Revulsivo, insuportável, viciante

O nome do blogue é, por vias travessas, saramaguiano. Chama-se Intermitências da… Corte. Seguindo a erudita sugestão, deveria ler-se «da Córte», como Saramago as escreveu «da Morte». Mas – como aliás somos alertados – pode colar-se-lhe a sonoridade «da Côrte». Irritante? Oh, meus caros, ainda só vamos no título.

O blogue de Confúcio Costa é incrivelmente belo. Não no design, que é vulgar… mas inteiramente adequado. Porque os conteúdos são puras surpresas. Nada agradáveis, de resto. Antes atrozes, do mais radioso sadismo. Como esta. Ou desumanas, velhacas. Como esta. Ou esta. Ou canalhas, de uma graça reles. Como esta. Ou esta.

De longe a longe – e é isto o mais viciante – surge um tom diferente. Trazendo justiça, como aqui. E alguma subtil humanidade, como aqui.

O mais belo post – para mim, e quem sou eu? – é, todavia, duma ordem inteiramente outra. Que nem caracterizo. Que deixo na sua misteriosa beleza. Este, de 4 de Dezembro, aqui por extenso:

Cozinha

Sono leve, acordar pesado. Barulhos estranhos na cozinha. Levantar, coração que bate. Medo. João Garcia, o heróico alpinista, a olhar-me com olhos de satisfação. Regressar à cama com a certeza de que já é altura de lavar a loiça. E de reduzir, pelo menos, a altitude da montanha de pratos que me enche a cozinha.

Confúcio Costa foi já descoberto por muita gente. Os comentários de leitores chegam às dezenas. Um dia, ainda sou capaz de ir ler alguns. Devo confessar que me põem curioso.

E uma coisa me pergunto: se existirão prémios para tamanha… categoria.

30 thoughts on “Revulsivo, insuportável, viciante”

  1. concordo, fernando, o blog é muito bom. sem pecha.

    tenho para mim a tese de ser o confúcio um incorrigível bonzinho que percebeu terem as mulheres o hábito de se enamorarem dos mauzões. as caixas de comentários, que ainda não abriste, demonstram o sucesso de um formidável blog de engate. nada como um bonzinho que sabe ser mauzão, as gajas ficam todas de cabeça perdida.

  2. confirma-se o bom gosto, fmv.
    também sou cliente do cc. e sofro da mesma subtil humanidade no tocante ao pouco absorvente 24horas..

    (estão todos bonzinhos? têm passado bem?)

  3. Grato – a todos (mas sobretudo ao Fernando) – pelas, generosas, opiniões sobre as minhas “intermitências”. Fico feliz – muito – por ter a vossa visita. Obrigado.

    Um grande abraço.

    PS: primo Valupi, de que cor pintarias a lombada das lambadas?

  4. Confúcio, cores é com a susana e o nosso primo JP. Eu já me surpreendo quando consigo ligar um sujeito a um predicado, jamais me atreveria a colorir folhas subidas. Mas tenho a certeza de que irás publicar. E aposto em como a capa será fonte de intermitências.

    Também profetizo um prefácio assinado pelo Fernando. Sei, pedir não custa.

  5. Confúcio,
    Fico contente. Pelo pedido, que só honra a quem é feito. Mas sobretudo pela informação (implícita) de que planeias deitar ao mundo, em suporte biodegradável, as tuas micro-narrativas.

    Não sei se és mesmo Confúcio, como não sei se o Valupi é Valupi. Começo até a duvidar de se sou FMV.

    Mas o abraço que aqui vai não engana.

  6. A honra é minha, Fernando. Isso é um sim? (Planeio deitar ao mundo as pequenas narrativas, sim; assim haja – ambos sabemos o quão estranho é o mercado editorial – quem lhes pegue).

    Abraço. Sem engano.

  7. benâncio e confúcio,

    ok, ok, esta parte das chapeladas percebe-se e eu fico feliz pelos dois, mas é natal e eu nunca minto em Dezembro: gosto muito mais de vocês quando mordem a eito.

    feitios, que querem?

    abracito aos dois, pois ebidente.

  8. Confúcio,

    Isso agora… Tem de ver-se, meu.

    Eu poderia meter uma cunhazita ao Gildo, o Hermenigildo, se estiver bem ortografado assim. Ele é simples corrector lá na coisa, mas está bem relacionado, e isso é que conta.

    E, depois, a Água Líquida não é o fim da picada. Eles hão-de fazer bicha para te editarem.

    Abraço longínquo e forte.

  9. Rui BN,

    Não é tanto morder, é mais mostrar garras. Mas a aragem embaça-as um tanto, por isso as recolhemos de tempos em tempos.

    Ovrigado pelo avracito. Bai outro de bolta.

  10. “tenho para mim a tese de ser o confúcio um incorrigível bonzinho que percebeu terem as mulheres o hábito de se enamorarem dos mauzões. as caixas de comentários, que ainda não abriste, demonstram o sucesso de um formidável blog de engate. nada como um bonzinho que sabe ser mauzão, as gajas ficam todas de cabeça perdida.” Bingo, Susana. Mas tirando isso é, de facto, um prazer ler o “Intermitências”.

  11. Âncio,

    Irrita-me não conseguir irritar-te, encanta-me a esquerda baixa que usas para rebater as bolas altas e vicia-me a direita certeira e colocada com que me colocas no sítio, bola a bola, imperturbável. Também sabes bisca, montinho, sete e meio? Mah Jong, talvez?

    Cuida-te na aragem e usa uma flanela para os embaços. E garras com critério, claro.

  12. Rui,
    Não consigo irritar-te? Sou um fraco, é o que é. Derretem-me as tuas bolas.

    Agora bisca, montinho, sete e meio? Mah Jong? Após a bisca, é o total escuridão. E mesmo da bisca só vejo quatro fulanos perdendo horas (a perspectiva é minha, eles estão no paraíso) entre baforadas de dois vícios.

    Explica-te.

  13. fmv,

    Haja parceiros, que não há jogo mais emplogante que o xadrez das palavras.
    Expliquei-me?

    (Quanto às minhas bolas, juro-te: nunca tive intenção, nunca imaginei, lamento, pobre amigo, coitado, que horror! Mas tenta pôr gelo, sei lá, pode ser, nunca se sabe… sempre alivia um nadita, dizem.)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.