meus bilhetinhos no blogue Aspirina B e que tenho adorado visitar. Como “a reforma ou a unificação da Língua Portuguesa” tem merecido maior atenção da mídia brasileira nos ultimos tempos (não tanto quanto os nossos escândalos políticos já tão corriqueiros e banalizados) e tendo em vista a entrada oficial do querido amigo Daniel de Sá na “categoria de enfermeiro” envio-lhe uma crônica que escrevi e que já foi publicada aqui (‘Jornal de Letras’, dirigido por Arnaldo Niskier e Antônio Olinto), em semanários açorianos e da Costa Leste americana. Um grande abraço e muito obrigada pela boa dose de aspirina que chega pelos Caminhos do Mar impedindo um enfarte antes da hora…».

*

Para o Daniel de Sá

Pelo correio eletrônico tenho me correspondido com amigos açorianos. Gente das letras e com eles o aprendizado tem sido uma constante, as trocas de idéias são substanciais e os puxões de orelha quando escorrego no puríssimo vernáculo da matriz, a última flor do Lacio, é “vapt e vupt”. Vêm a galope no mundo virtual, em tons vermelhos, verdes e azuis para não deixar dúvida da infração cometida contra a Língua Portuguesa.

Uma troca gostosa que dá imenso prazer sem qualquer compromisso com a resposta ou o resultado. Até porque se for compromisso, vira obrigação e a cobrança se torna inevitável. Aí estraga tudo e vai para o espaço a alegria da espera. Aquela mesma espera que fazia a gente ficar com a cara colada na vidraça e o olho comprido, espreitando por trás das cortinas, esperando o carteiro aparecer lá na curva da rua ou surgir de repente por trás da vidraça. Tenho saudade do carteiro e do sentimento que provocava quando chegava a nossa casa e gritava: CARTEIROOO, trazendo as cartas numa sacola de sarja atravessada ao peito. Hoje, nem vejo quando as cartas chegam, nem sei quem as traz e já são tão escassas e raras. Pois, tudo chega aqui, online e em tempo real.

Bem, mas mesmo na troca de mensagens por e-mails descobri o prazer da espera, da dúvida sobre sua entrada. E se a caixa estiver “bombando” como fala minha neta Larissa? Será que o destinatário a recebeu. Leu? Gostou? Vai reagir? Ou deletou pura e simplesmente? Que importa? Importa que quando apetecer o amigo escreverá e eu vou estar ansiosa à espera, do mesmo jeito que passava os dias olhando o carteiro por trás da vidraça.

Uma das trocas de e-mails mais saborosas é a que há algum tempo tenho com o escritor açoriano Daniel de Sá, o mestre da narrativa, talentoso, dono de uma escrita humanizante e muito rica sobre o cotidiano das ilhas, da sua história, cultura. É também um bom “fazedor de versos”, alguns pícaros e temperados com uma boa dose de ironia e muita sabedoria.

Pois, foi com um desses “poemetos” em redondilhas cheio de graça e picardia que ele chamou-me a atenção sobre o “não emprego do C” na minha escrita em um texto que seria publicado na Madeira. Enfim, eu não entendera a que diabo de “cês” ele se referia em sua mensagem.

Mas, de que Cês estás falando? perguntei. A resposta chegou ligeira e versificada:

Os cês

Nós por cá, em Portugal,
Temos cês muito discretos.
E quem não quer amar mal
Tem de pô-los nos afectos.
É que esta questão dos cês
Não se faz assim à toa.
Tem razões e tem porquês,
Não é moda de Lisboa.

Eu não ato nem desato?
Pois então vamos em frente,
Que uma peça de um só acto
Não cativa muita gente.

Vou dar exemplos seguidos,
E bem deves ter notado,
Nos muitos livros já lidos
Como é o cê bem usado.

Se eu cato, ando a catar,
Mas se planto, planto um cacto.
E às vezes, para ir rezar,
Não visto um terno, é um fato.

Um pacto é um contrato.
E em opíparo jantar,
Pouco há melhor do que pato
Com arroz, depois de assar.

Um estrato é Geologia
Ou situação social.
Mas com xis e cê daria
Para saber se anda mal

A minha conta bancária.
Estes nossos cês correctos,
E de utilidade vária,
São calados, circunspectos.

Como não se nota a ausência,
Há quem se esqueça de usá-los,
Mas com alguma experiência
Sabe-se onde colocá-los.

Cateto tem? Vês que não.
Mas têm recto e compacto.
Vais aprendendo a lição?
Se não vais, já me retracto.

Mas nestas há quem os diga,
Dou o dito por não dito.
Que a nossa lição prossiga.
Se aborreço, estou contrito.

Um bom corrector corrige,
Um corretor faz dinheiro.
E, quando o mau tempo aflige,
Bom tecto é bom companheiro.

E digo-te, a concluir,
E como amigo dilecto,
Que nunca deixes cair
O cê que segura o tecto.

A minha réplica, claro, não se fez por esperar e ela seguiu bem-humorada, no fundo escondendo uma vontade de provocar o amigo, virar a mesa, rodar a baiana ou subir nas tamancas:

Caro Daniel, sobre “Os cês” que em versos explicas de um jeito tão gostoso como beijo na boca, merece aqui uma resposta à brasileira e um bocadinho irreverente.

E, daqui pra frente naveguei com tudo na delícia dos seus versos pícaros e nos discretos CÊS do português “portuga” que aos poucos foi desaparecendo do nada recatado português brasileiro com seus fartos requebros cuja intensidade e sonoridade varia de região para região.

Será que aprendi a lição?

Diga lá, será que ama mal quem tem no coração uma maré cheia de afetos ou será que sem o “C” vira maré vazante?

Bem sei que cada Cê tem razões e tem porquês e este laço já tenho desatado nas trilhas do meu caminhar cigano pelas Ilhas açorianas ao encontro do Divino. Reconheço que é muito correctamente usado e lá guarda as suas sábias e respeitosas diferenças.

Depois de caminhar pela territorialidade insular, de mergulhar entre marés e trazer a pele impregnada de maresia fiquei aqui pensando no “supra-sumo” prazer que existe no ato-acto de navegar pelos mares da paixão. Onde será que fica o “C” quando o navegante em sua louca aventura por aqueles mares, já sem rumo e sem prumo, alcança o porto de seus desejos em ato pleno?

Confesso que continuei meu périplo numa verdadeira dobadoira pelo Houaiss a catar outros termos além do cacto e seu cactino. De A a Z lá estão todos os “Cês” nas mais diferentes formas e significados. Se não se faz presente no fato é porque é fictício e se torna factível na consolidação do pacto. Caso contrário, sobra pro “pato” que avalizou o “pacto”.

Com xiis e sem C o extrato do trabalhador brasileiro há muito não sai do vermelho, embora ministros “circunspectos” asseveram que tudo vai bem e lá de Brasília sorriem em lindos retratos que escondem o seu característico caráter.

Entre os seus “Cês” correctos presentes em retractos, contactos, compactos, recto, tecto… já não “atino” mais nada e nesta altura só quero perceber por que não aprendo a usá-lo.

De repente: boom!!! A idéia caiu como um”actino” e foi radiando por aqui… afinal, dilecto amigo Daniel por que iria aprender tão puríssimo uso?

Isto é ficto!

Não posso privar os amigos do sabor, da musicalidade brejeira, da alegria contagiante, sensual, cheia de volteios vibrantes, carinhosos que colorem, amorenam e dão graça à escrita brasileira com ou sem os “Cês”.

Assim com imenso afeCto deixo consignado o meu pedido público de clemência.

2 thoughts on “Cê que sabe”

  1. Fernando Venâncio

    Obrigada pela publicação do meu texto, chega com uma prenda de Natal.
    Sua gentileza em fazê-lo me sensibiliza.
    Estar aqui entre os senhores(as) é uma dose de Aspirina extra que com certeza assegurará um coração firme pra receber o “sopro equóreo das espumas” do lânguido vento que vem do Norte e pra enfrentar o mesto que invade a alma quando mágoas amargas e melancolias for maior que a alegria de sentir viva.

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