Um Cravinho pela Revolução

Cravinho.jpg

Em 14 de Junho de 2006, o País estava contentinho da vida. A Selecção tinha entrado a ganhar no Mundial, três dias antes, e faltavam outros três para o jogo seguinte. Os políticos dos mais antagónicos quadrantes, duas semanas atrás, já tinham tratado do subido desígnio da alteração do horário do plenário, na Assembleia. Todos os nossos sofridos e sacrificados deputados iriam poder assistir ao jogo da bola, com o México. Inspiração latino-americana, unionista, a qual tinha motivado outro esplendoroso fenómeno de sinergias ideológico-partidárias, aquando do baldanço de 119 deputados a uma votação, exactos 2 meses antes. Não deixa de ser curioso verificar como este fervor de solidariedade institucional levanta voo se a motivação vier de 22 rapazes a correr em calções, e despenha-se catastrófico se estiver em causa a localização do mais importante aeroporto de Portugal. Adiante. Lembrar ainda que a tal votação de Abril, trocada por um fim-de-semana prolongado, tinha sido marcada, por deslize, para período já destinado a actividades lúdicas em conflito com a regular execução da ordem de trabalhos; o que levou ao mistério das assinaturas de presença em número superior ao das almas no Hemiciclo. Erro a não repetir, o relativo à data da votação, não à conduta dos do putedo (que nem erro foi, afinal, antes praxis consagrada na Casa — como alguns responsáveis partidários tiveram a bondade de nos explicar frente às câmaras, e sem se rirem). Reinava a normalidade, pois, quando a 14 de Junho li uma bem discreta notícia no Público. Ocupava a mísera coluna da esquerda da página da esquerda, ao baixo, e era a síntese do programa radiofónico Falar Claro, na Renascença, emitido dois dias antes.

Foi uma leitura extraordinária. Por causa desta passagem:

Para o socialista, o mundo do futebol é hoje um lugar estranho e promíscuo: “A sociedade foge a sete pés de querer saber o que se passa [no mundo do futebol]. Quando se dá uma bronca, há uma retracção geral e a intervenção é mínima, o que é uma negação do Estado de direito”, considerou. Exemplo disso é o caso Apito Dourado, afirmou: “Em qualquer país do mundo que não estivesse tolhido, levantava-se o Carmo e a Trindade para saber como foi possível” que os dirigentes da Judiciária que denunciaram o caso fossem afastados, “um para Cabo Verde e outro para o Brasil”, frisou.


_

O socialista que botava a boca no trombone era João Cravinho. Cumpria a missão que tinha assumido há plurais anos: combater a corrupção. Missão bizarra, quiçá grotesca, por se realizar em Portugal, terra de cobardes. Eu, só muito recentemente tinha reparado nessa sua faceta, talvez em 2005. Tinha reparado, com espanto, que havia um político em Portugal que tinha a coragem, e o carácter, para falar na corrupção. E reparava que era o único. O único.

Diferentes aspectos aumentavam a minha perplexidade e correlativa admiração. João Cravinho era um alto quadro partidário, um peso pesado da democracia pós-25. Pertencia a um partido de corruptos, um partido que se alimentava da corrupção, um partido que formava futuros corruptos — isto é, pertencia a um partido do Poder. Não podia ignorar nenhum dos meandros da corrupção sistémica, sendo inevitavelmente conhecedor de inúmeras ilegalidades feitas a coberto das cumplicidades partidárias ou das do lucro. Contudo, nem tinha satisfeito apetites no festim dos gulosos, nem tinha abandonado o esgoto para o ficar a ver da esplanada, mandando umas bocas para quem passa. Antes, andava no deserto a clamar que o rei ia nu e cheirava muito, muito mal.

Fiquei impressionado pelas expressões transcritas na notícia. A imagem do levantamento do Carmo e da Trindade era particularmente feliz, de revolucionário perfume. E a do país tolhido ainda mais, por ser fatal diagnóstico deste Portugal tão pequenino. E tudo isto em referência a um aspecto que nenhum jornal tinha investigado, que nenhum dos publicistas tinha pensado: o afastamento dos inspectores da Judiciária denunciantes do Apito Dourado. João Cravinho atirava-se ao polvo, o povo aos caracóis.

Um aspecto incendiava-me a curiosidade. Sendo este figurão o figurão que era, como podia continuar a ser desprezado pela sociedade? Um silêncio era despejado para cima de Cravinho. Ele falava da corrupção nas entrevistas, nos comentários, nos almoços. Quem calhasse estar presente abanava a cabeça e largava um “apoiado”, e, a seguir, tudo ficava rigorosíssimamente na mesma. Ora, o aspecto mais fascinante era relativo ao Conselho de Estado. A minha ingenuidade estava prestes a receber escopo e martelo, pois acreditava que seria impossível a reunião magna dos poderes políticos em Portugal — o Conselho de Estado, ao qual Cravinho pertenceu na presidência de Sampaio — ser um nada inconsequente; que o mesmo quer dizer: ser conivente, cúmplice dos corruptos. Pois bem, afinal era. A conclusão inelutável decorria da evidência dos factos: Cravinho conciliava o estatuto de Conselheiro e o de auto-Procurador para a corrupção. Se mais ninguém alinhava com ele, se mais ninguém se juntava à pugna, era porque não queriam. Portanto, mais nenhum dos Conselheiros, nem o Presidente, tinham interesse em combater a corrupção. O mesmo pensavam (e continuam a pensar!) os órgãos de informação, todos. Era este o cenário até ao discurso de Cavaco, no 5 de Outubro do ano passado: silêncio e conluio do Poder, corrupção florescente e transversal a toda a sociedade.

Cheguei a consultar a legislação relativa aos Conselheiros. Nela descobri uma série de mordomias, sendo uma delas a possibilidade de uso e porte de arma. Pareceu-me prudência bem apropriada, tendo em conta o calibre e fama de alguns dos escolhidos. Mas nada me esclareceu quanto ao enigma: porquê só um dos políticos, e este, se ter dedicado à causa mais valente e nobre em Portugal? É que a corrupção não se resume a práticas alternativas às legisladas para a distribuição de riqueza. Esse será, de certeza, até o aspecto menos nocivo. E mesmo os crimes que lesam o património histórico, antropológico, ecológico e educativo ainda não são, apesar de já tudo serem, o supremo mal. O mal abominável da corrupção está na instituição de uma cultura de derrotados, de incapazes, de decadentes. A corrupção anula a lógica do mérito, levando ao aparecimento de um fantasmagórico Estado reaccionário e reduzido às competências primárias do humano — um Estado de imbecis. A corrupção desvitaliza o carácter, destrói os laços pessoais, mata a esperança. E nós temos 30 anos de continuada corrupção, sequela do 25 de Abril.

Perante as actuais modalidades da corrupção, tomadas como legítimas actividades de busca do sucesso e até reclamadas corporativamente, o combate contra o salazarismo aparece como uma nostálgica brincadeira de polícias anafados e ladrões bonzinhos.

A Revolução do Cravos continua por fazer. Por agora, só a do Cravinho.

19 thoughts on “Um Cravinho pela Revolução”

  1. há um método tradicional para a eliminação dos maus cheiros nos espaços fechados: uma laranja verde na qual foram espetados cravos de cabecinha. mas para cada laranja ácida são precisos muitos cravinhos

  2. As palavras de Cravinho trouxeram-me uma dúvida (não relacionada com o conteúdo, mas antes com a forma):
    A frase é comummente dita:”cair o Carmo e a Trindade”, não “levantar”. Por outro lado, o Carmo e a Trindade só poderiam cair (ou se Cravinho assim o quiser, levantar-se) em Lisboa, vá lá, em Portugal. Nunca em qualquer outro país, esteja ele tolhido ou não.
    Se quem tivesse dito isto tivesse sido não Cravinho, mas o seu colega deputado Alegre, ainda se poderia dizer que era uma liberalidade de poeta, mas assim não sei.
    Estarei a desejar rigor de mais a um pobre deputado? Porventura estarei.
    Um abraço.

  3. Quem deveria de chegar aos teus corolários era o próprio Cravinho. Eu sei que não vais concordar comigo, primo, mas o que a gente precisava era de uma senhora como a Ana Gomes no Conselho de Estado.

  4. Atão mas onde está o comentário da Ana Gomes do JP que eu tinha visto? Arrependeste-te? Ou o primo aconselhou-te?

    Bem eu também queria a Ana Gomes no conselho de Estado. E também quereria a Natália Correia se ainda fosse viva.

  5. susana

    E já experimentaste a solução?
    __

    Maria do Carmo Trindade

    Exactamente. A expressão popular diz “cair o Carmo e a Trindade”, e, aqui, Cravinho dá-lhe um subtil, mas poderoso, virote. Os significados remetem para o movimento do povo, levantado em armas para defesa do que mais importa, o Reino. É uma óbvia citação dos frescos de Fernão Lopes.

    Cravinho estava a ser rigoroso com o seu pensamento e sentimento, ao trocar o verbo. Óbvio.
    __

    Primo

    Curioso raciocínio, esse relativo aos corolários a que Cravinho não chegou. Se puderes, desenvolve só mais um bocadinho a coisa. Quanto a Ana Gomes, mas sim! Ela tem mostrado ser de carácter, de fibra, honesta e totalmente dedicada ao bem comum. Claro, posso estar enganado.

    Dito isto, não faço a menor ideia dos critérios a aplicar para as nomeações. O Conselho de Estado será um corpo que se quer equilibrado e representativo, evidentemente, mas também terá membros que serão apenas extensões do pensamento do Presidente. Enfim, escolhas com que nunca serei confrontado.
    __

    py

    Natália Correia, pois. Outro exemplo de mérito. Pelo menos, a esta distância.

  6. Tarefa hercúlea me dá este Valupi, de ver exactamente onde lhe aponta a mira.
    Valupi bem podia tornar a coisa mais fácil!
    Enfim lá consegui.
    Porém a corrupção, “sequela do 25 de Abril”, deixa-me outra vez no meio do túnel. Entre outras coisas, há-de ser efeito, seguimento, consequência, resultado. Não sei qual escolher, qual escolhe Valupi. Nem sei qual é a causa.

  7. Jorge,

    O Valupi nunca torna a coisa fácil, é um facto. O seu lugar é incerto, o lugar donde fala é de precária identificação.

    Mas nisso se comparam vocês bem um ao outro. Não é que respeitem propriamente o discernimento alheio. A respeito dele, as vossas dúvidas são enormes. É mais porque acham que ainda possa haver por aí algum esparso interlocutor, e que consigam lançar-lhe a rede. E, se não, não. A coisa já está, em princípio, perdida. (O próprio Cravinho foi posto fora de tentações, com um tacho que, acredito, o gratifica profissionalmente. Também ele terá visto como a nossa classe política teve trinta anos para tranquilamente apodrecer, pacientemente minada pelos empreiteiros.)

    Por tudo isso me parece tão estranho que te confesses atordoado com a produção valupiana.

    Ou será o excesso de esplendor que te cega?

  8. No que me diz respeito, Fernando, muito respeito o discernimento alheio. Digo aqui o que penso, com a clareza possível, enquanto a liberdade mo permite. Não posso é dar-lhe dispensa. Ao discernimento. Porque discernir é talvez nisto tudo a questão fundamental.
    Antigamente não era preciso, tudo era preto e branco. Depois de Abril deixou de ser assim. Abril exigiu-nos a maioridade, hélas!
    E embora complicada, não te dou à partida a coisa por perdida. Melhor do que eu to dirá esta
    Ode pindérica a um cozinheiro naval (com link a um texto de Abril 17, que eu bem gostava de saber fazer).

    A fauna demo-crata, pós-moderna
    que nos governa
    vai andando contente.
    Que já parece gente!
    Soltaram-na do lapuz que lhe apertava a cilha
    à maravilha
    e lhe mantinha a rédea curta
    à fideputa.
    Agora já constrói opiniões
    consome fundos aos milhões
    aos saxões
    e até faz eleições.
    Porém se o povo, um cabrão,
    exige trabalho e pão
    responde-lhe que não.
    Que digo eu?
    Responde o que aprendeu!

  9. Obrigado pelo comentário, Jorge. Desenvolverei melhor (espero) em futuro texto a relação entre a actual corrupção e o 25 de Abril.

    Por agora, e também por estar sem tempo neste dia, dizer apenas que a cultura de um Estado corrupto (o salazarismo, que Caetano não alterou o suficiente, ou não teve tempo para fazer a transição para a social-democracia) passou no 25 de Abril para a sociedade. A sociedade continua a aplicar as regras corruptoras, e os partidos foram o meio de instituir essa vigência da corrupção como sistema. Só um exemplo: o que os funcionários das autarquias cobram por fora para que as obras avancem e não sejam perturbadas é falado à boca cheia e tem rigorosa quantificação. Isto dura há décadas, é impossível ser-se adulto e não o saber.

  10. O Cravinho é um dos grandes responsáveis pelo facto da corrupção «ser falada à boca cheia». Ora isto era suposto um meio e não um fim. E era a este corolário que o Cravinho já deveria ter chegado há algum tempo: o saldo da sua luta contra a corrupção parece-me ser francamente negativa.

  11. Valupi
    Serão sempre benvindas (bem-vindas?) as tuas iluminações sobre a questão, a qualquer tempo. Não esqueças, entretanto, que o poder local tem tutela legal, mas não tutela de mérito. Quer dizer, o regedor de carrazeda tem todo o direito legal de optar pela construção da disneylândia na paróquia, por estar aí o futuro dos paroquianos. Só se lhe podem fiscalizar as contas, quando a corrupção é muito maior do que elas. Como é que se combate?
    Em todo o caso, a questão que te deixei foi só uma: corrupção “sequela do 25 de Abril”.

  12. Fernando,

    Com a pressa, ontem, não deu para saudar o acerto das tuas palavras. O discernimento alheio é entidade informe. Não merece respeito.

    Quanto ao Cravinho, eu não seria tão rápido na conclusão pelo tacho. Ao Cravinho nunca lhe faltaram tachos e panelões, e não será aos setenta e tal anos, logo após a vitória de ter inscrito o tema da corrupção na agenda legislativa, que pareça algo de decisivo ter mudado.
    __

    Primo,

    Discordo. A corrupção sempre foi falada à boca cheia, mas no meio do povo e dos corruptos, não na política, nem na imprensa (ou só fragmentária, aleatória e superficialmente). A corrupção aparece como mais um inevitável constrangimento, para o povo, e como a norma dos negócios, para os corruptos. E Cravinho foi o único que assumiu a sua denúncia, o único. Daí, o resultado me parecer francamente positivo, pois se tratou de um indivíduo contra um País.
    __

    Jorge,

    ‘Sequela’ no sentido clínico e no lógico. No clínico, como mazela da cura de um mal maior, o Estado salazarista. No lógico, como consequência de uma mudança de regime feita por chefes culturalmente imaturos, condicionados pelos paradigmas pseudo-ideológicos.

    Isto é, pensar que a Nação mudava de mentalidade com a súbita mudança de chefias, passando da oligarquia à democracia em 24 horas, eis uma irresponsabilidade de profundos ignorantes. Porém, como estamos a falar de História, foi o único modo possível.

  13. Ok, admito que talvez ainda seja cedo (mas não muito) para fazer o saldo da acção do Cravinho. Mas repara: descreves na perfeição a passagem aC/dC: a corrupção passa a fazer parte da agenda política. Apenas isso. Agora gostaria de ver acções concretas (que já tardam). Se as houver o mérito será sempre (em parte) do Cravinho. Mas jamais serão da sua autoria.

  14. Mas já há. Há nova legislação. E há, sendo este o principal resultado da acção de Cravinho, o compromisso institucional de combater (reduzir, tornar mais difícil e mais penalizada, se apenas) a corrupção. O que marcou essa vitória de Cravinho foi o discurso de Cavaco no 5 de Outubro de 2006. A partir daí, a corrupção foi tema mediático constante (e, também, por causa de variados processos, uns já em andamento, outros a eclodir).

    A autoria, idealmente, seria de todo o corpo político português: políticos, juízes e cidadãos. Precisamente o corpo que tem preferido viver em corrupção cada vez mais obscena.

  15. Valupi:
    É tarde, mas não pôde ser antes. E não concordo com a tua leitura. Quer ao teu sentido ‘clínico’ da mazela, quer ao ‘lógico’, não lhes vejo cabimento. No sentido clínico:
    O regime salazarista era um antro de corrupção. O cabeça de cartaz cultivava a sua auréola de santo, e mesmo o Cerejeira dizia dele que tinha qualidades, mas virtudes nenhuma. Mas distribuía prebendas aos eleitos, que desprezava, e dava-lhes rédea solta, para os calar, os comprar e os amesquinhar. Eles serviam-se lautamente, mas no geral sabia-se pouco, muito menos do que hoje. Não era permitido conhecer.
    Mas a corrupção salazarista estancou com a mudança do regime, simplesmente porque deixou de ter condições para se exercer. Mesmo se feita, a mudança, por ‘chefes culturalmente imaturos, condicionados por paradigmas pseudo-ideológicos’. Suponho que te referes aos chefes militares. Desses quero dizer-te que fizeram o que deviam (mesmo se culturalmente imaturos) e o que podiam fazer. É à custa dos seus paradigmas pseudo-ideológicos que estamos aqui hoje a falar, mesmo se baixinho.
    A irresponsabilidade de profundos ignorantes não residiu neles, é em ti que reside. Porque a eles nunca competiu mudar as mentalidades, nem eles tiveram a ilusão de o fazer em 24 horas. E mal de nós se pretendessem fazê-lo, a história está farta de nos explicar em que deram casos desses.
    Competiu-lhes mudar as chefias do estado e foi o que fizeram. Entregaram o menino a quem ele pertencia e retiraram-se. E até têm sido, depois disso, mais desconsiderados e maltratados do que qualquer outra classe profissional, o que também se compreende facilmente.
    O que depois se passou também não é ‘lógico’, como dizes. Talvez o seja no caso português, o que só agrava a questão. As novas “elites” política, empresarial, académica, administrativa, jurídica, cultural (todas civis, civilíssimas) organizaram o seu poder e têm-no exercido, com os resultados que se vêem. A indigência e a incompetência são pouco para lhe dizer o nome.
    Serviram-se do “menino” que lhes caiu nas mãos sem qualquer sentido do bem público. Têm governado o país, mas sobretudo governaram as vidinhas. Criaram a corrupção que aí está, sem qualquer contrapartida útil. E se alguma excepção há nisto, mesmo se trémula, mesmo se titubeante, tem vindo do actual governo. Que tem agido como tarefeiro da direita indígena mais pura, incapaz como sempre foi de fazer seja o que for.
    Corrupção, como ‘sequela de Abril’, só é ‘lógica’ se aceitarmos esta verdade. O povo português é incapaz de gerar uma elite séria que o governe. Mesmo com a liberdade, a possibilidade de escolha, e o rio de dinheiro de que dispõe há 20 anos.

  16. Jorge,

    Entendo. E não posso concordar mais. Acho é que estamos a dizer o mesmo, embora a minha deficiente expressão te possa ter induzido em erro.

    De facto, não fiz a destrinça entre militares e poderes civis (políticos e empresários). Porque os entendo (erradamente) como um só grupo. E já apontei o que explicitas: os chefes militares fizeram bem; podendo, inclusive, tê-lo feito muito mais cedo. Aliás, tudo o que acontece na História foi o melhor possível, até quando nos aparece horrendo.

    No entanto, mantenho a tese. E creio que tu a confirmas. Aquilo a que estamos aqui a chamar de corrupção, com desvairada latitude semântica, nasce do modo como se dá o 25 de Abril. De facto, a mera mudança de regime, e consequente instauração dos direitos e liberdades democráticos, corresponde a uma grotesca irresponsabilidade. Só poderia resultar se o quadro partidário reunisse o escol nacional, e este estivesse unido no bem comum. Não foi assim, e depois cada vez menos.

    Os partidos começaram logo a praticar baixa política, mesmo reles e criminosa política. Os negociadores de interesses internacionais compraram terrenos na Assembleia e nos Governos. As corporações da oligarquia salazarista foram mantidas intactas pelos partidos, pois eram estruturas que funcionavam. Só faltava instituir um sistema substituto, cumprindo-se o mandamento de ser preciso mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma.

    Ora, dois aspectos me parecem continuar por pensar (entre tantos outros que nem sequer me ocorrem, obviamente).

    Um deles é relativo ao modo como se apagou a inscrição da PIDE na memória cultural e política da Nação. A purga que se quis evitar, por atingir milhares de operacionais e informadores, mais as respectivas famílias, deixou por consumar um dos propósitos maiores do 25 de Abril: fazer justiça. O vazio resultante não se limitou a permanecer vazio, foi antes o vazadouro para onde se mandaram as carcaças da inteligência, da coragem, da honra.

    O outro aspecto é relativo ao escol português. E, neste fascinante e absolutamente calado tema, vejo uma evidência: no pós 25 de Abril, o escol nacional continuava a corresponder a um grupo maior do que aquele que se envolveu activa ou passivamente na mudança de regime. E nisto reforço o ponto da ignorância e pseudo-ideologia dos chefes, sejam militares ou políticos: as forças que mantinham o salazarismo também mantinham a comunidade, aquela comunidade. Donde, haver na polis portuguesa colaboradores do poder infame que eram apenas vítimas, “a contrario”, desse mesmo poder. Poderiam ter sido convocadas para um novo papel onde os seus recursos e talentos seriam aplicados para o bem de todos.

    Também importa deixar aqui, neste nosso mui discreto colóquio, que a corrupção é fenómeno intrínseco à actividade política. Em regimes democráticos, seja em que país for, a corrupção é actividade quase legítima, quase apenas mais um meio que nasce da bondosa competitividade. Pense-se no futebol, na aparente inconsequência da corrupção nesse meio, onde não se vê o Estado a ser prejudicado se um clube obtém um resultado favorável por causa de um árbitro corrompido. Pense-se como o homem da rua convive com essa corrupção como se ela fosse inevitável e impunível. E pense-se como o homem do fato de macaco inveja o do colarinho branco, se este último conseguir roubar sem ser apanhado.

    Ora, que fazer, então? Espero poder continuar a pensar no assunto. Digo, para já, que alinho com a tua análise, e o teu desgosto com a nossa tão impotente direita. Só que a esquerda não é melhor. Felizmente, nem só na horizontal vive o Homem.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.