Este filme promocional do jogo mais famoso da XBOX, o HALO, mostra um pouco do potencial lírico das imagens digitais. O artista chama-se Joseph Kosinski, e merece a visita dos amantes deste novo tipo de pintura.
Aqui, a versão em HD.

Acontece. Aos melhores, claro. Confia-se na técnica, e ela emperra. Não que seja decisivo. Com dez leitores por dia, o Aspirina esmerar-se-ia na mesma. Mas acontece que recebemos bem 1000 visitantes por dia (e mais 1000 caem aqui trazidos pelo vento). Isto em média.
Até há poucos dias. Porque o contador entrou em crise. Emocional, suponhamos. E hoje, está vendo, ainda ninguém nos veio ver. Não, querida leitora, querido leitor. Você… não conta.
Para o contador. Connosco é outra história.
Bem-vindos, pois. Entrem e sentem-se.
Viola-da-terra, menina
Nas mãos de Hélio Beirão
Cria na voz de Eduardina
O rumor duma canção
Na Rua dos Navegantes
Como na Horta, cidade
São as coisas importantes
Que criam maior saudade
Entre igrejas e conventos
Entre ermidas e mercados
Ficam no pó dos momentos
Os teus passos registados
Nas janelas dos solares
Na Ribeira da Conceição
Nos mais diversos lugares
Angústias em construção
Viola-da-terra, menina
Mas mãos de Hélio Beirão
Cria na voz de Eduardina
O rumor duma canção
Das Angústias, freguesia
Pode nascer um compasso
Com palavras de alegria
É esta canção que faço
Jardim Florêncio Terra
Num coreto silenciado
Uma voz em pé de guerra
Procura por todo o lado
Qual é o exacto lugar
Onde fica a sua canção
Será na Rua do Mar
Ou na Rua de S. João
Viola-da-terra, menina
Nas mãos de Hélio Beirão
Cria na voz de Eduardina
O rumor duma canção
José do Carmo Francisco
Escrito depois de um concerto de viola-da-terra
na Casa dos Açores

Gostaria muito que começassem a ler este livro no mesmo estado em que iniciei a sua leitura: na mais pura das ignorâncias. O que me seduziu, quando o vi numa livraria há cerca de um mês, foi o seu aspecto. A Remastered Full-Color Edition de House of Leaves de Mark Z. Danielewski é um objecto que irradia magnetismo: como se a invenção de Gutemberg tivesse esperado mais de cinco séculos para cumprir finalmente nesta obra todas as possibilidades da arte da tipografia. Adquiri assim o livro num impulso de bibliófilo que, até aquele dia, não sabia existir em mim: mesmo que as suas páginas estivessem escritas numa língua que não me fosse inteligível, o livro, enquanto objecto, justificaria a compra. Deve-se olhar primeiro para as páginas desse romance como a mesma inquietação que olhamos para uma pintura. Numa era em que o papel tende a perder a sua importância, o livro de Danielewski é a mais violenta demonstração que conheço do quanto o seu suporte é insubstituível. E foi assim que olhei para as suas páginas, uma a uma, durante uma tarde inteira sem nunca me passar pela cabeça iniciar a leitura. Acabei de o ler hoje de manhã e mais não digo. Porque estou certo que haverão de querer relê-lo um dia no mesmo estado em que finalizei essa primeira e inesquecível leitura.
Os pais deixaram Gonçalo à porta de Gina, a caminho do aeroporto, para umas férias de sendeirismo nos Cárpatos.
Gina acolheu encantada o seu ‘menino’, agora de dezasseis anos. Tinha sido ama do pai
e só saíra para casar. O casamento durara um fósforo, mas agora via-se com casa.
Quartos de criada nunca mais.
Os oito dias das férias paternas, passou-os Gonçalo na cama com Gina. Aquilo havia sido fulminante, diria o moço com mais preparação. A novidade, as estatísticas hormonais e um começo de viciação, também ela de foro científico, facilitaram o débito.
Quando os pais vieram buscá-lo, Gina não pôde conter-se: ‘Está um homenzinho’.
A mãe, no lugar do passageiro, sorriu. O pai, ao volante, compreendeu, e sorriu também.
A Gina continuava impecável.
fv
Amsterdão, 3.6.2007
O mundo das imagens digitais corresponde a uma nova poética. E o universo dos jogos será a nova escola. E um novo turismo.
Neste exemplo, o que mais importa ainda não é o que se vê no vídeo exibido, mas a versão do mesmo em HD. Se a narrativa é irrelevante, apenas a apresentação publicitária de um jogo, a plástica das imagens já permite falar de arte.
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Coisinhas novas na box. Em primeiro lugar, há rock norte-americano: «Icky Thump» dos The White Stripes (uma bomba) e «Fake Empire» dos sempre indispensáveis The National. Como ainda não ouvi o novo disco dos Wilco (dizem que é fraquito, mas não acredito), resolvi colocar essa absoluta maravilha de contenção, sobriedade e bom-gosto que é «Kamera» do superlativo YANKEE HOTEL FOXTROT. Para além de ir buscar o velhinho «I Dreamt I Saw St. Augustine» de Bob Dylan (composto na ressaca das sessões com os The Band que viriam a dar origem às THE BASEMENT TAPES), volto a insistir com The Field, desta vez com a faixa «Everyday» (reparem sobretudo o que acontece a partir do minuto 2:27). Como não tenho vergonha na cara, não hesitei em colocar um dos meus temas favoritos de todos os tempos: o quase tântrico «Banshee Beat» dos Animal Collective (não se esqueçam que amanhã há Panda Bear em Serralves). Para terminar, fui buscar «The Bleeding Heart Show» dos The New Pornographers, «Sky Starts Falling» dos Doves (uma das bandas mais subvalorizadas da pop britânica) e «The Hard One» dos saudosos The Beta Band que aqui recriam o refrão do clássico «Total Eclipse of The Heart» da demoníaca Bonnie Tyler. Os temas da semana passada também continuam disponíveis.

O herói de Alkmaar foi desterrado para Reggio Calabria. Houve quem lhe chamasse o leão de Alkmaar. Para outros, Miguel Garcia foi o herói de Alkmaar. Foi ele que no minuto 120 do jogo entre o AZ Alkmar e o Sporting marcou um golo inesperado, insólito e mágico e colocou a sua equipa na final de Taça UEFA. Por esse golo morreu o jornalista Jorge Perestrelo, com o coração despedaçado pela alegria multiplicada nas ondas da TSF.
Nunca uma derrota tinha sabido tão bem. Perder por 3-2 fora suficiente para festejar a passagem à final de uma Taça Europeia. Soube hoje que este alentejano discreto acabou desterrado para a ponta da bota italiana – Reggio Calabria. Depois da solidão no Entroncamento em 1999, depois da solidão de 2006 na selecção de esperanças, esta é a terceira solidão de Miguel Garcia. Foi como se uma borracha gigante apagasse um percurso límpido desde os primeiros tempos do Atlético de Moura, quando o tímido Iniciado do Sporting estranhava a vida turbulenta de Lisboa e só andava de Metro na companhia segura do colega Valdir.
De repente Miguel Garcia aparece substituído por um obscuro suplente no Sporting de Braga. Até Pinto da Costa (honra lhe seja feita) se referiu ao modo miserável como a imprensa desportiva fez o branqueamento da grande penalidade cometida por Simão Sabrosa sobre Miguel Garcia no recente Sporting-Benfica. Foi castigado como se a culpa fosse dele. Sofreu uma falta grave que o árbitro não assinalou e foi afastado como se fosse sua a culpa da derrota.
O herói de Alkmar leva nos olhos para o Sul de Itália a música triste da sua campina, onde as máquinas substituem os ceifeiros e quem passa nas estradas vê nas casas dos cantoneiros a apoteose da solidão.
José do Carmo Francisco
Sabiam que os EUA ainda não ratificaram a Convenção dos Direitos da Criança? Pois é, não ratificaram. Deve ser a síndrome de Kyoto.
FORTE DOS TEIXOS
– Sabes o que têm Évora e York em comum?
– Não. Uma universidade?
– Também. Mas mais importante.
– Eh pá, não sei. Serem cidades bonitas?
– Outra coisa. Bom, dou-te uma ajuda. O nome.
– O nome?
– O nome.
– Agora está a querer gozar.
– Pode-te parecer, mas é como eu digo. York e Évora têm o mesmo nome. Bom, tiveram.
– E qual? Pode saber-se?
– Eboracum. Tinham uma fortaleza.
– Ah!
– E havia por lá uma data de teixos.
– Teixos?
– É um tipo de árvores. Coníferas, nunca ouvistes falar? Têm frutos em forma de cone.
Como o pinheiro. É também uma conífera.
– O que tu sabes! E então…
– Então, os celtas, porque foram eles, chamaram eboracum, a essa fortificação que ficava
ao pé dos teixos.
– E isso foi em Évora?
– Exacto.
– E em York?
– Nem mais.
– Mas então…?
– Então, de eboracum formou-se «York», como se formou «Évora». As leis da derivação não
são universais.
– Eu fico espantado.
– Não fiques. Daqui a dias, conto-te outra.
Peço desculpas ao Aspirina inteiro, pela vastidão da postagem. Mas encontrei esta história ali num disco velho. E hoje é o dia de eu me divertir.
Nesse tempo o Largo João de Almeida era para nós um sítio onde paravam táxis. Só muito mais tarde havíamos de saber que, por trás do topónimo, se escondia um herói de bigodes, um guerreiro do império que passara o melhor da vida a espingardear bacongos nas matas dos Dembos, e a enxotar os cuamatos das savanas da Huíla.
Ninguém levava as glórias nacionais mais a sério que nós, que resistíamos com tenacidade às provas de fogo das aulas de história. Apenas se sentava, o velho mestre surdo, logo chamava em seu auxílio um lente
– tu! traz o compêndio!
E lá ficava a ler páginas e páginas do livro do Matoso. Às vezes morria um rei, achava-se no mar uma ilha deserta, casava-se a princesa, havia um terramoto. Um dia alguém matou o Miguel de Vasconcelos, amigo da duquesa. E logo a voz do mestre, com aquela autoridade que nasce do saber
– sublinhai!
E era na perturbação desses momentos que eu esticava o olho à carta de marear do adversário, e lhe dava o tiro de misericórdia no último submarino.
Jorge Carvalheira