Linha vermelha

– Nem mais um soldado para as colónias!
– O povo libertou o grande educador da classe operária!
– Em frente pela destruição da escola capitalista!
– Passagens administrativas já!
– O proletariado revolucionário fuzilará a linha negra!

Nenhuma destas consignas está no editorial do PÚBLICO de hoje, 15 de Junho. Mas bem podia lá estar.
Mutatis mutandis, claro. E até suspeito de que os trinta dinheiros saem da mesma bolsa.

Jorge Carvalheira

Aspirina Box #4

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Mais coisas na Box (desta vez, em dose cavalar para chegar aos 50 temas). Em primeiro lugar, há as obsessões do costume: The Field com mais uma bomba (a sério: ninguém sampla vozes como este caramelo) e os Of Montreal com mais dois belos exemplos do calibre do último disco da banda. A Box abre de uma forma absolutamente pornográfica com essa obra-prima que é «Just A Bit» de Robert Wyatt (vale bem a pena, como sempre, estar atento à letra), o meu tema favorito dos Swell e a muito pertinente reinvenção de «Star Spangled Banner», o hino dos Estados Unidos, em «(Baby, Baby) Can I Invade Your Country?» dos Sparks. Depois, há o grande «Southend On Sea» do inevitável Mark Eitzel (e com Mark Isham nos sopros), a boa-onda super-cool de «Up On The Hill» dos Fun Lovin’ Criminals e «Buttons & Zips» dos subvalorizados Elbow, tudo material de finíssima qualidade. Aproveitei o facto de ter inserido «Live With Me» dos Massive Attack, que conta com a voz do imenso Terry Callier (rapaz que não fica a dever nada a eminências como Curtis Mayfield ou Marvin Gaye), para vos dar a ouvir uma pérola gravada ao vivo em quatro pistas há mais de 30 anos chamada «Lean On Me». Também há música instrumental: o groovy «14th St. Break» do novo e absolutamente viciante álbum dos Beastie Boys, o clássico «Everyting Is Alright» de Four Tet e esse autêntico pêndulo hipnótico que é «Hunted By A Freak» dos Mogwai. As vozes femininas ficam ao cargo de Stina Nordenstam, Múm e Blonde Redhead, estes últimos com o tema «Top Ranking» (o tal com o magnífico vídeo com a Miranda July). Para terminar, permitam-me que destaque «City Of Motors» dos Soul Coughing: deve haver poucas canções que tenha ouvido mais vezes na minha vida. E traz-me sempre recordações dos aúreos tempos da xfm, o que não é mau. Snif.

Um Cravinho pela Revolução

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Em 14 de Junho de 2006, o País estava contentinho da vida. A Selecção tinha entrado a ganhar no Mundial, três dias antes, e faltavam outros três para o jogo seguinte. Os políticos dos mais antagónicos quadrantes, duas semanas atrás, já tinham tratado do subido desígnio da alteração do horário do plenário, na Assembleia. Todos os nossos sofridos e sacrificados deputados iriam poder assistir ao jogo da bola, com o México. Inspiração latino-americana, unionista, a qual tinha motivado outro esplendoroso fenómeno de sinergias ideológico-partidárias, aquando do baldanço de 119 deputados a uma votação, exactos 2 meses antes. Não deixa de ser curioso verificar como este fervor de solidariedade institucional levanta voo se a motivação vier de 22 rapazes a correr em calções, e despenha-se catastrófico se estiver em causa a localização do mais importante aeroporto de Portugal. Adiante. Lembrar ainda que a tal votação de Abril, trocada por um fim-de-semana prolongado, tinha sido marcada, por deslize, para período já destinado a actividades lúdicas em conflito com a regular execução da ordem de trabalhos; o que levou ao mistério das assinaturas de presença em número superior ao das almas no Hemiciclo. Erro a não repetir, o relativo à data da votação, não à conduta dos do putedo (que nem erro foi, afinal, antes praxis consagrada na Casa — como alguns responsáveis partidários tiveram a bondade de nos explicar frente às câmaras, e sem se rirem). Reinava a normalidade, pois, quando a 14 de Junho li uma bem discreta notícia no Público. Ocupava a mísera coluna da esquerda da página da esquerda, ao baixo, e era a síntese do programa radiofónico Falar Claro, na Renascença, emitido dois dias antes.

Foi uma leitura extraordinária. Por causa desta passagem:

Para o socialista, o mundo do futebol é hoje um lugar estranho e promíscuo: “A sociedade foge a sete pés de querer saber o que se passa [no mundo do futebol]. Quando se dá uma bronca, há uma retracção geral e a intervenção é mínima, o que é uma negação do Estado de direito”, considerou. Exemplo disso é o caso Apito Dourado, afirmou: “Em qualquer país do mundo que não estivesse tolhido, levantava-se o Carmo e a Trindade para saber como foi possível” que os dirigentes da Judiciária que denunciaram o caso fossem afastados, “um para Cabo Verde e outro para o Brasil”, frisou.

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O baú

Deu-lhe muito trabalho. Mas ao fim de cinco semanas tinha metido tout Leiria no computador. Descarnara-lhe as histórias uma a uma e apertara-as em fórmulas algébricas que até faziam dores à vista. Mas detectava-se já um princípio de movimento.

Passou uma noite ajustando os códigos, e quando a cabeça lhe tombava saiu a primeira frase. Num vago português, sugeria universos paralelos. Inabitáveis todos.

Decidiu então educar o programa. Não tinha Mário-Henrique querido educar o Mundo? Naquele quarto sem luz do dia, levou nisso mais uma semana, se é que o tempo lá fora passava. As latas de refrigerante rolavam pelo chão, as pizzas começaram a escassear.

Estava ele, caído de borco, no melhor dum sono, pôs-se a impressora a ronronar. Ergueu a fronte e olhou. Linhas, e mais linhas, e mais linhas. E parou. Retomou a marcha, encheu mais uma página. E prosseguiu. Sempre. Até o papel faltar.

Ele ia percorrendo, febril, as folhas. Em todas se narravam coisas com cabeça e pés, aí perpassando, ventura das venturas, um sopro de desvario. Estava inventada a máquina dos contos. A guerra das editoras não demoraria a estalar. E ele poderia, finalmente, aumentar a casa e trocar o carro.

Ninguém acreditou que ele não andara remexendo o baú do Mestre.

Jong Portugal vs. Jong Oranje

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Imagem de arquivo…

Lá vai ter de ser. Mais noventa minutos de coração despedaçado. A desejar que um ganhe,
receando que o outro perca.

Sei que a íntima festa será um pouco maior se a velha pátria vencer. Mas ir passar as próximas semanas rodeado de tristeza também não é para festas.

«Jong Oranje» é a designação habitual para tudo o que seja de ‘esperanças’ holandesas. A alusão à laranja tem a ver com a cor habitual da camisola, que por sua vez remete para a Casa de Orange, a dinastia que, de há séculos, governa o país.

O surradíssimo cliché «Laranja Mecânica» dos locutores, lá voltaremos a gramá-lo. Pobre Burgess!
A tradução «Laranja de Corda» – no limite, «Laranja-Relógio» – era bem mais exacta.

10 de Junho e cortesias

Passo o dia em Montesinho, onde dormita um Portugal cansado. Não há contrabandistas no rio Pingadeiro, nem já se passa nele a raia a salto, que a fronteira é uma porta escancarada. Vim ver o Parque Natural, desobrigar-me, talvez, de multidões. E embora seja isto uma lonjura, daqui mando cortesias à tribuna do 10 de Junho, que as distâncias de agora não são nada.
A primeira, segundo a ordem canónica, a Sua Excelência o Presidente da República. Quando falou do passado, o seu discurso trouxe-me lembranças caras, que eu já tinha por perdidas. Era uma redacção da 4ª classe, puseram-me a lê-la na festa da paróquia, haverá cinquenta anos. E o tema era a Gesta Lusa. Eu tinha sobre o assunto uma ideia muito vaga, e mais ainda seria a do povo todo que me ouvia. Mas a professora garantira-me sucesso, e assim foi. Falei dos nossos heróis, que na altura tinham marca registada, falei do orgulho nas conquistas do mar, arrisquei mesmo que Deus nos estava agradecido por causa da fé cristã, e acabei a enaltecer o comprimento da Pátria, que chegava de Lisboa à Sibéria, ou coisa assim.
No final não se calavam os aplausos, foi um dia triunfal. Para dizer tudo, foi a minha bebedeira de glória. Falo da euforia dela, porque a ressaca só chegaria mais tarde. Voltei agora a vivê-la, a bebedeira de glória, a euforia.
A segunda cortesia é a João Benard da Costa, se ma aceita. Com o jeito que ele tem, acendeu bóias na rota sobre as águas. Sempre ajudam quem quiser a atravessar o canal. Melhor só terá feito Jesus Cristo, quando acautelou a Pedro, a gritar que se afundava:
– Vê bem onde estão as pedras, minha besta!

Jorge Carvalheira

A TRADIÇÃO DA FESTA

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Das festividades em honra de Santo António, realizadas em Lisboa no século XVII, as touradas e o teatro eram considerados os divertimentos de maior agrado popular, com “verdadeiras multidões a deslocarem-se ao Rossio e ao Terreiro do Paço”, onde decorria o arraial e a feira e se armavam os palanques de madeira para a Tourada de Santo António, efectuada, ao que parece, desde os finais do século XVI, primeiro no Terreiro do Paço e depois no Rossio.

Anteriormente, as celebrações restringiam-se aos importantes actos litúrgicos, passando depois a comportar manifestações como a tourada e outros divertimentos: cavalhadas, música, danças, pantominas e fogo-de-artifício – festejos que contavam com grande adesão popular e que cessaram após o terramoto de 1755.

Soledade Martinho Costa
Festas e Tradições Portuguesas

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Midas Filmes, Hal Hartley e euforia

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Esta é, para mim, a notícia da semana: a Midas Filmes vai editar os primeiros filmes de Hal Hartley no próximo mês de Setembro. A empresa, fundada por Luís Apolinário e Pedro Borges (ambos trabalharam na Atalanta), já tem, de resto, um impressionante catálago e um plano de futuras edições que irá deixar qualquer cinéfilo com água na boca. Para além dos belíssimos documentários de Scorsese sobre o cinema americano e italiano, há ainda os primeiros filmes de Kusturica, Nanni Moretti, André Téchiné e Takeshi Kitano. Mas o destaque vai sem dúvida para os primeiros filmes de Hal Hartley: The Unbelievable Truth (1989), Trust (1990), Simple Men (1992) e Amateur (1994). Depois destes filmes, o rapaz nunca mais foi o mesmo, apesar de ainda ter achado alguma piada a The Book Of Life (1998), onde a PJ Harvey fazia uma fantástica Maria Madalena. Agora só me resta desejar duas coisas: que Fay Grim (2006) entre no circuito comercial português e que a Midas Filmes inclua no seu catálogo as três curtas-metragens que o rapaz realizou em 1991 – Theory of Achievement, Ambition e Surviving Desire. Entretanto, os mais impacientes, podem ir ao sítio do costume ver, na íntegra, duas obras-primas chamadas Trust e Amateur. Olé.

Marchas e Tronos

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Corria o ano de 1932 quando foram incluídas nas festividades em louvor de Santo António as “marchas populares”, com desfiles colectivos dos moradores de cada bairro da capital, ao som de músicas alegres, a obedecer, tal como as letras, os trajos dos marchantes e a própria ornamentação dos arcos enfeitados com balões, a um tema alusivo – histórico ou referente às características de cada bairro.

Poder-se-á dizer que a ideia foi apenas retomada em novos moldes, ou seja, (re)criada e (re)construída como criação lúdica de um espectáculo de rua, adoptado depois pelo povo reunido nas colectividades de recreio dos bairros da capital, que torna as marchas num símbolo festivo, popular e urbano e um dos pontos altos das festividades lisboetas, tal como então foram concebidas e hoje as conhecemos.

Soledade Martinho Costa
Festas e Tradições Portuguesas

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Bushmania

Sou confesso admirador de Bush. O facto de não fazer a mínima ideia de como ele conseguiu chegar a presidente dos EUA ajuda muito ao culto. Mas são os seus desconcertantes e repetidos sinais de patarequice que me encantam. Deve ser adulto de quem as crianças gostam. Este momento não engana: eis um puto a brincar.

Cuidado: isto começa com gritos

Os Tilly And The Wall são um dos segredos mais bem guardados da música do novo continente. Entre as inúmeras virtudes destes meninos, conta-se a curiosidade de a percussionista da banda, Jamie Williams, ser uma bailarina, isto é, ela substitui a bateria pelo som amplificado do seus sapateados e palminhas (o que, convenhamos, faz todo o sentido e apenas fico surpreso por ninguém se ter lembrado disto antes). Mas o que realmente faz dos Tilly And The Wall uma das minhas bandas favoritas é o facto de produzirem a música mais boa-onda e bem-disposta do planeta. Agora, quando um rapaz chamado Kinga Burza (Ungashaka! Ungashaka!) se junta a esta malta para realizar o vídeo de «Sing Songs Along», o resultado não é apenas uma desbunda de som, imagens e euforia, mas um dos objectos mais belos e rejuvenescedores que já vi na minha vida (e vocês sabem que não sou gajo para exagerar nestas merdas). A sério: da próxima vez que se sentirem em baixo ou tristitos, esqueçam lá o Red Bull (que é um beneno) e afinem os sentidos para esta pequena maravilha.

Uma versão do vídeo com maior resolução (Quick Time) pode ser vista aqui.

«Carta a mim mesmo no dia dos meus anos»

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José Luís Tavares (Santiago, Cabo Verde, 10 de Junho de 1967) faz hoje 40 anos.
O Aspirina deseja muitos. Anos, poemas. E felicita-se por poder publicar, hoje, esta

CARTA A MIM MESMO
NO DIA DOS MEUS ANOS

Como poeta nasci já quase canónico
(vede se isto não tem seu quê de cómico),
fazem-me quase um preto gentio camões —
não ligueis, que amanhã príncipe dos anões

serei. É certo que não errei o fio à vida,
seus corsos e naufrágios — fui mais fundo
que os demais? — em modo assaz rotundo
percorri-lhe as voltas, os sustos, a recaída.

Saberão vez alguma que nesta escura feira
tudo é sombra e deriva? Que nem as agudas
razões do pranto desvanecem esta surdina?

Não te iludas com os louros na cabeleira:
mais depressa se rirão das tuas agruras
dizendo «outro que não escapou à sina».

José Luís Tavares

Dia da Raça

Falam-nos dum passado de marinheiros audazes, em que nos fomos ao mar,
a descobrir novos mundos que demos ao mundo velho.

Do mar trouxemos por junto uma epopeia de mitos, feita de deusas carnudas,
e uns tantos heróis pintados, e adamastores de papel.

Arrenego um tal passado. Que ou não somos, agora, o que já fomos, ou
nunca fomos o que nos dizem que somos.

Levaram-nos, é o mais certo, a fingir o que não fomos. Se assim for,
nunca seremos o que nos dizem que somos.

Jorge Carvalheira

BioShock – X06 Trailer

Será um dos jogos mais bizarros até agora lançados, e só por causa do enredo: meninas púberes habitam numa cidade submersa, que parou no tempo em meados do século XX, tendo a protecção de mostrengos em escafandro quando andam à procura de cadáveres para lhes retirar o adam. O jogador será enviado para esse mundo sem saber quem é, nem o que fazer. Consta que o jogo terá uma dificuldade acrescida na resolução dos desafios, e até alguma erudição pop. Tudo ingredientes para um estupendo fracasso comercial, pois — mas, também, manifestação da maturidade do mercado; hoje, joga-se dos 7 aos 77 anos. Nesta apresentação, as imagens são digitais, o formato é vídeo, mas a gramática é toda ela cinema. Escorre cinema, nas entranhas e às golfadas.

Aqui, a versão em HD (e muitos mais vídeos, onde destaco os relativos ao trabalho do elemento água; neste jogo a merecer o estatuto de protagonista, tal a qualidade gráfica alcançada).