Ai podes, podes

Podemos trocar de sofrimento? Se todos precisamos de mudar, nem que seja para acompanhar as alterações inerentes ao viver, ninguém o precisa mais do que as mulheres. A sociedade e a biologia constrangem as mulheres em modos que escapam à percepção masculina, nuns casos, e que favorecem o poderio do macho, noutros. Herança da animalidade, fase intermédia no processo de criação do humano, mas absurdo destrutivo a pedir urgente revolta. Diferenças salariais, maior desemprego, promoções profissionais dificultadas, afastamento do palco político, discrepâncias no conhecimento médico, ignorância das especificidades psicológicas femininas, redução à sexualidade consumista dos machos, violência doméstica, crimes passionais, eis algumas das ignomínias com as quais convivemos cúmplices ou entusiastas. E não vale a pena esperar pelos homens para modificar a situação, pois ela lhes é favorável; de resto, os homens são estúpidos, nada entendem do universo feminino. Terão de ser as parvas das mulheres, a partir do seu corpo e casa, a resgatar a Humanidade. A partir da sua justíssima e salvífica raiva – ou seja, da sua vontade; a única dimensão onde mulheres e homens são absolutamente iguais.

Aposto que sou a única pessoa em Portugal a quem o nome Cherry Collier desperta qualquer tipo de associação mental. Graças ao deus Web, fiquei a conhecer esta simpática e nervosa norte-americana. É psicóloga, escolheu o mercado da auto-ajuda e do coaching para ganhar o pão, e nunca será mais do que aquilo que é neste momento: ilustre anónima para 99,9999% da população mundial. A escrever, limita-se a reproduzir as banais fórmulas da indústria, sendo apenas mais uma no meio de milhares a fazer o mesmo: consultoria, conferências, livros, actividade mediática. É na sua audição que algo de anormal acontece: temos a certeza de que esta pessoa acredita no que diz. Acredita porque está, no fundo, a falar de si própria, daquilo que procura para a sua vida. Ora, tendo em conta que estamos perante uma mulher preta habitante no Estado da Geórgia (onde as memórias do racismo estão não só frescas como ainda em ferida aberta), a sua experiência de sofrimento ganha uma relevância que ultrapassa o propósito comercial da mensagem. É o que te convido a intuir na audição dos seus programas de rádio, especialmente no recente Sick and Tired of Being Sick and Tired? É notável o efeito de intensificação emocional obtido com a repetição hipnótica de uma fórmula, a lembrar o gospel e demais contextos litúrgicos onde o ritmo das vocalizações altera o estado de consciência. Tirando a forma, o conteúdo é neutro, sem ideologia. Trata-se de um repto que espelha a psicologia feminina no seu mais raro: a decidir-se pelo amor-próprio (coisa bem diferente do usual narcisismo fracturante e obsessivo). E a novidade está na dinâmica que leva à acção; não por enchimento (de conselhos, soluções, palavras, ajudas de terceiros), mas por esvaziamento (de toda e qualquer esperança, de toda e qualquer ilusão), indo buscar forças ao ódio. Novidade? Sim, até para as próprias mulheres, pois nem todas conseguem libertar-se do Diabo, o protector e multiplicador do erro que consiste em adiar a procura do Bem.

A nossa Cherry oferece, no momento em que escrevo, 51 palestras radiofónicas. Também disponível para o iGoogle, a sua obra e actividade não têm qualquer valor para a ciência ou para a cultura, jamais seria recomendada pelos intelectuais jornaleiros. O terreno da auto-ajuda compete, em grande parte, com o mercado das superstições tipo astrologia e Tarot, fornecendo um produto simplista e tão mais enganador quanto se reclamar com fundamento científico. Porém, onde estão os sábios quando temos de tomar decisões? Estão eles próprios à nora com as neuroses e disfunções de estimação privada, e as suas palavras escritas não movem as nossas montanhas. É nisto que pode ser útil a exposição a uma voz onde nos reconhecemos no mesmo drama. Uma voz que não está só a representar, mas também a apresentar-se tão humilde, tão nua e abandonada, quanto nós.

Podemos mudar de sofrimento, passando de um que é destrutivo para outro que seja realizador? Não sei, porque depende de mim, porque depende de ti. Depende do que ainda não aconteceu, o mistério de o nosso destino ser a liberdade. Mas sei que podes agarrar nestes podcasts e andar por todo o lado a ouvi-los no teu iPod. Ai podes, podes.

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