Que pena

140 anos de orgulho pátrio tiveram duas celebrações gloriosas: a moratória aprovada na ONU, em Novembro, e o Dia Europeu, aprovado agora. Dá-me ganas de ir celebrar para as ruas, marcar jantares com amigos, embebedar-me e fazer inflamados discursos. Porque a pena de morte é uma aberração ou, tão-somente, uma imbecilidade letal. Aliás, todas as imbecilidades matam, mesmo que não tão depressa.

Pois. Mas dá-se o caso de estar em Portugal. E como é que um português, que ama Portugal, pode expressar o seu entusiasmo pelo excelente e honroso trabalho de um grupo de compatriotas que volta a pôr a nossa memória, e a nossa identidade, no ponto mais alto da Civilização? Por uma equipa de futebol, enchem-se as cidades em festa e todos os políticos correm para a fotografia. Por estes marcos históricos, que dignificam as gerações passadas e as futuras, apenas palavritas de circunstância – ou um silêncio repleto de nojento desprezo.

Muitos nasceram em Portugal, vivem em Portugal e em Portugal se arrastam. Mas não são portugueses. Que pena.

49 thoughts on “Que pena”

  1. Posso ser portuguesa? É que lembro-me bem de, desde miúda, ter um enorme orgulho por termos abolido a pena de morte tão cedo (apesar de nestas coisas o cedo ser sempre tarde de mais). Também me lembro de continuar com uma pontinha de nojo porque alguém me disse – quem souber se assim era ou não, por favor esclareça-me – que a pena de morte era, apesar de tudo, ainda permitida em território português – nos barcos de pavilhão português. Nunca foi aplicada mas só o ser possível já era demasiado mau.

  2. hoje é um dia feliz para mim Valupi, e pelos vistos para ti também. Um abraço, e comemora bem (eu já sabes que é a ronronar, a ler o Boxer ou o Aquilino, depois de um arroz de polvo :)

  3. Teresa, nojo, não. A História é o que é e não o que gostaríamos que ela fosse; muito provavelmente por excelentes razões, uma delas a de não aguentarmos a empresa. Para o caso, é um facto que o pioneirismo de Portugal nos enche de orgulho. Aliás, pouco exploramos esse evento na formação escolar ou artística – bem que poderíamos alicerçar na abolição da pena de morte uma lição de cultura universalista.
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    susana, eu também gostava de assistir a esse discurso. Mesmo que não fosse inflamado.
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    z, estou contigo, ó pá. Foste tu que trouxeste o assunto.
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    Anonyme, bonomia?! Estás a falar de quê? Já quanto à caridade cristã, confirmo que é um alto valor civilizacional.

  4. Alguém usou o meu nick Anonyme. Eu, o verdadeiro, o da Bayer, defendo a pena de morte e não sinto especial orgulho por termos sidos pioneiros na abolição. No século XIX, talvez eu tivesse defendido a abolição, pois nenhum governo poderia garantir, então, a rigorosa e criteriosa aplicação da pena capital que hoje é possível. Mesmo no século XX, o Estado Novo teria certamente abusado dela para eliminar adversários políticos. Como, de resto, eliminou, no Tarrafal e alhures, ainda que não assumidamente, mas sim à maneira hipócrita do ditador católico e assassino que tivemos. Um católico sem qualquer espécie de “caridade cristã”.

    Hoje a situação é muito diferente, em Portugal e por toda a Europa Ocidental, nos capítulos das liberdades, garantias, informação isenta, organização judicial, controlo da legalidade, estrutura democrática do Estado. Para crimes particularmente hediondos – como seja o rapto, violação e assassinato de uma criança ou um acto terrorista de massacre indiscriminado – defendo absolutamente, sem qualquer espécie de hesitação, a pena capital. Países mais civilizados do que o nosso conservam-na. Dá que pensar, em relação ao nosso suposto pioneirismo…

  5. “Muitos nasceram em Portugal, vivem em Portugal e em Portugal se arrastam. Mas não são portugueses” – o acostumado discurso de extrema direita nacionalista num esquerdista lírico. Weird!

  6. Anonyme, The One,

    Há uma outra saída: decretar a pena de morte, prometer (a sério) que não se a cumprirá, mas nunca dar disso garantias. Para o concernido, é um sofrimento atroz. Para o eventual futuro criminoso, um susto extra. Para a comunidade, um meio de redimir-se, caso cometa um erro.

    Estarei, de todo, a delirar?

  7. Deixei aqui este comentário três vezes: foi automaticamente apagado. Estarei banido? Ou evaporou-se por causa do calor?

    Rezava assim:

    “E como é que um português, que ama Portugal, pode expressar o seu entusiasmo pelo excelente e honroso trabalho de um grupo de compatriotas que volta a pôr a nossa memória, e a nossa identidade, no ponto mais alto da Civilização?”

    Finas ironias?

  8. Pode adiar-se a execução da pena, mas com isso só se consegue torturar inutilmente o condenado. No ano passado foi finalmente executado um negro americano que tinha assassinado com requintes de crueldade uma família inteira de comerciantes coreanos em Nova Iorque. A filha do casal, que ajudava os pais na loja, levou um tiro na cara. O assassino esperou 20 anos pela execução sa sentença de morte. Nesses anos arrependeu-se do crime, escreveu um livro a alertar os jovens negros contra a delinquência. No final, foi executado à mesma, quando aparentemente já estava regenerado e se tinha tornado, de certo modo, útil à comunidade. Na minha opinião, ele já não devia ter sido morto. Mas acho que devia ter sido executado logo após o julgamento, sem oportunidade de se regenerar, tal a hediondez do seu crime.

  9. Anonyme (the real shit), espero que nunca venhas a estar numa posição em que as tuas concepções penais possam ser concretizadas. Neste ou num outro universo, nesta ou numa tua outra reencarnação. Porque a pena de morte é uma imbecilidade, como a sua história revela e dois segundos de reflexão iluminam. Não se trata só do eventual erro policial e judicial (que ocorre em percentagem desconhecida, sendo até um tabu), é também a concepção monstruosa de que não devemos conhecer as causas das diversas patologias na origem dos crimes mais graves. Matou, morre – é essa a única profilaxia social, a de talião, a da terra queimada. É uma concepção bárbara, quase a pedir pena de morte. Quase, e nessa diferença salvamos a nossa vida.

    És ingénuo, quando acreditas na isenção absoluta (leia-se, à prova de erros voluntários e/ou involuntários) de um qualquer processo-crime, seja em que país for do Mundo (dedica-te mais ao consumo de notícias). És tonto quando chamas católico ao Salazar (que sabes tu do que ele era? mais, que sabes tu do que seja ser-se católico?). E és espanhol quando achas que há países mais civilizados do que o nosso (ok, esta foi só para te provocar – as outras são grandes verdades).
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    (afixe), tens de me ajudar. E explicar melhor a tua pergunta. Mas, supondo que não terei esse prazer, aqui vai: ironia alguma, se partilhamos a mesma semântica.

  10. Valupi, não és um cagalhão imbecil, como eu teria de poluir a minha linguagem para descer ao teu nível, mas apenas um vulgar demagogo, sentimentalão e impulsivo. Os teus argumentos contra a pena de morte são dignos dos tais “dois segundos de reflexão” que ao tema dedicaste. Nem vale a pena lembrar-te, como se não o soubesses, que em nenhum tribunal do mundo civilizado se deixa de tomar em conta o eventual estado psíquico patológico do criminoso para se estabelecer o seu grau de imputabilidade. Gostei foi do teu impulsozinho linchador com rabo de fora, QUASE a sentenciar pena de morte contra as minhas ideias “bárbaras”. Nessa pequenina diferença é que está a tua enorme grandeza moral. Vai dar banho ao cão!

  11. Não me refiro à atenuante psiquiátrica, mas à investigação psíquica e antropológica. Claro que as leis salvaguardam a possibilidade de se estar doente, mas qual a vantagem em deixar por investigar os casos em que a lei (mero arbítrio conceptual efémero), ou a sua aplicação, não reconhece “patologia”?… Que pensas que estás a alcançar com a morte do assassino? Achas mesmo que matar os que matam impede que se volte a matar? Se achas, estás a precisar de ajuda profissional.

    Seja como for, o meu principal argumento continua a esmagar a tua pulsão vingativa: sendo verdade que o sistema policial e judicial não pode garantir a absoluta eliminação do erro, jamais se aceitará uma consequência letal de uma eventual perversidade no processo de condenação.

  12. é por demais óbvio que os países onde ainda vigora a pena de morte, seja os USA, é onde ocorre precisamente a maior criminalidade, com muitos casos de cidadãos que por via dessa legitimação institucional, se acham no direito de pôr termo à vida de não-sei-quantos inocentes, rematando em si próprios, em escolas ou centros comerciais.

    Pode-se demonstrar isso paulatinamente se fôr necessário.

    Além de que é uma maneira cómoda de silenciar um inimigo político portentoso, por exemplo, inocente também duma qualquer cabala bem urdida.

    Sou absolutamente contra e aqui o meu camarada é o Valupi.

    Católicos há muitos, eu, por exemplo, que nem baptizado sou, conheci freiras que são uma maravilha na sua a compaixão activa pelos outros. Pude testemunhar.

    Outros são escroques, como em tudo.

    No entanto esta causa já está ganha, e chega-me.

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    Já uma coisa que ainda me chateia são as touradas, há décadas que ando ao lado dos touros e já é tempo de tratar disso. No reinado de Maria I chegaram a estar proibidas.

    Bom, mas antes disso vou ao cozido.

  13. Z, falas dos EUA semanas depois de um finlandês ter feito uma mortandade na terra dele. Grande azar! Mas têm-no feito também alemães, ingleses, etc. Vês o mundo ao contrário e achas que a culpa de haver serial killers é… da pena de morte! Lindo.
    O assassinato de oposicionistas prossegue “paulatinamente” em países onde a execução da pena de morte foi generosamente suspensa pelo próprio Estado assassino. Exemplo: Rússia actual.
    A condenação à morte por motivos políticos não está entre os casos que eu defendi. Eu falei de crimes hediondos contra pessoas indefezas e inocentes.
    A defesa dos católicos é desnecessária porque ninguém os atacou enquanto tais. Referi foi o caso dos católicos assassinos, que sempre os houve, como o Salazar, o tal “ditador católico” (a expressão foi cunhada pelo grande Padre Joaquim Alves Correia, que morreu no exílio nos EUA). O ditador era um católico assassino, mas foi sempre contra a pena de morte, glória lhe seja!
    A caridade é que é virtuosa, independentemente de ser ou não cristã. E quanto católico não doseia a caridade segundo as suas meras conveniências?
    Bom cozido.

  14. Valupi:
    1. Achas mesmo que condenar assassinos a PENAS DE PRISÃO impede que eles ou outros voltem a matar, fora ou dentro da prisão? Não, pois não? Então a pergunta que me fizeste é tola, não é?
    2. Será por VINGANÇA que se condena um psicopata assassino a 25 anos de prisão, sabendo-se de antemão que ele não se curará nem regenerará jamais?
    3. Como deves saber, as prisões de todo o mundo são antros de violência, droga, violações, homícídio e linchagem, quase sempre com a complacência das autoridades. Achas que é possível condenar alguém a prisão e pretender não querer saber do resto?
    4. Psicopatas assassinos confessos têm afirmado e advertido que se forem libertados, recomeçam de imediato a matar. Achas mais digno manter alguém atrás das grades por toda a vida do que tirar-lhe radicalmente a capacidade de assassinar?
    5. Se os teus familiares fossem assassinados com requintes de sadismo para lhes ser roubado o carro ou o recheio da casa, tu conseguirias viver com a ideia de que os assassinos estavam a passar uma simples temporada na cadeia?
    6. Nunca te ouvi falar dos direitos das vítimas e das famílias das vítimas. Será porque em Portugal a legislação é “avançada”?
    7. Achas justo defender o direito absoluto à vida de feras humanas sanguinárias com o especioso argumento de que há o receio de se poder vir a condenar inocentes? Então para criminosos confessos apanhados em flagrante já não defendes o direito absoluto à vida? Se não é esta a base da tua argumentação, então qual é?
    Bom jantar.

  15. tu chato, pá! Olha lá, por certo que não imaginas que eu não conheço as notícias dos massacres na Finlândia ou na Alemanha, o que se passa é que isso são efeitos miméticos de uma cultura dominante, que no caso vem dos EUA, como o próprio Clinton, quando era presidente, preocupado, reconheceu. Mimesis e Negação do F Gil, já que conheces bem Portugal: o medo de existir do irmão José.

    Que a legitimação institucional do assassínio de Estado acresce a pulsão de morte é para mim uma evidência, ao invés de diminui-la. São efeitos perversos.

    Também és a favor das touradas?

  16. Tu é que me saíste um bom mimético, Z. Paranóia colectiva anti-americana, já ouviste falar?
    As “evidências” de que falas para mim são apenas dogmas. Não aceito dogmas nem reflexões de dois segundos.
    Estou-me a cagar de alto para as touradas. Detesto, mas não me acho com direito de intervir no gosto dos outros e exigir proibições.
    Também és pela proibição da prostituição?

  17. oh pá, eu não digo que é a existência da pena de morte que é causa única dos massacres, o que eu digo é que ajuda, a partir do momento que os cidadãos vêm que o Estado se outorga esse direito, de matar alguém em nome da Justiça, sentem-se mais tentados a executar esse gesto também.

    Também não percebo porque vais buscar essa comparação, os assassínios da noite no Porto é a eliminação de um conjunto de gente que sabia demais, se fora chamada a testemunhar. É mais perto da lógica das mafias, não dos massacres. Lá desses negócios não sei nada, mas por certo que o senhores Rui Rio e Pinto da Costa e etc., saberão mais do que eu

  18. Anonyme, os teus argumentos são boçais, um rol de falácias de fazer corar os alunos da Primária. Nem percebes que estás a defender o retorno à ausência de Lei, onde a Justiça era um assunto privado. Mas com a boçalidade podemos todos bem (que remédio, é tanta à nossa volta que se confunde com a paisagem). O que ofende as meninas dos olhos é estar perante a tua apologia do crime. Para ti, a morte do assassino justifica-se com a dor sentida pelos familiares da vítima. O que implica que a tua justiça é de fundamentação emocional, precisamente a mesma instância que originou o crime. Queres, pois, imitar o criminoso.

    Eu sou contra a pena de morte por várias razões. A principal, do ponto de vista técnico, é a do erro. Do ponto de vista moral, é a do arrependimento. O criminoso arrependido, mesmo que condenado à prisão perpétua (outro assunto) é uma fonte de dissuasão muito mais poderosa do que a aplicação da pena de morte. Do ponto de vista científico, é o absurdo de abdicar do conhecimento possível e eventual sobre um comportamento destruidor. Finalmente, também me apoio numa razão espiritual, a que me leva a só aceitar matar como último recurso. Obviamente, podendo prender o indivíduo criminoso, não há necessidade de o matar. Diferente o caso da legítima defesa, vai sem discussão.

  19. Porque é que este Valupito não sabe argumentar sem insultar primeiro?
    Desta vez nem te devia ler, pá.
    Aprende a discutir calmamente, sem partires do princípio que és mais esperto, porque lamentavelmente não és.
    Já aqui disseste muito disparate, a começar pela lei de talião, que tu absolutamente não sabes o que seja nem o que representa para o edifício do nosso Direito. A lei de talião é a primeira lei, Valupito. É o paradigma original da proporcionalidade da pena ao crime, a pedra angular de todo o Direito Penal.
    As tuas deduções a partir dos argumentos dos teus contendores não são fiáveis, são manipulações tuas, da tua lavra e responsabilidade.
    Evacuaste oportunamente a questão essencial da prisão (e da prisão perpétua) e acrescentaste mais umas baboseiras sem valor.
    E nenhuma reflexão, para além da ponta do nariz, sobre o que seja a legítima defesa.
    Olha, vai dormir.

  20. “…a partir do momento que os cidadãos vêem que o Estado se outorga esse direito, de matar alguém em nome da Justiça, sentem-se mais tentados a executar esse gesto também.” (z)

    Bullshit. Em que é que fundamentas as tuas grandes sentenças, Z?

    A China, há muito responsável por cerca de 2/3 das condenações à morte (seguidas de rápida execução) em todo o mundo, não conhece o fenómeno dos massacres indiscriminados. Na China não se vendem armas em cada esquina – isto é, sem dúvida, muito mais importante.

  21. Nisso concordo contigo, Anonyme: não sou mais esperto, lamentavelmente. No resto, continuas em estado de negação. És tu quem ofendes – mas apenas a tua inteligência. E és tu quem foge da argumentação – porque a tua posição é insustentável, seja qual for o ponto de vista da análise.

    Mas tudo se começa a explicar com os teus considerandos relativos à Lei de talião. Tendo em conta o seu arcaísmo, fica claro que o teu problema está em não pertenceres a esta época. Chegaste tarde, mas a culpa não é tua. Como pedra angular do Direito Penal, sábias e doutas palavras que fizeste o favor de partilhar, gostava de conhecer as tuas propostas para os crimes de violação, furto e negligência adentro da lógica por ti defendida na pena de morte. Por exemplo, o violador, punido à luz da reciprocidade proporcional, é violado? Mas se ele violou mulher, é violado por mulher? E como aplicar a proporção onde não há análogo? E quanto ao furto, rouba-se o ladrão? E se ele nada tiver, esperamos que vá trabalhar, que poupe e, então, vamos lá sacar-lhe o dinheirinho à má-fila? E num caso de negligência médica, esperamos que o criminoso adoeça e apagamos as luzes a meio da sua cirurgia? Aguardo, ansioso, pelas tuas propostas.

  22. Arumentos demagógicos, a puxar ao sentimento, é só o que tens para mostrar. Para quê gastar o meu latim, se nem ler sabes? A proporcionalidade da pena ao crime é que é a pedra angular do Direito Penal, conforme eu escrevi em português. A lei de talião, na minha frase, é referida como “o paradigma original” dessa proporcionalidade. Quer dizer, a pena de talião instituiu pela primeira vez essa proporcionalidade. Com ela deixou de se punir o roubo com a morte, por exemplo. Ainda hoje há quem não respeite a lei de talião.

    A evolução do Direito fez com que as formas directas ou “espelhadas” de retaliação (palavra da mesma raiz que talião) se fosse comutando na maioria dos crimes em castigos diferentes da ofensa (castigos corporais, pecuniários, etc), mas sempre a ela proporcionados, e se inventasse a detenção ou privação da liberdade, primeiro com fins meramente retaliatórios e preventivos, a que modernamente se acrescentaram os fins educativos e regeneratórios. O princípio da proporcionalidade da pena ao crime ou ofensa, instituído pelo talião, foi sempre conservado e nunca poderá desaparecer. Como também jamais poderão desaparecer as funções retaliatória (ainda que modulada), dissuasora, preventiva e compensatória. Ou seja, o castigo, como tal, jamais desaparecerá do Direito Penal, como é óbvio.

    Mas a própria lei de talião subsiste sob diversas formas no Direito actual. E não só na pena de morte – única julgada equitativa, nos países onde vigora, para punir certos tipos de homicídio particularmente repugnantes, não merecedores de qualquer compaixão. A legítima defesa de que falas, uma vez que ela é, e deve ser, directa e rigorosamente proporcionada ao ataque, também é “uma emanação directa da pena de talião”. Aqui tinhas matéria para reflectir, mas não reflectes. A legítima defesa dum país também justifica o castigo mortal: daí o direito de um país responder pela violência à violência, proporcionadamente. A legítima defesa duma comunidade violentamente atacada, aterrorizada, invadida, etc., especialmente quando a organização judicial não existe, é incapaz ou dela nada há a esperar.

  23. Anonyme, és um patusco. Estás na Internet e pretendes dar lições de cultura geral, trivialidades, a quem passa. Se não se der o caso de teres enlouquecido, só resta uma explicação para tão bizarra conduta: tens veia de cómico. Mas vamos lá – a época é dada à generosidade.

    As tuas pérolas:

    – “Na minha opinião, ele já não devia ter sido morto. Mas acho que devia ter sido executado logo após o julgamento, sem oportunidade de se regenerar, tal a hediondez do seu crime.”

    Um monumento à coerência, à racionalidade, à ética, à humanidade e à justiça que fazes o favor de nos ofertar.

    – “Achas justo defender o direito absoluto à vida de feras humanas sanguinárias com o especioso argumento de que há o receio de se poder vir a condenar inocentes?”

    Esta será, com alto grau de certeza, a pergunta mais imbecil que é possível encontrar em toda a Internet, incluindo as páginas e ficheiros não registados pelo Google.

    – “Já aqui disseste muito disparate, a começar pela lei de talião, que tu absolutamente não sabes o que seja nem o que representa para o edifício do nosso Direito.”

    Então, mas que modos são esses de falar?… Tss, tss…

    – “A lei de talião é a primeira lei, Valupito.”

    Ai sim? Olha, muito me contas. Ganda pinta.

    – “É o paradigma original da proporcionalidade da pena ao crime, a pedra angular de todo o Direito Penal.”

    Ena, ena!! Quem diria…

    – “A proporcionalidade da pena ao crime é que é a pedra angular do Direito Penal, conforme eu escrevi em português.”

    Ah, ok. Então sempre tinhas escrito em português…

    – “A lei de talião, na minha frase, é referida como “o paradigma original” dessa proporcionalidade.”

    Tudo bem, mas e o violador? Quem é que lhe enfia o paradigma? E onde?

    – “Quer dizer, a pena de talião instituiu pela primeira vez essa proporcionalidade.”

    E fez ela muito bem. 3000 mil anos depois, não se passou mais nada na jurisprudência?

    – “Com ela deixou de se punir o roubo com a morte, por exemplo.”

    É um magnífico exemplo. Já agora, com que é que se passou a punir o roubo? Com o corte de uma mão, por exemplo? Ilustra-nos, tu que tens latim aos molhos.

    – “Ainda hoje há quem não respeite a lei de talião.”

    É isto que te deixa doido. Haver uma lei tão perfeitinha e não ser respeitada por todos. Realmente, é triste. É muito triste.

    Quando tiveres tempo, pensa nisto: a vida de uma pessoa é proporcional à vida de outra pessoa? Se concluíres pela afirmativa, estarás em condições de tentar compreender o mandamento “Não matarás.” Se concluíres pela negativa, continua a defender a pena de morte. Mas ficarás sem compreender que não honras a memória da vítima com o assassinato do assassino.

  24. Demagogo, sentimentalão e… chocarreiro. Sempre a caricatura, a rábula, a tentativa de ridicularizar, porque foges a argumentar com seriedade. Quem se sente forte na sua razão não precisa de figurar os outros como patuscos.

    No fundo, tu bem sabes que só existe uma maneira eficaz de evitar que os assassinos monstruosos e frios voltem a assassinar monstruosa e friamente. Não sabes?

    Só aceito os mandamentos da minha consciência, Valupito, mas ainda não matei ninguém. Nem sequer por acidente.

  25. Não me deixo intimidar pelos insultos de patusco e louco que me lanças. Por isso, aqui vai mais.

    Disse eu a respeito de um condenado à morte:

    “O assassino esperou 20 anos pela execução sa sentença de morte. Nesses anos arrependeu-se do crime, escreveu um livro a alertar os jovens negros contra a delinquência. No final, foi executado à mesma, quando aparentemente já estava regenerado e se tinha tornado, de certo modo, útil à comunidade. Na minha opinião, ele já não devia ter sido morto. Mas acho que devia ter sido executado logo após o julgamento, sem oportunidade de se regenerar, tal a hediondez do seu crime.”

    Que eu quis dizer? Respondo-te a esta, Valupi, que me parece ser a tua única objecção feita de boa fé, mas, se calhar, estou enganado. Não há contradição nenhuma na minha afirmação. Depois de o terem feito esperar 26 (não 20) anos pela execução da sentença, ainda por cima com a circunstância do (hipotético) arrependimento e regeneração, penso que já não o deviam ter executado. Julgo que 26 anos de espera são já uma pena efectiva, aliás sempre agravada pela perspectiva de morte no final. Não é justo submeter alguém a duas penas, quando só foi condenado a uma. Compreendes o que estou a dizer, ou estás já a preparar a chacota seguinte?

    Penso isso, mas tb penso que 1) não lhe deviam ter dado a oportunidade de se regenerar, tal a hediondez dos seus crimes, por não ser merecedor desse acto de compaixão e dessa possibilidade de se regenerar; 2) nem a prisão perpétua lhe era suficiente, porque um assassino como ele também mataria os seus colegas de prisão: 3) nem, enfim, lhe deveriam ter proporcionado reconhecer os seus crimes, para depois, já arrependido, o executarem.

  26. Muito bem, Anonyme. Como sabes, e melhor do que ninguém, és useiro e vezeiro em registos provocatórios, por isso não devias estranhar quando ficas sujeito ao mesmo tratamento. De resto, não venhas para cá com o choradinho das ofensas e disparates quejandos. Isto é um baile de máscaras, um Carnaval. Se as bisnagas e serpentinas te magoam, não venhas para a festa.

    Quanto à tua opinião, creio já termos tudo dito. Tu convives, tranquilo, com a promoção da vingança de sangue, com a anulação do primado da Lei, com a fundamentação da justiça no espasmo emocional. Isto leva-te, inevitavelmente, para consequências contraditórias, absurdas e infames. Na minha opinião, acabas a repetir o propósito/resultado do crime: destruição irracional e inútil.

    Ignorar que o processo policial e judicial está sujeito a erro, desvalorizar a transformação por arrependimento, ignorar a vantagem de estudar a psicologia do criminoso, são algumas razões que não pedem metafísica alguma para serem decisivas. Apenas uns laivos de bom-senso.

    Com a pena de morte só se garante uma coisa: que aquele que está morto não volta a matar. Este objectivo, durante milhares de anos, serviu os interesses da espécie. Em aglomerados humanos, com a urbanização, perde sentido até se tornar estúpido. Porque bem mais importante do que impedir que se volte a matar (e basta prender o assassino para que ele deixe de cometer crimes) é impedir que se dê o primeiro assassinato. E, para tal, está em causa continuar a projecto humano, a educação para os valores, não o dar largas aos instintos animais. Também me espanta não reconheceres o interesse em investigar esses casos de pura patologia, mas não reconhecidos assim pelas definições legais ou circunstâncias processuais.

  27. Ok, assunto esgotado. Ao menos o Z é sincero: é contra a pena de morte porque como mensagem “é bonito”, e isso chega-lhe. Não vê vantagem em dissecar mais a questão.

    Quanto à “provocação”, uma coisa é ser-se cáustico na crítica das posições recíprocas, sem nunca derrapar para fora do tema em discussão, outra coisa é amesquinhar, ridicularizar, insultar (chamar constantemente estúpido, imbecil, aberrante, patusco, louco, etc, etc) em vez de argumentar.

    Neste post a provocação foi tua, exclusivamente. Começas logo por tratar de imbecis os defensores da “aberração” da pena de morte. Depois retiras a nacionalidade portuguesa a quem não te acompanha nos teus arroubos de exaltação nacionalista. Assim nunca poderás convencer ninguém da tua razão. Mas talvez consigas fazer admiradores.

    Dorme bem.

  28. Tu é que te sentiste como um imbecil, eu apenas adjectivei a pena de morte. Talvez saibas que no cristianismo sapiencial se distingue ente o pecado e o pecador. Enfim, coisas da civilização, não leves a mal.

  29. Confundir bonomia e caridade cristã de uma elite hipócrita, temente a Deus, com altos valores civilizacionais, parece-me um exagero…,
    mas ficamos todos bem na fotografia, até hoje. E ainda bem…

  30. O gajo, mesmo quando está a negar que insultou alguém, não resiste e volta a insultar. Torcido, mentiroso e relapso. Pela lei de talião, manda-se pró caralho.

    A diferença entre o pecado e o pecador é o preço das indulgências.

  31. oh diabos! vamos lá então pás, que vem aí uma…

    Anonyme, quando eu digo ‘bonito’ é uma expressão sintética onde se enquadram critérios éticos que o Valupi enunciou. Quando referes a questão das armas nos USA como a principoal causa do problema, eu concordo que é uma das componentes, mas não é a principal, como o Moore demonstrou no Columbine, no paralelo EUA/Canada. Eu diria que liberalismo acirrado, o culto do ou és alguém ou és ninguém (loser), e a legitimação estatal da pena de morte contribuem muito para o problema. Não, não é um dogma nem uma reflexão de dois minutos mas de muitos anos.

    «não lhe deviam ter dado a oportunidade de se regenerar, tal a hediondez dos seus crimes», mão digas isto. Se não me engano com outro nick disseste-te uma vez budista, um budista não pode dizer isto. Claro que os crimes são hediondos, eu nem sei como é possível ter a cabeça assim, mas não podemos fechar o caminho a ninguém.

    Repara que nós, que nunca matámos ninguém expressamente, podemos ter morto indirectamente, por entre acção e omissão. Uma tampa dada a alguém hipercarenciado pode ter efeitos imprevisíveis. Há pais que lidam com suicídios de filhos e devem-se sentir muito culpabilizados.

    Só me vale a pena o esforço de lutar e expôr-me às retaliações na vida, se fôr para vivermos num mundo mais feliz e eu vou junto :)))

    Acho no entanto muito mais saudável que possas dizer que és a favor da pena de morte do que ter que ocultá-lo, e por certo que o Valupi concorda comigo.

    ——————

    Agora quanto às touradas. Também eu durante muitos e muitos anos retirei-me da cena, por achar que não tinha o direito de impôr a minha opinião aos outros.

    Agora não. Quando estive na Índia agarrei uma paixoneta por vacas que não me larga, ando cheio de saudades, e agora não me interessa, não há racionalidade que se aguente, vou-me de cornos a eles e desembotados.

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    Vá pessoal, vou ver se descubro romanos.

    Mas tu és um chato Nick, para já lembro-te que me falaste da linha da beleza lá no livro, e agora estávamos aqui todos contentes a comemorar esta coisa e trufa

  32. Claro que concordo contigo, z. Mas não leves isto* a sério, ou não haverá budismo que te salve.

    *Isto, o diálogo entre dois maduros anónimos, intangíveis e estupidificados. Isto é apenas uma brincadeira no recreio.

  33. V: Ontem bebi dois copos de Quinta dos Arciprestes ao jantar, recomendo-to. Não bebo vinho fora da refeição, nem nada, excepto duas ou três cervejas. Uma vez eu disse aqui metaforicamente que tinha entornado o vinho e tu aproveitaste logo para as rábulas do costume.

    Z, budismo: o que eu mais gosto no budismo é que é uma espiritualidade que dispensa os deuses e convive bem com o ateísmo. De resto, não tenho religião de nenhuma espécie, mas interessa-me o tema.

    Liberalismo e pena de morte não produzem assassinos. Não te fixes nos EUA, onde o problema é a oferta maciça de armas, o culto do armamento, a violência gratuita nos filmes e na televisão, etc. Há muitos países de liberalismo e pena de morte, onde não há estes assassinatos e massacres. A tua teoria é uma crença ideologicamente utilitária, mais nada.

    Não relativizes o verbo matar. Não se mata ninguém assim como tu dizes. Sê objectivo, se não tens que carregar todas as dores do mundo.

    Touradas: lutar contra elas está ao nível de outros proibicionismos, com os quais não concordo. As paixões por vacas podem ser fatais.

  34. O vinho só faz é bem. Quanto à tourada, penso o mesmo que em relação ao budismo: é para quem gosta. Eu gosto, de touradas e de budismo. A ver se escrevo sobre isso na montra (não por ter opinião que mereça audiência, mas para pegar de caras a questão, pois sei que muitos se revoltam como tu, z).

  35. ok, pás. Não carrego o peso do mundo não te preocupes, só queria chamar a atenção para efeitos indirectos, já que estamos em tempo de borboletas.

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