Lembretes

– A direita portuguesa tem tido pesadas baixas. Enquanto Soares e Cunhal esgotaram o prazo de validade, tendo deixado património político que continua hoje a ser valioso para as respectivas casas, e até apareceu um Louçã a federar extremismos e conquistar centro corporativo, na direita há uma sucessão de tragédias: Sá Carneiro, Adelino Amaro da Costa e Lucas Pires morrem no auge das suas capacidades, com ainda muito para dar aos seus partidos e a Portugal; Cavaco abandonou o PSD à desorientação que só tem conhecido agravamento; Manuel Monteiro e Portas não passaram de canastrões, ocos; Freitas do Amaral criou escândalo ao ousar ser livre, ao ousar ser igual a si próprio. Recentemente, foi a vez de cair um dos mais poderosos bastiões do tecido simbólico da direita, o castelo de Jardim Gonçalves. O BCP foi sempre algo que transcendia o dinheiro e o status, era também uma expressão do catolicismo calvinista, onde o lucro mais opulento premiaria o puritanismo mais doentio. Daí se ter promovido a associação ao Opus Dei, servindo a propalada imagem de administradores e gestores de topo em rituais de mortificação e sevícias corporais, ou em subterrâneos combates com a Maçonaria, como marketing viral para consumo jornalístico e popular. A Igreja parecia caucionar a luxúria do capital, o cosmos estava bem ordenado. Então, quando o pater familias das fortunas nacionais foi apanhado com as calças na mão, depois de uma desastrada sucessão para Teixeira Pinto que ninguém poderia antecipar vir a correr tão mal, a direita levou um soco na boca do estômago e foi ao tapete. O silêncio que ainda hoje rodeia a exposição da vulgaridade concupiscente das figuras cúmplices de Jardim Gonçalves é a manifestação de um verdadeiro tabu na sociedade portuguesa. Todo o respeitinho é pouco quando se fala deste caso, até na esquerda mais desvairada.


– Sócrates errou duas vezes, e errou gravemente, na polémica da PT-TVI: quando disse que não sabia; e quando ficou calado depois de terem dito que sabia. Não me lembro de pior momento em toda a Legislatura, com a agravante de as perdas corresponderem a ganhos de Ferreira Leite e de Cavaco. Equivale a ir assinar por baixo a campanha do PSD. Mas Sócrates é o político português mais acossado e perseguido nos últimos 866 anos, alvo de uma maciça campanha de destruição de carácter, sujeito ao desgaste e contaminação da investigação do caso Freeport, à frente do Governo no meio de uma crise económica colossal, e vindo de uma dolorosa derrota eleitoral. Quer-se dizer, se ele não errasse alguma vez, aí é que algo de muito estranho se estaria a passar.

– A entrevista da Manela na SIC, se mais provas fossem precisas, revela o actual paradoxo social-democrata: nem se podem ver livres dela, nem podem contar com ela. E os eleitores é que se phodem.

– Louçã sonha ser primeiro-ministro. Liderar toda a esquerda. Esmagar PCP e PS. Acredito. Aliás, acredito que ele não pense noutra coisa.

– A estouvada actividade política do Presidente da República confirma, e ultrapassa, o que já estava patente no discurso de Ano Novo. Isso revela-nos aspectos do perfil de Cavaco Silva que remetem para a sua subida ao poder dentro do PSD, e para a obtenção das vitórias eleitorais nos anos 80 e 90. Os seus Governos, e os efeitos que eles tiveram na sociedade, foram o que foram não apesar de Cavaco, mas por causa de Cavaco. De facto, não estamos perante um menino de coro. Este homem é um habilidoso, com enraizada ambição pacóvia que lhe disfarça o intento politicamente mais reles. Não há qualquer grandeza moral ou histórica em Cavaco, apenas a chã cobiça dos privilegiados.

– 2009 já só tem 6 meses para dar cabo desta merda toda.

10 thoughts on “Lembretes”

  1. D. Sancho II, D. Afonso VI, D. Carlos (só para citar os mais gritantes) receberam carinhos de mãe comparados com Sócrates. São fascinantes as suas hipérboles!

  2. Você é uma pessoa magnânima com a direita. Que as tragédias aconteceram, é um dado histórico; mas não posso, nem quero, nem devo acompanhá-lo na ideia de que as ditas figuras tivessem muito que dar ao país. Essa gente não dá nada ao país. O país é apenas o sítio onde ganham as suas vidinhas.
    Essas figuras, que a direita glorifica, deixaram algum pensamento para perdurar? Reflectiram, por exemplo, como fez Cunhal, acerca da crise dinàstica de 1383-1385?
    Ou deixaram alguma reflexão acerca de figuras maiores da nossa cultura, como fez Mário Soares? Criaram alguma fundação com documentos com valor incalculável para o país?
    Tanta magnanimidade é um manifesto exagero.

  3. Não havia necessidade desse «lembrete» de que o Pinto de Sousa «disse que não sabia», porque se há algo que não precisa de ser lembrado é que o homem é um mentiroso: ele também disse que não tinha prometido recuperar os 150000 empregos perdidos na legislatura anterior e que fizeram subir a taxa de desemprego, mas sim criar 150000 sem recuperar nada, podendo por isso a taxa de desemprego aumentar à vontade; ele também disse que nunca prometeu referendar o Tratado de Lisboa, mas sim a Constituição Europeia; ele também disse que não tinha prometido repor as leis laborais anteriores ao código liberalizante do Bagão, mas sim que iria mudar algumas coisas no código do Bagão.
    Portanto, o que se está à espera é que nos próximos tempos o Pinto de Sousa nos diga que não disse que não sabia, mas sim que disse que não conhecia directamente nem publicamente o assunto. Por isso esse lembrete é desnecessário, porque quem sabe que o Pinto de Sousa é um mentiroso sabe-o há muito e não precisa que o lembrem; quem não o sabe também nunca o saberá, pois a cegueira profunda e a doença de alzheimer que os atinge impede-os de conseguir reconhecer isso.

  4. 866, ganhaste. De facto, Sócrates não pode competir com a realeza e seus infortúnios.
    __

    M da Mata, essa gente tem gente que considera ter recebido algo, ou muito, dessa gente. Portugal não está dividido em dois grupos, sendo que só um deles tem razão. A razão, o sentido histórico e o valor de pessoas e ideias está espalhado por todos os grupos, é mutíplice.

    Já agora, a importância de Cunhal e Soares não está nos seus considerando seja sobre quem for, antes por terem sido chefes políticos carismáticos e decisivos para a fim do Estado Novo e o começo da democracia.
    __

    ds, excelente comentário. E originalíssimo. Profundíssimo. Brilhantíssmo. Parabéns.

  5. Não sejas mentiroso, Valupi! O meu comentário nem é original, nem profundo, nem brilhante. Parece que te escapou o essencial: é apenas a verdade! A verdade banal que muitos conhecem; a verdade que está à vista e não escondida; a verdade negra e miserável! É o vinho que te põe a ver as coisas todas ao contrário?

  6. “Não sejas mentiroso, Valupi! … É o vinho que te põe a ver as coisas todas ao contrário?”
    note que com alguma frequência associam o vinho ao Valupi! Se é apreciador do vinho da uva, gabo-lhe o gosto, é cá dos meus!!

  7. ds, ok.
    __

    Chessplayer, sou apreciador do bom vinho. Mas quando vejo concidadãos possuídos pelo mau vinho, digo-lhes para o largarem. É daí que vêm, dos originais como o ds, esses ecos que referiste.

  8. Chessplayer, vou dar-te uma resposta original (diferente da do Valupi, entenda-se) à tua questão, ou melhor, vou explicar-te o porquê do teu equívoco. Sendo tu alguém que só recentemente apareceu neste blogue é natural que achasses estranha essa referência ao vinho e que concluísses que o Valupi era um «bom» apreciador de vinho (como ele te diz que é). Mas não é disso que se trata: o Valupi é que tinha (e sublinho o «tinha») o costume de ver bêbados em todos aqueles que o «chateiam», e vai daí exigia-lhes que largassem o vinho. O problema é que os «bêbados» descobriram o porquê dessa ordem: é que o gajo queria fugir e ficar com a garrafa e com a bebida só para ele! Como este seu truque foi descoberto, ele passou a tratar os «bêbados» como iguais, e por isso em vez de dizer «larga o vinho» agora já só diz «OK» ou «está bem». Deixou de haver um tratamento desigual, percebes?

  9. Essa dos 866 anos é gira.
    Coitado do homem, tantos séculos de perseguições e nada que se lhe compare. Será porque a sua política também já tem teias de aranha?
    Repare-se que distribuir rendas e prebendas pelos ricos e poderosos e esmolas pelos pobres, com altivez e distanciamento majestático, é coisa muito antiga embora de pouco merecimento.
    E a vida é assim!
    Ainda bem que os grandes homens, principalmente os injustamente vilipendiados, encontram sempre algum plumitivo desinteressado que assume a sua defesa.
    A História não se esquecerá d’uns e d’outros!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.