Eu não devia gostar deste livro

Acabei, finalmente, Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares. Fecho o livro, e logo abro o ante-rosto. Assusto-me. Tem uma dedicatória, com data de «Out. 2004». Só pode ter sido no dia da entrega do prémio Ler, no Teatro São Carlos. Nunca antes, nem depois, encontrei o autor.

Por uma vez «livro de cabeceira» não foi força de expressão. Tenho um montinho deles, onde este andou a descer e a subir. Acompanhou-me em insónias, ou fui eu que arranjei insónias que ele acompanhasse.

Agora que o acabei, tenho a incómoda sensação de que deveria não gostar dele. Mas gosto. O que é incompreensível. Ele tem tudo o que eu detesto na ficção: desordem, secura, solavancos. É isso, é um solavanco do princípio ao fim. Passa-se, para mais, em parte incerta, algures numa Mittel-Europa com que não tenho a mais ténue das afinidades. Vive-se época indefinida, onde há cabine telefonónica na rua, mas quase nada mais como referência.

E todavia sei que acabo de ler um dos grandes romances desta nossa literatura. Um romance de que gerações hão-de falar, e onde decerto descobrirão os exactos traços do nosso tempo, esses traços que, por definição, nos são indecifráveis.

Engano meu, esse futuro para o livro? Numa coisa não me engano. Por alguma razão – obscura mas não ignorável – aquela rude, rugosa e estranhíssima escrita me terá encantado anos a fio, quando outras se me perderam, irrecuperavelmente, de vista.

E essa razão hei-de desenterrá-la.

6 thoughts on “Eu não devia gostar deste livro”

  1. Serve este “rude, rugoso e estranhíssimo” comentário para avisar os utentes do serviço de urgência do Aspirina B que saiu uma reportagem especial sobre a vida no Opus Dei, na última edição da revista Sábado.
    Para os mais curiosos e desejosos de uma boa ficção para a sua escrita, mais informo que, segundo as minhas leituras, houve numerários dissidentes da Obra que morreram em acidentes de viação após o seu casamento. Neste momento, estou a lembrar-me de um jovem da O.D. que morreu num acidente de viação, três dias depois do seu casamento e, claro, na mesma onda, também me vem à memória a morte de Amaro da Costa… “Providência Divina”, dizem…

  2. Nem de propósito, Fernando. Este livro está-me entalado há várias semanas, Fernando. Não consigo entrar nele e entretanto já despachei mais dois do Cormac McCarthy e o livro de contos da Miranda July. Mas não tenciono desistir, para mais agora depois deste teu post.

  3. Estranho…

    resolvi, sabe-se lá porquê, pegar na semana passada este mesmo livro e acabei-o de ler na sexta.
    Andava também por aí perdido, sempre a olhar pelo canto do olho como quem diz: «ainda não me leste».

    Concordo com o que o Fernando diz, o livro é interessante mas bastante despido, sem história, sem referências que nos atraiam. Restam as personagens que são interessantes, em especial o Dr. Theodor.
    Mas o livro tropeça, parece que não sabe para onde quer ir, excepto ao final, quando remata.

    Mas, estranhamente, também gostei.

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