Arquivo mensal: Julho 2009
A maldição de Santana
Causou furor a profecia de Santana Lopes quanto à inevitabilidade de uma sucessão de erros e azares para Sócrates, um ciclo negro. Poucos dias depois, o episódio Pinho dava-lhe espectacular razão. A percepção extra-sensorial acabava de ser confirmada.
Imagino Santana dado a esoterismos de hipermercado. Para quem ia para os congressos do PSD invocar a posse de uma ligação privilegiada ao espírito de Sá Carneiro, talvez ele próprio se sinta banzo com a facilidade com que sempre foi levado a sério como potencial chefe da direita portuguesa. Depois, caiu-lhe o Governo ao colo sem saber ler nem escrever. E esse analfabetismo executivo notou-se logo, teve chumbo imediato. Mas continuou por aí, provando que há mais marés do que marinheiros. Só há que saber aproveitar a onda. É simples isto da política, para quem não perde muito tempo a pensar nela.
Se Santana ganhar em Lisboa, essa será a verdadeira maldição santanete. E eu começarei a ler horóscopos.
Indignidades electivas
Se a crise da democracia portuguesa tem a sua origem na crise da representação e vivência partidária, gerando crescente alheamento cívico e abstenção eleitoral, então o local do crime é a Assembleia da República. E um dos maiores crimes ali ocorridos teve o seu epílogo em Novembro de 2003, quando Mota Amaral, então presidente da Assembleia, decidiu com Souto Moura o arquivamento do Caso das Viagens-fantasma dos deputados. Este período relativo aos Governos Barroso-Santana, aliás, é particularmente fértil em epifanias da decadência nacional, com exemplos desesperantes de falência do sistema. Na rua, estávamos na selva onde cada um já tinha desistido de contar com a autoridade do Estado. A corrupção tinha atingido a glória, era alardeada à boca-cheia por aqueles que contavam a quem os quisesse ouvir dos 8% inevitáveis de Norte a Sul do País para conseguir fazer obras sem fiscais a atrapalharem, passando por agentes policiais organizados para extorquir multas e luvas, até aos esquemas individuais ou em bando para fugir aos impostos, burlar a TV Cabo, a PT, a EDP, os seguros, os consumidores, o vizinho. Em perfeita sintonia com a derrocada ética generalizada, o que os braços legislativo e judicial do regime celebraram num caso com mais de 10 anos de investigações inúteis, prescrições, arquivamentos e documentação declarada perdida ou destruída, fica como monumento do que acontece às comunidades quando a política é deixada só nas mãos dos políticos.
A voz do cidadão
A distorção institucional e política que o actual PR está a introduzir em Portugal é tal que há o direito de nos interrogarmos, com grande preocupação, sobre o que estará subjacente. E o que se perfila é: o PR assumir-se, a breve prazo, como chefe da oposição, designadamente do PSD, fazendo tudo, como a sua despudorada parcialidade mostra à evidência, para que este partido ganhe as próximas eleições. E tanto fará que com maioria absoluta como não: com um amigo destes é irrelevante.
No médio prazo está em causa o ataque para o reforço de poderes do PR, passando Portugal a ter um sistema constitucional presidencialista. Como? Não parece ser previsível a obtenção de maioria qualificada na AR, não que os dois partidos da oposição que se assumem como de esquerda não tenham demonstrado a sua vocação para a tudo estarem dispostos desde que seja derrubar Sócrates. Mas parece mais crível qualquer tentativa, inconstitucional, de recurso a qualquer acção do tipo referendário ou plebiscitário. O recurso ao mito do desejado para resolver os problemas que nós próprios não queremos resolver, não implica necessariamente o sair das brumas de Alcacer Quibir. Mas se for alguém musculado tanto melhor (recomenda-se de novo a leitura da edição recente da Tinta da China do Antero das Causas da Decadência dos Povos Peninsulares…).
Enumerar de novo as incongruências institucionais e políticas do actual PR vai-se tornando tarefa demorada. Cada sachadela, cada minhoca, e já tresandam bastos anelídeos para os lados de Belém. Dois exemplos apenas: Madoff, autor da maior fraude financeira de todos os tempos nos EUA, foi condenado a 150 anos de prisão em apenas 6 meses. O nosso PR não considera motivo suficiente para intervenção no caso Freeport, em lume brando no Ministério Público há mais de quatro anos e sem fim à vista. Com isto, de um modo canhestro, o primeiro-ministro de um País da União Europeia anda a ser objecto do mais despudorado e desavergonhado ataque de que temos memória. É culpado? Provem-no. Não é culpado? Encerrem este hediondo processo de não funcionamento regular das instituições. Mas trata-se talvez de um PR muito legalista relativamente à separação de poderes, zeloso do legado de Montesquieu. No entanto ainda a semana passada (um entre N exemplos) lançou insinuações sobre alegada falta de transparência no caso PT/Média Capital. Que atingem, obviamente, o Executivo.
Segundo exemplo: o inacreditável caso Dias Loureiro/BPN/SLN. Aqui não é o regular funcionamento das instituições que está em causa. Não é o direito que um cidadão tem de ganhar dinheiro através da valorização de acções numa taxa muito pouco usual. Não. É muito mais que isso: a credibilidade das declarações do primeiro magistrado do País num processo em que meias verdades e ensurdecedores silêncios se tornam verdadeiramente ensurdecedores.
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Oferta do nosso amigo cidadão presente
Miscelânea
Some Video Games Can Make Children Kinder And More Likely To Help
The Power of the Unpredictable
The Science of Economic Bubbles and Busts
Need Something? Talk To My Right Ear*
First Electronic Quantum Processor Created
What Skepticism Reveals about Science
The Fundamentals of Therapy Part I
Declaring Independence from Fear**
Why Saints Sin And Sinners Get Saintly
10 Techniques to Handle Conflict
* Uma das maiores descobertas para a ciência do cravanço e da pedinchice.
** A melhor forma de celebrar este e os próximos dias, todos.
*** Estas regras têm duas imediatas vantagens: resultam da experiência de muitos ao longo de muito tempo e podem ser ignoradas a bel-prazer.
Vinte Linhas 373
José Cid não merecia uma maldade destas
Ontem fui ao Coliseu dos Recreios assistir à Gala dos 511 anos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e tive que passar pelo Miradouro de São Pedro de Alcântara onde havia dezenas de turistas e um quiosque (esplanada) vazio. Alguém na Câmara Municipal resolveu colocar a licitação do espaço em 2.500,00 euros. Por mês… Ora só um louco é que pode imaginar que a vender cafés, galões e pastéis de nata se pode ganhar para pagar esse balúrdio à Câmara sem esquecer o pagamento do ordenado aos empregados.
Quanto ao espectáculo marcado para as 17 horas só começou às 17 e 40 o que originou que a actuação de José Cid, o ponto alto da festa (sem desprimor para os outros artistas), só terminasse às 20 horas e quarenta já com largas dezenas de pessoas a abandonarem a sala depois de olharem para o relógio. Muita gente idosa tem que comer a horas porque senão o pâncreas desata a fazer das suas. Foi uma tristeza. Muita gente saiu a dizer «Agora que isto estava no melhor…» mas os 40 minutos do atraso inicial não foram recuperados. Curioso que os apresentadores nem sequer pediram desculpa aos espectadores pelo atraso.
Estes dois episódios separados por um curto espaço de tempo são a prova de que a arte de ser português permanece intocada e intocável. Nem o «25 de Abril» nem a prática das eleições nem a liberdade de imprensa e as liberdades em geral motivaram os portugueses para deixarem de ser «artistas»: uns a pedirem preços malucos para uma esplanada num miradouro único no país e no Mundo, outros atrasam 40 minutos uma festa com prejuízo do último artista a actuar. José Cid não merecia uma maldade assim.
Pinhometria
É a grande novidade da estação: descobriu-se que se pode medir o contributo dos agentes políticos para a qualidade da democracia através das suas declarações em relação ao descontrolo infantil de Manuel Pinho. Cavaco vai destacadamente à frente. A democracia voltou a ser salva, no espaço de poucos dias, pela rápida, heróica e imparcial intervenção do actual Presidente da República.
Começa por parecer que há
Corredor da morte
O programa Corredor do Poder aponta alto:
O elenco está particularmente bem constituído, equilibrado nas capacidades retóricas e prototípico da política profissional. Nele destaca-se Margarida Botelho, uma autêntica alfaia agrícola de fabrico soviético. Nem o Carvalhas conseguia ser tão fanático. Os restantes são mais convencionais nisso de se mostrarem conscientes da hipocrisia ritualmente cultivada. Limitam-se a representar, enquanto a Margarida acredita mesmo no que diz. De facto, não se pode ser comunista sem fé numa transcendência dialéctica, isso é certo.
Um livro por semana 126
A corte Luso-Brasileira no jornalismo português (1807-1821)
Ernesto Rodrigues (n. 1956) é poeta, ficcionista, crítico, ensaísta e tradutor mas tem uma paixão pelo jornalismo: assinou «Mágico Folhetim – Literatura e jornalismo em Portugal» (Editorial Notícias) de 1998 e «Crónica Jornalística do século XIX» (Círculo de Leitores) de 2004. No bicentenário da chegada da corte joanina ao Brasil, reúne neste livro textos significativos de 109 jornais da época com nomes tão insólitos como A abelha portuguesa, O amigo do Povo, o Liberal, o Patriota, o Correio do Povo, o Génio Constitucional ou O Observador onde se pode ler por exemplo: «A corrupção que resultou da posse da Ásia e dos mais domínios descobertos e conquistados pelos nosso antepassados, foi a primeira causa da nossa decadência; a intolerância e o fanatismo religioso introduzido por D. João III perdeu a D. Sebastião e com ele expirou a glória de Portugal». Um segundo exemplo é o texto de Francisco Solano Constâncio sobre a abolição do comércio de escravos no Brasil em 1815: «A escravatura é o pior achaque do Brasil e há muito tempo que deveríamos ter começado a tomar medidas gerais e constantes para civilizar os índios e emancipar gradualmente os pretos».
Um livro de 302 páginas que interessa em especial aos estudantes não só de história mas também de jornalismo. Mas que pode interessar os leitores em geral pois estão em causa as repercussões da ida da Corte para o Brasil em 1807 numa decisão que teve tanto de imprevista como de organizada – D. João não chegou ao Rio como um exilado mas sim como um chefe de Estado em funções.
(Edição de Ernesto Rodrigues com apoio da CLEPUL, da FCT e da Excellent Óptica)
Serradura
O enigma Dias Loureiro
Dias Loureiro, no dia em que, finalmente, lhe explicaram o que andou a fazer
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Sou daqueles que acredita piamente em Dias Loureiro. Por isso lhe quero manifestar pública solidariedade, coisa que não vejo a direita ranhosa fazer. A direita ranhosa utiliza invariavelmente o mesmo estratagema para lidar com as abundantes cagadas que produz: finge que a merda não existe. É a sua pulsão kitsch, tal como o definiu Kundera (ah, pois). Isso deixa o 2º arguido no caso BPN/SLN sem amigos, o que me parece homérica injustiça. É que ele já entrou na História como uma das mais extraordinárias figuras da política nacional. Como é que alguém cujos limites cognitivos estão à vista de todos, que admite candidamente passarem-lhe ao lado aspectos técnicos, legais e morais da sua actividade profissional, que exibe uma amnésia num grau já muito avançado, e que provavelmente sofre de Desordem por Défice de Atenção com Hiperactividade, chegou a dirigente do PSD, ministro de Cavaco, elemento do núcleo duro do PSD durante anos e anos, empresário de súbito e estranho sucesso e conselheiro de Estado?
Há um enigma a rodear este ser de excepção. Como seria bom, magnífico, haver alguém capaz de falar verdade a seu respeito, contar os segredos de tão extraordinárias façanhas para nossa ilustração e encantamento. Alguém que colocasse a ética e a transparência nos negócios num plano superior e normativo. Alguém que tivesse assumido a missão de falar verdade aos portugueses, por exemplo. E é possível, apesar da elevada improbabilidade, que uma entidade assim exista à nossa volta, no mundo dos vivos, e não apenas na doce imaginação. É procurar.
Balada para um retrato
Podiam ser vinte e sete
Menos dez anos de idade
Ou mesmo os dezassete
Que era também verdade
No recanto dum retrato
Preto e branco por opção
Nasce o secreto contrato
Entre a voz e a emoção
Preto e branco iluminado
Terra trazida num rosto
A espuma está neste lado
E o rio segue em oposto
Caminho para o Douro
Vales, pedras e vinhas
Há no mapa do tesouro
O rosto em duas linhas
No desenho da viagem
Teu rosto é cartografia
Veio nele a paisagem
Que nunca se repetia
No ano, quatro estações
Os dias certos das feiras
Entre o frio dos nevões
E o calor das lareiras
Verdadinha – Veio um abalozinho
MFL – […] E tanto é a partir da receita que agora estamos numa fase em que a receita, por motivos da crise económica, baixa naturalmente, as contas públicas estão pior do que quando o engenheiro Sócrates tomou conta do País. E, portanto, isso significa que, efectivamente, não estavam consolidadas. ‘Tavam com passos positivos, mas não estavam consolidadas, porque a consolidação significa alguma coisa que mesmo que venha um abalo de terra aquilo não se desmorona. Veio um abalozinho de terra e desmoronou-se. Portanto, não estava consolidada.
AL – Esta crise, no que diz respeito a Portugal, na sua opinião, não é um abalo de terra, é um abalozinho?…
MFL – Aaahhh… É um abalo de terra, mas é um abalozinho relativamente aquilo que poderia ter sido caso não estivessem as contas feitas… construídas doutra forma…
A Manela quer chefiar o próximo Governo. Quer governar o País com as já tão conhecidas, analisadas, reflectidas, discutidas e aclamadas soluções para nos enriquecer a todos em 4 anos ou menos, a que se juntam vasta inteligência e espantosa força de vontade. Mas, acima de tudo, quer levar-nos para o futuro com a sua incomparável honestidade. Por isso, abriu a alma e confessou ver nesta crise um abalozinho, um safanãozeco, uma chuvinha molha-parvos. Entretanto, na dimensão a que se convencionou chamar realidade, não se encontra uma única pessoa, em seis mil milhões e meio, que se permita pensar o mesmo, quanto mais ter coragem para o verbalizar. Não sei se Portugal está preparado para tanta honestidade.
A Manela não mente. Verdade verdadinha.
Lembretes
– A direita portuguesa tem tido pesadas baixas. Enquanto Soares e Cunhal esgotaram o prazo de validade, tendo deixado património político que continua hoje a ser valioso para as respectivas casas, e até apareceu um Louçã a federar extremismos e conquistar centro corporativo, na direita há uma sucessão de tragédias: Sá Carneiro, Adelino Amaro da Costa e Lucas Pires morrem no auge das suas capacidades, com ainda muito para dar aos seus partidos e a Portugal; Cavaco abandonou o PSD à desorientação que só tem conhecido agravamento; Manuel Monteiro e Portas não passaram de canastrões, ocos; Freitas do Amaral criou escândalo ao ousar ser livre, ao ousar ser igual a si próprio. Recentemente, foi a vez de cair um dos mais poderosos bastiões do tecido simbólico da direita, o castelo de Jardim Gonçalves. O BCP foi sempre algo que transcendia o dinheiro e o status, era também uma expressão do catolicismo calvinista, onde o lucro mais opulento premiaria o puritanismo mais doentio. Daí se ter promovido a associação ao Opus Dei, servindo a propalada imagem de administradores e gestores de topo em rituais de mortificação e sevícias corporais, ou em subterrâneos combates com a Maçonaria, como marketing viral para consumo jornalístico e popular. A Igreja parecia caucionar a luxúria do capital, o cosmos estava bem ordenado. Então, quando o pater familias das fortunas nacionais foi apanhado com as calças na mão, depois de uma desastrada sucessão para Teixeira Pinto que ninguém poderia antecipar vir a correr tão mal, a direita levou um soco na boca do estômago e foi ao tapete. O silêncio que ainda hoje rodeia a exposição da vulgaridade concupiscente das figuras cúmplices de Jardim Gonçalves é a manifestação de um verdadeiro tabu na sociedade portuguesa. Todo o respeitinho é pouco quando se fala deste caso, até na esquerda mais desvairada.

