Deu-lhe muito trabalho. Mas ao fim de cinco semanas tinha metido tout Leiria no computador. Descarnara-lhe as histórias uma a uma e apertara-as em fórmulas algébricas que até faziam dores à vista. Mas detectava-se já um princípio de movimento.
Passou uma noite ajustando os códigos, e quando a cabeça lhe tombava saiu a primeira frase. Num vago português, sugeria universos paralelos. Inabitáveis todos.
Decidiu então educar o programa. Não tinha Mário-Henrique querido educar o Mundo? Naquele quarto sem luz do dia, levou nisso mais uma semana, se é que o tempo lá fora passava. As latas de refrigerante rolavam pelo chão, as pizzas começaram a escassear.
Estava ele, caído de borco, no melhor dum sono, pôs-se a impressora a ronronar. Ergueu a fronte e olhou. Linhas, e mais linhas, e mais linhas. E parou. Retomou a marcha, encheu mais uma página. E prosseguiu. Sempre. Até o papel faltar.
Ele ia percorrendo, febril, as folhas. Em todas se narravam coisas com cabeça e pés, aí perpassando, ventura das venturas, um sopro de desvario. Estava inventada a máquina dos contos. A guerra das editoras não demoraria a estalar. E ele poderia, finalmente, aumentar a casa e trocar o carro.
Ninguém acreditou que ele não andara remexendo o baú do Mestre.