Metrónomos

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Hoje, dia da assinatura do Tratado de Lisboa, a rede do Metro está aberta ao povo. Oportunidade para me recordar de uma das várias ideias brilhantes que tenho desenvolvido para futura, mas inevitável, glória. Consistiria em passar música nos altifalantes das carruagens. De tão simples, é desesperante ainda ninguém se ter lembrado: o sistema já existe, só falta dar-lhe uso. E quais as vantagens? As óbvias dizem respeito ao estado anímico da população, o serviço de musicoterapia: o deprimido ganhando ânimo, o ansioso recuperando a calma, o paranóico esquecendo-se da perseguição, o bipolar encontrando um equador, o esquizóide finalmente em harmonia com a realidade onírica. Toda esta massa laboral chegaria ao emprego em condições de render o máximo ao serviço do patronato ou do público pagante de impostos. Notas para o Orçamento Geral do Estado, o PIB a cantarolar feliz.

Comigo à frente do Metropolitano de Lisboa, ou do Metro do Porto, esta genial ideia receberia um genial acrescento: cada carruagem teria um tipo de música diferente. Possibilidade de escolher a música consoante o biorritmo ou a panca de ocasião, mas também a socialização facilitada, cada outro ao nosso lado um pouco menos estranho; de interior sonoro, ou até canoro. Teríamos era, democraticamente, de referendar os géneros musicais e artistas a escutar, dada a limitação de unidades transportadoras. Qualquer utente com título de transporte válido, independentemente da sua estação de embarque ou destino, poderia votar a cada 4 meses (ou assim). Eu votaria para a existência das carruagens da Amália, da música folclórica alentejana e do Max. Depois, ganhando ou perdendo, o resultado seria sempre música para os meus ouvidos.

Com o tempo, correria mundo a lenda de uma cidade onde os seus habitantes dançavam debaixo do solo. Dançavam a caminho do emprego. Dançavam a caminho de casa. Dançavam porque iam daqui para ali. E, roído de curiosidade, pela primeira vez um deus desceria à terra só para andar de Metro.

coisas que me irritam

A propósito de operadoras de telecomunicações móveis, a TMN tem desenvolvido uma campanha vergonhosa no sentido de extorquir dinheiro às camadas mais jovens (e às outras, mas estas são mais ingénuas), actualmente detentoras de uma boa fatia do mercado. Sob o pretexto de uma qualquer comemoração, começaram por enviar um sms informando acerca de uma promoção, com vários prémios diários e outro final. Para o cliente se habilitar deve enviar um sms para um determinado número, operação que custa a módica quantia de 99 cêntimos. Enviado o dito sms, inicia-se uma conversa: perguntam o nome, oferecem pontos em troca de outras mensagens e, neste para cá e para lá, o cliente já esgotou o carregamento que tinha feito minutos antes. A informação sobre o preço das mensagens consta apenas de algumas, podendo o cliente presumir, erradamente, que as restantes serão cobradas segundo o valor corrente, previamente estipulado por contrato.
A estratégia de engano é tão transparente que chegaram a enviar uma mensagem com o seguinte texto «TMN INFO: Nesta mega-promoção os SMS que recebes são gratuitos. (…)» Os sms que recebes?! Qual a novidade? Pois, mas o meu filho só viu gratuito e veio a correr avisar-me que já podia voltar a entrar no jogo. Posteriormente passaram a um pseudo-concurso, com perguntas difíceis tais como «Filho de peixe sabe 1-Nadar; 2-Cantar» ou «Vê lá se sabes esta: quem traz as prendas de Natal? 1-Pai Natal ou 2-Aladino».
Nem um nem outro, digo eu. Quem traz os presentes de Natal são aqueles mesmos que, agora mais depauperados pela campanha da TMN, vão ter alguma dificuldade em pôr prendas no sapatinho.

Ficheiro

Criei o ficheiro para as tuas mensagens
Que envias com a força das montanhas
Vens do lugar entre dois rios selvagens
Entre vinho, azeite, o pão e as castanhas

Quando abro o ecran é logo o primeiro
São quinze as tuas mensagens repetidas
Muito mais do que o espaço do ficheiro
Conta mais o seu lugar nas nossas vidas

Das palavras que nós trocamos à procura
De ir salvar um dia todo nuns momentos
Em que transmitimos gestos de ternura
No meio desta confusão de sentimentos

Quando oiço o teu sinal no verde ecran
Esteja onde estiver fico mesmo ligado
À tua voz doce onde é sempre manhã
E que eu levo comigo para todo o lado

«Um leão no pátio das traseiras»

Poema de José Ricardo Nunes, de Apócrifo, volume que a Deriva Editores lançou recentemente

Rebola-se no pátio das traseiras.
Digere a sua presa –
armadilhado o músculo
pela sua própria realidade.

Zelo pela fera clandestina
protegido dos acusadores
olhares piedosos. Também a mim,
diz o Pedro, a natureza não perdoará:
imagem sempre aquém.

Viera a gazela beber.
Ficaram os seus restos
à margem do curso de água
em vão imaginado por condoído tempo
para salvar a gazela do leão,
o leão do leão,
e o autor não se sabe de quê.

texto de Natal

O nevoeiro da véspera à noite fez-nos desistir da viagem. Chegámos à hora do almoço, já o sol se tinha tolhido e assomava debaixo do chumbo das nuvens. Ela chegou e avisou que, se fôssemos logo, apanharíamos a procissão e a banda, dali a nada, a passar na casa lá de cima.
Devidamente agasalhados subimos à aldeia, mesmo a tempo. Os miúdos estranham e interessam-se, fazem perguntas. Uma ignorância que me surpreende. Geração alheada dos rituais religiosos, familiares mesmo aos não-crentes da nossa. Como se chamam aqueles homens das igrejas, mãe? Os padres? Isso. Aponta o pálio. Então aquele deve ser um, pelas roupas. Tia, porque estão eles a falar todos ao mesmo tempo? Estão a rezar. Três santos pré-púberes em terilene muito branco, com cordões na cintura, um anjo com asas de peluche e duas nossas senhoras, miniaturas da que vai sobre o andor, concentram as atenções.
Há qualquer coisa nas bandas filarmónicas que me enche os olhos de lágrimas. Nunca percebi se é comoção pela música que une pessoas tão diversas de uma comunidade, oferecida aos estranhos na rua, ou se é porque todas me trazem a esta, que conheci sempre. O meu grande observa os músicos, sorri-me, e propõe que sigamos atrás da procissão.

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INFÂNCIA(S) REVISITADA(S)

Texto de José Luiz Tavares, lido no colóquio «Baltasar Lopes e a Claridade», organizado pela Universidade de Coimbra

Meu caro Chiquinho,

Faz agora sessenta anos que o teu criador te pôs no mundo. Nesta horinha da tarde, neste espaço hoje feito território de partilhas, não me cabe dizer do intrincado labirinto de leituras e desleituras, das profundas e subtis revelações que outros mais abalizados hão-de fazer. Venho apenas desfiar contigo os fios dessa rude infância nossa, desconhecidos que somos embora no comum chão da nossa desventura.

Embora sem vocação para o desmando, nunca fui dado às catequeses, teológicas ou outras; se bem que grata a recordação dessas tardes de domingo em que deus não desceu sobre nós em forma de língua de fogo, nem consumidos fomos pelas inextinguíveis chamas do inferno. Isto tudo para te dizer, Chiquinho, que não gosto do literário respeitinho, das dominações que se erguem em sacralidade, tentando sujeitar todo o dizer novo a uma ordem que ele próprio rejeita. Entendo que é no confronto com as práticas discursivas novas, encarnando desígnios que poderão ser opostos aos seus, que a tradição se erige como magma que expele fogos vivificantes, não como mortal cinza que impede a germinação do que pelo seu conseguimento e pela sua centralidade há-de constituir-se como novos modos da tradição.

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Ai podes, podes

Podemos trocar de sofrimento? Se todos precisamos de mudar, nem que seja para acompanhar as alterações inerentes ao viver, ninguém o precisa mais do que as mulheres. A sociedade e a biologia constrangem as mulheres em modos que escapam à percepção masculina, nuns casos, e que favorecem o poderio do macho, noutros. Herança da animalidade, fase intermédia no processo de criação do humano, mas absurdo destrutivo a pedir urgente revolta. Diferenças salariais, maior desemprego, promoções profissionais dificultadas, afastamento do palco político, discrepâncias no conhecimento médico, ignorância das especificidades psicológicas femininas, redução à sexualidade consumista dos machos, violência doméstica, crimes passionais, eis algumas das ignomínias com as quais convivemos cúmplices ou entusiastas. E não vale a pena esperar pelos homens para modificar a situação, pois ela lhes é favorável; de resto, os homens são estúpidos, nada entendem do universo feminino. Terão de ser as parvas das mulheres, a partir do seu corpo e casa, a resgatar a Humanidade. A partir da sua justíssima e salvífica raiva – ou seja, da sua vontade; a única dimensão onde mulheres e homens são absolutamente iguais.

Continuar a lerAi podes, podes

Todos ricos!

Em menos de 24 horas, recebi de três amigos (sim, isto têm que ser amigos mesmo) a mensagem abaixo. Eu – compreenderão – estou em pulgas para entrar na dança. Fazia-me um jeito do camandro um cashezinho. Mas não queria meter-se assim à aventura, gostaria de consultar alguém primeiro. É que tenho a estranha sensação de que, nos últimos dez anos, já li isto trinta e oito vezes. Há por aí peritos na coisa? Tem alguém uma história tão emocionante (e proveitosa) como a irmã do namorado da pessoa? Digam, digam.

Borla da Microsoft.

Leiam e reencaminhem, vamos lá a ver se é verdade ou não. Não sei se acredito nisto, mas se for verdade, ficamos todos ricos!

Olá a todos!

Tenho recebido esta mensagem de uns amigos franceses e belgas e parece que está a correr sorrateiramente por toda a Europa. Habitualmente, não costumo enviar/reencaminhar este tipo de mensagem do tipo ‘passa a palavra’, mas esta é muito curiosa… A mensagem que recebi é da parte de uma advogada amiga de uns amigos chamada Séverine e ela garante que esta cena é a valer. Pelo sim pelo não, traduzi o mail que recebi e deixo cada um julgar por si… Mas se for verdade, não digam que não sabiam!!! Não há nada a perder.

Eis o que ela me enviou: (mais ou menos…) «Sou advogada e conheço a lei. Não menosprezem a validade desta informação, isto é real. A AOL e a INTEL cumprirão a sua promessa pois temendo de serem processados e pagar posteriormente indemnizações multimilionárias como no recente caso da PEPSI COLA contra a GENERAL ELECTRIC. Aparentemente, Bill Gates está a partilhar uma porção da sua fortuna. O MS WINDOWS continua a ser o sistema operativo mais utilizado, e isto não é mais do que um teste para a Microsoft e a AOL avaliarem isso pelo menos de envios/reenvios deste mail.

Quando reencaminhar este mail, no caso de ser um utilizador de MS Windows, a Microsoft fará um seguimento dos reenvios durante 2 semanas. Quer isto dizer que, por cada pessoa que reenviar este mail, a Microsoft pagar-vos-á 245 EUROS (independentemente do emissor). Mais, por cada pessoa que reencaminhe o mail após vocês lho terem enviado, a Microsoft pagar-vos-á 243EUR. Após a 3S [???] pessoa que receber o mail, a Microsoft pagar-vos-á 241EUR. Em duas semanas, a Microsoft entrará em contacto convosco para confirmação de endereço postal e envio do cheque.»

Ela ainda acrescenta: (LEIAM!) «Eu julgava que isto era uma burla, mas duas semanas após ter recebido e reencaminhado este mail, fui contactada pela Microsoft para dar o meu endereço. Recebi um cheque mo montante de 24.800EUR (!!!). Deve responder antes que este teste termine, pois se alguém se pode permitir isto é bem o Bill Gates. Para ele, trata-se de uma despesa de comercialização/marketing. Provavelmente, não cooperaríamos com eles se não houvesse qualquer compensação…»

Ela conta ainda que a namorada do irmão recebeu um cheque de 4324,44EUR; a tia de uns amigos que trabalha na Intel recebeu mais ou menos o mesmo 4543,23EUR. Diz ainda: «Como vos disse, conheço bem a lei e isto é real. A INTEL e a AOL estão a negociar uma fusão para tornarem-se na companhia mais abrangente do mundo e certificarem-se da continuidade como o sistema operativo mais utilizado.»

Isto é traduzido do francês em calão, mas eu estou vai-não-vai. Esclareçam-me! Segurem-me! Eu sou pobre, mas não queria riscos. Miserável deve ser bem pior.

«Poesia em verso»

de Rui Caeiro, Afonso Cautela e Vítor Silva Tavares

Três poetas juntam poemas em livro, com a qualificada ilustração de Luís Miguel Gaspar. É um encontro ao arrepio da literatura triunfante que vende livros em barda e aparece na TV.

Rui Caeiro lê a sua relação com a cidade em «Travessa dos Remolares». Depois de enumerar a paisagem e o povoamento, conclui: «No parco mostruário da Travessa esqueci-me de alguma coisa? / Sim e por sinal do mais importante: a montra com frangos torturados no espeto, / possível antevisão do inferno (como se a própria rua já não bastasse) / ou então resquício dos tempos da Santa Inquisição». A sua ligação ao Mundo revela-se em «Uma certa vontade de chorar»: «Porque não vais ao médico? Tornam, pressurosos, os mais chegados /logo passando a sugerir conhecidos e sonantes nomes de médicos, psicólogos, psicanalistas, tarólogos, há-os que fazem milagres. /Procuro convencê-los de que essa vontade de chorar é qualquer coisa de bom na minha vida.»

Afonso Cautela usa o humor como aproximação ao Mundo no excerto dum poema: «Se é português já se sabe que foi / sempre a queixar-se da perna que lhe dói / Deste chamado rectângulo desta chamada pátria / deste chamado país deste chamado Portugal / Que ficou como novo depois de ser pintado / e ficou à espera de um voto para deputado».

Vítor Silva Tavares usa a ironia para falar do Mundo («Frente à sopa do Sidónio/vejo um velho cor de azia/todo feito num harmónio/por misericordia /Então e aquela velha/que me estende a garra esguia?/Basta: não há telha / para tanta democracia») e conclui com graça um retrato das letras lusas: «Eu queria ser peixoto/de aquário/a voltear/no esgoto/literário. Eu queria ser o mia/a miar pretoguês/ao balcão onde avia/um romance por mês./Eu queria ser antónio/e lobo como ele/a espremer do neurónio/um antunes de fel./Eu queria ser eugénio/lorca no porto/a oxigénio/depois de morto.» 
     

Desenhos de Luís Miguel Gaspar

Editora: Livraria Letra Livre

«Esquecimento»

O Público que se lixe. Eu também paguei para o ler. Ou prometa-me você que, acabando esta história, vai à rua comprar o jornal. É, mais uma vez, do imprenscindível Paulo Moura que se trata.

Lida a história, traduzam-na para inglês, para francês, para swahili. E vão a Lisboa, ao Parque das Nações, lê-la em voz bem alta e bem colocada. Um ouvinte, um só ouvinte, chega. Bom domingo.

*

Mortada era um homem bom. Sei que a frase é má e quem a escreve não é melhor, mas Mortada, esse, era bom. Talvez fosse o último homem bom do planeta, o que, pelo menos, me iliba de estar a usar um lugar-comum. Era sudanês e vivia em Cartum, mas, como não encontrasse emprego na capital, decidiu partir para o Darfur. Disseram-lhe que talvez ali pudesse trabalhar como tradutor, com alguma das organizações humanitárias internacionais.

Chegou a Nyala no mesmo dia que eu, conhecemo-nos no mercado e contratei-o como guia-intérprete. Partimos imediatamente para o mais próximo campo de refugiados.

Mortada era muito organizado e fluente em Inglês. Tinha tudo para ser um excelente guia-intérprete, excepto isto: não fazia ideia do que se passava no Darfur. Nunca tinha ouvido falar da guerra nem de refugiados, muito menos de limpeza étnica ou de genocídio. Simplesmente não sabia. A televisão e os jornais em Cartum ocultavam os acontecimentos da província do Leste.

Fui eu quem explicou ao sudanês Mortada a situação no Darfur. Ele não queria acreditar, mas logo a seguir chegámos ao primeiro campo de refugiados, em Oteich, e viu. Em Oteich, havia 18 mil deslocados. Mas em Asseref, que visitámos no dia seguinte, havia 70 mil. E em Kalma, onde fomos depois, 85 mil.

Mal entrávamos, as pessoas rodeavam-nos, anelantes e desesperadas. Queriam contar as histórias das suas aldeias atacadas pelos janjawid, as casa destruídas, as famílias assassinadas. Mas desfaleciam aos nossos pés, de fome, cansaço e doença. Havia mulheres que tinham perdido os maridos e os filhos, homens feridos de balas e morteiros, crianças desmaiadas de desidratação, ressequidas, cheias de moscas.

E todos queriam falar ao mesmo tempo, empurrando-se, esmagando-se uns contra os outros e contra mim, numa amálgama fétida e mórbida.

O trabalho de Mortada não era fácil. Tinha de conter a turba, manter a ordem, assegurar que falava um de cada vez e traduzir. E fazia tudo isso, mas ao mesmo tempo chorava. As lágrimas começaram a correr-lhe pela cara no momento em que chegámos ao primeiro campo e nunca mais pararam. Levaria o resto da vida a ajudar os deslocados do Darfur, dizia ele, indignado por nunca lhe terem contado nada.

Emocionava-se com cada história que ouvíamos, e lembro-me de que, numa delas, se abraçou a uma mulher grávida, prometendo ajudá-la. Chamava-se Rasha Adam Ateib, tinha 25 anos e contou que vira o marido morrer, juntamente com toda a população da sua aldeia. Única sobrevivente, gravemente ferida, acabava de chegar ao campo, não conhecia ninguém e ignorava como chamar a atenção dos demasiado ocupados médicos noruegueses. O bebé, Mohamed, ou Mariam, ia nascer e ela precisava de ajuda. Mortada prometeu avisar os médicos.

Várias horas e muitas histórias depois, falaríamos com a equipa médica. Fizemos perguntas, discutimos problemas, mas Mortada esqueceu-se de Rasha. O dia fora demasiado longo. Aquela história perdeu-se na sua mente de homem bom.

Quando, antes de adormecer, se apercebeu da falta, era tarde. Chorou ainda mais, apertando a cabeça entre as mãos, com um olhar de louco. Mas era impossível voltar atrás ou encontrar de novo aquela mulher. O bebé ia nascer e provavelmente morrer a seguir, juntamente com a mãe, porque Mortada se esqueceu deles. Mortada, o homem bom.

Eu não devia gostar deste livro

Acabei, finalmente, Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares. Fecho o livro, e logo abro o ante-rosto. Assusto-me. Tem uma dedicatória, com data de «Out. 2004». Só pode ter sido no dia da entrega do prémio Ler, no Teatro São Carlos. Nunca antes, nem depois, encontrei o autor.

Por uma vez «livro de cabeceira» não foi força de expressão. Tenho um montinho deles, onde este andou a descer e a subir. Acompanhou-me em insónias, ou fui eu que arranjei insónias que ele acompanhasse.

Agora que o acabei, tenho a incómoda sensação de que deveria não gostar dele. Mas gosto. O que é incompreensível. Ele tem tudo o que eu detesto na ficção: desordem, secura, solavancos. É isso, é um solavanco do princípio ao fim. Passa-se, para mais, em parte incerta, algures numa Mittel-Europa com que não tenho a mais ténue das afinidades. Vive-se época indefinida, onde há cabine telefonónica na rua, mas quase nada mais como referência.

E todavia sei que acabo de ler um dos grandes romances desta nossa literatura. Um romance de que gerações hão-de falar, e onde decerto descobrirão os exactos traços do nosso tempo, esses traços que, por definição, nos são indecifráveis.

Engano meu, esse futuro para o livro? Numa coisa não me engano. Por alguma razão – obscura mas não ignorável – aquela rude, rugosa e estranhíssima escrita me terá encantado anos a fio, quando outras se me perderam, irrecuperavelmente, de vista.

E essa razão hei-de desenterrá-la.

Cincar

É uma daquelas coisas perfeitamente inúteis. Fotografia obsoleta na própria revelação. E testemunho estranho ao gosto dos outros, desasado, soporífero. Mas como veio da zazie, e é uma estreia para mim, alinho:

The Sun Shines Bright – John Ford

Chelovek S. Kino-apparatom – Dziga Vertov

Mr. Smith Goes to Washington – Frank Capra

La Dolce Vita – Federico Fellini

Recordações da Casa Amarela – João César Monteiro

Passo-o às seguintes individualidades, embora desconfie que estejam ocupadas demais para entrar na brincadeira:

Bass, Bernard, Eva, Archibald, Hitch

Que pena

140 anos de orgulho pátrio tiveram duas celebrações gloriosas: a moratória aprovada na ONU, em Novembro, e o Dia Europeu, aprovado agora. Dá-me ganas de ir celebrar para as ruas, marcar jantares com amigos, embebedar-me e fazer inflamados discursos. Porque a pena de morte é uma aberração ou, tão-somente, uma imbecilidade letal. Aliás, todas as imbecilidades matam, mesmo que não tão depressa.

Pois. Mas dá-se o caso de estar em Portugal. E como é que um português, que ama Portugal, pode expressar o seu entusiasmo pelo excelente e honroso trabalho de um grupo de compatriotas que volta a pôr a nossa memória, e a nossa identidade, no ponto mais alto da Civilização? Por uma equipa de futebol, enchem-se as cidades em festa e todos os políticos correm para a fotografia. Por estes marcos históricos, que dignificam as gerações passadas e as futuras, apenas palavritas de circunstância – ou um silêncio repleto de nojento desprezo.

Muitos nasceram em Portugal, vivem em Portugal e em Portugal se arrastam. Mas não são portugueses. Que pena.

Amor aos Pedaços

Deus não chegou ainda (embora a sombra dele bata algures), mas o texto disponível chegou ao fim. Aqui vai o capítulo 12, último da primeira parte, de Deus chega no próximo avião. Este será, daqui em diante, e por muito tempo, um livro em que se pegou, mas depois esquecido na estante, ou no comboio, ou – acontece aos melhores – no avião. Um dia a gente dá de novo com ele. E tem de relê-lo do princípio… Obrigado pelo bocadinho.

*

Dormi esta noite como, parece-me, há anos não acontecia. Nem mesmo aqui, na Foz do Lizandro, onde os sons do mar chegam temperados, embora actuantes. Calhou-me um sono profundo, uma ausência sem margens. E hoje amanheceu este sábado calmo. Ou sou eu que não ouço nada, depois da ventania de ontem à noite, à vinda. O carro abanava, fazendo ameaços de sair da estrada. Foi fazer o jantar, ver alguma televisão, e cama connosco. Vínhamos, eu e a Noémia, estoirados da semana. Só pela madrugada nos vieram as forças, e a gana, para o que, há sete tão longos dias, trazíamos no sentido.

Ainda estou por saber quando, e porquê, este ritmo semanal se impôs. Podíamos tranquilamente ir dormir, em Lisboa, a casa um do outro nos dias de trabalho, pelo menos jantar juntos. Mas não. Telefonamo-nos, trocamos alguma notícia mais inadiável, e guardamos para sexta à noite, já aqui, as peripécias, o estômago, os braços e o mais. Só de longe em longe nos aventuramos a algum excesso – sim, tem um parvo sabor de excesso –, como irmos tomar uma bica a Cascais, ao «Amor aos Pedaços», o café com o nome mais lindo do país, diz ela, que foi, cá por coisas, também onde nos vimos. Ou a Sesimbra, comer um peixe fresco, o sítio dessa tarde em que fizemos a declaração. Declaração. Só o termo já é infantil, mas o amor tem firmes propensões lamechas. E, num sítio ou no outro, sublinhamos sempre com qualquer pieguice o fortuito dessas entrevistas.

Teremos descoberto, ela e eu, nos nossos casamentos, que a distância preserva? E será isso tão evidente que só o formulá-lo já desmereceria? Living apart together: tem a sua graça. Às vezes penso que, se gostássemos um do outro como deve ser, não conseguiríamos aguentar esta rotina, este refinamento de organização. Que, se estivéssemos mesmo apanhadinhos, também algum de nós, ela ou eu, haveria de quebrar este contrato, vendo bem, idiota. Ora, em quatro anos, nunca isso sucedeu. E, todavia, eu sei que, confessasse-me a Noémia, alguma vez, «Esta semana não me apetece ir», eu entraria em puro pânico.

Foi agora à aldeia, buscar o pão e o leite. Nem dei por ela sair. Deixou aberta para mim a janela: sabe como adoro acordar com um quadrado deste céu e a presença adivinhada do mar. Em momentos assim, é como se o Universo inteiro batesse certo. Não bate, cretino. Mas um homem não sobreviveria sem estes momentos de evasão. Só não sei é como se evadem os outros, como sobrevivem. Também nunca o saberei. Nunca com exactidão saberemos nada de ninguém. Vou fazer um café.

Pois é isto, pôs-se uma manhã esplêndida. Curioso como um dia assim vem sorrateiro. Se os estores ainda estão corridos, imaginamos, talvez por contiguidade, um céu baixo, encoberto. E a chuva, essa, simplesmente ouve-se. É isso, um dia de sol não é audível. E por isso surpreende. É de pôr poética uma pessoa.

Não sei ainda, nem interessa muito, em que vou ocupar-me hoje. Obriguei-me sempre a não trazer programa. Deixo em casa originais, apontamentos, o lap top, a própria agenda. Trouxe só aqueles dois livrinhos da concorrência, um romance, O Exemplar Perfeito, e um volume de contos, O Último Pôr-do-sol do Século Vinte, insistentemente recomendados por crítica de diversa plumagem. Levo-os, se calhar, para a praia, logo. Ainda não serão tempos de banho, mas a areia deve estar uma delícia. E depois já sei, desencaminha-se-me a atenção, e a leitura fica à espera.

Gostava de uma vida exactamente assim. Sem obrigações, tépida e ronceira. Da cama para a praia, da praia para a mesa, da mesa para a… Mas, depois, até essa regularidade matava o melhor numa pessoa. É isso: a existência ideal teria de ser imprevisível, uma surpresa perdurável, uma serena expectativa sem descanso nem desfecho. Enfim, o café a borbulhar, e eu derivando.

Vejo ao longe o carro da Noémia, fazendo a curva dos sobreiros. Dentro de cinco minutos está aqui. Trará quatro carcaças, ainda quentinhas e estaladiças, e talvez uns bolos frescos, de impacientar salivas. Este café, está visto, não vai chegar.

«Sortilégios da Terra», de Zetho Cunha Gonçalves

O projecto deste livro é um regresso: «Mudar de sol – regressar / à pele interior do ar.» Nascido em Nova Lisboa (1960), é em Lisboa que o poeta recorda os sortilégios da terra: «Tabaibeiro não morre de velhice / nem de sede, doente – fruto esquecido de apanhar logo se transforma em folha – escultura mudável, permanente. / Não tarda – sortilégios da terra: dá fruto.»

A poesia deste livro surge da memória de um tempo passado. Para o fazer viver de novo o poeta canta no presente: «Loengueiro não se planta – nasce: / sortilégio da terra, / no meio do mato, / pelas terras todas / do Huambo – até ao mar.» O poema não só nomeia o espaço e o tempo; inscreve-se como espaço e tempo: «Churiungo / é das palavras mais antigas – a voz, / fruto bilingue / da infância.» O poema tem a forma da cabaça porque a cabaça tem a forma de poema: «Crescem ao rés da terra / sob a manta longa / de frescura e sombra – para lugares de repouso / fermentação da quissângua e da capata – as cabaças. / Crescem ao rés da terra / imputrescíveis, / esculturados poemas – as cabaças.» O poema surge como uma ponte entre as terras do fim da Europa e as terras do fim do Mundo: «No Cutato as montanhas dançam – de gente / e de caminhos do mato / ao meio-dia em ponto. / No Cutato / entre Vila da Ponte / e o Chilandangombe / a caminho de Menongue / ou do Chitembo / abrem-se as portas das terras do fim do Mundo».

Este é um livro de quem conhece bem a terra, seus ritmos («Criança come goiaba – vai no mato: nasce goiabeira. / Quatro luas e uma chuva depois.») e seus desígnios: «a Terra que tudo dá, tudo, tudo devora!»

Editora: Bonecos Rebeldes

nido franco na neve

Finda, encrave no nó
Forno encena vinda
Vendo cana, inferno
Forno na neve cinda
Ninfa cor de novena
Dança fé no inverno

Cone, nervo, fornada
Vença nona ferindo
E CNN fode nirvana
Rança veneno findo
Vendo fino na carne
Rane, fane convindo

Neva, condeno finar
Venci nora, nefando
Na nave conferindo
Neve fina cornando
Vinca fenda no Reno
E finca nervo, Nando