O mercantilismo sabe bem

Fui jantar ao restaurante 560 e estava vazio. Ter sido a uma segunda-feira do final de Julho pode ter contado, mas é fraca desculpa e alguém tem de avisar os concidadãos. É que este restaurante surge estratégico para a salvação da economia portuguesa: todos os produtos que põe na mesa dos clientes, das entradas aos postres, são nados e criados cá na terrinha. Ou assim eles o dizem (daí o nome, 560, código dos produtos portugueses). Isto é, ir lá comer é o mesmo que estar a apoiar a nossa agricultura, pecuária, pesca e fruticultura. Saímos de barriga cheia e com o sentimento do dever governativo cumprido: salvámos postos de trabalho, aumentámos a riqueza nacional.

Deste conceito nacionalista podia esperar-se uma parolada qualquer, ou um espaço folclórico mais ou menos bem conseguido. Todavia, o caminho seguido foi outro, como se pode ver, e rever ainda melhor. Se as iguarias fossem da culinária japonesa, a decoração não teria de ser alterada nem sequer nos azulejos.

O meu plano é simples: voltar lá daqui a uns tempos e reclamar que o aumento de clientela a mim se deve, pelo que eles me devem qualquer coisinha como recompensa pela publicidade. Talvez achem graça à tanga e consiga cravar o café.

O futuro e a Futura

Paulo Querido tem feito um exaustivo trabalho de explicitação da BlogConf com Sócrates, desmontando a má-fé e desonestidade intelectual que eram fatais após o evento e suas peripécias. No #BlogConf 6, oferece-nos um retrato privilegiado de organizador contemplativo. Olha para o cenário com a cumplicidade e distanciamento do encenador. Trata-se de uma reportagem introspectiva, onde descreve o encontro com Sócrates a partir do diálogo secreto consigo próprio. É um registo raro, soberanamente subjectivo, também por isso recompensador.

Mas não lhe perdoo a grave falha de ter dito que a Futura é uma má escolha de caneta.

Judite, antropologia e eleições no Benfica

A Polícia Judiciária de Braga apanhou um homem que em 1993 trocou a prisão por um cárcere paleolítico. Durante 16 anos foragido ao cumprimento da pena de 10 anos, viveu em buracos nos montes. Familiares e vizinhos davam-lhe alimentos, roupas, bens variados. Talvez caçasse. Talvez fizesse fogueiras para se aquecer e iluminar. Talvez preferisse a companhia das aves, das nuvens e das estrelas, seres das alturas, à dos humanos, seres das baixezas. Talvez se tenha genuinamente arrependido do crime que cometeu, qual anacoreta que expia o pecado do mundo no deserto onde recusa esse mesmo mundo. Terá sido uma existência de contemplação focada no sempiterno mistério de tudo e de todos — a que uma arma por perto garantia a necessária segurança para não ser devorado pelos monstros filosóficos que pudessem surgir nessa noite da Razão.

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Vinte Linhas 387

As décimas são uma roubalheira

Quando tinha cinco anos ouvia o meu avô dizer «as décimas são uma roubalheira». Elas vinham em postais das Finanças das Caldas da Rainha. Havia também uns postais do Banco Raposo de Magalhães de Alcobaça que tinham um selo de dois tostões. Eram avisos de reformas de letras de 500 escudos. Hoje, passados 53 anos, percebi o alcance da frase do meu avô. Uma jovem arquitecta paisagista iniciou a sua actividade em Outubro de 2008. Até Dezembro recebeu 1.225 euros mas na sua declaração das Finanças alteraram o valor para perto de 3 mil euros. Fui saber do caso a uma repartição e responderam-me que isto foi feito porque há mínimos. Ou seja: paga mínimos não por aquilo que efectivamente recebeu e declarou mas por um valor que alguém abusivamente resolveu colocar no documento por si assinado. Então uma pessoa inicia a sua actividade em Outubro e é como se tivesse começado em Janeiro. Mas se de Outubro a Dezembro são 3 meses então os chamados mínimos deveriam ser um quarto do tal valor. Tudo isto é uma mentira, tudo isto é um absurdo, tudo isto é uma vergonha. Custa acreditar que há gente que faz isto e depois deita-se e dorme como se não se passasse nada. Apetece dizer: «Meu rico Agostinho da Silva que conseguiu morrer sem ter tido número de contribuinte». Eu queria e não posso. Comecei a trabalhar em Setembro de 1966 e fui logo «filado» pelo sistema tributário. Por isso é que os portugueses que fogem ao fisco são admirados e muita gente os inveja e os venera. Eles são capazes de fazer o que nós não fazemos mas gostaríamos de fazer. Quem é que vai explicar isto a uma miúda de 24 anos a quem uns trambolhos sem rosto adulteraram a declaração de IRS?

Miscelânea

Fighting Groupthink With Dissent *

What If I’d Never Met My Husband

Depression Happens to Successful People

40 Superb Psychology Blogs

Laid Off? It’s Good for You and Good for the Tech Industry

Stop And Smell The Flowers — The Scent Really Can Soothe Stress

Coping with a Dysfunctional Family?

Who Uses Internet Dating?

Finding Real Love

Do Wealthy Men Give More Orgasms? **

Good Sex Is Good for Relationships

Personality Traits Linked To Artistic Taste

Hydrocarbons In The Deep Earth?

The Tragedy of the Commons ***

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* Viva lá revoluciòn!
** Fui recentemente aumentado, alembrou-me agora…
*** Para quem quiser começar a fazer política que não é da esquerda imbecil nem da direita ranhosa

Conselho para António Costa

António, não voltes a interromper o Santana. Seja o que for que vejas o Santana fazer, por mais esquisito que seja, não o interrompas. Porque é certo ele estar a fazer uma merda qualquer. Pelo que não a deves pisar. Afasta-te da merda do Santana, por favor. Esta regra aplica-se ao próximo debate, se o houver. Deixa-o falar, dizer o que tiver a dizer, e depois, na tua vez, fala connosco. Desvela a Lisboa que merecemos, e pela qual estamos dispostos a ajudar-te a ajudar-nos. Agora, cagadas com o Santana é que não. Porque interromperes para mandar a tua boquinha, e depois ficarem a medir a piça, leva a que te esqueças de nós, que não queremos ver-te a perder tempo com merdas. Especialmente, com merdas destas.

Louçã tem Dias

O caso do convite a Joana Amaral Dias para integrar a lista do PS é paradigmático da miséria ética e intelectual da oposição. E ter Louçã como seu protagonista, até agora sempre a somar vitórias populistas, é um bónus que vem mesmo a calhar. Visto ser ele quem está em causa, não a Joana ou Sócrates.

Sócrates já falou, e só voltará a falar se a Joana revelar quem lhe fez o convite. Porque ninguém duvida da existência do convite, o qual é tão lógico como legítimo. Duvida-se é que o PS, nas pessoas do Secretário-Geral, do ministro Vieira da Silva e do porta-voz do partido, os três e mais aqueles com quem se aconselham e decidem, todos tenham resolvido perder as eleições por causa de uma vaidosa boazuda e muito, muito, mas mesmo muito insuportável. Porque não há cenário mais previsível: se a Joana confirmar que Sócrates a convidou, provando-o, Sócrates acabou. E com ele o PS nestas eleições. Logo, os desmentidos do PS, tão rápidos e taxativos que foram, significam que a sua posição é intocável. Bola para o lado de lá.

Do lado de lá, Louçã engoliu e calou. Disse uma imbecilidade de quem está encostado à parede: que os desmentidos eram prova de culpa de quem desmente. O ping-pong ocorre enquanto a Joana continua desaparecida. Isto é patético e não tem escapatória. Caso a versão da senhora seja algo de equívoco, apostando na ambiguidade de repetir que foi convidada mas sem revelar por quem, estaremos perante um acto de insídia, de pulhice em último grau.

Louçã não vê Sócrates como um competidor, mas como inimigo. E o desvario com que lhe lançou este ataque diz bem do impacto da decisão de Miguel Vale de Almeida, cuja coragem é verdadeiramente notável e exemplar. De um inimigo esperam-se os golpes mais baixos, e, por isso, a um inimigo aplicam-se os golpes mais baixos. Foi o que Louçã fez, cego de ódio e medo. É um tiranete que se espalhou ao comprido, mordeu a língua e ainda pode morrer envenenado. Tem Dias para se salvar.

Um livro por semana 129

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«As amantes de D. João V» de Alberto Pimentel

Este livro de Alberto Pimentel (1849-1925), não se limita ao universo do seu título. Muito para além das aventuras do Rei com Filipa de Noronha, Maria Ana de Áustria, Soror Paula, Margarida do Monte, A Flor da Murta e a actriz Petronilha, há nestas páginas a memória viva dum certo tempo português. A época e o tempo de D. João V: «Era ágil, desembaraçado e robusto. Dotado de uma certa viveza natural, de um certo engenho penetrante, tinha, para as mulheres a qualidade preciosa de as compreender sem hesitações e de se fazer compreender sem delongas». A rainha que veio da Áustria «falava latim, italiano, francês e espanhol, tinha muita piedade e muita religião e gostava de caçar». A propósito de um incidente em que a condessa de Vila Nova de Portimão, ao ser agarrada por D. João V, uma noite lhe deu um bofetão enquanto gritava «Que é isto! Pouca-vergonha!», comenta o autor: «Era forte e desembaraçada além de guapa. Devia ser pois deu cinco filhas ao marido e um bofetão ao Rei». O clima geral é dado numa frase: «Havia dois espectáculos predilectos da corte e do povo: eram os autos-de-fé e as touradas». Sobre o amor uma ideia: «Fidalgos, frades, poetas, velhos, moços, ardiam em incêndios de volúpia. O Rei, cônscio de sua elevada posição, não lhes queria ficar trás. Não foi outra coisa». Para o final da vida o Rei procurou cura nas Caldas da Rainha. Logo os frades de Alcobaça lhe enviaram 69 vitelas, 194 presuntos, 182 queijos, 210 perus, 692 galinhas, 12 cargas de fruta, 36 paios e 333 caixas com doce. D. João V quase morria de fartura mas repartiu o presente com a família dispersa na (hoje) cidade termal.

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia)

Vinte Linhas 386

«Caderno de areia» de Luís Maçarico

Os poemas deste livro de 50 páginas forma escritos na Tunísia entre 1991 e 2007 e poderiam estar reunidos sob o título de «Entre terra e mar». De facto no primeiro poema (Le Kef) o autor afirma «A terra canta» e no último (Amina) regista «O mar é uma incógnita…» Entre os dois discursos (inicial e final) fica o método: «E os dias derrama-se / no caderno de versos».

Mas os poemas, para o serem de facto, não podem ser apenas registos dum olhar («Entre dunas e olivais») sobre a Natureza. Há, na sua respiração, um diálogo com as História, o mesmo é dizer com a Cultura: «Escutarás o velho mar / onde Ulisses viu sereias / sozinho no areal / saboreando a divina carícia / do silêncio».

A autobiografia também é convocada; nascido em Évora (1952), o poeta exclama: «Tudo me diz que estou longe / mas não é verdade! / O deserto sempre foi o lugar / da minha infância!» Entretanto o poema é, acima de tudo o mais, o lugar dos outros: «Quem são? Gente onde a / terra em brasa crepita / para florir nos olhos de fogo / Passam como nuvens / parecem a impetuosa / corrente de um rio / ansioso por chegar à foz / mas que se perde / na aridez dos caminhos / da sede».

Entre o «eu» e o «Mundo», o poema liga de novo o que o «Tempo» separou: «Guardo o breve aroma / da efémera flor / do destino. Sei que o tempo / evapora jasmim e rosa. / Os passos no oásis / ainda há pouco já são / memória. Atravesso / nuvens. Transporto / visões, silêncios, sedes, / um deserto de afectos / e um chá de estrelas / para acordar sem mágoa…»

(Edição de autor, Design e grafismo: Marta Barata, Apresentação: Ana Machado)

Re-Intermitência

 

 

 

 

 

“Acho que é a altura de colocares a mão na consciência”, diz-me, pose circunspecta, C. “Tens toda a razão”, corroboro. “Vou fazê-lo agora mesmo”, acrescento, perante a satisfação, evidente, dela. E, de imediato, coloco a mão direita, com toda a pujança, no meu escroto.

 


Nova estirpe suína junta-se à gripe A

Foi detectado o primeiro caso de gripe M, uma gripe que se caracteriza por impossibilitar viagens à Madeira por pessoas cujo primeiro nome comece por M. Os investigadores estão perplexos com a sofisticação deste vírus, capaz de cruzar factores geográficos com alfabéticos. Teme-se o pior, podendo chegar ao ponto de se desenvolverem variantes com outras letras, estando já as companhias de aviação e agências de viagens em negociações com milhares de destinos para se adoptar uma nomenclatura numérica. Recorrendo a este estratagema, esperam baralhar o vírus de modo a que nunca mais se repita a infelicidade de vermos um presidente do PSD impossibilitado de assistir in louco ao tiro ao zeppelin, isto é, à bebedeira da Lagoa. Aliás, para a Madeira já há proposta de nova designação: 1978.

i aprendeu a lição

ibig

Depois do i ter cedido ao Pacheco, não publicando uma entrevista que tinha em seu legítimo poder, interiorizou a censura. Neste caso, alteraram o original santanete para uma versão sem graça, insossa, da qual fizeram uma parangona à prova de indignações de loiras, morenas ou ruivas. Eis o que Santana afirmou e que não se encontra na entrevista:

De mim nunca disseram que namorava com o Diogo Infante, como ouvi dizer em 2005 e depois até repeti com pessoas amigas, porque era realmente uma história muito interessante. Quem diria, logo com o Diogo, um excelente rapaz. E também falei muito nisso por ter aparecido em período eleitoral, uma coincidência bem engraçada. O que nós nos rimos lá no PSD com o timing da saída do armário, o destino tem cada coisa. Aliás, nunca vi a história desmentida, fosse por um, fosse por outro. Portanto… votem em mim para a Câmara de Lisboa.