INFÂNCIA(S) REVISITADA(S)

Texto de José Luiz Tavares, lido no colóquio «Baltasar Lopes e a Claridade», organizado pela Universidade de Coimbra

Meu caro Chiquinho,

Faz agora sessenta anos que o teu criador te pôs no mundo. Nesta horinha da tarde, neste espaço hoje feito território de partilhas, não me cabe dizer do intrincado labirinto de leituras e desleituras, das profundas e subtis revelações que outros mais abalizados hão-de fazer. Venho apenas desfiar contigo os fios dessa rude infância nossa, desconhecidos que somos embora no comum chão da nossa desventura.

Embora sem vocação para o desmando, nunca fui dado às catequeses, teológicas ou outras; se bem que grata a recordação dessas tardes de domingo em que deus não desceu sobre nós em forma de língua de fogo, nem consumidos fomos pelas inextinguíveis chamas do inferno. Isto tudo para te dizer, Chiquinho, que não gosto do literário respeitinho, das dominações que se erguem em sacralidade, tentando sujeitar todo o dizer novo a uma ordem que ele próprio rejeita. Entendo que é no confronto com as práticas discursivas novas, encarnando desígnios que poderão ser opostos aos seus, que a tradição se erige como magma que expele fogos vivificantes, não como mortal cinza que impede a germinação do que pelo seu conseguimento e pela sua centralidade há-de constituir-se como novos modos da tradição.

Embora tenha concluído o liceu há pouco mais de vinte anos, eu não me lembro, Chiquinho, de ter lido a tua saga do princípio ao fim, se bem que uma ou outra passagem se me revelasse familiar, fruto talvez duma leitura saltitante (apardalada, dirias tu) ou porque as conhecesse dalgum compêndio ou selecta. Daí a surpresa de descobrir uma imagética quase semelhante, consubstanciada na imagem da casa, quer na abertura do romance que leva o teu nome, quer no meu inaugural livro de poemas «Paraíso apagado por um trovão».

Senão, vejamos:

«como quem ouve uma melodia muito triste, recordo a casinha em que nasci, no Caleijão. O destino fez-me conhecer casas bem maiores, casas onde parece que habita constantemente o tumulto, mas nenhuma eu trocaria pela nossa morada coberta de telha francesa e emboçada de cal por fora, que meu avô construiu com dinheiro ganho de-riba da água do mar.(…). E lá toda a minha gente se fixou. Ela povoou-se de imagens que enchiam o nosso mundo. O nascimento dos meninos. O balanço da criação. O trabalho das hortas e a fadiga de mandar a comida para os trabalhadores. (…) Mamãe deslizava como uma sombra no trafêgo da casa. Mamãe-velha não parava indo de um lado para outro, como se nada pudesse fazer-se sem a sua fiscalização e os seus gritos. A minha avó só sabia querer a sua gente descompondo.»(Chiqinho, págs. 11/12).

E «Paraíso Apagado por um Trovão», primeiro poema, página 13:

Ali fora a casa. Lugar
das domésticas deflagrações.
Da inércia dos clangorosos abraços.
Dos animais feridos de lassidão
nas manhãs que o nevoeiro cerra.

Tão cedo nos buscava a treva
mais felina, ombros de susto
no verdor dos quinze anos.
O pó da última estrela,
um aconchego lasso
contra a tua pele tão escura.

A linha obediente da ascendência
o motim dos pequenos desafectos,
prendiam-nos num cerco sem armistício.

Hinos, rogas, ladainhas,
o turíbulo fabricando a cerração,
o cata-vento sonhando alto a intempérie,
naufragam agora por rupestres aterros;

pois, é tão cedo que a mágoa
nos visita com o jeito pirómano
que a chuva não apaga.

Mas, da cativa luz argentando
os eirados, aonde formos
contunde-nos seu lustro de antiguidade.

Mais do que um lugar geográfico com uma toponímia reconhecível, como esse teu s. Nicolau de outrora, sumariado nas imagens obsessivas de um infortúnio cíclico (qual se fôramos cornos do destino), de um tempo de abandono de um mundo vivenciado nos sinais de escassez, sem a genesíaca promessa de redenção senão nas agruras do caminho longe, o locus de «paraíso apagado por um trovão» é um soberano entrecruzar da latência, melhor dizendo, da potência da memória com a actualidade da cultura. Porque embora carregue como tu, Chiquinho, a sombra dos lugares memoriosos, a sua reificação pela palavra não visou, jamais, dar expressão literária ao «nosso caso», como diria o bom do Andrezinho, mas porque para mim foram sempre a imperfeita possibilidade do paraíso; ainda que contingente futuração face às derrocadas várias que ameaçam o humano devir.

O óbvio ideológico, que perpassa nalgumas das páginas cimeiras da nossa literatura canónica, é o maior adversário da vertigem que toda a palavra livre pode instaurar, ainda que na sua insurrecta liberdade alguns a confundam com farpas e lantejoulas.

Referidora embora de um comum mundo real, é pela «rematização do perene» que paraíso aspira à individualidade, onde uma ordem sintáctica e vocabular incomum (sem intuitos preciosistas) e a consciência afirmada dos processos de escrita sustentam a dimensão eminentemente ética de enfrentamento com a cristalizada face de um tempo histórico.

Mas voltemos ao fio das peripécias, a esta meada que tecendo embora abismos e lonjuras, permitem-nos, no entanto, espreitar os fictos destinos narrados nestes dois livros.

Essa tua mamãe-velha, Chiquinho, muito me lembra a minha velha avó Brentxa, descompondo-nos no seu crioulo fundo, ameaçando, em seu terno azedume, partir–nos já não sei que infinidade de ossos, que nos fariam aleijados pela vida fora. Era ouvi-la a pedir a sua àstia (cajado), levantar-se mancando a perna incurável pelo meio de patos, galinhas e demais animais miúdos que atravancavam a casa. Depois de atravessar quase um século, veio a morrer num certo Outubro morrinhento, ano de boas azáguas, tendo sido enterrada com honras de rainha velha, num misto de ritual católico-pagão, como sumaria o poema 14 do ciclo «retratos cativos».

Dizes tu que o teu pai emigrou pelos teus cincos anos. Assim o meu, mas ao contrário de ti, pouca coisa lembrava dele: o amanho duma horta que possuíamos no lugar do colonato, nesses «lugares de cinza herdando a abrupta/germinação. Condado de sol estendido/ lá em baixo onde pastam caprinos/no campo que era nosso». O resto era trabalho da imaginação, de cada vez que o revia numa melancólica fotografia tirada na estranja, no seu fato domingueiro (ou do fotógrafo, vá-se lá saber), pele clara de moço da ilha brava, uns olhos malandros a bailar na claridade dos flashes, talvez perdição das moças, como se dizia de seu pai, meu avô paterno, que não cheguei a conhecer.

Quem conheci, e bem, foi esse meu avô materno que, como reza o poema 13 de retratos cativos «muitas vezes o vi sorrir, erguer o bordão/da amizade por sobre a minha cabeça de menino/a suave investida da tesoura rasando tufos,/desbastando junto às orelhas, ou baixar-se/quando o tremor aconselhava a detença.» Nunca saiu das ilhas, nem fez grandes viagens, a não ser uma a S. Vicente para tratamento dumas «águas impedidas» que vieram a matá-lo, de mistura com um épico ataque de soluços. É ele o guia primeiro nesta revisitação encenada à minha infância, espécie de Virgílio nesta viagem a um paraíso mais sonhado do que real.

Acossados pelas secas cíclicas, os meus maiores desceram desde os cerros de achada meio, fixando-se em ribeira da prata, antes de assentarem definitivamente em Chão Bom di Mangui, lugar de memórias avassaladoras, se recordarmos que foi o sítio escolhido pelo estado novo para instalar o campo de concentração do Tarrafal. A sua presença atravessa de forma metafórica todo o livro, sendo a mais saliente a «circunscrição do medo», «cárcere de sediciosos sob o assédio dos mosquitos» do poema 6 do ciclo «onde habita o trovão».

Falando de ribeira da prata, do temor aziago que o lugar te infundia, Chiquinho, lembrei-me que esta dos meus maiores também albergava uma célebre feiticeira, criatura ainda vivíssima, que trabalhava na mansão do director do colonato, e em cujos portões colocávamos canas de caniço e acoitados no meio do bananal aguardávamos pela saída da dita cuja para tirarmos as dúvidas, pois dizia-se que elas não podem passar por cima de caniço ou de tamarindo. Era vê-la a retirar as canas disfarçadamente, farejando em redor com seu ar di nha bedja fitisera. Então ficávamos verdes de medo, nossos coraçãozinhos pulando feito berlinde mágico, e só nos atrevíamos a deixar os nossos esconderijos depois de ela desaparecer para lá das sombras do crepúsculo.

Contigo, Chiquinho, podia dizer «ribeira da prata(…), a sua gente de voz cantante. E o mar, sempre na boca da ribeira, a envolver-nos o coração de uma mortalha verde de esperanças.»

Os meus dois tios, irmãos da minha mãe, não eram homens de instrução, mas autênticos lobos do mar. São eles os modelos de pescadores «os de barba sombria e casaco curto» do poema 16 de «retratos cativos». Diferentes do teu tio Joca, do latim apenas sabiam algum esconjuro ouvido aos padres de sotaina preta deambulando sob o ardente sol das ilhas. No entanto a ausência de instrução formal não impediu que um deles se tornasse num dos mais célebres «capiton di karaka» da ilha de Santiago.

À mãe que me criou, e aos meus cinco irmãos, e que haveria ela também de demandar a terra-longe, o retrato maior consubstanciado nos seis poemas iniciais de retratos cativos, num buscado equilíbrio entre uma deflagração sentimentalizante e o trabalho da arte que faz com que a intransmissibilidade da experiência enquanto tal, pela alquimia do verbo torna efectiva e partilhável o mundo (ou o sentimento correlativo) afirmado na densa rede destes poemas.

Essa velha Rosa Calita é um símile da minha tia Isaura (Naná), que nas noites de lua cheia nos entusiasmava e assustava com as mesmíssimas estórias, o que nos levará, lá mais para frente, Chiquinho, a um ponto bem mais problemático. Por ora, desfiemos o obscuro fio de memórias agora feito deslindável trama de palavras.

As azáguas para mim, Chiquinho, eram sobretudo a guarda aos corvos. Não lhes guardo rancor pelas velhacarias de que são capazes. Pelo contrário: pela sua perseverança, fazem parte, com a cabra e o asno, duma bestial trindade louvada nos meus textos mais conseguidos, quer em prosa ou em verso. Não posso repetir aqui as imprecações que lhes dirigíamos, porque são capazes de fazer corar até um surdo, mas recordo as sevícias que inflingíamos ao desgraçado que tivesse o azar de cair nas nossas mão, abatido pelo disparar cruzado de inúmeras fundas. Só não sabia que os ardilosos falavam em americano. Os da minha ribeira devem tê-lo aprendido com o velho Nunu di Titxa, uma espécie de João Joana aqui do sítio, experimentado trota-mares que, diziam, sabia falar quase todas as línguas.

Já que vamos em maré de aprendizagens, relembro, impressivamente relembro, o vosso exame (teu e do Tói Mulato) do segundo grau e as palavras do professor Carvalho, porque traz-me, vívidamente, imagens desse então. A estória é curta. Nesses anos, era quase examinador único o velho C. manco. Por questões que se dizia ter a ver com uma forte rivalidade, no ano anterior todos os anos do meu professor do segundo grau foram chumbados no exame. No ano seguinte impendia, sobretudo sobre mim, a responsabilidade de vingar a honra ferida do meu professor. Disse-me ele em frente de toda a classe: este ano ainda que o diabo coxo os reprove a todos, tu vais passar. Na véspera tive pesadelos horríveis. Mas, de manhã, sereno, saímos caminho da vila. Eu levava umas calças amarelo torrado tingidas por umas enormes bolas acastanhadas. Os pés rudes entraram torturantemente para umas sapatilhas novas, que subiram para os ombros dobrada a curva do antigo campo de concentração, onde meu avô fora guarda auxiliar.

Lembro-me do interrogatório cerrado a português, e eu a cada resposta virava-me para o meu mestre que ao fundo da sala abanava ligeiramente a cabeça em sinal de aprovação. Foi quase em estado de transe que a ouvi a voz de um dos elementos do júri, a dona Maria José, mandar-me levantar e ir para onde estava o resto da classe.

Desse amado professor falo no poema 15 de «retratos cativos» «meu jovem mestre de óculos encavalitados/(também leitor de epístolas nas liturgias de domingo). Tive a grata felicidade de reencontrá-lo no pátio dessa mesma escola, no regresso ao chão amado, na apresentação do livro de que vos tenho estado a falar, depois de quinze anos na terra longe, e muitos mais sobre as peripécias que aqui vos conto.

Infelizmente, Chiquinho, não podemos falar de tudo agora, que a noite já espreita, e longos e cabeludos são os fios da memória. Mas antes de terminar queria confessar-te duas ou três coisas que me trazem a alma inquieta.

Ainda bem que tu, Chiquinho, contas as peripécias de escravos ocorridos na tua ilha, nomeias os lugares – fundo Balanta, morro Bissau – ligados a essa circunstância estruturante da natureza do povo das ilhas, pois, culturalmente, a nossa terra encontra-se em estado de guerra civil. Não Chiquinho, não exagero nos termos. Imagina lá, tu, que até já há teorias a defender que as populações do norte do arquipélago sempre foram, culturalmente, mais evoluídas que as do sul. Até houve um estudo genético tuga – muito a propósito – a demonstrar que esses nossos alvos patrícios das ilhas do norte não teriam tantos genes cafres como esses badios rabelados , esses dos «terríveis levantes na ribeira dos engenhos», que na página 180 do romance através do seu batuque leva «a sala a África pura, sol e paisagem com macacos cabriolando». Consola-nos o facto de não se ter dito que os violinos e violões, o dengue que a morna põe no corpo faziam lembrar os salões de Viena. Na página 225 é o badio (note-se, badio, não o caboverdiano) que cai na aldrabice de um jew nas terras do tio sam.

Pois, Chiquinho, eu sei que o teu criador não pensava assim – estava apenas a dar voz ficcionada a uma ilusão de consequências imprevisíveis, que faz por esquecer que somos todos náufragos sem resgate aqui nestas praias do meio do mar, hoje mais entregues aos novos tráficos e à devastação de um turismo bronco do que aos sinais que nos fazem um agregado civilizacional, na multiplicidade das nuances que o mais colectivo e mais visionário de todos os discursos – a literatura – reinventa no comum panteão da nossa memória.

Lisboa 27 de Novembro de 2007

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