Cavaco, quero que tenhas mais cuidado com o que dizes

Cavaco disse que a actual presidência europeia, concluída por Portugal neste Dezembro, tinha sido um indiscutível sucesso. Tendo sido eleito em Janeiro de 2006 para súbdito do Presidente Cavaco Silva, é ponto de honra cumprir esse mandato o melhor que possa. Assim, tenho a obrigação de ajudar o meu Presidente — neste caso, rogando-lhe que pense antes de falar. Afinal, que coisa estrambólica é essa do indiscutível sucesso?

Quanto a indiscutível, não há qualquer discussão: estamos todos de acordo em não discutir o que é indiscutível. Mas quem de nós saberá, mesmo que no modo tímido-inefável de Santo Agostinho, o que seja o sucesso? Os romanos, claro, que consta terem sido especialistas em latim. Na sua engenharia linguística, empurraram o prefixo suc para junto do pospositivo cessus, criando mais uma ponte para o pensamento: successus. Tradução: o que acontece\cessus\cede, move-se a seguir\suc\próximo, depois. Em português corrente: sucesso é aquilo que acontece depois de alguma outra coisa, com ele relacionada pelo vector movimento, ter acontecido. Explicitando: há um acontecimento que, no seu desenvolvimento, gera outro acontecimento. É o que fica claro no conceito de sucessor: sucede como sucessor aquele que estiver relacionado, de alguma forma particular ou circunstancial, com o sucedido.

Ora, iluminados pela lição etimológica, descodificação telepática do pensamento profundo do orador, e crentes na intencionalidade política do Presidente, que raio quis o homem dizer? Isto: que não devemos discutir o facto de Portugal ter exercido a presidência da União Europeia no ano de 2007. E se bem o disse, melhor o cumpriu, nada acrescentando que permita atribuir-lhe opinião ou, tão-só, dizer-se que foi visto a passar perto de uma. E não custa compreender o porquê deste apelo ao silêncio: o Governo alcançou uma extraordinária vitória, deu corpo ao que se entende por excelência. Chega até a ser incomodativo nada haver a apontar como falhanço nesta presidência. Tal como perturba, ao ponto de causar enjoo, contemplar a logística diplomática e organizativa necessária para realizar todas as complexas tarefas na agenda. É um feito político nunca visto em Portugal desde há séculos, uma prova de virtude, de virilidade. E que, ao arrepio da mensagem do Presidente, devia abrir imediato espaço de questionamento: se isto foi possível, que mais poderemos fazer por Portugal, fazer uns pelo outros, aqui e agora, no presente para o futuro e apoiados no vitorioso passado?

Na visita à Guarda, neste Novembro, Cavaco foi interpelado por um popular que lhe pedia soluções para a crise económica e social na região. Às rádios, o Presidente daquele português confessou não saber o que lhe dizer. Ou melhor, não ter nada para lhe dizer. Dias depois (26 de Novembro), Santana, na TSF, louvava o passeio à Guarda e maldizia o investimento do Governo em estradas no e para o Interior. Terminava a rábula, o biltre que estaria a aplaudir as mesmíssimas estradas fossem elas obra do PSD ou sua, ligando novas vias em regiões desfavorecidas com decadência nacional. E, na sua voz de quem quer cagar e não consegue, anunciava revolta a sério.

Estou disposto a deixar passar a vergonha de não ter sabido o que dizer ao meu patrício, com a condição de se arrepender, mas não admito que o meu Presidente deixe em silêncio uma declaração asquerosa como a de Santana — ameaçando, cobardemente, a democracia com revoltas de difuso contorno. Porque um Presidente não tem de governar, nem de interferir na governação. Governar é amoral, cínico, calculista. Ao Presidente exige-se, antes, que seja um probo, um sage e um bravo. E isso obriga a dar açoites aos meninos-pantomineiros.

Portanto, Cavaco, tem cuidado com o que dizes. Mas tem mais cuidado com o que não dizes.

16 thoughts on “Cavaco, quero que tenhas mais cuidado com o que dizes”

  1. Um artigo do Valupi é sempre um sucesso (acontecimento), merecedor de maior sucesso (êxito) do que ficar entre nós somente. Porque eu não sou egoísta.
    Gostei sobretudo da lição de semâmtica.

  2. valupi,

    ‘voz de quem quer cagar e não consegue’ diz muito mais que a imediata identificação de um som: diz a sua tonalidade exacta e o número de decibéis até seis algarismos…

    bolas!

  3. RVN
    Quis falar contigo para deixar recado, mas apareceram umas exigências estranhas que não soube satisfazer. Ah, e diz lá à Ernesta que o gato está vivo. Como é que eu sei? Porque tem sete vidas, claro.

  4. daniel,

    Eunesta não me meto. Sete vidas são escassas.

    Exigências, foi? Onde? E coisas esquisitas, caríssimo, cabedais, chicotes e afins? E não soubeste, dizes tu? Credo! Pobre amigo!
    Na próxima usa o mail, ruivasconeto@gmail.com . Ou grita, assobia, homem!

    (tens então trabalhado muito… temos produção fresca?)

  5. Valupi,

    Não te sabia um fetichista da etimologia. Desde há bem 100 anos que o port. «sucesso» é sinónimo de «êxito», e há muitos mais que «êxito» não é sinónimo de «saída».

    Que tu tenhas esses vícios, soit. Mas, a carregares o Teu Presidente com os chiques vícios dos seus súbditos, então é que o homem vai ficar sem tempo, e sem energia, para falar. E para pensar nem se fala.

  6. Ana, concordo. Não tem nada, de nada, para dizer. E nunca teve. Apenas acontece estar numa função onde a palavras podem valer ouro e salvar. Azar o nosso se o tempo do seu mandato for, mais uma vez, desperdiçado.
    __

    susana, também concordo contigo.
    __

    Fernando, nem eu te sabia avesso à ironia, ao lúdico e ao subtexto. Mas consola-te: isso do sucesso ser um êxito tem bem mais do que 100 anos (como sabes tão melhor do que eu). E quanto ao léxico sem saída, idem; mas não para os amigos anglófonos, ressalvo. Problemas que escapam ao Presidente, és misericordioso em apontar, e talvez para seu merecido descanso.

  7. Amigos, falha-vos a memória. O presidente do Valupi até costuma falar no Natal. Com a boca cheia de bolo-rei, para a televisão e tudo, lembram-se? Tudo o que cessus suc são detalhes de somenos…

  8. Ora bem, eu então aceito que foi um ‘indiscutível sucesso’, o que só pode significar que 2008 vai ser um ano em grande para os tugas, incluindo para mim, certo? É que com a lição de semântica do Valupi fiquei a saber que um sucesso mede-se pelo seu futuro imediato.

    E portanto, caro Presidente, se 2008 não for um grande ano para muuiiiiitos de nós, a sua credibilidade vai abaixo porque se A implica B isso equivale a dizer que não-B implica não-A, estamos vistos?

    (Valupi, olha aqui a história da borboleta: http://economia.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1314617)

  9. curti mesmo Valupi. São coisas que já sabíamos mas está bem explicado e circunstanciado. Eu agora tou calado que o tricheur até já fala espanholês… Mas o danado injectou uma data de milhar de milhões e está à espera para pôr aquilo a render mais. O barbas do Fed é que tem sido nice, sacrificou a taxa de juro à criação de emprego, mas como eles têm as guerras também não sei.

    O argumento da estabilidade dos preços no médio prazo é uma treta, basta ver como subiu a bica nos últimos 10 anos, mais do dobro.

    Eu queria a taxa de juro a três por cento porque gosto de adágios populares.

  10. o que será quer isto quer dizer?

    “Bancos abandonam fundo de emergência. Os três maiores bancos americanos desistiram do “super-SIV.”.

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