O estado de insanável contradição moral que Cavaco ostenta desde 2008 é um microcosmo daquilo que na cultura da direita portuguesa decadente se considera ser o “fazer política”. Não tem qualquer novidade por comparação com outras práticas em geografias e calendários diferentes, pelo contrário. Antes fica como a síntese do que de mais baixo se pode levar a cabo em democracia para conquistar o poder: diabolizar e conspirar. Com uma diferença, contudo, a de Cavaco juntar à vilania a alucinação. Ele, de facto, imagina-se puro, superior, iluminado. Já nos dirigentes e militantes do PSD e CDS, tomados aqui em grupo na sua condição de cúmplices, trata-se apenas de pragmatismo. O poder conquista-se com mentiras e canalhices, valendo tudo desde que não se seja apanhado pela bófia, e não há cá noites mal dormidas à pala disso.
Veja-se este trecho notável, retirado do último discurso que fez enquanto Presidente da República nas comemorações do 25 de Abril. É notável do ponto de vista político, do ponto de vista antropológico e também, ou principalmente, do ponto de vista psicológico, quiçá psiquiátrico:
Noutro domínio, de grande importância, tornou-se evidente a necessidade de garantir a segurança dos cidadãos face a novas ameaças transnacionais, a que devemos dar resposta através da afirmação dos nossos valores e princípios, mas também com recurso a meios preventivos e repressivos. Portugal é uma sociedade aberta e tolerante. Para continuar assim, tem de rejeitar com firmeza os extremismos e ser intransigente com a violência e o terrorismo.
Um desafio premente que aqui se coloca é o de adequarmos a organização e o funcionamento de todas as estruturas que compõem o nosso sistema de segurança nacional às exigências que decorrem destes novos perigos, que não se fazem anunciar e que não conhecem fronteiras.
Ainda que num plano claramente distinto, a violência não se manifesta apenas através da força física e das armas. Temos assistido, no debate público em Portugal, a um nível de crispação e de agressividade verbal que, muitas vezes, não hesita em extravasar da controvérsia de opiniões para os ataques e os insultos de caráter pessoal.
A quem mais é que lembraria passar directamente da temática do terrorismo, e sua galeria de crimes contra a humanidade, para a temática da tipologia superficial do debate político? A quem mais senão a quem esteja, nesta específica altura do campeonato, preocupado em equivaler assassinos dementes com políticos e cidadãos desagradáveis? E quem é que poderão ser esses políticos e cidadãos senão os da oposição?
Quando Cavaco lançou a estratégia do “falar verdade aos portugueses”, em conluio com a “Política de Verdade” da sua amiga Manela, não se mostrava nada preocupado com os níveis de crispação e com as calúnias. Precisamente o oposto, essa estratégia o que pretendia era o crescendo da agressividade no espaço público, de forma a criar um ambiente insuportável onde o adversário político se transformasse num inimigo moral. Em vez daquele que tinha uma proposta diferente, a direita a partir de 2008 apostou tudo em fazer de Sócrates e do PS aqueles que violavam as leis compulsivamente e não eram dignos de qualquer confiança, por isso devendo ser escorraçados da cidade por estarem possuídos pelo mal.
Será que Cavaco não se lembra do que já conseguiu alcançar em matéria de violência? Quando Cavaco, ou alguém em seu nome, lançou a “Inventona de Belém” em cima das eleições de 2009, atingiu-se um grau inaudito de crispação, difamação, calúnia, mesmo alarme público. O normal funcionamento das instituições foi para o galheiro e chegou-se ao ponto de vermos o Correio da Manhã a noticiar que se tinham chamado as secretas militares a Belém para averiguarem se havia escutas posto que a Presidência não confiava nas secretas civis, as quais ficavam sob suspeita de estarem a mando dos socialistas. Isto aconteceu a poucas semanas das eleições. Quando Cavaco foi para o comício da tomada de posse em 2011, a três dias de uma manifestação de protesto contra o Governo socialista, insultar os políticos por atacado e pedir para que as pessoas se revoltassem na rua, que nível de agressividade terá atingido? E como é que Cavaco avalia as seguintes declarações que, numa bizarra coincidência, lhe pertencem e foram gritadas na noite da sua reeleição – as quais ficam igualmente como uma estreia histórica quanto à degradação da figura presidencial:
“Nesta eleição há vencidos: são aqueles políticos e seus agentes que preferem o caminho da mentira das calúnias, dos ataques sem sentido, ao debate de ideias sobre o futuro de Portugal. Foi o povo que democraticamente os derrotou”, frisou Cavaco Silva, arrancando mais aplausos. “Uma vez mais, o povo português não se deixou enganar. Esta é a noite da vitória da dignidade. A honra venceu a infâmia e a qualidade da democracia ganhou com esta vitória da dignidade”, reforçou.
Sobre uma grande bandeira portuguesa, numa varanda interna do Centro Cultural de Belém, voltaria a falar aos seus apoiantes para dizer, uma vez mais, que prevaleceu perante o que considerou ser a “vil baixeza” das estratégias dos adversários. E também para deixar críticas aos média: “Eu penso que seria extremamente benéfico para o funcionamento da política em Portugal que a nossa comunicação social revelasse os nomes daqueles que estão por detrás desta campanha que foi orquestrada contra mim”.
Deste homem não se poderá dizer que tenha qualquer aproximação com a natureza, sequer a imagem, de um terrorista. Mas espero que um dia a História lhe faça justiça. Espero que a História não esqueça o terror institucional que a sua ambivalência e sectarismo representaram para a qualidade da democracia.