Amor aos Pedaços

Deus não chegou ainda (embora a sombra dele bata algures), mas o texto disponível chegou ao fim. Aqui vai o capítulo 12, último da primeira parte, de Deus chega no próximo avião. Este será, daqui em diante, e por muito tempo, um livro em que se pegou, mas depois esquecido na estante, ou no comboio, ou – acontece aos melhores – no avião. Um dia a gente dá de novo com ele. E tem de relê-lo do princípio… Obrigado pelo bocadinho.

*

Dormi esta noite como, parece-me, há anos não acontecia. Nem mesmo aqui, na Foz do Lizandro, onde os sons do mar chegam temperados, embora actuantes. Calhou-me um sono profundo, uma ausência sem margens. E hoje amanheceu este sábado calmo. Ou sou eu que não ouço nada, depois da ventania de ontem à noite, à vinda. O carro abanava, fazendo ameaços de sair da estrada. Foi fazer o jantar, ver alguma televisão, e cama connosco. Vínhamos, eu e a Noémia, estoirados da semana. Só pela madrugada nos vieram as forças, e a gana, para o que, há sete tão longos dias, trazíamos no sentido.

Ainda estou por saber quando, e porquê, este ritmo semanal se impôs. Podíamos tranquilamente ir dormir, em Lisboa, a casa um do outro nos dias de trabalho, pelo menos jantar juntos. Mas não. Telefonamo-nos, trocamos alguma notícia mais inadiável, e guardamos para sexta à noite, já aqui, as peripécias, o estômago, os braços e o mais. Só de longe em longe nos aventuramos a algum excesso – sim, tem um parvo sabor de excesso –, como irmos tomar uma bica a Cascais, ao «Amor aos Pedaços», o café com o nome mais lindo do país, diz ela, que foi, cá por coisas, também onde nos vimos. Ou a Sesimbra, comer um peixe fresco, o sítio dessa tarde em que fizemos a declaração. Declaração. Só o termo já é infantil, mas o amor tem firmes propensões lamechas. E, num sítio ou no outro, sublinhamos sempre com qualquer pieguice o fortuito dessas entrevistas.

Teremos descoberto, ela e eu, nos nossos casamentos, que a distância preserva? E será isso tão evidente que só o formulá-lo já desmereceria? Living apart together: tem a sua graça. Às vezes penso que, se gostássemos um do outro como deve ser, não conseguiríamos aguentar esta rotina, este refinamento de organização. Que, se estivéssemos mesmo apanhadinhos, também algum de nós, ela ou eu, haveria de quebrar este contrato, vendo bem, idiota. Ora, em quatro anos, nunca isso sucedeu. E, todavia, eu sei que, confessasse-me a Noémia, alguma vez, «Esta semana não me apetece ir», eu entraria em puro pânico.

Foi agora à aldeia, buscar o pão e o leite. Nem dei por ela sair. Deixou aberta para mim a janela: sabe como adoro acordar com um quadrado deste céu e a presença adivinhada do mar. Em momentos assim, é como se o Universo inteiro batesse certo. Não bate, cretino. Mas um homem não sobreviveria sem estes momentos de evasão. Só não sei é como se evadem os outros, como sobrevivem. Também nunca o saberei. Nunca com exactidão saberemos nada de ninguém. Vou fazer um café.

Pois é isto, pôs-se uma manhã esplêndida. Curioso como um dia assim vem sorrateiro. Se os estores ainda estão corridos, imaginamos, talvez por contiguidade, um céu baixo, encoberto. E a chuva, essa, simplesmente ouve-se. É isso, um dia de sol não é audível. E por isso surpreende. É de pôr poética uma pessoa.

Não sei ainda, nem interessa muito, em que vou ocupar-me hoje. Obriguei-me sempre a não trazer programa. Deixo em casa originais, apontamentos, o lap top, a própria agenda. Trouxe só aqueles dois livrinhos da concorrência, um romance, O Exemplar Perfeito, e um volume de contos, O Último Pôr-do-sol do Século Vinte, insistentemente recomendados por crítica de diversa plumagem. Levo-os, se calhar, para a praia, logo. Ainda não serão tempos de banho, mas a areia deve estar uma delícia. E depois já sei, desencaminha-se-me a atenção, e a leitura fica à espera.

Gostava de uma vida exactamente assim. Sem obrigações, tépida e ronceira. Da cama para a praia, da praia para a mesa, da mesa para a… Mas, depois, até essa regularidade matava o melhor numa pessoa. É isso: a existência ideal teria de ser imprevisível, uma surpresa perdurável, uma serena expectativa sem descanso nem desfecho. Enfim, o café a borbulhar, e eu derivando.

Vejo ao longe o carro da Noémia, fazendo a curva dos sobreiros. Dentro de cinco minutos está aqui. Trará quatro carcaças, ainda quentinhas e estaladiças, e talvez uns bolos frescos, de impacientar salivas. Este café, está visto, não vai chegar.

6 thoughts on “Amor aos Pedaços”

  1. aguardo, em suspenso, os próximos capítulos.

    espero que não demore muito..

    tenho ainda de lhe agradecer por estes belos momentos que teve a amabilidade de me providenciar..

    bem haja..

  2. Saboreio o último quadradinho de chocolate que nos ofereces… lenta… lentamente.
    Um dia de sol para rematar a primeira parte. Que bom! Espero que mantenhas uma boa visibilidade até aterrares com este avião!
    Sim porque, se bem percebo, ficamos pelo Chega! Isto é, não chegamos ao no(u)…

  3. obrigado Fernando,

    «É isso: a existência ideal teria de ser imprevisível, uma surpresa perdurável, uma serena expectativa sem descanso nem desfecho. Enfim, o café a borbulhar, e eu derivando.»

    também acho, com descanso e ronronar pelo meio por causa de retemperar energias

  4. É claro que esse café não vai chegar, Fernando. E agora temos Deus no avião, sabe-se lá em que alturas (como de costume), correndo até o risco de ter o avião desviado e a sua augusta figura raptada (a história da sua vida), ao mesmo tempo que estão umas carcaças estaladiças igualmente em trânsito, com a promessa de arregimentarem bolinhos frescos. É “desmasiado”, para citar um ilustre anónimo. Deixas uma legião de ensalivados; coisa diabólica, como bem sabes.

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