Festina lente, Costa

António Costa começou o discurso no Pavilhão Rosa Mota, neste domingo, acelerado. Acelerado continuou. E ainda mais acelerado terminou. É preciso que alguém lhe diga para se acalmar se a ideia for a de acelerar o eleitorado.

Há características psicológicas em Costa que prejudicam a sua afirmação como líder e, muito provavelmente, estão também na origem da surpreendente inépcia estratégica que tem revelado. Por exemplo, no primeiro debate com Seguro a sua prestação foi comedida, tendo procurado passar uma imagem conciliadora, quiçá amistosa, no trato público com o então secretário-geral. Após o debate, todos os comentadores de direita aproveitaram a oportunidade para fingirem que Costa tinha perdido o páreo, que nem sequer se teria preparado. Tudo conversa da treta face à inanidade de Seguro, mas treta permitida pelo amadorismo ou sobranceria de Costa. O segundo debate levou-o para um urgente exercício de intensa pressão sobre Seguro, não deixando dúvidas quanto à percepção geral produzida. E o terceiro foi um misto dos dois anteriores, tendo esse debate acabado por ficar marcado pelo descontrolo emocional de Seguro. O ponto que realço é este: Costa mostra-se desconfortável em situações de antagonismo, parecendo não saber qual é a medida certa para a sua agressividade. Esta hipótese também radica na por si mesmo admitida imagem de ser alguém dado a provocar, ou a não impedir, explosões de violência emocional para com os seus subordinados. Exemplos vários poderiam ser dados, inclusive o modo ambíguo e passivo como lidou com a prisão de Sócrates, e ainda antes na forma como se exibia perante os ataques de carácter a Sócrates por parte do Pacheco e Lobo Xavier na Quadratura – marcas de um desequilíbrio entre dois extremos, a afirmação e a abstenção.

Referir estes aspectos da sua pessoa pública não pretende ser uma avaliação da sua capacidade como político. Costa é Costa é Costa, e assim será. Os factores que estão a prejudicá-lo são parte de um todo onde têm uma função que não pode ser desligada dos factores que lhe têm dado o sucesso político que obteve até agora, a sua reputação incluída. Todavia, algo poderá ser melhorado. E pode ser algo tão simples, aparentemente, como a alteração do quadro psicológico associado às suas intervenções tribunícias. Porque, como o exemplo da “Festa da Democracia” revela, ter um líder afectado pela ansiedade não é benéfico para si, para os seus e para a cidade.

Conselhos:

– Não querer imitar Fulano, Beltrano ou Sicrano.
– Começar devagar.
– Não gritar por convenção, gritar só por paixão.
– Falar para alguém, não falar para ninguém.
– Quando há algo para dizer a Passos, Portas ou Jerónimo, imaginar que Jerónimo, Portas e Passos estão ali, mesmo em frente, e dizer o que há para dizer como se.
– Nunca, mas nunca, gritar “PS, PS, PS” ao ritmo de uma metralhadora.

E prontos. Por hoje é tudo.

Revolution through evolution

Teaching children in schools about sexual abuse may help them report abuse
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Should a political party form a coalition? Voters and math decide
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Civic engagement may stave off brain atrophy, improve memory
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Faculty in doctoral programs more responsive to white male prospective students, research finds
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Nothing beats a good night’s sleep for helping people absorb new information, new research reveals
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Why Everything You’Ve Heard About Women and Negotiation Might Be Wrong
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Professional golfers live a lonely life in the midst of rivalries on a meager income
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Verdade com sabor a laranja

Já em 2009, às portas das eleições mas com o País em pré-bancarrota, o PS de Sócrates usara da mesma estratégia. Aumentou os salários na função pública e reduziu a taxa normal do IVA e, pelo caminho, prometeu TGV's e cheques bébé.


Francisca Almeida

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Tendo convocado Yourcenar para um exercício que se esgota em tratar os socialistas como mentirosos, esta deputada do PSD introduz um acrescento refrescante na cassete da “bancarrota”: em Setembro de 2009 já estávamos em “pré-bancarrota”. Porquê? Não terá tido tempo, ou caracteres, para explicar. Aliás, talvez convenha nada explicar para não tirar encanto literário à imagem. O talento romanesco não carece do zelo e aridez da racionalidade demonstrável.

Acontece que o conceito “pré-bancarrota” é de irresistível utilidade. Pode ser aplicado sem limite lógico por ser desvairadamente plástico. Podemos até perguntar se haverá algum período na História onde os Governos, nacionais e internacionais, não tenham estado em “pré-bancarrota”; exclusão para os que, de facto, entraram em bancarrota e só durante essa altura. Por aqui, a Francisca está a representar com garbo a “política de verdade”, outro conceito que conhece muito bem posto ter sido eleita para o Parlamento sob a sua égide. A chatice começa quando nos recordamos do que não ouvimos nem lemos nesses idos de 2009. E não ouvimos nem lemos ninguém do PSD ou CDS a falar em bancarrota, pré-bancarrota ou ante-quase-pré-bancarrota. Do que se falava era das contas que as “gerações futuras” teriam de pagar por causa de umas estradas algures. E também se falava muito da “asfixia democrática”, do “Freeport”, “da PT e da TVI”, da “Manuela Moura Guedes”, do “clima de medo” e de uma malandragem que andava a espiar o correio electrónico do Sr. Cavaco. Pode dar-se o caso de essa asfixia ter reduzido drasticamente o oxigénio a circular pela mioleira dos estrategas da direita ao tempo, eventual razão pela qual deixaram escapar o tema da franciscana “pré-bancarrota”. Enfim, um dia o Pacheco revelará em livro o que realmente se passou.

A “bancarrota” está connosco desde meados de 2011 e não tem tido um dia de descanso. A campanha eleitoral da direita não terá muito mais para berrar do que esse estribilho. Se tudo se mantiver igual, e vai manter, não teremos direito a qualquer explicação acerca do que causou a tal festejada “bancarrota”. Terá sido causada pelo TGV que não chegou a ser construído e para o qual havia fundos comunitários, sendo que o projecto tinha nascido num Governo PSD onde contemplava 4 linhas? Terá sido causada pelo novo aeroporto que não chegou a ser construído? Terá sido causada pelas PPP cujos custos só iriam ser pagos pelas gerações futuras? Terá a “bancarrota” nascido do gasto em combustível de avião para carregar os computadores Magalhães daqui para fora? Terá a “bancarrota” aparecido como consequência do investimento em energias renováveis e consequente diminuição das importações de petróleo que originaram? Será que a “bancarrota” foi o resultado inevitável da instauração do Simplex? A lista é fastidiosa, pelo que nos daria muito jeito ter os arautos da “bancarrota” a fazerem uma pausa no estado de êxtase com que celebram a chegada da mesma e dignarem-se apresentar alguns dados carnudos para mastigarmos.

Claro que o problema se torna ainda mais bicudo quando olhamos para o que literalmente se passava em 2011 até à “bancarrota”. Tendo o Governo socialista apresentado um plano que continuava e alargava as políticas iniciadas em 2010, por imposição europeia, para diminuir as despesas do Estado, vimos a direita a chumbá-lo e a levar o País para uma crise política que de imediato o afundou nos mercados de financiamento, acabando por obrigar ao resgate em poucas semanas. Até parecia que a direita não queria mais medidas de austeridade e que assim anunciava aos portugueses e ao Mundo que vinha aí o fim dos sacrifícios.

Não sei se a Francisca Almeida se lembra desta história. Não sei se tem uma memória de Adriano. Mas lá que ela e o tempo são dois grandes escultores, isso fica patente na extraordinária capacidade para moldar o passado segundo o seu gosto e fantasias. Fantasias verdadeiras, obviamente, e com sabor a laranja.

Zeitgeist – A era dos liberais à portuguesa

Mariano Gago?!... Mas esse tipo não foi um socrático do pior, tendo andado a esbanjar o rico dinheirinho dos meus impostos em ciência, educação, tecnologia e inutilidades dessas só para o dar aos xuxas em vez de ir a correr guardá-lo para encher os nossos cofres? E a corrupção toda que ele andou a esconder e de que é cúmplice? Querem ver que não sabia dos milhões na Suíça que o cabrão andou a roubar com o amigo... LOL!! Ninguém fala nisso porquê? Por medo dos serviços secretos, e do Noronha e do Pinto Monteiro, né? Só pode... FILHOS DA PUTA. Ainda por cima era gago!!! LOLOLOLOLOLOLOLOL!!!!!!!!!!

A festa e a festança

Voltando a 2011, Pedro Passos Coelho considerou que, "mesmo quem não votou no PSD, sabe que a 'festa' não podia continuar e que era preciso ajustar".

Abril, 2015

"Nós calculámos e estimámos e eu posso garantir-vos: Não será necessário em Portugal cortar mais salários nem despedir gente para poder cumprir um programa de saneamento financeiro", afirmou Pedro Passos Coelho, no encerramento do fórum de discussão "Mais Sociedade", no Centro de Congressos de Lisboa.

O PSD quis "vasculhar tudo" para ter contas bem feitas e, "relativamente a tudo aquilo que o Governo não elucidou bem", procurou "estimar", preferindo fazê-lo "por excesso do que por defeito", referiu.

Para Passos Coelho, a solução é "austeridade para o Estado" e quem lidera deve dar o exemplo, "porque isso tem um efeito multiplicador muito importante em toda a sociedade", o que só pode ser feito "mudando a liderança em Portugal".

Abril, 2011

“A nosso ver, o último pacote de austeridade não iria potenciar o crescimento mas impor sacrifícios inaceitáveis aos membros mais vulneráveis da sociedade. Eram demasiados impostos e uma redução de despesa insuficiente”, refere, num artigo que será publicado na quarta-feira na edição impressa do Wall Street Journal.

Março, 2011

Oposição: esqueçam a palavra austeridade

Nota-se mais pelo Governo do que pela oposição, mas, meninos e meninas, estamos em campanha eleitoral. Trata-se de uma altura em que as palavras importam. A palavra austeridade já cansa e, pior do que isso, não é nem nunca foi palavra que assuste. Se alguém disser «vem aí a austeridade» ninguém foge apavorado nem ninguém se revolta. Como, aliás, se tem visto. Assim, acusar o Governo de querer continuar a austeridade, dito assim nestes termos, é como fazer-lhe cócegas. Ser-se austero em matéria económica e outras não é necessariamente mau. A palavra austero significa, segundo o dicionário, “que é muito rigoroso nos seus princípios”, “sério e grave” ou ainda “que exige muito esforço”. A palavra austeridade com que se apelidam as medidas de saque fiscal e salarial em nome da contenção da despesa pública, mas na prática para recapitalizar bancos estrangeiros, não foi escolhida por acaso. O conceito de austeridade não é mal visto pela grande maioria das pessoas.

Parece-me, assim, pouco eficaz para quem quer denunciar a política de sangria do país levada a cabo entusiasticamente por este governo, apoiado no diretório europeu, acusá-lo de “querer continuar a política de austeridade”, caso ganhe as eleições. Não adianta nada. Não conquista um só voto. Não me parece que a ideia de rigor nas contas, de contenção dos gastos públicos e privados e de «dieta», literal ou figurada, associada à palavra austeridade seja algo de que as pessoas entendam dever libertar-se sem se sentirem esbanjadoras. Muito menos neste país ex- e neo-salazarento e algo beato. Facilmente, como aliás se vê, o Governo lhe contrapõe os alegados gastos excessivos dos socialistas, sem ter que demonstrar coisa nenhuma. Muito por causa da palavra austeridade.

É evidente que, na prática, a apregoada austeridade não é só isso (o rigor) ou até nem é isso. Na prática, é o empobrecimento geral da população, alegadamente para tornar o país mais atraente para os potenciais investidores. Como já se viu e sabe, esse empobrecimento, o pouco investimento que atrai (se atrai algum na indústria) é enquanto ainda subsistem trabalhadores formados e qualificados. Quando grande parte da população voltar a não ter educação suficiente nem qualificações, ou já tiver emigrado, vai-se investir em quê, sabendo-se da existência de Chinas, Vietnames, Índias e Marrocos neste mundo globalizado?

Esqueçam, pois, a austeridade. Falem em roubo, em expiação exigida a inocentes, em políticas de punição, em vergasta, em destruição do orgulho nacional. O que quiserem nesta linha. As palavras importam.

Isto da inteligência é muito cansativo

Há um secreto alívio na destruição do património histórico iraquiano, sírio, líbio, o que conseguirem apanhar e não queiram vender – o qual é igualmente património da humanidade – levada a cabo com invejável entusiasmo e atenção videográfica pelos doentes do Estado Infâmico. Podemos até reunir todos esses actos num apocalíptico “momento zen”, o qual simbolizaria a libertação das amarras da cultura e do passado. De facto, para quê estar a conservar ruínas já num estado de ruína? E aquelas estátuas foleiras não representam déspotas ou falsidades mitológicas? Não fizeram o mesmo os cristãos e os civilizadíssimos europeus ao longo de séculos e séculos? Também de um ponto de vista marxista, a criação do “homem novo” não se compadece com agarramentos aos velhos homens das velhas explorações dos trabalhadores doutrora. São muitas e boas as razões para simpatizarmos com a razia, pois.

E que não restem dúvidas, no dia em que um destes doentes consiga pôr a mão numa arma que destrua o Planeta inteiro ele irá carregar no botão na primeira oportunidade. Talvez esteja aí uma das explicações para o paradoxo da previsível infinidade de planetas com condições para desenvolverem vida neste Universo e nem um singelo sinal de rádio com lógica comunicacional nos ter ainda chegado às antenas. É que talvez a inteligência, ao atingir o ponto em que consegue extinguir os seres que a albergam, não resista à tentação de descansar de si própria.

O jornalista do jornalista

Estive a passear pelos arquivos do blogue e encontrei este vídeo, publicado por cá originalmente em 2009. A situação nele registada remete para 2006, ou antes.

Rodrigo Amarante é um músico brasileiro e a questão em que se envolve numa discussão com o jornalista não poderia ser mais fútil, ou mais típica daquele contexto geral de futilidade que decorre da questão ela própria. Contudo, a resposta que o Rodrigo teve a felicidade de dar ao atarantado jornalista é brilhante e paradigmática. Aplica-se a qualquer outra questão, seja ela qual for, mas em especial em situações onde os jornalistas estão a explorar suspeições, difamações e calúnias.

É simples, basta ser o jornalista do jornalista.

Parabéns Pedro&Paulo

Passos e Portas estão de parabéns, e o Pedro ainda mais. Muito mais. Não entender porquê será um erro, mais um, da oposição.

Durante as eleições para a liderança do PSD em 2008, uma parte do partido sentiu asco da conduta do então apodado imitador de Sócrates. Os seus elogios ao dito, e os seus ataques a Ferreira Leite – que valeram ao casal Passos-Relvas a exclusão da lista de deputados laranjas – exibiam uma personalidade ainda totalmente mergulhada na cultura política adolescente e estouvada da JSD. Com a saída da Manela, a disputa interna parecia favorecer Paulo Rangel, visto como o preferido dos cavaquistas, e levar a uma repetição do desaire passista da anterior eleição. Porém, as bases o que queriam mesmo era o seu Sócrates e justamente castigaram um Rangel que estranhamente se revelou um fiasco nos debates, inclusive tendo perdido com escândalo o mano a mano com o bimbalhão do Aguiar-Branco.

Tínhamos agora o Pedro à frente do partido e com a certeza de que a legislatura não chegaria ao fim, dado não haver maioria parlamentar nem interesse em alcançá-la. O caos nos mercados de financiamento externo e a certeza de que Cavaco apoiaria o derrube do Governo na primeira oportunidade colocavam o calendário das legislativas nas mãos do PSD. Neste período, a grande dúvida na direita ocupava-se com a capacidade de Passos para se aguentar no confronto eleitoral com Sócrates. A percepção geral era a de ser altamente improvável que conseguisse bater o primeiro-ministro de então. Ironicamente, o ostracismo parlamentar acabou por protegê-lo, tendo chegado ao período eleitoral sem qualquer desgaste na imagem e sem derrotas em duelos. Na única ocasião em que enfrentou a fera, no debate televisivo, apareceu à sua frente um Sócrates interiormente derrotado pelos acontecimentos que levaram ao resgate, descrente de que valesse a pena lutar pela vitória. Ainda assim, quem revir os 60 minutos tem de se render à evidência: Sócrates denunciou correctamente a agenda secreta da direita e Passos mentiu quanto pôde e do princípio ao fim. Os que consideraram, e consideram, que o “homem invulgar” venceu o debate estão acto contínuo a definir o estatuto da sua relação com os factos e com a decência.

Nestes 4 anos, que estão quase a acabar, Passos superou obstáculos gigantes. Por exemplo, excelentes cabeças não concebiam que o primeiro-ministro conseguisse manter-se no cargo caso perdesse Vítor Gaspar ou Miguel Relvas. Pois ele perdeu os dois e viu a sua autoridade reforçada também por causa dessa perda. As crises da TSU, em 2012, na Educação e na Justiça não o derrubaram, nem derrubaram qualquer ministro, podendo mesmo dizer-se que não o molestaram. A inversão radical do discurso ao sabor dos acontecimentos passa impune, a própria oposição mostra-se incapaz de capitalizar nesse deboche. E o contraste entre as promessas eleitorais e a prática governativa, entre a aclamação do Memorando como obra própria e salvífica e a sua utilização como arma de arremesso contra o PS, entre o património ideológico da direita e a fúria do empobrecimento e do saque fiscal, tudo isto e o resto não faz ninguém sair à rua. Nem sequer os profissionais do protesto, tão fogosos num passado ainda recente. O episódio da demissão de Portas acabou por ser favorável aos dois, dando a Passos uma liderança do Governo reforçada e a Portas o consolo das prebendas a que reduziu a sua intervenção política. O ciclo acaba com o supremo e colossal troféu de ter Sócrates preso e cada vez mais desprestigiado, o que igualmente contribui para a reactivação e reforço dos discursos da culpa e do ódio com que a direita justificou o chumbo do PEC IV, o logro eleitoralista e o além-Troika devastador.

Será tudo mérito de Pedro&Paulo? Não. Por um lado, existe um Presidente da República que actua despudoradamente como chefe de facção. O que Cavaco hoje faz é rigorosamente simétrico do que fez com o Governo socialista a partir de 2008. Onde atacou sem piedade, agora defende sem vergonha. Por outro lado, enquanto os anteriores Governos socialistas enfrentaram uma permanente barragem de campanhas negras fazendo o pleno na comunicação social, posto que o PS não tinha qualquer órgão que assumisse as suas dores, o actual Governo dispõe da maioria dos comentadores políticos e ainda conta com órgãos de imprensa cuja agenda ostensiva é a defesa dos interesses políticos da direita portuguesa. Não existem assassinatos de carácter nem casos de perseguição patológica por parte de jornalistas com vasta influência, como se viu, e vê, contra Sócrates e quem esteve ao seu lado. Last but not least, as condições económicas são completamente diferentes graças à intervenção do BCE que levou à baixa dos juros nos mercados e graças à baixa do preço do petróleo.

As sondagens aí estão para introduzir realidade eleitoral nestas impressões casuais. Do PCP e do BE, cúmplices da chegada ao poder daquela que é a mais violenta e decadente direita que já conhecemos na governação, nada se deve esperar. Mas no PS, que era suposto defender a sua História, algo poderia ser feito. Esse algo consistia em dar nome às coisas. Não o dando, dão os outros. E os outros devem estar neste momento aparvalhados pela facilidade com que se pode tratar os portugueses como gado para abate.

A esquerda apodrece Portugal, reconhece Louçã

Louçã escreveu um texto na passada quarta-feira que, sem surpresa, deixou indiferente o mundo político nacional – As três alianças e os meios de as conjurar: a terceira, a da esquerda. Todavia, o seu tema é fascinante, e de estrutural importância para a qualidade da nossa democracia: o bloqueio do sistema partidário à esquerda.

O resumo do problema consiste nisto: a esquerda pura e verdadeira (BE, PCP e grupelhos a escolher pelo Anacleto) não se une por “rotina de fechamento“, “tradição dos partidos” e “falta de vontade e audácia“. Consequentemente, reconhece com humildade merecedora de aplauso, estamos num “situacionismo que apodrece Portugal“. O resto do texto é ocupado com a sua augusta pessoa, tendo chegado ao ponto de largar este delicioso naco da sua exorbitante megalomania:

(e sobre isso não faço agora nenhuma sugestão, para não condicionar nem influenciar ninguém, nem discuto aqui a evidente importância das eleições presidenciais para novos sinais de novos tempos)

Louçã está mais perto dos 60 do que dos 50. Tem uma existência dedicada à política e pode reclamar ter sido um dos mais inovadores dos seus agentes. O que conseguiu com o PSR e com o BE é notável a vários títulos. Pois bem, que tem ele para nos dizer sobre uma das mais graves questões do regime, a tal impossibilidade de termos um PS com alianças à esquerda? Que se trata de um fatalismo onde a única coisa que há para fazer é ir sofrendo até que o País caia de podre.

Não faço ideia de qual possa ser o ideólogo de esquerda, ou tão-só da esquerda que o Louçã se considera proprietário, que recomende a desistência perante a adversidade – por maior que seja a adversidade. Pegando de empréstimo a referida audácia, ouso declarar que não existe ninguém de esquerda que passe tal receita. E é com base nessa convicção que chego ao corolário: Louçã não é de esquerda.

Colocada assim a questão, tudo de repente parece fazer cristalino sentido. Só alguém que abomina a esquerda consegue dedicar uma vida inteira ao boicote da democracia.

Revolution through evolution

Recognizing the signs of child abuse and how to help prevent it
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Winning women: Fielding more female candidates helps political parties gain votes
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Stop complaining about the moral decline of western society, expert says
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A grateful heart is a healthier heart
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Execs sitting on each’s other’s boards: How unethical behavior can inflate executives’ pay
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Managers: Motivating the employee willing to go the extra mile
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Working up a sweat: It could save your life
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Defender o Estado de direito é bestial

André Macedo escreve sobre uma dimensão da prisão de Sócrates – A justificação – que também me levou a planear um texto para este domingo. De facto, o argumento acerca da suposta desconfiança de Sócrates no sistema bancário para assim justificar as entregas em dinheiro através de terceiros até poderá ser verídico, quiçá por excelentes razões adentro da sua mónada existencial, mas ao chegar à praça pública torna-se excêntrico, primeiro, e, logo de seguida, fatalmente incorrecto para a generalidade dos seres dotados de inteligência dado o perfil da figura em causa e o seu papel na História de Portugal pelos cargos ocupados e decisões tomadas.

Isso significa que mesmo sem a formalização de uma acusação, ou com absolvição em eventual julgamento, há uma realidade que fica incontornável: o comportamento privado de Sócrates terá permitido o seu envolvimento num caso judicial que em muito ultrapassa a importância da sua pessoa enquanto vulgar cidadão – pois aquilo que lhe está a acontecer afecta o PS, e a própria qualidade da democracia por esta e outras correlações. Logo, estamos perante uma questão de regime.

Também será uma questão de regime avaliar a acção da Justiça neste caso, havendo neste momento questões graves em aberto sem que se saiba quando, ou se, terão esclarecimento. Porém, admitindo-se a hipótese de uma qualquer intenção política na origem da “Operação Marquês”, fosse por motivação partidária e/ou corporativa, ainda assim tal possibilidade não ilibaria Sócrates perante a sua responsabilidade, pelo contrário, pois seria sua obrigação prever que tal lhe pudesse acontecer por todos os factores e mais alguns.

Posto isto, haverá melhores ocasiões para fazer esse julgamento moral (no sentido em que a política é também uma prática moral) sobre as consequências do que aparece como uma deslealdade de Sócrates à cidade. Por agora, a bela batalha trava-se nas muralhas dela. De um lado estão as bestas do ódio, para quem só o linchamento daquele que mais temem conseguirá satisfazer a sua pulsão de morte. Do outro, uns poucos que defendem Sócrates como defenderiam as próprias bestas caso elas fossem vítimas de injustiça – aliás, caso se temesse que essas bestas viessem a ser vítimas de algum tipo de injustiça.

Vá, não custa assim tanto

Entrámos em campanha eleitoral. Sem surpresa, da parte dos partidos do Governo, a narrativa é a de que, depois de os socialistas terem levado o país à bancarrota, este governo fez o que pôde para «endireitar» as coisas, tendo-o conseguido, infelizmente através de um programa de que não gostava, mas que estava obrigado a aplicar.

Tudo isto é mentira: nem os socialistas levaram o país à bancarrota (foram muitos outros fatores, nomeadamente a inação do BCE face à especulação sobre os juros da dívida, muito ditada (a inação) pelo caso bicudo da Grécia, o aumento das falências e do desemprego na sequência de uma gigantesca crise financeira internacional e o chumbo, pela então oposição, de uma solução menos gravosa para a delicada situação financeira nacional), nem este governo endireitou, por sua ação direta, grande coisa (em muitos aspetos, pelo contrário, só agravou a situação, como na caso da dívida, das desigualdades e do panorama social), nem a aplicação do programa foi feita a contragosto – aqui também, muito pelo contrário, como abundante documentação audiovisual e escrita comprova.

Assim sendo, tem-me parecido frouxa e não suficientemente insistente a contra-argumentação de António Costa perante as patranhas da direita. É que o estribilho por eles usado, de tantas vezes repetido, acabou por se infiltrar na cabeça de muita e incauta gente. Vieram, segundo nos fazem crer, cheios de boa vontade de pôr cobro aos desmandos do Sócrates – um louco que finalmente está onde devia estar – e fizeram o melhor possível. Daí até dizerem que merecem ganhar as eleições não falta nada, como aliás já se vê nas suas peregrinações pelo país. O controlo da comunicação social (de que acusavam os outros) é quase total e a mensagem facilmente rola.

Por que não gosto da atitude da direção do PS? Porque não são capazes de se apresentar como não culpados e de «alma» limpa. E tinham todas as razões para o fazerem. Em matéria política, há muito pouco a censurar aos governos Sócrates e muito de que se orgulhar, nomeadamente o controlo do défice, que não impediu boas políticas sociais. Porque são renitentes, salvo honrosas exceções, em matraquear, como bem faz a direita com as deturpações que lhe interessam, e para seu proveito, o que verdadeiramente se passou em 2011. E incapazes de desfazerem a imagem de meninos bonzinhos com que esta autêntica corja, que domina todos os meios de propaganda, se pretende apresentar ao eleitorado.

Passos é o maior aldrabão que já passou por São Bento, os seus colaboradores e próximos idem aspas – basta ver o desplante com que a ministra das Finanças mente sobre tudo e mais alguma coisa (lembram-se dos «swaps»?), inclusivamente sobre os números. O mesmo se pode dizer do secretário de Estado Paulo Núncio a propósito da Autoridade Tributária e da famosa lista VIP, da ministra da Justiça e de Nuno Crato, um total incompetente, a que acrescem as negociatas de Aguiar Branco, e ao que tudo indica também as de Miguel Macedo, e toda a lista de falcatruas associadas a Miguel Relvas e ao próprio Passos. A lista é demasiado longa, por abranger também os amigos das direções-gerais e outras autoridades públicas. Mais a CRESAP, essa entidade que iria garantir a máxima seriedade e transparência na admissão de candidatos a cargos públicos. Nunca se viu uma ocupação do aparelho do Estado tão ousada, livre, completa e tão pouco denunciada. Este governo é um escândalo. E se, na Europa, a margem de negociação (que não é inexistente) ainda é estreita, apesar de um novo governo se poder comportar de maneira bem mais afirmativa e respeitável, a nível interno, pelo contrário, há mais do que margem para apelar ao repúdio do atual governo.

Diz o PS que não alinha em «casos». Mas que casos? Trata-se de mentiras e vigarices, muitas delas graves, que são bem reais e visíveis, de governantes pouco sérios, vingativos, incompetentes e até palhaços políticos (lá acima esqueci-me do Pires de Lima), que jamais hesitam em lançar lama sobre os seus antecessores ou adversários. Isso não importa?

Outra tendência que também censuro na oposição é a de, aparentemente à falta de melhor, acusar a direita de fazer isto ou aquilo por uma questão ideológica. Por que não explicar os prejuízos reais e concretos das políticas seguidas? Porquê este argumento? É evidente que é uma questão ideológica. Há fações da sociedade (que por vezes chegam ao poder) que entendem que vale tudo para ser rico e que não lamentam que nem todos o possam ser, repousando na ideia de que não podem nem devem fazer nada. Que o Estado não tem que interferir para assegurar iguais oportunidades para todos (sabendo que se nasce em berços muito diferentes), uma melhor distribuição da riqueza, nem para impedir que o país seja vendido ao desbarato e que a lei da selva económica se instale. É uma ideologia, à qual há que contrapor outras. Acusá-los de desmantelar o SNS por uma questão ideológica é uma estratégia totalmente ineficaz, é uma verdade de Monsieur de La Palice, para além de que a maior parte das pessoas nem percebe o que seja isso de ideologia.

Falta espírito aguerrido. A conquista de uma câmara (ainda por cima na zona mais desenvolvida do país) não é a mesma coisa que a conquista do país.

Mas quem é? Entrevista de 2013 a João Taborda da Gama

Depois da gaffe sobre o papel de Sampaio da Nóvoa no chumbo de Saldanha Sanches na defesa da tese de agregação, fui ver quem era João Taborda da Gama, o autor do polémico artigo do DN. Descobri esta entrevista dada ao Público em 2013. Aqui fica para se perceber quem é, para se poder enquadrar melhor a ligação a Saldanha Sanches, do qual se considera discípulo, e para se conhecer o seu percurso familiar, académico e político (filho de Jaime Gama, foi consultor de Cavaco).

Os personagens contraditórios, frutos de conflitos interiores, que o próprio confessa, podem ser interessantes de acompanhar e até estimulantes para discussões, mas não poucas vezes denotam alguma confusão. No caso, houve um descuido de informação da sua parte quanto à votação do júri, mas ao lermos a entrevista percebemos melhor – quem dera! – o porquê do ataque a Sampaio da Nóvoa. Ou não. O facto é que não percebo, pelo menos tendo em conta o fundamento (falso). Por outro lado, Saldanha Sanches era tão «esquerdista» como Nóvoa, ou mais. Mistérios do Senhor. Vão ler.

Começa assim:

Cresceu no Lumiar, é filho do ex-ministro Jaime Gama e da professora Alda Taborda. Nunca teve um blusão de penas. Nenhum dos seus cinco filhos tem um blusão de penas. Acaso está frio para isso? Converteu-se ao catolicismo tarde. Discípulo de Saldanha Sanches, foi consultor de Cavaco Silva até há dois meses. Como integrar estes elementos aparentemente contraditó-rios? Ele poderia dizer como Santo Agostinho: “O amor é o meu peso. Onde eu for, ele me levará”

Já a entrevista estava escrita quando saiu fumo branco da chaminé do Vaticano e o Papa Francisco pediu […]

Hoje, no DN, João Taborda da Gama – da falta de seriedade

Hoje, João Taborda da Gama faz, no DN, o impensável. Começa pelo elogio que subscrevo a um homem que conheci, como académica, na minha Universidade: Saldanha Sanches. Um homem maior do qual me despedi no último momento, como todas e todos que o admiravam. Chorei de raiva no dia em que Saldanha Sanches foi chumbado de forma persecutória nas suas provas de agregação. No dia seguinte, cruzei-me com ele e encontrei-o de cabeça levantada. Maior do que os menores que o arguiram e chumbaram.

João Taborda da Gama, num artigo no DN, tenta atirar para a lama Sampaio da Nóvoa, o Reitor, aquele que presidia às provas, tentando fazer passar a acusação de que o Presidente do júri poderia ter impedido a infâmia dos Professores que curiosamente João Taborda da Gama não cita. Eu estava lá. Sei como funciona um júri. Sei que a arguição feita por quem a fez foi um atentado à liberdade de Saldanha Sanches que acabou sorrindo dizendo “reformo-me como coronel”. Sei, como Saldanha Sanches soube, que Sampaio da Nóvoa ficou tão incomodado com aquelas provas como alguns dos meus colegas professores que foram abandonando a sala. Sei que o pouquíssimo que pode fazer um mero presidente de júri foi feito, no caso.

Este texto não é um apoio à candidatura de Sampaio da Nóvoa. É uma reação indignada perante quem se atreve a usar a memória de Saldanha Sanches enviesadamente para fins políticos imediatos. Definitivamente, João Taborda Gama não herdou a liberdade de Saldanha Sanches. Nem, claro, a seriedade.

Falar verdade aos portugueses

A mariana pessoa publicou um excerto de Pedro Santos Guerreiro – A verdade e o azeite e tal – onde se pode ler o seguinte:

Cavaco Silva descobriu que lhe estavam a esconder a negociação de um PEC IV. Então, vingou-se por antecipação: dois dias antes da apresentação do plano, no discurso da tomada de posse para o seu segundo mandato como Presidente, disse que não havia espaço para mais austeridade.

Trata-se do parágrafo final da citação. Como não conheço o texto na sua totalidade, quero evitar ser injusto para com o autor. Porém, tratando-se de um parágrafo, vale como uma unidade argumentativa. É nessa abstracção que surge como surpreendente, denso e polémico – quiçá assustador.

De chofre:

– Cavaco Silva, ex-ministro das Finanças e ex-primeiro-ministro, que sempre se vangloriou (inclusive, ou sobretudo, em período eleitoral) de ser uma luminária em Economia, ignorava quais seriam as consequências do chumbo do PEC IV?

– O Governo tinha alguma obrigação institucional de partilhar com o Presidente o que estava a negociar com os parceiros europeus, de resto um acto de gestão executiva imposto pelo calendário, antes desse acordo estar fechado?

– O Governo, depois do que se tinha passado desde 2008, onde Cavaco assumiu protagonismo na liderança da oposição, e especialmente depois da “Inventona das Escutas”, tinha alguma condição para manter sequer módica confiança institucional no Presidente e na Presidência da República?

– Quais as consequências políticas que a comunidade deve tirar ao se concluir que um Presidente da República age por “vingança”, para mais numa matéria onde não tem legitimidade política (a governação), e ainda por cima com as consequências devastadoras para toda a população que tal comportamento promovia, ou até impunha?

Cada uma destas questões, e outras congéneres, chegaria e sobrava para ajuizar do essencial que estava em causa nesses idos de Março de 2011: havia uma alternativa à Troika, a qual foi recusada pela direita portuguesa com o único objectivo de alcançar o poder. Todos os discursos que apelavam à entrada do FMI, que bendiziam as opções do Memorando e que justificavam com os males endémicos a punição despejada com asco para cima de um País que tinha comprado a promessa do “fim dos sacrifícios” só encontram racionalidade nas suas contradições e antinomias se os lermos como uma retórica para borregos. Podia-se, e pode-se, dizer tudo e o seu contrário porque não há punição, nem mesmo mediática para inglês ver. É assim que pensa a nossa oligarquia, e prova mais uma vez ter razão pois está a ganhar em toda a linha, domina o Estado como nunca se viu antes em democracia.

Vou apenas estender a análise ao aspecto mais assustador na citação, esse de, aparentemente, PSG acreditar que “Cavaco Silva descobriu que lhe estavam a esconder a negociação de um PEC IV“. Esta questão não é secundária na tragédia que se viveu há 4 anos, pois Cavaco acabou por explorar até ao limite esse sofisma gadelhudo, tendo chegado a receber o apoio de figuras na área socialista que igualmente se tinham rendido ao interesse em correr com Sócrates. E quando, por fim, respondeu aos que rogavam por uma intervenção sua a favor do interesse nacional, a desculpa que usou, alegando que os partidos tinham sido rápidos demais a radicalizar posições pelo que ele não iria mexer uma palha, era a segunda parte da patranha.

Factos:

– A Troika é constituída pela Comissão Europeia, pelo Banco Central Europeu e pelo FMI.

– Durante o mês de Fevereiro de 2011, representantes dessas entidades estiveram reunidos várias vezes com membros do Governo português para elaborarem um acordo especialmente complexo dado o momento das crises soberanas e da falta de mecanismos europeus de resposta a elas, a que se juntava a circunstância da ausência de maioria parlamentar. O previsível sucesso dessa negociação levou o Expresso a antecipar o seu desfecho com uma célebre parangona saída a 5 de Fevereiro, a qual deixou os direitolas a espumar de raiva: “O FMI já não vem“. Atente-se, no fundo dessa página, à notícia “Assessor de Cavaco acusa Governo de provocação”. Vista retrospectivamente, estamos perante a criação de um ambiente de frontal hostilidade que iria desembocar no comício da tomada de posse e no caso da alegada recusa em informar Cavaco acerca do PEC IV.

– Também durante o mês de Fevereiro, Cavaco recebeu dezenas de responsáveis dos principais órgãos económicos e sociais do País.

– Na Comissão Europeia a chefia era de Durão Barroso, no BCE trabalhavam portugueses, e no FMI havia um tal de António Borges, talibã do empobrecimento a mata-cavalos, que era só o presidente do departamento europeu. A estas figuras, colhe ainda juntar as da imprensa e do corpo diplomático em países europeus que, por inerência, igualmente acompanhavam, fosse em que grau fosse, as movimentações a ocorrer na tentativa de evitar que Portugal se juntasse à Grécia e à Irlanda.

Temos então que o homem que conseguiu encontrar fundas suspeitas de ter o seu computador invadido por seres maléficos vestidos de cor-de-rosa é o mesmo homem que não conseguiu descobrir que o Governo de Portugal estava a suar as camisas e as gravatas para que se evitasse o mal maior. Dada a quantidade estapafúrdia de dirigentes, altos quadros, funcionários superiores, políticos e jornalistas portugueses e europeus que sabiam do que se passava, nem um vagido ter atravessado os muros do Palácio de Belém com a boa nova é a prova suprema de que um Presidente da República sério não tem ouvidos. Nem vergonha. Nem neurónios.

Se uma vedeta da elite jornalística como Pedro Santos Guerreiro não percebe o que é uma golpada presidencial quando ela lhe cai em cima, há que ter medo. Se percebe, e finge que não percebe, há que ter ainda mais medo.

A questão central na escolha de um candidato presidencial

Sampaio da Nóvoa desperta amplas, ou eclécticas, ou variegadas, simpatias na esquerda e no centro. Dentro da imprevisibilidade e frustração que marcam a liderança de António Costa até à data, poderá mesmo vir a ser o candidato presidencial apoiado pelo PS. Mas será a figura de que precisamos nesta altura?

Sirvo-me da estimável opinião do MCF – Enquanto há força, cantai rapazes, dançai raparigas, seremos muitos, seremos alguém – para olhar com mais atenção para o fenómeno da sua popularidade. O Marco disponibiliza e recomenda o seu discurso no 10 de Junho de 2012, garantindo estar ali uma prova de que o homem teve a coragem de dizer, na cara de Cavaco e Passos, o que precisava de ser dito. Ai, sim? Discordo.

O discurso é convencional na sua retórica, o que não tem qualquer mal, apresentando-se sectário na sua ideologia. A ideologia é a do primado do “conhecimento” sobre a “política”, sintetizado num peremptório dogma:

É este o nosso problema: a ligação entre a universidade e a sociedade. É esta a questão central do país: uma organização da sociedade com base na valorização do conhecimento.

Vista a partir da torre de marfim na universidade, sim, poderá ser essa a questão central do País. Para mais ninguém, contudo. Não para os pensionistas, não para os desempregados, não para os utentes dos serviços públicos, não para os que esperam e desesperam pela Justiça, não para quem quer trabalhar com dignidade e segurança, não para os que se assustam e entristecem com a decadente cultura da calúnia promovida pela elite nacional.

Dizer que há uma “questão central” na política que acaba por transcender a própria política é um dos pilares dos posicionamentos populistas. Onde outros apenas recorrem ao moralismo, seja porque se reclamam puros ou porque diabolizam os adversários, o fogoso reitor desfralda a bandeira de todos os iluminados e declara-se crente ingénuo naquilo que Platão deixou cifrado e tão-só para consumo individual.

Falar de sectarismo não me parece em nada excessivo quando listamos e detalhamos as mensagens que foram verbalizadas nesse 10 de Junho de há 3 anos. As denúncias que permitiram carimbar esse discurso como “opositor” são invariavelmente demasiado genéricas, afundando-se num registo metafórico que nem sequer ultrapassa o nível do cliché, surgindo embrulhadas em citações avulsas e politicamente correctas. Espremidas, são palavras que mal escondem uma preocupação narcísica, a procura de um efeito adequado ao tempo e ao lugar. Onde está nesse discurso, numa vírgula que seja, a obrigatória exaltação do Estado de direito? Que sortilégio explicará a oportunidade perdida de dizer a Cavaco e Passos que eles ofendem a República? Como se pode celebrar esse momento como manifestação de coragem se nem um espaço entre letras foi dedicado ao logro eleitoralista que nos afundou em 2011 ou ao emporcalhamento da Presidência em 2009? É preciso não gostar nada de política para desperdiçar uma ocasião literalmente soberana de a fazer.

Sampaio da Nóvoa daria um Presidente da República um gugol de vezes melhor do que Cavaco. Mas também com Fernando Mendes, do Preço Certo, teríamos uma melhoria dessa magnitude. Ou com a minha vizinha do 4º andar. Aqui para o meu palato, nenhum candidato presidencial que abdique do confronto com a “questão central” dos ataques ao Estado de direito, o qual nunca como com Passos e Cavaco foi tão desprezado e maltratado em democracia, ganhará o meu voto. Pelo menos, na 1ª volta.

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